Aquele Que Veio do Mar
1 Aniversário
— Anda, ô, imbecil! — um menino atrás de mim na fila do refeitório gritou ao meu ouvido.
Não se preocupem, já estou acostumado a isso. Meu nome é Dylan. Dylan Fletcher. Eu vivia em um internato em Albuquerque, Novo México, depois de ser expulso de vários outros por coisas que eu não sabia explicar como aconteceram.
— μου κάνει! — gritei, sem pensar. Alguns garotos na mesa ao lado olharam para mim.
— O que você disse?
— Hm… Nada.
— Maluco… — resmungou.
Bom, pelo menos agora vocês têm ideia de que tipo de coisas.
Era dia do meu aniversário de 13 anos, mas ninguém além do diretor sabia. Eu não quis contar porque acabaria levando ovadas com pó de mico e puxões de cueca. O Sr. Blake era legal. Ele me tratava como se eu fosse especial, como se eu fosse um filho dele. Bem, ele tratava todos assim, mas comigo era um caso especial. Talvez ele tenha pena de mim ou algo desse tipo.
Ele só ia para o internato umas poucas vezes no ano, e enquanto não estava, nos deixava com a Sra. Ruby, que apesar do nome de joia, era uma completa bruxa. Ao contrário do Sr. Blake, ela me tratava como se eu fosse um lixo, o que também era um caso especial. E eu já estava cansado disso. Estava cansado dessa vida. Eu desejava ter um vida nova, mais emocionante. Algo como uma montanha-russa.
Peguei o meu prato de ovos que mais parecia purê de batata e fui me sentar na mesa enferrujada no final do refeitório. Era bom porque ninguém além de mim ia lá.
Depois de tomar o café-da-manhã, fui para o meu quarto tentar me entreter com livros. Eram a única coisa que me tirava da realidade por um tempo, — apesar de eu ter dislexia e demorar duas eternidades para passar uma página — além de música. Porém, meu aparelho de MP3 estava quebrado. Eu não queria que ninguém me aborrecesse hoje. Era meu único dia de paz no ano.
Hoje eu rio do significado de "paz".
Sentei na cama e abri a cômoda para procurar um livro quando uma voz conhecida se fez ouvir da porta.
— Feliz aniversário, Dylan.
Olhei na direção da voz, e lá estava o Sr. Blake com seu terno preto, parado na porta. Trazia uma caixinha na mão, e estava com os braços abertos. Corri até ele e lhe dei um abraço forte. Finalmente soltei-o e apontei na direção da caixinha.
— O que é isso?
— Seu presente de aniversário, claro. Fiquei sabendo que seu MP3 está quebrado…
— Sim, está — apontei para o lixo.
— Então tome — ele me entregou a caixinha. Eu arregalei os olhos. Rasguei o embrulho e tirei de dentro um MP3 novo, de última geração, azul berrante.
— O-obrigado — gaguejei, vislumbrando o presente.
— Não há de quê — ele olhou para seu relógio de pulso estranho (continha letras gregas ao invés de números) e me olhou triste. Meu sorriso se esvaiu. Eu sabia o que estava por vir. — Tenho que ir agora, estou atrasado para uma reunião...
— Mas já? — olhei para baixo, triste. Ele deu um tapinha no meu ombro.
— Você vai me ver de novo — ele conseguiu dar um sorriso, se levantou e foi embora. Fiquei no quarto encarando meu MP3 como se esperasse que o aparelho falasse algo.
No momento que ele saiu, Tobias — o cara do "Anda, ô, imbecil!" — e seus escudeiros gordos apareceram na porta.
— Ei, viadinho, o que é isso? — ele tentou arrancar o aparelho das minhas mãos, mas eu esquivei bem na hora. — Me dê. Quero dar uma olhada.
— Querer não é poder.
Ele avançou para cima de mim, tentando pegar o MP3. Conseguiu me imobilizar e o tirou da minha mão. Eu era magrelo, então foi fácil me paralisar, mas, quando vi o MP3 na mão dele, senti tanta que raiva que não deu outra: tirei-o de cima de mim, joguei-o no chão e lhe dei um soco. Ele se dobrou, sem ar.
