Notas iniciais
HO HO HO, FELIZ NATAL! Então, já que até a TV Globinho volta no final do ano pra fazer um especial de Natal, eu resolvi fazer um também! Vai, lá, Dylancheiro.

A primeira carta chegou no dia de Natal. Mas, antes, tenho que contar algo para vocês.

A minha perna melhorou, assim como a de Lucas. Ele, então, desafiou Hellen para uma nova luta, e adivinhem só, ele perdeu de novo. Hellen poderia derrubar qualquer um na arena, porque ao invés de usar força bruta, ela tinha uma perfeita sintonia de força e estratégia. E assim foi o resto do ano. Esgrima, chalé, refeitório; o mesmo tédio de sempre, até que chegou a véspera do Natal, e, com ela, a caça à bandeira especial de Natal, onde todos os campistas participavam, isto é, cinquenta pessoas em cada time espalhadas em uma floresta.

Esse ano foi mais fácil dividir os grupos, já que tínhamos dois professores. As regras eram simples, mas diferentes da caça à bandeira original. Não era uma, mas três bandeiras. Em cada lado da floresta, havia uma fogueira em fogo azul e outra em fogo vermelho. O time azul tinha que pegar as três bandeiras vermelhas e queimar em fogo azul, e vice-versa. O primeiro time que queimasse completamente as três bandeiras seria o campeão. O time perdedor lavaria a louça da ceia, e o vencedor não teria trabalho nenhum.

Na noite de Natal, os chalés estavam vazios, estavam todos na entrada da floresta. Quíron tocou seu berrante, e anunciou:

— Bem vindos, campistas, a mais um especial de Natal do Acampamento Meio-Sangue. Todos já estão cientes das regras, então vamos dar um pulinho para a formação das equipes.

Depois de eu e Lucas escolhermos campista a campista quem queríamos para as nossas equipes, Quíron tocou mais uma vez o berrante, e todos entraram na floresta. Nós, o lado azul, ficamos em posição, esperando o lado vermelho se posicionar do outro lado da floresta, e assim dar a largada.

Peguei as três bandeiras e um saco de fitas brancas e pretas. Distribuí as fitas entre os campistas do meu time.

— Quem está com a fita branca se encarregará da proteção da bandeira do lado esquerdo. Hellen, você é a líder do time branco.

Ela assentiu e eu entreguei a bandeira a ela.

— Quem está com a fita preta, fica com o lado direito. Colin é o líder de vocês.

Entreguei a bandeira a ele, que piscou para mim.

— Dylan, você não me deu uma fita. — Gabriel protestou. — Nem ao Edward, e nem ao Anastasius.

— Porque vocês vêm comigo.

Assim que eu falei isso, fogos de artificio explodiram no céu. Era o sinal da largada.

— Lado azul! — Eu anunciei.

Todos deram um grito de guerra.

— Vão!

O time se dividiu em duas partes, uma para cada lado, e só ficamos eu, Edward, Gabriel e Anastasius.

— Tá. O que vamos fazer agora? — Perguntou Edward.

— Agora nós vamos achar o melhor lugar para pôr a bandeira do meio.

Saí correndo, e eles me seguiram.

— Você tem algo em mente? — Perguntou Anastasius.

— Eu venho aqui todo dia. Conheço alguns bons lugares, mas o problema é que Lucas também vem. Ele deve conhecer essa floresta também.

— Mas por que só quatro pessoas para a proteção da bandeira principal?

— Lucas me conhece, ele sabe que eu vou querer proteger a principal, então ele vai focar o ataque nas bandeiras secundárias primeiro, para depois juntar todo o time e vir atrás da principal.

— E qual é a sua estratégia?

— Vamos pôr em um lugar bom, depois vamos procurar as bandeiras deles. Só localizá-las, não capturá-las. É muito arriscado só com quatro pessoas. Assim que localizarmos, vamos juntar a equipe e dividir em duas partes, a de ataque e a de defesa. Acho que você já sabe o que acontece depois.

— Mas e se…

Tampei a boca dele. Fiz um sinal para todos se esconderem.

