Aquele Que Veio do Mar
11 Pedras
Notas iniciais
Estranho. Estávamos no meio de uma floresta, perto de um lago, embaixo de uma montanha, e nenhuma ameaça apareceu ainda? Muito estranho.
Julieta achou um esquilo na floresta e o trouxe para ficar com a gente. Eu e Louise rimos, enquanto os outros ficaram boiando.
Todos comemos. Eu dividi minhas frutas com a Sra. O’Leary, e já que Colin era vegetariano, deu sua carne para ela. Uma boa noite de sono e estaríamos aptos para avançar mais no mapa dos Estados Unidos.
Começou a chover. A chuva parou antes de escurecer, o que era bom, pois poderíamos ver se algum monstro aparecesse.
Então, do nada, Julieta começou a cantar uma música dos Arctic Monkeys. Algo como "Do U Shine?". Todos acabaram pegando o embalo e fazendo uma mini banda de caverna. Como seria o nome? The Rolling Demigods?
Deixei eles se divertindo e saí para analisar o estrago da chuva. O riacho tinha transbordado, o que era ruim, porque a água ficaria suja de terra. Ótimo, a noite toda sem água. Mas, por causa da luz, um pequeno arco-íris tinha se formado e não ficaria muito tempo. Eu tive uma ideia. Voltei correndo para a caverna e interrompi a cantoria.
— O que foi? — Louise perguntou.
— Alguém tem um dracma aí?
Joguei o dracma que Colin tinha me dado, ele só tinha um. "É o mínimo que eu posso fazer, guardem os seus".
— Ó, Íris, deusa do arco-íris, mostre-me Rachel no Acampamento Meio-Sangue — foi o que Louise tinha me instruído a falar.
O ar tremulou e uma forma como uma tela de TV circular apareceu. No outro lado da tela, uma garota com cabelos vermelhos e sardas nas bochechas me olhava com uma cara de surpresa.
— Oi, Rachel.
— Dylan?! Ah, oi! Como está indo a missão? Estão todos bem?
— Sim. Até agora só fomos sequestrados por três harpias famintas e estamos no meio da floresta natural da Carolina do Norte, nada demais. E, hum… tenho uma notícia que acho que vocês vão gostar.
— Mesmo? Diga.
— Achamos um garoto chamado Colin, um filho de Atena.
Rachel parecia que ia surtar, mas controlou o entusiasmo. Parecia ter lembrado de algo, pois adotou uma expressão séria.
— Entendo… então é isso. Eu pediria pra alguém ir buscá-lo imediatamente, mas não posso. Ele tem que ir com vocês. E… e…
— E o quê?
— Não posso falar, ou você vai tentar mudar o futuro. Quando se tenta mudar o que está predestinado... as consequências são severas.
— Droga! Por que eu não posso saber das coisas? Odeio ser o último a saber.
— No tempo certo você vai descobrir. E também previ outra coisa… uma coisa boa.
— Creio que também não posso saber, não é?
— Não.
Suspirei.
— Como está a situação no Acampamento?
— Até agora dá pra controlar. Mas logo a situação vai ficar feia. Os campistas já estão agitados. Vocês têm que ir rápido com isso. Até Quíron tem andado tenso ultimamente.
— Só viajamos uma vez a cada 12 horas, a Sra. O’Leary não aguenta mais do que isso.
Ouvi sons pesados de fundo, como se estivessem derrubando algumas coisas.
— Olhe, Dylan, tenho que ir, aqueles dois estão brigando de novo!
Vi duas silhuetas se socando no fundo, mas não pude distinguir.
— Vou tentar manter contato.
— O.k. Tente não morrer, boa sorte!
E a mensagem de Íris desapareceu da mesma forma que apareceu.
Voltei para a caverna, e todos me olharam, ansiosos.
— E aí? — Colin perguntou. Depois da refeição, ele já estava bem.
E aí que o Acampamento está agitado, têm pessoas brigando e temos que salvar Percy antes que tudo entre em um verdadeiro caos.
Essa seria a resposta adequada, mas não precisava preocupar mas ninguém, já tínhamos a preocupação da missão nas nossas costas.
— Até agora, tudo bem. Rachel ainda pode controlar as coisas. Mas o Percy é tão especial a esse ponto?
— Ele salvou o mundo. Acho que ele merece um pouco de crédito… — Julieta tinha cara de entediada.
