Notas iniciais
E aí, meus povos e minhas povas? Estou de volta, como prometi, e cedo. Não demorou muito, vejam bem. Então, quem está pronto para acompanhar Dylan novamente? Lembrando: se você não leu Aquele Que Veio do Mar, leia, porque você vai entender necas se começar a ler daqui.

Eu estava lá, sentado na lama, olhando para o túmulo de Louise novamente. Chovia, era uma chuva torrencial, que me deixou encharcado em poucos segundos depois que começou, mas a verdade era que eu não ligava. O cemitério não tinha mudado nem um pouco, as mesmas lápides, a mesma sensação horrível de morte iminente. Mas tinha algo estranho dessa vez, era como se um sentimento intruso estivesse tentando penetrar minha tristeza, alguma… presença.

Olhei para os lados, presunçoso, pra ver se tinha alguém me observando. Não importa quantas vezes eu dissesse a mim mesmo que não havia ninguém ali, que já era tarde, e todos os campistas estavam dormindo, a sensação continuava. Então eu vi: uma figura fantasmagórica, branca, transparente, mas com uma forma definida: Louise. Era ela, tinha as mesmas feições, eu tinha certeza que era ela.

Levantei com um salto, e corri de encontro à ela. Tentei abraçá-la, pelo menos tocá-la de alguma maneira, mas meus braços a atravessaram como se fosse só o vácuo ali. Virei para ela de novo, e ela olhava diretamente para mim, um sorriso no rosto, mas os mesmos olhos negros faiscantes de sempre.

— Louise… — tentei falar, mas minha voz não saía, como se um tampão estivesse na minha garganta.

Ela levantou a mão, aproximando-a aos poucos do meu rosto. Quando tocou meu rosto, senti um calafrio leve arrepiar todo o meu corpo, como se ela fosse gelo puro. Então, de repente, sem nenhuma palavra, ela sumiu. Lá estava eu, sozinho novamente em um cemitério escuro e enlameado. Não aguentei, gritei com toda a força que podia:

— Louise!

E uma voz me veio em resposta.

— Dylan!

Olhei para os lados, confuso. Era a voz de um menino, vagamente familiar. Parecia vir de muito longe. A voz ecoou de novo.

— Dylan!

E minha visão escureceu. Momentos depois, abri os olhos de novo, e não estava mais no cemitério, mas na minha cama no chalé de Poseidon. Foi tudo um sonho. Olhei para cima, os olhos preocupados de Percy Jackson me fitavam. Levantei, me recuperando do sonho que acabara de ter.

— Você estava falando enquanto dormia.

— Mesmo? — falei, tomando um pouco de água. — O que eu falava?

— Um nome… O nome da…

— Louise.

— É — ele coçou o cotovelo, meio sem jeito.

— Ei, cara — bati no ombro dele de leve. — Não tem problema, foi só um sonho. Já faz dois anos. Isso não me afeta do jeito que afetava.

Bem, eu estava mentindo. Ainda me afetava muito bem. Depois do enterro, dois anos atrás, descobri que fiquei sentado no cemitério até as quatro horas da manhã. Durante um mês inteiro comi e dormi tão mal que fiquei com problemas de saúde. Então Colin me fez cair na real: fazer aquilo não a traria de volta. Ah, sim, Colin. Eu tinha que me encontrar com ele daqui a…

— Ei, Percy? — chamei ele, que saía do chalé. Ele parou com meio pé fora do chalé e olhou para mim.

— Hmmm?

— Que horas são?

Ele levantou a manga longa para olhar o relógio.

— Nove e meia.

Dei um aceno, agradecendo. Ele retribuiu e saiu do chalé. Eu tinha que me encontrar com Colin daqui a meia hora. Tínhamos treino de esgrima. Olhei para baixo. Estava apenas de cueca, com baba na bochecha, gosto de papel velho na boca e cabelos parecendo o Titanic afundando. Não era a melhor das aparências.

— É, parabéns, sobrevivi mais um dia. — falei para mim mesmo, me olhando no espelho, em um tom meio sarcástico. Bem, desde que Louise morreu, eu não fazia mais questão de viver dia por dia.

