Aquarela de Sons
1 Dead Meat
Notas iniciais
Nuvens negras aproximavam-se da cidade. Leves sopros de vento balançavam os cabelos loiros da pequena garota. Seu casaco vermelho estava com manchas frescas de lama, assim como suas botas coloridas.
Acompanhava o céu escuro, correndo com passinhos curtos na beira do lago. Do alto de uma pedra, Arthur limpava os óculos no cachecol para enxergar Sully mais nitidamente.
“Ela não aprende nunca”.
De seus onze anos de vida, oito foram compartilhados com Sully. Eram vizinhos, amigos e prometidos. Aquele amor infantil e doce era forte o bastante para mantê-los unidos, sempre e sempre.
A menina corria cada vez mais rápido, respingando lama grossa em seu casaco e ensopando seus sapatos. Pulou algumas pedras que estavam à mostra, mas uma em particular a fugiu da visão.
— Cuidado, Sul-
Não daria tempo de alertá-la nem de protegê-la, mas Arthur saltou da pedra em direção à amiga, tropeçando nos galhos secos que estavam no chão. Seus óculos caíram na grama úmida, mas ele não se preocupou com isso, apenas em abraçar Sully.
— Arthur... m-me desculpe.
Segurando as lágrimas, levantou-se e sacudiu – inutilmente – o casaco. Tentou abaixar para segurar os óculos de Arthur nas mãos, porém suas frágeis perninhas tremeram e a levaram novamente ao chão.
— Você precisa ser mais cuidadosa, Sully. Desse jeito sabe-se lá onde vai parar.
Recolocando os óculos, o garoto sorriu. Sentia que era seu dever proteger Sully de qualquer situação. Amava-a como amiga, como uma irmã. Mais tarde perceberia que seu amor era até maior que isso.
— Eu vou fechar os olhos e contar até dez, então eu irei encontrar você. Vá se esconder, Sully!
Arregalando os olhos á procura de algum local seguro, a menina saiu cambaleando. Em volta do lago havia um monte de pedras enormes e sujas de limo, um pequeno deque, duas pequenas casas de ferramentas, um barco e uma pilha de madeiras cortadas. Corria de um lado para o outro, ouvindo a voz de Arthur cada vez mais distante.
— Um... um e meio... dois...
“Droga, ele vai me encontrar. Preciso achar um lugar mais seguro”.
— Quatro... quatro e meio...
Depois de alguns segundos observando, enxergou um enorme balão azul. Não tinha reparado nele antes, mas podia jurar que não estava ali minutos atrás.
Correu em direção ao barco, onde o balão estava amarrado, e com muito cuidado pisou no deque antigo e trêmulo.
— Sete...
E a voz de Arthur – que já estava longe o bastante – a fez pular rapidamente no barco. Ficou ali, encolhida em absoluto silêncio.
“Tenho certeza que ele não irá me achar. Arthur sempre teve medo deste barco”.
Sorrindo certa de que ganharia a aposta que fizera mais cedo com o garoto, Sully correu os olhos por entre os detalhes do barco. Tinha tempo, alguns minutos antes do garoto se aproximar.
“Provavelmente irá em direção à casa de ferramentas. Gostaria de ver sua cara ao descobrir que não estou lá”.
Olhou para o balão mais uma vez, e o achou tão bonito e... brilhante. Pensou que Arthur ficaria feliz em receber um presente como aquele. Essa era sua cor favorita, iria gostar. Certamente, sim.
Espiou cuidadosamente através de um buraco na cabine do barco, e levantou-se em silêncio. Foi na ponta dos pés até o bastão principal, e lá se esticou o tanto que pôde para alcançar o balão. Queria pegá-lo, precisava dar a Arthur aquela enorme e cintilante esfera de látex azul.
“Ele merece algo assim”.
Fazia um esforço tremendo, encaixando a bota direita na caixa do motor para elevar-se. Deu pequenos pulinhos para alcançar, e tinha certeza que no próximo o capturaria.
— Suuuully, onde você está?
“Vamos lá, eu consigo, vamos!”
— Suuully, me responda! Estou preocupado.
“Droga, só mais um pouquinho”.
Arthur ouviu o som da água abraçando Sully. Correu imaginando o pior.
— Sully! Hey, Sully!
A cada passo sentia seu coração bater mais forte. Tinha certeza que ouviu o barulho de água. Mas como, se Sully não sabia nadar?
— Sully, isto não é um jogo, me responda!
Chegando perto do barco avistou o balão azul voando livre, seguindo o vento da tempestade.
— S-Sully...
Apressou-se no deque, e ajoelhou com o coração doendo. Uma mancha vermelha sujava a água e se misturava com o tom do vestido. Uma bota estava calçada, e a outra presa na borda do barco. Cada vez indo mais longe, mesmo que tentando agarrar seus longos cabelos loiros, Arthur não a alcançava. Não gritou, não correu em busca de ajuda. Entendia que isso não traria Sully de volta. Sua Sully, pequena e desprotegida.
“Por que... por que veio até aqui? Sempre disse que era perigoso”.
Ergueu os olhos para o céu, sentindo os pingos de chuva que começaram a cair. Observou o balão rodopiando no ar, e pensou:
— Será, Sully... Será que agora você encontrou a liberdade?
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