Caí no chão, exausto. Tínhamos sido atacados por uns trinta monstros de todos os tipos — alguns que eu até nem sabia que existiam — no caminho do Acampamento até o Empire State. Mal acreditamos quando ficamos de frente com o grande portão dourado. Se já era assim normalmente, imagine quando eu abrisse a tal caixa. Mas, se fosse realmente verdade, todo esse esforço e muito mais valeria cada corte.

Fomos direto ao elevador, sem consultar um atendente, porque, obviamente, humanos normais não têm conhecimento do 600° andar. Procuramos em todo lugar, até que achamos uma pequena forma de triângulo no canto, perto do piso. Era a letra grega delta, e para nós, era o símbolo de Dédalo. Ao contato com um semideus, ele revelava uma passagem secreta ou qualquer coisa desse tipo. Afinal, apesar de Percy ter conseguido fazer a proeza de derrubá-lo, o labirinto não se estendia somente no subterrâneo.

Hellen encostou o dedo indicador no triângulo, e outro botão apareceu no painel, um “600” dourado brilhante escrito em números angulares, números gregos. Eu apertei o botão e o elevador começou a subir mais rápido do que o normal. Quando as portas se abriram novamente, lá estava. O Olimpo. Chegar lá me deu uma sensação estranha, como se lá fosse a minha casa, embora seja a primeira vez que eu estive ali.

Era como se algum rei dos gigantes tivesse arrancado o Monte Olimpo da terra e pendurado com duas correntes no céu. Estávamos dentro de um campo de força em forma de cubo, que, pelo que eu tinha aprendido, impedia humanos de entrarem no Olimpo. À nossa frente, havia uma ponte, forte e segura, feita de puro bronze celestial. Pisar nela seria como pisar em terra firme.

Quando nos aproximamos, ela mudou. O corrimão e as barras de segurança desapareceram, deixando apenas uma fina corda para segurar na passagem, e agora a ponte era de madeira, e balançava.

— O Olimpo tem vida própria? — perguntei.

— Nunca ouvi falar disso, mas depois de tanto tempo de existência, é bem provável que ele saiba ver as reais intenções de seus visitantes.

— Então por que ele não nos impede ao invés de só dificultar?

— Não acho que ele queira nos impedir. Considerando que ele saiba nossas intenções, ele também sabe os motivos. Acho que ele está tentando dizer que será arriscado.

— Arriscado é meu nome do meio.

Pus um pé na primeira placa de madeira para verificar a estabilidade. Parecia razoavelmente seguro. Sinalizei para Hellen me acompanhar.

Quando nós dois ficamos na ponte, ela começou a balançar mais rápido, dificultando ainda mais a passagem.

— Me dê a mão — Hellen pediu.

— O quê? Por quê?

— A ponte é mais ou menos larga, se você me der a mão e ficarmos um de cada lado, nosso peso vai estabilizá-la.

— Tem razão.

Ela ofereceu a mão, e eu a peguei. Ficamos um de cada lado da ponte, que parou um pouco de balançar.

Depois de algum tempo, nós chegamos até o outro lado. Eu não notei que ainda estava segurando a mão dela até ela soltar.

— Está meio vazio, não é mesmo? — Hellen observou.

— Vai ver os deuses estão dormindo.

— Mas não são só deuses que vivem no Olimpo. Tem espíritos do vento, mensageiros, dríades, náiades…

— Náiades podem andar na terra?

— Em casos de extrema importância, sim. Mas isso geralmente está cheio.

— Vai ver eles não gostam quando semideuses vêm aqui.

— Ou…

Ela não completou a frase.

— Ou o quê?

— Ou você pode estar certo, é.

Olhe desconfiado, mas, como ela não disse mais nada, deixei para lá.

— Como você sabe de tudo isso?

— Acha que eu fico na biblioteca jogando amarelinha?

— E não fica?

Ela ignorou.

O Olimpo em si era gigantesco. Mais à frente, um grande arco de ouro decorado com videiras abria caminho para um pátio que tinha um jardim do tamanho da arena do Acampamento. Lá com certeza tinha mais de 500 tipos de flores, plantas e árvores, organizadas por espécie e família, com uma placa indicando o nome genérico e científico. Atrás do jardim, um grande templo coberto de samambaias e outras plantas que eu não fazia ideia do nome. Certamente era o de Deméter. Ver esse templo me fez pensar em Anne, então nós saímos de lá rápido.

O de Atena era um dos mais bonitos. No teto, uma grande coruja de ouro segurava um livro aberto com uma mão e apontava para os céus coma outra. Todas as paredes do templo tinham escritas que meu cérebro não conseguia traduzir de tão antigas.