Sim, como eu disse antes, dois anos se passaram desde a morte dela. Eu estava mais alto, mais magro, mais depressivo. Eu não sabia o que era rir há meses. Ver Colin e Julieta juntos não ajudava muito, apesar de eu apoiar muito eles. Percy e Annabeth só faziam reforçar a ideia. Ela não descolou dele um minuto por dois meses inteiros depois do resgate dele. O mesmo com Colin, que ficou com algum tipo de doença que pegou por uma marca deixada por Cila no pescoço dele. Além disso, não aconteceu muita coisa, ou pelo menos eu não notei muita coisa. A única coisa em que eu me preocupava eram minhas aulas de esgrima. Neles, eu podia liberar toda a raiva, toda a dor que sentia. Só havia eu, duas espadas e um oponente que precisava ser derrotado.

Vesti uma roupa decente e saí do chalé. Os raios do sol matutino me cegaram por um instante, até meus olhos se acostumarem à claridade e minha visão voltar ao normal. Bom, era um dia normal. Cada campista fazendo cada atividade a qual era designado. Bocejei e me espreguicei. Depois, segui para os campos de morango, onde duas figuras conhecidas se enroscavam um no outro como se tivessem nascidos colados.

Peguei alguns morangos e comi enquanto esperava atrás de Colin e Julieta, sem fazer som algum. Quando eles finalmente terminaram, Julieta me viu e sobressaltou-se, surpresa.

— Nossa, Dylan. Você parece um fantasma — ela falou, enquanto abria os braços para um abraço, que rejeitei com um aceno de cabeça.

Ela também tinha crescido. Com seus dezesseis anos, Julieta estava mais alta, quase até maior que Colin, só alguns centímetros a menos. Mais bonita também, bochechas salientes destacadas com um tom de rosa, boca mais carnuda e olhos mais brilhantes. O cabelo dela ondulava com um brilho cor de mel, quase o tom exato dos cabelos de Mirina — bem, não vamos forçar a barra. Ninguém aqui quer que eu comece a chorar falando das pessoas mortas, não é? —; outras partes do seu corpo tinham crescido também, que eu não ousava citar por respeito a Colin, mas que tinham, tinham.

— Está quase na hora do treino — falei para Colin, que tinha as mãos na cintura de Julieta.

Ele também tinha crescido. Agora ele tinha dezessete, e, bom, heterossexualidade à parte, ele estava bonito, muito bonito. Seu porte físico estava maior também, tornando ele o loiro surfista dos sonhos de qualquer adolescente, tirando o fato de que o surfista ali era eu.

— Hã… É, tem razão — ele se virou para Julieta. — Vou indo.

Ela deu um último beijo nele e eles trocaram um “eu te amo” silencioso, provavelmente porque eu estava ali. Logo depois, saímos dos campos de morangos, indo direto à arena. Quando chegamos lá, já estavam todos em formação. Que mal exemplo.

— Ah, olá, Dylan! Estávamos esperando você — Percy Jackson se destacava dentre os outros esgrimistas por um simples motivo: ele era professor. Ele merecia, o cara era o melhor esgrimista do Acampamento.

— É? Desde quando a aula só começa quando eu chego? — falei, enquanto tirava meu velho mp3 do bolso. Caso você tenha esquecido, ele vira uma espada.

— Desde que precisamos de um novo professor. Fui convocado para uma missão.

Parei no meio do ato para olhar para ele. Ele tinha um sorriso no rosto, o que só podia significar uma coisa.

— Quer que eu ensine esgrima?

— Por que não? — abri a boca para falar, mas ele me interrompeu antes de o som sair. — Mas, para a alegria de todos aqui, há outro candidado em nível, o que significa que…

— Dylan e o outro candidato terão de lutar — Colin completou.

Senti o olhar de todos pesar sobre mim. Bom, pelo menos isso iria animar um pouco as coisas, faz tempo que eu não tinha uma luta realmente competitiva. E, dependendo do oponente, poderia ser difícil.

— Tá, mas quem vai lutar comigo?

— Eu.

Olhei para o lado, de onde um campista surgiu do absolutamente nada. Ele sim era como um fantasma. Ao meu ver, não trazia nada a não ser a roupa do corpo: jeans e manga longa com camisa do Acampamento por cima. Tinha cabelos negros retos médios, pele morena, boca saliente e queixo quadrado, como o rosto. Tinha algo estranho no seu jeito de andar, era solto demais, como se ele estivesse flutuando.

— Dylan, Lucas. Lucas, Dylan — Percy nos apresentou.

