Aquela tarde chuvosa
1 Capítulo Único
É culpa da Mina e da Tooru.
Quer dizer, a chuva não é culpa delas, claro que não! Também não é culpa das amigas que Ochako tenha esquecido de checar a previsão e, portanto, não tenha se dado ao trabalho de colocar um guarda-chuva na mochila. Ah, também não dá pra pôr na conta delas o fato de que mesmo se tivesse trazido o guarda-chuva, não ia adiantar nada pois ele está meio quebrado e ela precisa urgentemente comprar um novo… enfim, o que é, de fato, culpa delas, é uma conversa que todas as meninas da turma A tiveram semana passada durante um chá da tarde no quarto da Yaomomo.
O verão sempre começa com muitas chuvas rápidas que deixam o clima mais quente e criam aquele mormaço desconfortável, isso é senso comum. Ochako não é uma grande fã das estações chuvosas, já a Mina e a Tooru são as maiores entusiastas, pois, segundo elas, períodos de chuva significam dividir guarda-chuva com aquele alguém especial, ah, e tem o tal mito do beijo.
Ela não sabe de onde as duas tiraram isso, mas elas juram que há uma lenda que diz que casais que se beijam na chuva estão destinados a ficarem juntos para sempre. Ok, é muito fofo e romântico, mas Ochako preferia ter ouvido sobre isso DEPOIS de ter “pego carona” no guarda-chuva do Bakugou, ou melhor, do Katsuki, ele praticamente exigiu que ela o chamasse pelo primeiro nome, mas ainda é meio estranho.
Só o fato de eles estarem mesmo namorando é meio estranho. É empolgante, sempre a deixa toda contente receber uma mensagem de “Boa noite” dele, ou vê-lo deixar de lado suas rusgas com o Deku, o Todoroki e o Iida e se sentar com eles para almoçar ao lado dela. É maravilhoso, mas não deixa de ser estranho, ela não está acostumada ainda, e coisas simples e corriqueiras a deixam envergonhada.
Tipo dividir um guarda-chuva. Katsuki a viu parada na entrada do prédio das salas de aula e perguntou por que ela ainda tava ali, Ochako explicou que não tinha guarda-chuva e esperou o clássico sermão dele sobre não ser trouxa e blá blá blá, ao invés disso, o loiro só fez um “tsk”, abriu seu guarda-chuva vermelho e falou pra ela acompanhá-lo. Assim, sem cerimônia nenhuma. Suas bochechas ficaram da cor do guarda-chuva, mas ela aceitou, não dá pra saber a que horas a chuva parará e ela ainda tem os deveres de casa para fazer. Lá foram eles pelas calçadas pavimentadas da U.A., ela morrendo de vergonha ao ter sua mente bombardeada por todos os mangás shoujo que já leu e não conseguir deixar de se sentir em uma dessas cenas.
— Ô, tô falando com você, Bochecha, tá moscando? — ele dá um leve empurrão no ombro dela.
— Hã?
— Perguntei se você tem alguma coisa importante nos bolsos ali da sua mochila, tão molhando. — ele aponta para trás, e ela dá uma breve olhada.
— Ah… não, acho que não.
— Tsk, então falasse logo ao invés de ficar aí boiando. — ele resmunga — Maldita chuva do caralho.
Ah sim… a individualidade dele e esse período de chuvaradas não se dão muito bem, as explosões ainda são enormes e impressionantes, mas um pouco menores do que em um dia ensolarado, o que deve deixá-lo imensamente frustrado. Nesses dias, ele parece até um pouco cansado e quase, QUASE maleável.
— Já estamos quase nos dormitórios. — ela o tranquiliza — Ai, só de pensar no tanto de dever, eu quase acho que ficar aqui na chuva é melhor.
— Larga de ser dramática, Uraraka! É só um deverzinho de nada, se eu te ajudar, você acaba antes do jantar.
— E você vai… me ajudar? — ela não está se vendo, mas sente seus olhos brilharem em expectativa.
— Tsk, que seja. Mas tem que ser no seu ou no meu quarto, senão aqueles enxeridos do caralho vão ficar enchendo o saco falando de encontro isso, encontro aquilo, pau no cu deles.
— O-oh, tudo bem… pode ser no seu, depois eu me flutuo de volta pra ala das meninas. — ela tenta soar casual e super tranquila com isso, não é a primeira vez que eles fazem uma pequena sessão de estudos juntos no quarto dele, mas o Kirishima estava junto, dessa vez devem ser só eles dois mesmo…
— Beleza. — ele dá de ombros — Não é um encontro, entendeu?
— É, eu sei… — ela sabe, mas não deixa de ficar surpresa com ele sendo tão categórico quanto a isso.
— É bom mesmo! Até parece que eu ia te levar pra um encontro tosco assim! Quando a gente for num encontro mesmo, vou virar seu mundo de cabeça pra baixo, Bochecha, me aguarde.
Ela está envergonhada, mas imensamente feliz, ele é… ugh, Ochako não entende como se sente atraída por alguém que fraseia um convite pra encontro como uma ameaça, mas é tão… fofo e ridículo e tão… ele! E ela adora praticamente tudo que envolva ele.
