Aquela que não pôde virar pedra
2 Fuga, Templo de Athena
Notas iniciais
A noite chegou e, com ela um problema que assombrava sua vida. Doryssos, seu irmão mais velho, estava em seu primeiro ano no exército, treinando de forma intensa para se tornar um hoplita, por isso o corpo definido, a espada curta na cintura e a ausência de paz para um jantar.
Akantha, cabisbaixa, ouvia mais uma vez o falatório atropelado, banhado a vinho, como se o próprio Dionísio tivesse bebido usando o corpo do rapaz. Num jantar em que ele não estava presente, era mais tranquilo, mas sua presença era cansativa e drenante.
"Poderia, ser mais fácil, mãe, se não fosse só eu pra sustentar quando nossa riqueza acabar. Ter essa parasita em casa que nada faz!". Cada palavra era como uma faca atravessando o coração da jovem, ela não saberia dizer se ele falava isso por realmente acreditar ou se era só o vinho falando através dos lábios dele.
"Doryssos, eu-".
"Você o que? Agora não sabe falar também? Você só pode ser uma maldição de Apollo mesmo! Por que ainda está aqui, você é uma inútil!". Aquela tinha sido a última facada. Akantha tinha o mapa de sua casa na cabeça e por isso conseguiu sair correndo sem esbarrar em nada, diferente de seu irmão bêbado.
Ela saiu pelo portal de casa virando a direita e acelerando cada vez mais a corrida, o choro de sua mãe e os urros de seu irmão.
Akantha corria o mais rápido que podia, direita, esquerda, esquerda, reto, direita... Ela corria com cuidado, com medo de acabar se machucando, até as vozes desaparecerem e só o barulho das ondas arrebentando se destacarem na noite. Foi quando ela percebeu que poderia estar perdida, mal lembrava do caminho que tinha seguido por causa da dor.
Ela se deixou levar pela fresca brisa do mar, cedo ou tarde ela encontraria um caminho, ia arrastando os pés, se afastando quando achava q o barulho do mar estava muito alto, mas sem querer deixar de ouvi-lo, até sentir uma elevação, ergueu seu pé delicadamente, checando a altura. Um degrau. Ao firmar o pé no degrau, começou a checar por outros. Era uma escadaria, aparentemente.
Ela subiu com calma, aceitando o que os Deuses tinham colocado em seu caminho, o pio de uma coruja a guiava cada vez mais pra cima. Akantha vasculhou a mente, lembrando dos templos que existiam em Atenas e quem a coruja representava...
"Senhora Athena, espero que me leve para o lugar certo". Ela esperava não ter ofendido a Deusa da sabedoria com aquela prece.
Sentiu a primeira coluna do templo com a mão direita, no topo da escadaria. Ela avançou, com a mão apoiada na coluna quando uma voz grave cortou os sons, agora distantes.
"Quem ousa pisar neste templo onde pago minha maldição?". A voz firme parecia vir de todos os lados, como nos anfiteatros que era levada quando era pequena, ainda que tivesse um pequeno foco diretamente a sua frente.
"Perdão, estou perdida, eu só queria saber como posso voltar pra casa". Ela avançou alguns passos, se colocando próxima do centro do templo, mão estendida se chocando contra uma estátua simples.
"Cuidado com a estátua, não é a Athena do Parthenon, mas ainda merece respeito!". A voz a rodeava. Akantha colocou as costas contra a estátua, estava começando a ficar assustada. "Óbvio que não sabe para onde ir, essa venda em seus olhos não permitem que enxergue! Provavelmente, devem ter salvo sua vida também, não podes me ver, não é mesmo?!".
"Independente da venda, eu não posso ver". Com lágrimas nos olhos, preparada pra mais um julgamento de um desconhecido, Akantha falou, na esperança de ganhar a compaixão, mas algo não escapava de sua mente... Ela estaria morta se não fosse a venda?
"Ahh, vejo que sofre com uma maldição também... Ou seria uma bênção?". Sua risada ecoou pelo templo. Akantha sentia ela cada vez mais próxima, um sibilar constante próximo da voz logo a sua frente. "Eu não posso sair do templo, mas venha". Uma mão macia pegou a da jovem guiando-a. "Pode dormir aqui no templo hoje, amanhã terão pessoas na rua para te ajudar.".
Seguindo, calmamente, a mulher até uma cama.
"Durma garota, vai precisar descansar um pouco. Como sacerdotisa, devo completar minhas preces aos Deuses... Por mais amaldiçoada que eu seja". Esta última sentença, como um breve murmuro. Akantha já estava deitada, mas conseguiu ouvir a última sentença e sentiu um peso no coração com a dor na voz dela.
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Akantha acordou com um soluço um pouco distante e começou a se aproximar, nas pontas dos pés.
"A culpa nunca foi minha, nunca quis profanar seu templo, minha senhora. Ele invadiu, ele...". A dor na voz da sacerdotisa era tão evidente que Akantha não conseguiu se segurar, de alguma forma, ela se identificava. Ela se aproximou abaixada e a abraçou, com força. A sacerdotisa ficou sem reação, até o constante sibilar parou, como se ligado diretamente a ela.
"A culpa não é sua, uma maldição não é culpa sua". A voz de Akantha era suave.
A sacerdotisa chorou mais nos braços de dela. Quando finalmente se acalmou, guiou a garota novamente para a cama ficou observando a jovem dormir.
Será que ela a trataria assim se soubesse que ela era a temida Medusa, petrificadora de homens, amaldiçoada por Athena por causa de Poseidon. Loucura. E se afastou para a entrada do templo.
"Loucura demais.". Observando a pólis, mas com um pequeno sorriso enfeitando seus lábios.
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