— Você me paga, seu inútil! — e saiu correndo do quarto. Os outros dois, perplexos, correram junto com ele.
Olhei para o meu braço e flexionei a mão. De onde eu tirara aquela força? Não sabia. Só sabia que passaria mais uma tarde na detenção se eu continuasse ali. Não queira saber como é isso.
Decidi tentar dar uma escapada do internato e ir à lanchonete que fica na esquina. Peguei um pouco de dinheiro e meu MP3 — não demorou muito para eu colocar minhas músicas preferidas nele. Foi fácil passar pelas câmeras e vigias. Fácil demais. Até pareceu que alguém queria que eu saísse de lá. Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos. Nada ia dar errado hoje.
E, como sempre, tudo deu errado.
Cheguei na lanchonete e sentei num banco afastado das outras pessoas. Pedi um cheeseburguer com refrigerante e botei meus fones. Comi em silêncio. Quase todas as pessoas que passavam pareciam me olhar de cara feia, como se eu fosse um mendigo. Desde que minha mãe morreu, eu me sentia mesmo como um: sem nada. Ela era a pessoa mais legal do mundo. Imagine um mundo sem ninguém reclamando que seu quarto está bagunçado, sem ninguém para dizer que você é preguiçoso demais ou não faz nada. Com tudo o que você quiser no limite do possível. Esse mundo era meu e da minha mãe, até cinco anos antes.
Minha mãe era atendente de uma clínica de cirurgia plástica, seu nome era Angelina Fletcher. Todos a chamavam de Angel. A clínica era muito antiga, e o governo queria fechá-la por risco de desmoronamento, mas os donos insistiam em manter. Até que um dia as previsões do governo se concretizaram. Eu estava vendo TV quando a notícia que o estabelecimento onde minha mãe trabalhava veio a baixo invadiu a tela. Até hoje tenho pesadelos com a cena.
Desde então, tenho vivido em diferentes internatos, pagos pelo governo, e sempre sendo expulso.
Fiquei tão imerso em pensamentos que não percebi que a minha playlist tinha acabado. Também tinha terminado o sanduíche sem perceber. Às vezes eu faço isso: meu corpo fica em um estado "automático" enquanto eu emergia em pensamentos.
Coloquei o MP3 no bolso e contei as moedas para pagar a conta quando um barulho ensurdecedor invadiu meus ouvidos. Parecia uma dinamite, mas aqui não era uma pedreira. Olhei para o lado e vi uma figura enorme correr em minha direção. Pessoas corriam para fugir do caminho daquele… O que seria aquilo? Era do tamanho de um poste, gordo como um elefante e tinha a pele vermelha como sangue, um único olho no rosto, e só usava uma saia rasgada. Já tinha lido sobre aquilo em algum lugar na aula de história.
Ciclopes. Se chamavam ciclopes. Mas eles eram seres mitológicos, como algum poderia estar me seguindo? Deveria ser uma alucinação, mas não quis tentar a sorte.
Ele estava a cem metros de mim, e todos os meus instintos gritaram: "Corra!". Obedeci a eles e corri o mais rápido que pude.
A garçonete nem ligou para o fato de eu não ter pagado a conta, porque ela já estava do outro lado do quarteirão quando eu comecei a correr.
A criatura estava chegando muito perto. "Vou morrer no dia do meu aniversário", pensei, desesperado. Então, de algum lugar, uma voz falou como uma brisa.
Use seus fones…
— Escutar música? Eu estou sendo atacado!
Se aquela voz tivesse rosto, juro que ela reviraria os olhos.
USE SEUS FONES!
Era loucura. Para que meus fones serviriam? Alguma entrada secreta no MP3? De que serviria um reprodutor de músicas quando uma coisa dessas estava a poucos metros de mim?
Resolvi obedecer e arranquei meu MP3 do bolso enquanto corria. Revirei desesperadamente à procura de algo fora do normal. Só consegui ver os componentes genéricos de um MP3, quando percebi uma abertura perto da entrada dos fones que eu não tinha notado antes.
Imaginando por que diabos eu tinha feito isso, enfiei o pino dos fones ali, e algo inimaginável aconteceu.
Então, tudo ficou confuso.
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