Lucas passou, andando calmamente e conversando com mais três pessoas que reconheci serem do chalé de Ares. Ele apelou para força bruta.

— Então, onde vamos botar essa bandeira?

— Por que tanta pressa? — Respondeu Lucas. — Primeiro temos que ver o que o Dylan planeja.

— Cara, é só colocar a bandeira em qualquer lugar e ir atrás deles. Nós ganhamos numa luta corpo-a-corpo. Esse jogo é nosso.

— Não é tudo força. Time focou o time dele em estratégia e inteligência. Se formos de cara com eles, podemos perder. Venham, conheço um lugar onde podemos botar isso aí.

Esperei ter certeza que eles estavam longe antes de me levantar.

— E agora?

— Gabriel?

Ele deu um sorriso.

— Pensei que não fosse pedir. Mas como exatamente eu vou saber onde ele colocará a bandeira?

— Acha que venho aqui só pra olhar túmulos?

Tirei do bolso um papel velho, entreguei a ele, que ficou de boca aberta quando viu.

— Mas que diabos… Você quem fez isso?

— Não, certamente foi minha vó.

— Tem a floresta toda aqui.

— Sim. E tem magia antiga nesse papel, mas não é muito. Só mostra onde você está nesse momento.

— Esse ponto vermelho?

— Sim. Quando você ver onde eles colocaram, marque nesse mapa.

— Certo.

Ele saiu em disparada, porém silenciosamente, atrás de Lucas e a turma dele.

— Eu já sei onde colocar a bandeira — eu disse para Edward e Anastasius.

Eles me seguiram até o riacho que corre pela floresta.

— Tá brincando — disse Edward. — Você vai mesmo colocar a bandeira em um lugar tão fácil e óbvio?

— Sim — firmei a bandeira no meio do rio. — Tão fácil, tão óbvio… — levantei as mãos e fechei os olhos. Senti um solavanco forte na barriga. — Porém inalcançável.

Eu fiz uma fonte de água de mais ou menos três metros, com a bandeira no topo. Para pegar essa bandeira, seria necessário inteligência, o que a maioria do time de Lucas não tinha, provavelmente.

— Agora vamos ver como a Hellen está.

Eu já ia andando, mas um sinal do berrante de Quíron me parou.

— A BANDEIRA VERMELHA ESQUERDA FOI QUEIMADA!

— Parece que está tudo bem com o time dela — observou Anastasius.

— Então vamos até o Colin.

Eu dei meia volta e já ia andando, mas outro sinal do berrante me parou de novo.

— A BANDEIRA AZUL DIREITA FOI QUEIMADA!

— É, vamos lá.

Enquanto corríamos, reencontramos Gabriel no caminho.

— Então? — Perguntei.

— Eles posicionaram a bandeira principal bem aqui. É um lugar meio estranho, não?

Ele me mostrou o mapa.

— Filho da mãe.

— O que foi? — Perguntou Anastasius.

— Ele colocou no cemitério.

Um silêncio pairou entre nós. Finalmente chegamos até o grupo de Colin.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Eles armaram uma emboscada. Tentei salvar o máximo que eu podia, mas eles eliminaram a maioria do meu grupo. Bom, pelo menos Hellen conseguiu a bandeira esquerda. Falando nela…

Hellen chegou com o grupo dela, que estava com menos da metade dos campistas.

— O que…

Ela me interrompeu.

— Não se preocupe, só perdemos cinco campistas. O resto está montando guarda para a bandeira. Viemos dar suporte aqui, o mais rápido que pudemos depois de ouvir o sinal.

— Já sabemos a localização da bandeira principal.

— Então o que estamos esperando? Vamos pegar as outras duas bandeiras e acabar logo com isso.

— Colin, selecione alguns para montar guarda. Venha com a gente.

Ele assentiu.

— Dylan — Hellen me chamou. — E a bandeira principal? Quem a está protegendo?

— Não se preocupe, ela está bem protegida.

Ela deu e ombros e sinalizou o grupo dela para avançar.

— Ela é gostosa — observou Edward.

Olhei para ele em desaprovação.