— Como vamos achar a caixa? — Hellen perguntou. — Pode estar em qualquer lugar aí dentro.

— Bom, se ficarmos aqui fora não vamos achar mesmo.

Peguei o braço dela e a puxei para dentro do templo, mas, antes de entrar, eu vi uma imagem atrás de Hellen, sentada em um banco do jardim. Eu parei de andar e fiquei olhando para Louise, que me olhava sem expressão no rosto. Eu pisquei e ela desapareceu. Soltei o braço de Hellen.

— Dylan? O que foi?

— Ahn… Nada. Eu só… pensei ter visto algo ali.

Ela não falou mais nada e entrou.

Em todo lugar que eu olhasse havia livros. Milhares, se não milhões de livros, separados por cor e por ordem alfabética. Centenas e centenas de estantes de ouro puro reluziam em todo lugar da parede. O templo era maior por dentro. Os únicos lugares que estavam sem livros eram o teto e o piso. No piso havia centenas de bancadas, pufes e poltronas de leitura. Em cada pilar tinha um painel digital, onde era possível pesquisar e selecionar o livro desejado, que saía por uma abertura no mesmo painel.

— Acho que nossas chances de encontrar a caixa aqui são iguais as de lá fora.

Mas, apesar de ser a maior biblioteca do mundo, estava vazia. Nenhum ser vivo além de mim e Hellen estava lá.

— Será que Atena está aí? — ponderei.

— É bem difícil. E é melhor que ela não esteja.

— Se você fosse Atena, onde guardaria o segredo da vida a da morte?

— Em algum lugar bem óbvio, então ninguém ia pensar que eu coloquei lá, já que minha reputação me precede.

— Tal mãe, tal filha.

— Tem razão. Muito inteligente, Hellen.

A voz tinha classe e um tom de esplendor. A própria Atena estava na nossa frente, com seus trajes gregos e sua pele brilhando. Seus olhos cinzas como as nuvens do inverno pareciam ter um bilhão e de anos e visto toda a evolução da Terra. Atena sabia de tudo. Ela sabia o código genético de cada célula do meu corpo, a coordenada geográfica de cada grão de areia na Terra. Ela não era uma deusa, ela era a deusa. A deusa de todo o…

— Dylan! — Hellen me balançou, interrompendo o transe que me dominava. — Mãe! Não faça isso com ele.

— Ele não deveria estar aqui. Sinto repulsa por filhos de Poseidon.

— Ele está comigo.

Atena ignorou a afirmação de Hellen.

— Fletcher, você não vai querer achar o que está procurando.

— Eu vou.

— Eu não costumo negar conhecimento a alguém, mas esse é absurdo. Eu mesma mal pude aguentá-lo.

— Eu não sou você.

— Claro que não, você é um ser inferior.

— É aí que você se engana.

Hellen chutou minha perna, sinalizando para eu não ir em frente, mas eu ignorei.

— Engano-me? Eu nunca me engano. Eu sei de tudo.

— Você pode até saber a fórmula de Bháskara decorada, mas tem um sentimento que você não entende. Eu tenho amor. Eu sei o que é, eu posso senti-lo.

Hellen pôs a mão no rosto. Atena permaneceu calada. Eu continuei.

— Eu tenho alguém para quem lutar. Alguém importante para mim. E eu não vou desistir, então isso só vai acabar em uma de duas formas: ou com ela ao meu lado, ou comigo em um caixão. Então se você não vai me dar o que eu preciso, terá que me matar.

— Eu já obliterei milhares de inimigos. Não se engane, você pode contar como um.

— Então vá em frente.

Ela avançou, com passos firmes e postura reta como uma régua. Eu fechei os olhos, esperando minha morte instantânea, sabendo que pelo menos eu teria tentado.

Mas, ao invés de me transformar em pó, Atena pegou minha mão e colocou algo nela. Eu abri os olhos, e vi uma caixa do tamanho do meu palmo. Era preta, e tinha o desenho de uma balança na tampa, com as letras V e M cravadas no rodapé, uma de cada lado.

— Só por carregar isso sua aura de semideus cresceu quatro vezes. Mas, assim que você abrir, assim que souber o segredo, cada monstro desse planeta sentirá seu cheiro e irá atrás de você. Por isso ninguém nunca quis. Ninguém deseja ser perseguido pelo resto da vida, e você deseja.

— Acho que sou um pouco maluco. Quando eu devo abrir a caixa?

— Essa não é a questão. A pergunta certa é: até onde você vai por aquela que ama?

— Já me fizeram essa pergunta antes, e eu ainda não mudei de resposta, nem pretendo mudar. Eu vou até a morte.

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