Notas iniciais
POV Lucas, para ninguém ficar perdido, mas acho que é óbvio.

Os nós dos meus dedos já estavam ficando roxos de tanto segurar no batente da janela. O banquinho onde eu apoiava meu pés era pequeno demais, então eu tinha que ficar na ponta do pé e agarrar a janela para ter uma visão concreta daquela cena dos deuses.

Elizabeth estava tomando banho. Eu estava espiando. Bom, pode-se dizer que aquele foi um dos melhores dias da minha vida. Ela tinha curvas invejáveis e acentuadas como nenhuma outra garota no chalé de Atena tinha. Bom, em sua maioria, as filhas de Atena eram palitos, porque, segundo elas “Atena valoriza a mente, não o corpo”. Mas os dois tinham sido valorizados em Beth. Eu amava aquele menina, e amava ainda mais o corpo dela. Eu estava tão deslumbrado com suas feições que a dor não me incomodava.

Mas, por um segundo, meu corpo protestou involuntariamente, e o banquinho escorregou. Por reflexo, eu segurei mais forte na janela, e meu punho acabou batendo no vidro, chamando a atenção de Elizabeth. Ela cobriu o corpo com as mãos e ficou com raiva, o que só a deixava mais sexy.

A janela era presa à parede, então o som não saía, mas eu pude ler os lábios dela. “Saia aqui, agora! Quando eu meter minhas mãos em você…”. Ela vestiu a roupa com pressa e saiu com passos duros. Eu sabia que viria atrás de mim.

Me deixei cair na grama fofa e esperei por ela lá. Quando ela chegou, me estapeou sem parar.

— Seu idiota! Quantas vezes eu já disse para não fazer isso?

— Qual é — eu respondi, em meio às tapas que enchiam minha cara. — Já namoramos há seis meses. Aliás, seis meses hoje! Eu tenho direito!

— Não tem nada! Você tem direito quando eu disser que tem. — ela parou, suspirou e se sentou ao meu lado. — Eu não estou pronta, Lucas. Ainda não.

— Bléh. Eu entendo.

Eu entendia mesmo. Afinal, só tínhamos 16 anos na época, mas eu era completamente louco por aquele corpo. Eu não percebi que estava olhando para as coxas dela até ela me dar outro tapa.

— Eu sei o quanto você me deseja. Eu também te desejo. Isso só é… coisa nova para mim.

Fechei a cara para ela.

— Você acha que para mim não é?

— Não é isso, é que… — ela bufou. — Ah, garotos!

Eu ri. Depois, pus a mão no queixo dela, e a fiz olhar para mim.

— Eu não me importo com isso.

Ela fez uma cara de deboche.

— Sério, não me importo. Eu quero, mas não é como se eu fosse morrer se não rolar. Quando você estiver pronta, vai acontecer. Fim.

Elizabeth olhou para os lados, para ver se tinha alguém olhando. Quando concluiu que não havia ninguém, passou uma perna pelo meu corpo, sentando-se no meu colo, de frente para mim. Eu fiquei louco de imediato. Meu organismo começou a produzir todas as substâncias do mundo de uma vez só, e eu me arrepiei em partes que eu nem sabia que eram ativas. Ela aproximou sua boca da minha, e eu senti seu hálito de morangos e seu cheiro de banho recém-tomado.

Aquela boca era tudo que importava agora. Tudo podia explodir ao meu redor, e eu não daria a mínima. Naquele momento, éramos só eu e ela.

Não aguentei mais. Pus uma mão no pescoço dela, a outra nas costas, e a beijei. Se eu fosse um ciborgue, meus circuitos entrariam em pane, minha fiação superaqueceria e minhas partes metálicas derreteriam. Mas, como eu era humano, eu só fiquei com mais vontade de beijá-la.

Depois do beijo, nós ficamos lá, abraçados naquela mesma posição.

— Eu amo você — sussurrei no ouvido dela.

Ela me beijou de novo, por um período mais curto. Depois, olhou para mim. Elizabeth estava prestes a responder quando algo a puxou e a deixou pendurada no ar. Ela gritou, chamando a atenção de vários campistas que vieram correndo e se aterrorizaram com a cena.

Era outro ciclope. Naquela época, a única proteção do Acampamento eram as patrulhas de Ares e Hefesto. E, como não se podia proteger todo o perímetro, algumas áreas ficavam abertas. De lá entravam monstros. A árvore de Thalia só se formou anos depois.

Tudo aconteceu muito rápido. O ciclope estava com Elizabeth nas mãos. Um segundo depois, ele pegou a cabeça dela e torceu. Beth caiu no chão, inerte, morta. Eu gritei, mas eu não conseguia escutar a minha própria voz. Todos os sons eram estática. Toda as partes do meu cérebro tinham se virado para Elizabeth. Caída. Com a cabeça virada em um ângulo estranho e os olhos abertos e vidrados. Morta.

Eu fui até ela e sacudi seu corpo, mas não obtive resposta. Eu implorei, rezei a todos os deuses para ela se mexer, levantar-se novamente, mas não aconteceu. Ela se fora.

Mas, em meio à tanta tristeza, um último ato dela enchia meu peito com uma alegria dolorosa. Antes de ter o pescoço torcido, Elizabeth sorriu. Seus lábios se mexeram, formando a frase que me assombraria até o presente.

“Eu também te amo”.

Ψ

— Lucas? — a voz de Dylan se tornava mais nítida à medida que eu saía do sono.

Por instinto, peguei uma adaga que eu sempre guardava na manga e apontei para ele, que se retraiu e deu um passo para trás.

— Ei, calma aí.

Esfreguei os olhos e me sentei no banco do vagão. Percebi que o trem tinha parado. Logo, tínhamos chegado.

— Desculpe, é instinto.

— Você estava fazendo sons estranho, tipo choramingos. Com o que você estava sonhando? — Hellen perguntou.

— Peitos — respondi, sem dar muita atenção.

— E peitos te fazem chorar?

— Sim, eu estava chorando de prazer. Eram muito grandes, sabe?

Hellen fez uma cara de nojo e saiu do trem.

— Venha, já estamos em Columbus.

— Columbus? Que nome horrível. Bem que essa cidade poderia se chamar Anne. — disse a própria, saindo logo depois para sentir o sol no rosto.

— Vem cá, eu te ajudo. — Dylan ofereceu uma mão, mas eu neguei e me levantei sozinho.

Ao sair, o sol queimou meu rosto, que estava a horas acostumado com a sombra do vagão. Contraí minhas pálpebras até elas se adaptarem.

— Dylan?

— Sim?

— Você teme esse lugar.

Esse levantou uma sobrancelha.

— É? — ele indagou, sem olhar para mim.

— É.

— O que te faz pensar isso?

— Você está tremendo desde que passamos da placa de Columbus.

— O quê? Você estava dormindo!

— Eu não dormi o caminho todo, sabe.

Ele deu de ombros, aceitando a derrota. Depois de um tempo, eu retomei o assunto.

— Por quê?

— Você vai descobrir.

É, eu até poderia descobrir.

Mas eu já sabia o que tinha acontecido ali.

Ψ

Notas finais
O quê? Como assim isso aconteceu antes de Thalia se transformar em árvore? Mas a fanfic não se passa em 2017? Então como Lucas tem 18 anos ainda? Entenderam? É, eu também não. O jeito é esperar.