Olhei bem nos olhos dele, que fez o mesmo. Não era como se seus olhos fossem os mais hipnotizadores, mas ele tinha algo no olhar, um resquício de sorriso. Esse cara tinha algo na manga. Bem, literalmente.

Fomos ao centro da arena, e apertamos as mãos. Todos os outros esgrimistas foram para as arquibancadas, que estavam cada vez mais cheias. As notícias se espalhavam rápido naquele lugar.

— Boa luta — falei.

— Com certeza.

Percy deu o sinal, e a luta começou. Por alguns instantes, fiquem sem fazer nada, esperando que ele investisse para contra-atacar, mas minha estratégia era a mesma dele, e ficamos ali, imóveis, no centro da arena, com dezenas de pessoas nos assistindo. E ele continuava sem arma. Estranho.

Finalmente, cedendo aos uivos da plateia, avancei primeiro. Ele continuou parado, esperando eu chegar perto… mais perto… Até que ele abriu um sorriso, e eu tive mais ou menos um quarto de segundo para fazer o que fiz: levantei a espada exatamente à altura do nervo central do braço esquerdo, aquele que seguro a espada. A pequena adaga que voou da manga de Lucas parou, imóvel, no chão, bem abaixo de mim. Ele pareceu surpreso com meu timing perfeito, o que me deu um instante para atacá-lo. Ele logo se recuperou, e atirou outra adaga da outra manga, dessa vez com mais força e focada na minha espada, o que funcionou: a rota da minha espada mudou, fazendo ela bater inutilmente no chão. Sem perder tempo, ele correu de costas, lançando umas três adagas no caminho, todas paradas por minha espada. Talvez essa luta fosse, de fato, interessante.

Bem, ele tinha a vantagem, podia atirar à distância, mas eu era rápido e esguio, conseguia me livrar bem das adagas. Nesse caso, eu não podia dar o que ele precisava, que era distância. Eu tinha que ficar perto dele, o que era mais ou menos a base da luta corpo-a-corpo. Ele conseguiu decifrar o que eu ia fazer com apenas um olhar, porque tirou outra adaga de uma bainha escondida em sua camisa, mas não a jogou, ficou com ela. Avancei, e começamos um duelo, espada contra adaga. O cara era realmente bom, sabia o ponto certo em que bater para desestabilizar minha espada. Duas ou três vezes durante o combate corpo-a-corpo ele tentou lançar uma adaga, todas interceptadas rapidamente com um movimento rápido da minha espada.

A cada ataque meu, aplausos. A cada defesa dele, mais aplausos. O suor já escorria pelo meu rosto, assim como no dele. Esperar ele ficar cansado? Não, ele parecia resistir bem à fadiga. Continuar atacando ele? Assim eu iria me cansar. Só me restava seguir aquele velho ditado: “Tudo que vai, volta”.

Ele correu de mim. Sim, ele virou para trás e correu. Pensei que ele fosse fugir da luta, mas ele só queria a vantagem de espaço. Fui atrás dele. Pus meu plano em prática. Ele atirou quatro adagas, desviei as três primeiras, e deixei a quarta passar. Me ajoelhei no chão, soltando um grito de dor, acompanhado do “ooooh” da plateia. Sorri. Me levantei e atirei a adaga que estava na minha mão de volta. Ele desviou bem a tempo. Peguei as outras três que estavam no chão e corri na direção dele. A cada três metros, eu atirava uma adaga, até chegar bem na frente dele. Pus toda a minha força na espada, e, quando ele tentou desestabilizar, a adaga dele caiu inútil no chão. Então ele olhou bem para mim, surpreso, mas não derrotado. Ele me deu um chute. Esse chute doeu mais que o esperado. Não aguentei, soltei um grito, e dessa vez era de verdade. O chute dele tinha atingido exatamente meu nervo central da coxa. E não só acertado, mas cortado também. Esse filho da mãe tinha uma adaga mínima entre os dedos do pé. Por que não percebi isso? Aliás, por que não percebi que ele estava sem sapatos? Mas eu tinha meus truques na manga também. Peguei uma adaga do bolso. A primeira adaga que ele jogou. Assim que eu bati com a espada no chão, de propósito, aliás, peguei esse adaga, e a guardei, caso precisasse. Atingi em cheio a coxa dele, exatamente onde ele me cortou. Ele também soltou um grito, e nós dois caímos no chão, imóveis, em choque de dor.

Ψ

Notas finais
Até o próximo.