— O que você perdeu lá, cara? — Louise perguntou, com raiva. — Isso tira tempo da gente, sabe? Só temos dois dias e meio! E vamos gastar esse meio dia dormindo! Você já pensou nisso? E se não salvarmos Percy, e se… e se ele morrer? A culpa vai ser nossa!

— Uma foto da minha mãe. A única que eu tenho, na verdade.

— Ah… — ela parou de falar, nervosa, tudo de uma vez. — Hum… Desculpe, eu não sabia. Mas, mesmo assim, tirou nosso tempo.

— Eu sei, mas essa pode ser a última vez que eu venho aqui, então eu decidi pegar isso logo — balancei a foto pra ela.

— Ei, Dylan, deixa eu ver isso aqui! — disse Julieta, animada.

— O quê? Não!

— Vai, cara, o que é que tem? É só uma foto.

— Hum, ok… — entreguei a foto pra ela.

Ela sorriu.

— Cara, sua mãe era linda.

Colin chegou de esguelha atrás de Julieta para ver a foto também.

— Era mesmo — ele falou.

— Bem… — tirei algumas notas de dez dólares que eu achei no bolso da calça que estava na caixa. — Alguém tá com fome?

_

— Vai logo, Dylan, a Sra. O’Leary tá morrendo de sono — falou Louise, grossa.

— Calma, já tô terminando — e dei a última mordida no meu cheeseburguer. Tínhamos ido comer na lanchonete da esquina, onde eu havia comido uma semana atrás. — Satisfeita?

— Não. Temos que achar um lugar pra ela dormir — Louise apontou pra Sra. O’Leary, que devorara seu hambúrguer. Ela estava na calçada, e quem passava por ela apenas desviava sem notar nada estranho. Será que ela era um poste na visão mortal? Coitada.

— Talvez outro depósito abandonado — Colin deu de ombros.

— Eu sei onde tem um lugar que ninguém geralmente vai…

— Ah, não, você quer voltar pra lá? Sério? —Louise revirou os olhos.

— Quero sim, relembrar os velhos tempos.

— Relembrar os velhos tempos de uma semana atrás, né?

— De onde vocês tão falando? — perguntou Julieta.

— Do lugar onde os restos da minha lança jazerão para sempre, ou pelo menos até se decomporem.

— O que tem? É legal lá, eu gosto dos peixes.

— E olha que você é filha de Apolo, hein — falei.

— Eu estou definitivamente boiando — disse Colin.

— Ah, é o aquário onde eu salvei o Dylan.

— Ei, Louise! Eu estava com tudo sobre controle.

Ela revirou os olhos de novo.

— Certamente ter tudo sobre controle é poder ser morto a qualquer momento com um soco de um ciclope duas vezes maior que você, e ainda com um braço quebrado, não é?

— Você ajudou um pouco…

— Garotos… — ela falou, e saiu andando, com a cadela ao lado.

— Garotas… sempre querem levar o crédito por tudo…

Ela virou de volta pra mim, com o punho levantado.

— Olhe aqui…

— Calma, Louise, relaxa… — Colin se pôs na frente dela.

— Não me manda ter calma! — ela gritou, e as pessoas que passavam olharam para ela.

— Fale mais baixo — disse Julieta, fazendo o sinal com o dedo encostado à boca.

— Eu falo o quão alto eu quiser. — e saiu andando de novo.

Colin esperou ter certeza que Louise não veria e fez sinal de “louca” com a mão. Eu ri em silêncio.

— Bem, temos que ir, eu acho.

— Uhum — Julieta assentiu e pagou à garçonete. Ela não parecia lembrar de mim, e se lembra, não deu sinais disso — Vocês estão com tudo aí? Então vamos. Ei, Louise! Espere aí.

E correu de encontro à amiga.

— É melhor a gente ir também — Colin falou.

— Ah, claro, sim… — e comecei a andar com ele do meu lado. — Sabe, Colin, não sei muito sobre você. Aliás, a única que sabe alguma coisa a mais sobre você aqui é a Louise, e acho que não ia ser legal pergunta pra ela, então… seu pai… O que aconteceu com ele?

— Pra falar a verdade, eu não sei, e eu também não ligo.

— Nossa… ele foi um pai tão ruim assim?

— É o que eu acho, pelo menos. Ele me prendia no porão.

— Sem mais nem menos?

— Sim. Ele odiava o fato de minha mãe ter deixado um filho à porta dele, sem ele nem mesmo ter, você sabe… dormido com ela. Então ele não me considerava um filho, apenas um peso morto que ele tinha que criar e alimentar. Graças à Atena eu sempre fui muito independente, porque se dependesse dele…

— Cara, eu sinto muito.

— Não precisa, eu já superei isso.

— Parece que todos aqui perderam os pais, de um jeito ou de outro…

— E parece que todos aqui já superaram isso, não é? — ele levantou uma sobrancelha.

— Hum… mais ou menos.

— Mas já faz cinco anos.

— Mas ainda dói.

— Mas…

— Você não sabe como é, não pode falar nada.

Ele levantou as mãos.

— Parabéns, você acaba de calar um filho de Atena.

— Palmas pra mim! Eu sou incrível, eu sei, amo meus fãs — e fiz sinais de beijos para o ar.

— Cara, você é mesmo retardado — ele riu, e eu ri também.

— Já te disseram que os retardados são mais felizes, não é? Você é sério aí, deve ter uma vida chata.

— Ah, claro que não! Eu comi alpiste por duas semanas seguidas, minha vida é super legal, cara, dá pra fazer uma fanfic.

E nós dois tivemos uma crise de riso.

— Olhe, tá vendo aquilo ali? — apontei para um poste caído na calçada. — Foi o ciclope que me perseguiu que fez isso! Ainda não consertaram? Que tipo de cidade é essa?

— Vai ver os mortais também não vêem…

— Eles são cegos por acaso?

— Para o nosso mundo, sim.

— Mas é um poste de luz.

— Eles podem ver apenas como uma rachadura na calçada, e não dão importância. Afinal, foi feito por um monstro.

Abanei a mão pra ele.

— Para de ser tão nerd.

— É a minha natureza, cara, eu sou filho da deusa da sabedoria, o que eu posso fazer? — ele deu de ombros. — Ei, não é o seu zoológico? — ele apontou.

— Ah, é sim, que saudades.

E todos nós entramos. Fomos discretamente até o aquário abandonado — o que deduzi pelo fato de ter tábuas e cadeados na porta, que deram muito trabalho pra tirar discretamente, porque se dependesse de Louise ela chegava derrubando tudo.

— Será que cachorros comem comida de peixe? — Julieta falou.

— Bem, quando voltarmos aqui vamos descobrir — Colin disse.

— E o que vamos fazer agora? — Louise perguntou.

— Que tal um passeio turístico?

— Você tá brincando, né? — Louise revirou os olhos.

— Olhe, se quiser ficar, fique, mas eu vou dar uma olhada nos macacos.

— Tá com saudade dos seus primos, é? — ela perguntou.

Julieta soltou uma gargalhada.

— E você devia ver seus irmãos pandas, aqueles gordos — Julieta disse.

— Olha quem fala, tigresa.

— Rawr — Julieta fez garras com as mãos.

— Ei, abram espaço pras corujas — Colin fez asas com os braços, e começou a piar.

— Olha, tá aprendendo comigo — eu ri.

Todos rimos, menos Louise, que ficou emburrada.

Ela é impossível.