— Também acho — concordou Colin. Julieta deu um soco nele.

Revirei os olhos e fiz sinal para todos avançarem.

— Colin, você tem alguma ideia de onde esteja a bandeira direita deles?

— Bom, o único local plausível para se colocar uma bandeira na posição deles é na Grande Árvore, se eles não forem muito burros para colocar em outro lugar.

— Então vam…

— A BANDEIRA AZUL ESQUERDA FOI QUEIMADA.

— Droga.

— Então, como eu ia dizendo, vam…

— A BANDEIRA VERMELHA DIREITA FOI QUEIMADA.

— Mas que inferno! Será que eu pos… Espere um instante, como isso aconteceu?

Colin deu de ombros, também sem ter a menor ideia do que tinha acontecido.

Burburinhos se espalhavam pelo grupo, até que Mason apareceu de repente na minha frente. Algumas pessoas se sobressaltaram, não acostumadas com as viagens repentinas dele. Mason trouxe consigo um campista que usava camisa vermelha e tinha um olhar confuso, o que significava que ele era nosso inimigo.

— Bom… — ele disse. — Isso não é contra as regras, é?

Eu entendi o que ele tinha feito.

— Pelo menos você aprendeu a hora certa de controlar pessoas. Venham, não vamos perder tempo. A bandeira principal está no cemitério. Time azul, avançar!

Para chegar ao cemitério, tínhamos que passar pelo riacho, o que não foi uma boa experiência. Lá estava todo o time vermelho restante, um por um tentando subir a minha fonte de água para pegar a última bandeira. Lucas nos viu.

— Inteligente, Dylan

— Obrigado — respondi. — Veja se força bruta ajuda nisso.

— Vamos ver quantos restam de cada. — Ele fez um sinal para a equipe dele avançar, e os brutamontes vieram com tudo atrás de nós.

— Segurem firme o quanto puderem! — Gritei. — Eu vou atrás da bandeira deles.

— Mas você não faz a mínima ideia de onde está! — Retrucou Lucas.

— Isso não me impede de nada.

Eu saí correndo em direção ao cemitério, e Lucas veio atrás de mim. Eu cheguei lá, e vi a bandeira vermelha principal. Estava fixada em uma cova improvisada com os dizeres “TIME AZUL X_X”. Lucas não podia me impedir, ele ainda estava muito longe. Quando tirei a bandeira do chão, tive um susto tão grande que caí no chão, e fiquei lá. Uma figura encapuzada se mostrou no ar, como um holograma. Eu não podia ver nada além do capuz. Ele falou com uma voz firme e alterada, como se fosse computada.

— Está na hora, Dylan Fletcher.

Eu não me mexi, estava em choque. Depois, ele soltou um grito que deve ter ecoado por todo o Acampamento, quase estourando meus tímpanos, e todas as árvores ao redor pegaram fogo. Lucas estava lá, paralisado, tão perplexo quanto eu.

— O que… foi… isso? — ele gaguejou.

— Eu não sei, mas foi muito estranho.

— Cara, tá na hora de quê?

— Como se eu soubesse.

— A BANDEIRA PRINCIPAL AZUL FOI QUEIMADA. TIME VERMELHO É O CAMPEÃO DO CAÇA À BANDEIRA DE NATAL. E, A PROPÓSITO, FELIZ NATAL, CRIANÇAS!

— É, Dylan, parece que vai ter que lavar a louça de metade do Acampamento.

Após outro sinal longo do berrante de Quíron, que sinalizava que todos deveriam sair, fogos explodiram no céu e uma música natalina começou a tocar. De repente, todas as árvores da floresta ganharam pisca-piscas. Apaguei o fogo, e fui com Lucas até o refeitório, onde teríamos nossa ceia.

Ψ

Depois da ceia, fomos lavar a louça. Cheguei no meu chalé exausto, ainda sem a companhia de Percy. Mas tinha algo diferente, tinha algo em cima da minha cama. Era uma carta, sem remetente, apenas destinatário.

Dylan Fletcher, chalé 3, Acampamento Meio-Sangue

Você ainda pode salvá-las.

Ψ