Notas iniciais
Inspirada em Chão de Giz, by Zé Ramalho

A tarde já dava sinais de sua partida, mas Martha e um estudante do Colégio St. Peter continuavam no parque. O menino riscava o chão a sua volta de colorido, mas uma mancha o fez levantar seus olhos, cerrando-os contra a luz alaranjada que atravessava as nuvens: um balão azul, como o céu costuma ser antes que as tempestades se aproximem. Ele acompanhou sua passagem e registrou a imagem com seu último giz. Naquele momento, ela perguntou-se o que ele estaria desenhando há tanto tempo.

– Ele sabe que a chuva está a caminho. Com meus sete ou oito anos, eu saberia – Martha sussurrou, cobrindo a boca com seu cachecol cinza – Por que continua a desenhar?

Ela também gostaria de desenhar, apesar da chuva e do vento que a anunciava. No entanto, não poderia ver a água manchar seus traços até que desaparecessem. Tinha medo. Afinal, de quanto precisamos, entre o início e o fim, para não temer a perda? Uma hora, alguns dias, muitos anos? A resposta, ela sabia: precisamos de todo o tempo do mundo.

– Droga! Quero jogar você em um saco de guardar confetes, junto com meus tantos outros retalhos. Mas não posso... Você não é um retalho. Mesmo que eu não queira, ainda faz parte de mim – Martha sentiu as lágrimas que tentara evitar minutos antes – Eu devo ser apenas um retalho de sua vida.

– Martha? – uma voz atravessou o caminho estreito do parque, entre o lago e os bancos.

– Louise? – sem se dar conta, ela procurou seus olhos. Precisava vê-los. “Infelizmente”, pensou.

– Sabia que estaria aqui – Louise estava ofegante – Por favor, vamos conversar sobre isso.

– Você partirá amanhã. Isso é muito difícil pra mim, e ouvir sua voz não ajuda. Não posso estar ao seu lado sabendo que vamos nos despedir!

– Sinto muito por não ter contado antes, mas queria...

– Queria me proteger? Queria evitar o que está acontecendo agora?

– Queria ter mais um tempo com você, sem que ambas estivéssemos tristes como eu estava! – Louise também chorava – Como eu estou.

A tristeza, e até mesmo a raiva, podem se transformar com poucas palavras. Agora, eram apenas remorso. Logo, seriam apenas saudade. Martha e Louise se abraçaram para que seus rostos se encontrassem uma última vez. Os sentimentos, esses poderiam cruzar a distância que as separaria.

– E o que acontecerá depois?

– Nós pensaremos em algo quando chegarmos lá – Louise sorriu, puxando a namorada pelos pulsos – Nesse momento, eu só quero estar com você.

A chuva não veio com a noite e o céu amanheceria limpo, contrariando qualquer previsão. Aquele chão de giz estava registrado em seu coração, para que ela pudesse vê-lo depois de tantas tempestades. Na praça, o desenho misturava-se às folhas: uma jovem, deixando-se levar por um passageiro balão azul.

Notas finais
Espero muito que gostem, Another Story
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.