Todos assentiram. Eu bocejei.
— Estou exausto.
— Todos nós estamos.
Todos nos deitamos no chão de pedra, usando as mochilas como travesseiros, Colin não tinha mochila, então dormiu junto da cadela. Fechei os olhos e mergulhei no sono.
Sonhei com o Acampamento, só que não era o Acampamento habitual. Os campistas estavam brigando entre si. Os chalés estavam reduzidos a pó, e a Casa Grande, demolida. Rachel corria de um lado para outro tentando acalmar os campistas, mas o esforço era em vão. Na colina, o pinheiro de Thalia estava em chamas, o próprio Peleu a estava incinerando. O velocino de ouro tinha sumido. A floresta tinha sido completamente desmatada, o que eu particularmente achava impossível. E quando olhei para o lago e a praia, entrei em pânico. Suas águas agora eram sangue. Corpos corriam no lago e boiavam na praia. Campistas usavam a fogueira para acender tochas e pôr fogo nas outras construções. Essa era a definição de caos. Esse era o fim do Acampamento. Percy não causaria tudo isso. Tinha algo a mais ali.
É só um sonho, pensei. Mas não era só um sonho. Se não tivéssemos sucesso, o Acampamento ficaria assim.
Minha cabeça estava apoiada na barriga de Mirina. Desde criança eu já me mexia muito durante o sono.
Olhei ao redor e procurei por Louise e Colin, mas nenhum deles estava lá.
Fui até a entrada da caverna e espiei para fora. Os dois estavam conversando, mas da minha distância, as palavras eram ininteligíveis. Fiquei espiando por um tempo até que Colin segurou Louise pela cintura e a puxou para um beijo demorado. Arregalei os olhos e me aproximei mais.
— Colin, pare, eu não gosto mais de você.
Ele a afastou com relutância e se virou, como se fosse voltar para a caverna, mas ele parou e disse:
— Eu só… senti muito sua falta, você não tem ideia do quanto. Isso não vai mais acontecer.
Ele seguiu caminho de volta para a caverna e eu imediatamente voltei e me encostei na barriga de Mirina. Virei para o outro lado como se nada tivesse acontecido. Ouvi ele se deitar, mas não ouvi Louise voltar.
Eu estava sentindo algo que nunca sentira antes, e eu não sabia bem o que era. Só sabia que doía.
Porém, meus pensamentos foram interrompidos por um ruído de rachadura, poeira caía do teto, e algumas pedras também.
A caverna iria desabar em cima de nós.
A primeira pedra grande caiu a centímetros da minha cabeça.
Segunda vez em dois dias que eu cheguei perto da morte. Calma, profecia. Deixe eu salvar o Acampamento, aí você pode me matar.
Com o barulho, Mirina acordou. No mesmo instante ela entendeu o que estava acontecendo.
Como se tivesse treinado para aquilo o dia todo, levantou em um único movimento, pegou no meu braço e saiu correndo.
A Sra. O’Leary imediatamente desapareceu e reapareceu do lado de fora, mas, naturalmente, não fomos rápidos o suficiente. Uma parede de pedras se formou na entrada, tapando o buraco, e mais continuavam caindo. Se ficássemos ali por mais alguns minutos, morreríamos. Colin tinha conseguido passar, e gritava nossos nomes.
— Isso parece aquelas histórias de heróis — falei.
— É, mas nas histórias os heróis sobrevivem no final, e nós vamos morrer aqui.
— E o seu poder especial?
— Não é um poder especial. É só uma habilidade.
— Uma habilidade que pode nos salvar agora. Vá, se concentre! Eu lhe dou cobertura. Julieta!
Ela entendeu a mensagem, e ficamos costa a costa.
Eu podia ouvir os gritos de Louise e Colin do lado de fora. Ela tentava inutilmente destruir as pedras com socos. Nem a cadela conseguia derrubar aquelas pedras.
— Pare, Louise! Você vai acabar quebrando a mão desse jeito! — gritei.
Mirina tinha se sentando em um canto onde pedras não estavam caindo. Estava com os olhos fechados e os punhos cerrados. Eu desviava das pedras grandes, que Julieta reduzia a pó com suas flechas, e afastava as pequenas, até que tive uma ideia.
Comecei a vasculhar minha mochila. Minhas roupas, a comida, os fones, e, finalmente, o MP3.
