Aquelas Mãos
1 Foram aquelas mãos.
Foram as mãos.
Era um típico dia de trabalho. Nada demais. A rotina desgastante, os clientes com as mesmas perguntas, as mesmas necessidades, as mesmas histórias. Em poucos meses no novo trabalho, Clarissa se sentia um robô, algo como aquela voz eletrônica das chamadas de operadoras de celular, programada para responder as mesmas coisas.
Novo trabalho, nova cidade. Velhas pessoas.
Incrível, pensava ela, que seja qual for a cidade, sempre se encontra os mesmo tipos de gente. Ainda mais numa agência de atendimento ao cliente. Homens galanteadores, senhoras chorosas, ou aqueles que achavam que enchendo-a de elogios conseguiriam o que queriam, como se as normas não existissem.
Então…
Precisando de uma assinatura, Clarissa foi atrás dele.
Era um colega qualquer, um dos vários naquela empresa. Conversa vai e vem, sorrisos educados, e aí…
Ela reparou nas mãos dele.
Grandes, másculas, perfeitas como as de uma escultura helênica. Tentou disfarçar o fascínio imediato que aquelas mãos lhe causaram, tentando prestar atenção ao que o colega dizia. Mas, daquele dia em diante, não teve mais paz.
Clarissa só pensava naquelas mãos, e no que elas poderiam fazer. No que poderiam lhe proporcionar, causar, enlouquecer.
Das mãos, reparou no resto do corpo. Notou os braços, peludos, os ombros, largos, os olhos de uma cor que ela não sabia definir se era castanho claro ou de mel, que se iluminavam sempre quando ele sorria, a voz... rouca, enlouquecedoramente sensual.
Os dias se passaram, até se tornarem meses. Clarissa não sabia o que fazer para parar de pensar no rapaz, e nas mãos dele. Passou a evitar encontrá-lo, procurou atividades fora do trabalho, cursos, tudo para não pensar nele e naquilo que tanto a atraía.
Então, quando acreditava que tudo não passava de paixonite platônica, o inacreditável aconteceu.
Numa festa da empresa, realizada num clube, Clarissa, estando de saída, não conseguia encontrar um táxi, ou um Uber disponível.
˗˗ Precisando de carona?
Estremeceu ao reconhecer a voz. Era ele!
˗˗ Pois é... — respondeu, meio sem jeito.
˗˗ Vem, eu te levo.
Vacilante, olhou para os dois lados da rua — nada de táxi. Verificou o celular — o Uber notificava que não havia ninguém disponível.
Entrou.
A mesma conversa simpática, o perfume amadeirado, a expressão sorridente... e aquelas mãos, uma no volante e outra na marcha.
Clarissa tentava prestar atenção, em vão. Ela só imaginava aquelas mãos acariciando seu corpo.
—- Diego...
—- Sim?
Sinal vermelho, rua deserta. Clarissa seguiu seu impulso. E qual não foi a sua surpresa, quando ele correspondeu aos seus beijos, e entre uma carícia e outra, disse num sussurro.
˗˗ Há muito tempo espero por isso.
E a levou para o banco de trás do carro.
****
Foi a noite mais louca da vida de Clarissa. Ela nunca havia feito nada parecido antes. E nada foi do jeito que havia imaginado. Foi muito melhor.
E, realmente, ele sabia o que fazer com as mãos.
Dali por diante, cada vez que se encontravam sozinhos, tudo terminava com os dois cedendo ao desejo. Seja em que lugar fosse. Clarissa adorava sentir aquelas mãos acariciando, apertando, explorando cada espaço de pele, fazendo-a delirar de prazer. Inúmeros foram os encontros...
Até ela encontrar outras mãos.
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