Aquele Que Veio do Mar
26 Zoológico
— O que você perdeu lá, cara? — Louise perguntou, com raiva. — Isso tira tempo da gente, sabe? Só temos dois dias e meio! E vamos gastar esse meio dia dormindo! Você já pensou nisso? E se não salvarmos Percy, e se… e se ele morrer? A culpa vai ser nossa!
— Uma foto da minha mãe. A única que eu tenho, na verdade.
— Ah… — ela parou de falar, nervosa, tudo de uma vez. — Hum… Desculpe, eu não sabia. Mas, mesmo assim, tirou nosso tempo.
— Eu sei, mas essa pode ser a última vez que eu venho aqui, então eu decidi pegar isso logo — balancei a foto pra ela.
— Ei, Dylan, deixa eu ver isso aqui! — disse Julieta, animada.
— O quê? Não!
— Vai, cara, o que é que tem? É só uma foto.
— Hum, ok… — entreguei a foto pra ela.
Ela sorriu.
— Cara, sua mãe era linda.
Colin chegou de esguelha atrás de Julieta para ver a foto também.
— Era mesmo — ele falou.
— Bem… — tirei algumas notas de dez dólares que eu achei no bolso da calça que estava na caixa. — Alguém tá com fome?
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— Vai logo, Dylan, a Sra. O’Leary tá morrendo de sono — falou Louise, grossa.
— Calma, já tô terminando — e dei a última mordida no meu cheeseburguer. Tínhamos ido comer na lanchonete da esquina, onde eu havia comido uma semana atrás. — Satisfeita?
— Não. Temos que achar um lugar pra ela dormir — Louise apontou pra Sra. O’Leary, que devorara seu hambúrguer. Ela estava na calçada, e quem passava por ela apenas desviava sem notar nada estranho. Será que ela era um poste na visão mortal? Coitada.
— Talvez outro depósito abandonado — Colin deu de ombros.
— Eu sei onde tem um lugar que ninguém geralmente vai…
— Ah, não, você quer voltar pra lá? Sério? —Louise revirou os olhos.
— Quero sim, relembrar os velhos tempos.
— Relembrar os velhos tempos de uma semana atrás, né?
— De onde vocês tão falando? — perguntou Julieta.
— Do lugar onde os restos da minha lança jazerão para sempre, ou pelo menos até se decomporem.
— O que tem? É legal lá, eu gosto dos peixes.
— E olha que você é filha de Apolo, hein — falei.
— Eu estou definitivamente boiando — disse Colin.
— Ah, é o aquário onde eu salvei o Dylan.
— Ei, Louise! Eu estava com tudo sobre controle.
Ela revirou os olhos de novo.
— Certamente ter tudo sobre controle é poder ser morto a qualquer momento com um soco de um ciclope duas vezes maior que você, e ainda com um braço quebrado, não é?
— Você ajudou um pouco…
— Garotos… — ela falou, e saiu andando, com a cadela ao lado.
— Garotas… sempre querem levar o crédito por tudo…
Ela virou de volta pra mim, com o punho levantado.
— Olhe aqui…
— Calma, Louise, relaxa… — Colin se pôs na frente dela.
— Não me manda ter calma! — ela gritou, e as pessoas que passavam olharam para ela.
— Fale mais baixo — disse Julieta, fazendo o sinal com o dedo encostado à boca.
— Eu falo o quão alto eu quiser. — e saiu andando de novo.
Colin esperou ter certeza que Louise não veria e fez sinal de “louca” com a mão. Eu ri em silêncio.
— Bem, temos que ir, eu acho.
— Uhum — Julieta assentiu e pagou à garçonete. Ela não parecia lembrar de mim, e se lembra, não deu sinais disso — Vocês estão com tudo aí? Então vamos. Ei, Louise! Espere aí.
E correu de encontro à amiga.
— É melhor a gente ir também — Colin falou.
— Ah, claro, sim… — e comecei a andar com ele do meu lado. — Sabe, Colin, não sei muito sobre você. Aliás, a única que sabe alguma coisa a mais sobre você aqui é a Louise, e acho que não ia ser legal pergunta pra ela, então… seu pai… O que aconteceu com ele?
— Pra falar a verdade, eu não sei, e eu também não ligo.
— Nossa… ele foi um pai tão ruim assim?
— É o que eu acho, pelo menos. Ele me prendia no porão.
— Sem mais nem menos?
— Sim. Ele odiava o fato de minha mãe ter deixado um filho à porta dele, sem ele nem mesmo ter, você sabe… dormido com ela. Então ele não me considerava um filho, apenas um peso morto que ele tinha que criar e alimentar. Graças à Atena eu sempre fui muito independente, porque se dependesse dele…
— Cara, eu sinto muito.
— Não precisa, eu já superei isso.
— Parece que todos aqui perderam os pais, de um jeito ou de outro…
— E parece que todos aqui já superaram isso, não é? — ele levantou uma sobrancelha.
— Hum… mais ou menos.
— Mas já faz cinco anos.
— Mas ainda dói.
— Mas…
— Você não sabe como é, não pode falar nada.
Ele levantou as mãos.
— Parabéns, você acaba de calar um filho de Atena.
— Palmas pra mim! Eu sou incrível, eu sei, amo meus fãs — e fiz sinais de beijos para o ar.
— Cara, você é mesmo retardado — ele riu, e eu ri também.
— Já te disseram que os retardados são mais felizes, não é? Você é sério aí, deve ter uma vida chata.
— Ah, claro que não! Eu comi alpiste por duas semanas seguidas, minha vida é super legal, cara, dá pra fazer uma fanfic.
E nós dois tivemos uma crise de riso.
— Olhe, tá vendo aquilo ali? — apontei para um poste caído na calçada. — Foi o ciclope que me perseguiu que fez isso! Ainda não consertaram? Que tipo de cidade é essa?
— Vai ver os mortais também não vêem…
— Eles são cegos por acaso?
— Para o nosso mundo, sim.
— Mas é um poste de luz.
— Eles podem ver apenas como uma rachadura na calçada, e não dão importância. Afinal, foi feito por um monstro.
Abanei a mão pra ele.
— Para de ser tão nerd.
— É a minha natureza, cara, eu sou filho da deusa da sabedoria, o que eu posso fazer? — ele deu de ombros. — Ei, não é o seu zoológico? — ele apontou.
— Ah, é sim, que saudades.
E todos nós entramos. Fomos discretamente até o aquário abandonado — o que deduzi pelo fato de ter tábuas e cadeados na porta, que deram muito trabalho pra tirar discretamente, porque se dependesse de Louise ela chegava derrubando tudo.
— Será que cachorros comem comida de peixe? — Julieta falou.
— Bem, quando voltarmos aqui vamos descobrir — Colin disse.
— E o que vamos fazer agora? — Louise perguntou.
— Que tal um passeio turístico?
— Você tá brincando, né? — Louise revirou os olhos.
— Olhe, se quiser ficar, fique, mas eu vou dar uma olhada nos macacos.
— Tá com saudade dos seus primos, é? — ela perguntou.
Julieta soltou uma gargalhada.
— E você devia ver seus irmãos pandas, aqueles gordos — Julieta disse.
— Olha quem fala, tigresa.
— Rawr — Julieta fez garras com as mãos.
— Ei, abram espaço pras corujas — Colin fez asas com os braços, e começou a piar.
— Olha, tá aprendendo comigo — eu ri.
Todos rimos, menos Louise, que ficou emburrada.
Ela é impossível.
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