Tirei-o da mochila e conectei os fones. Os familiares desenhos de algas e animais marinhos surgiram, logo depois da lâmina de bronze celestial. Usei-a para partir as pedras ao meio.
Agora eu já não dava conta de todas as pedras que caíam, e as flechas de Julieta estavam quase no fim. Pensei que a espada ia quebrar, mas Mirina — atrasada seja — levantou, e eu notei uma coisa que tinha notado da última vez que elas fez aquilo: Os olhos dela ficaram com um tom doentio, como se a vida estivesse sendo sugada dela. Isso não era nada bom.
— Agora, Dylan — ela disse.
Eu entendi a mensagem. Postei-me do lado dela, e nós dois corremos juntos para a parede de pedras, ela com as mãos esticadas e eu afastando as pedras que ameaçavam cair em cima de nós. Julieta nos dava cobertura na retaguarda.
Ela passou a mão por todas as pedras, e seu cabelo loiro subiu como se ela tivesse levado um choque. E depois tudo desabou — a parede de pedras, o cabelo de Mirina, a própria Mirina, e a caverna. Pelo menos eu consegui arrastar ela para fora antes de a caverna desabar sobre nós.
— Dylan! Mirina! Julieta! — Louise repetiu as palavras. — Vocês estão bem?!
— Sim, Louise. Acabamos de escapar por instantes de um desabamento, onde quase quebramos alguns membros. Estamos bem.
— Pare de ser sarcástico, idiota.
— Sarcasmo é uma das minhas melhores defesas.
— Vocês dois, podem parar e vir ver uma coisa aqui? — Colin falou, agachado ao lado de Mirina.
Cheguei mais perto para ver o estado de Mirina, então eu vi o real problema. Ela não estava respirando.
— Desculpe, Mirina. Acho que você não vai gostar muito disso, mas…
— O que você v… — Colin ia falar, mas eu já tinha começado.
Ajoelhei-me no chão, apertei o nariz de Mirina, peguei ar, e encostei a boca dela na minha. Fui entregando meu ar à ela, fazendo bombeamento artificial de quando em quando.
Louise, de tão atônita, não conseguia nem me lançar outro daqueles olhares. Ela estava boquiaberta e suas bochechas estavam infladas mais que o normal.
Depois de algum tempo fazendo respiração boca-a-boca, Mirina deu sinal de vida. Ela tossiu, e depois desmaiou de novo, mas agora conseguia respirar.
— Espero que ela fique bem — falei, e virei para Louise, mas esta já estava indo floresta adentro, pisando duro.
Colin estava rindo.
— Se eu fosse você, eu ia atrás dela.
— O que eu fiz?
Ele deu de ombros, e eu fui.
Abri caminho entre os galhos e avistei os pés de Louise. Ela estava sentada em um galho grosso, um tanto alto na árvore. Com a faca que tinha de reserva, estava fazendo talhos na árvore.
— Como você subiu aí? — falei.
Ela se sobressaltou.
— Me deixe em paz.
— Se eu não fizesse aquilo, ela morreria.
— Eu falei algo?
— Dá pra perceber.
Ela revirou os olhos. Depois, pulou do galho e aterrissou suavemente no chão.
— Ah, quer uma também? Por que não vai pedir ao Colin? Talvez ele faça...
Seus olhos adquiriram um tom de vermelho-fogo, e suas bochechas inflaram. Cara… quase a puxei para perto e dei um beijo, mas me segurei.
— Você é muito idiota. Vá se ferrar.
E voltou pra caverna agora cheia de pedras.
Balancei a cabeça. Olhei para o céu.
E pensar que em algum lugar, lá fora, Percy está sofrendo, talvez já morto. O Acampamento está em uma crise, prestes a desabar pelas mãos dos seus próprios campistas. Mas afinal, por que nós? Por que não outros semideuses para estrelar essa missão? Eu, que não tinha mais do que uma semana de treinamento, fui escolhido para uma missão que poderia decidir o futuro do Acampamento. Lembrei do verso da profecia. ''A decisão na mão daquele que veio do mar''. Que decisão? E quais seriam as tais previsões que Rachel tivera? Eram muitas perguntas. Todas ainda sem respostas.
Suspirei profundamente, e deixei isso pra lá. Uma coisa de cada vez. Cada coisa teria seu tempo.
Agora eu tinha que cuidar dos… gritos? Alguém gritara.
E estava perto.
Fale com o autor