E olha eles aqui dividindo um guarda-chuva, não tem como ele não estar com o ombro todo molhado ao ceder boa parte do guarda-chuva pra ela… Ochako dá uma olhada ao redor, é fim de tarde, mas o céu de um tom chumbo confere a impressão de que já é noite, são só eles dois nas ruelas do campus, as flores e as árvores estão lindas mesmo encharcadas… ele está tão perto… se ela chamá-lo e ficar nas pontas dos pés quando ele se virar… seria perfeito, não? Tá tudo se encaixando perfeitamente, o cenário, as condições…
Tirando o fato de que uma van vem em direção oposta à deles, e acontece de ter uma poça não muito pequena de água se formando próximo ao canteiro de flores, pela qual a van, que deve ser de funcionários da manutenção indo consertar alguma instalação quebrada pelo temporal de mais cedo, com certeza vai passar por cima e ensopá-los.
— Ah, cuidado! — ela berra e fecha os olhos, levantando a mão por instinto mesmo, porque não há nada nas capacidades dela que impeça essa água de atingi-los.
— Que porra…? — ele soa atônito, não irritado por ter sido encharcado. Quando ela abre os olhos, entende o porquê: ele está seco, os dois estão.
E Katsuki está tão perplexo pois parece tocar algo sólido no ar que é aparentemente transparente, Ochako olha para ele, depois para baixo, e nota que os pingos d’água não estão caindo no chão ao redor de onde eles estão. Ao olhar para cima, ela vê os pingos batendo contra algo e... voltando para cima! Como se fosse uma redoma invisível.
— O que…? Katsuki, foi voc-
— É tipo uma… bolha gravitacional que repele as coisas. — ele analisa e se vira para ela, olhos escarlate brilham no que parece empolgação — Foi você que fez isso, Ochako.
— E-eu? M-mas como? Não é assim que funciona, eu teria que tocar cada pingo de chuva para afastá-los e… acho que não dá pra fazer isso com água, bom, pelo menos eu nunca tentei, mas enfim… minha individualidade não funciona assim, isso é… — ela arregala os olhos — Isso é...
— Evolução de individualidade. — os dois dizem juntos.
— Mas… mas como?
— Acontece com algumas pessoas da nossa geração e pode se ativar em uma situação de risco, não que uma chuvinha de merda seja situação de risco, mas você entendeu. Foi, sei lá, o desespero de não se molhar. — ele observa a bolha com fascínio, Ochako só o viu olhar assim pro All Might durante uma aula em que o professor deu um discurso motivador impressionante.
— Eu… minha… individualidade evoluiu! — ela exclama e anda até ele — EVOLUIU!
— É, porra, você já não tinha entendido? — ele resmunga, depois se vira pra ela com um meio-sorriso que faz seu coração disparar — Nada mal, Bochecha, mas não vai se achando, hein? A gente vai pôr essa nova habilidade pra jogo no próximo treinamento, e eu quero ver se você é páreo pra mim.
E taí, aquilo que ela mais ama nele. Não a competitividade patológica ou o óbvio fato de que ele ficou com invejinha por sua individualidade de explosões não ter evoluído — e precisa? — mas sim que ele põe tudo isso de lado para que ela valorize o que fez, para que se desafie a descobrir mais, pois, se é verdade ou não, Ochako ainda não sabe, mas na cabeça dele, ela e Katsuki estão de igual pra igual. E não tem nada mais lisonjeiro que isso.
— Ah, então esse vai ser nosso encontro? Um combate pra testar meu novo poder? Então acho que sou eu quem vai virar seu mundo de cabeça pra baixo, hein?— ela sorri enquanto se aproxima dele.
— É isso o que a gente vai ver. — ele devolve o sorriso e se abaixa um pouquinho na direção dela, beijando-a de maneira gentil e entusiasmada ao mesmo tempo. Não é o primeiro beijo deles, não dá nem pra saber já que ela já perdeu a conta, mas tem algo de diferente nesse, especial.
Ochako o envolve pelo pescoço para colar seu corpo no dele, ganhando um adorável suspiro de satisfação em resposta, ele a aperta nos quadris e inclina a cabeça um pouquinho para mudar o ângulo do beijo.
“Um beijo na chuva significa que o casal está destinado a ficar junto pra sempre.”, que bom que a Mina e a Tooru contaram isso pra ela. Ochako queria o momento perfeito e, sem querer, criou um ela mesma.
E o momento perfeito acaba quando eles são empapados por gotas frias e grossas de água, é um poder novo, ela não tem controle ainda, não sabe como ativar… nem como desativar, mas deve ter a ver com perder a concentração, porque o beijo a distraiu demais e ela acabou cancelando seu escudo gravitacional, e como o guarda-chuva estava no chão, terminaram os dois encharcados.
É, Ochako tem a impressão de que o encontro será adiado pois os dois estarão gripados. Mas se ela se arrepende dessa tarde?
Nem um pouquinho.
Notas finais
Eu lembro que escrevi no fim de 2019/começo de 2020 pro amigo secreto do Kacchako Project, fiz no lugar de alguém que não ia poder entregar o presente, mas não lembro nem quem tinha que dar a fic e nem quem era o amigo secreto dessa pessoa, então, se você ainda acompanha minhas fics hoje em dia e é uma das pessoas citadas, peço desculpa por não lembrar huagsydhs, 2020/21 foram um completo vórtice temporal
Espero que tenha curtido! Obrigada por ler!
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