No velho farol da Baía da Anistia, Arthur Curry, famoso Aquaman, dormia em sua cama, enquanto sentia o sol dourado bater contra sua pele branca. Podia ouvir o som da maré, as ondas batendo contra as pedras, as gaivotas gritando e barcos navegando nas águas. Amava aquele som, desde que era pequeno, quando podia ouvir e sentir muito mais do que seus colegas de escola.

Tinha tido um sonho bom. Sonhara que estava sentado na beira do píer, com seu filho nos braços, observando o pôr do sol. Ele estava vivo, feliz, olhando tudo com seus olhos verde-água curiosos. Estava exatamente como Arthur se lembrava dele: pequeno, lindo, com bochechas rosadas e feliz. Mera estava ao seu lado, tocando seu braço e descansando a cabeça ruiva no ombro de seu marido. Ela estava sorrindo, como nos velhos tempos.

Sorrindo, ele esticou o braço, querendo encontrar sua companheira, mas logo percebeu que ela não estava.

— Mera? — Ele chamou, levantando um pouco a cabeça e afastando uma mecha loira dos olhos azuis. Ela não estava em lugar algum.

Seu tridente dourado estava encostado na parede, e sua armadura de escama estava jogada no chão, como se fosse uma camisa qualquer, assim como a malha verde de Mera. Ele sabia que seus colegas de equipe dificilmente seriam tão desleixados com seu uniforme, mas Arthur e a esposa dificilmente se importavam com isso quando o corpo deles estava ardendo de desejo um pelo outro.

Afastando o lençol branco e se levantando, Arthur andou nu pelo quarto, indo até onde estava sua calça de escamas e se agachando para colocá-la. O tecido era de material orgânico, parecendo simples e leve, mas era capaz de aguentar temperaturas altíssimas e era incrivelmente resistente, sendo capaz de aguentar pressões oceânicas que seriam capazes de esmagar um corpo humano como se fosse papel. Arthur a colocou como se colocasse uma calça normal.

Indo até a janela redonda que dava para o mar e olhando por ela, encontrou sua esposa, vestindo um roupão verde, e agachada no pier, olhando as ondas…

Não, percebeu, ela está formando algo.

Logo uma figura azul se formou e Mera parecia encarar ela.

Mera fez alguns gestos com as mãos, e logo as águas subiram e começaram a dançar, formando a imagem de seu pai, Ryus. Ou, para ser mais preciso, da armadura que ele usava. Lembrava-se de como ele tivera que passar a usar uma armadura negra que escondia seu corpo, já desgastado pela idade. Fora pouco depois da morte da mãe dela, quando ela ainda era uma criança.

Você não é mais minha filha; você é minha inimiga, uma pária…

A água ondulava a sua frente, formando a imagem perfeita de seu pai. Fria, azul e inumana.

Mera já quase nem se lembrava do rosto de seu pai. Fazia tanto tempo…

Está sozinha, assim como Aquaman.

A mulher de cabelos cor de brasa podia sentir as lágrimas se formando em seus olhos, borrando a sua visão.

— Mera. — Chamou Arthur, a assustando. Ela se virou, sobressaltada, e o corpo d’água se desfez, fazendo a água voltar ao mar.

— Arthur! — Ela disse, passando as pontas do dedo pelos olhos e retirando as lágrimas. — Você me assustou…

Seu marido se aproximou e colocou a mão nos ombros dela, preocupado com o estado dela.

— Quem era aquele? — indagou, olhando para onde a figura de água dura estava. Entretanto, apenas viu a maré calma. — Era alguém de seu povo? Alguém de Xebel?

Por um instante, ele sentiu uma leve pontada de ciúmes. Mera já fora princesa de um reino, uma guerreira ao lado de muitos homens; Era normal ela ter conhecido alguns homens naqueles tempos. Arthur não era bobo, também havia conhecido mulheres antes de Mera; entretanto, ele não pensava nelas, enquanto sua esposa, por outro lado…

— Era meu pai. — Ela disse, olhando para a mesma direção que ele, como se ainda pudesse olhar para a figura que havia formado ali. — Ele… Ele foi morto no golpe de Estado que o traidor Nereus fez.

Arthur conhecia a história: Nereus era um dos fiéis chefes de exército do Reino do pai de Mera; logo, quando o poder subira a sua cabeça, ele se revoltou contra seu soberano, visto que ele já era velho, fraco, tendo apenas uma jovem mulher como herdeira, algo impensável para uma sociedade tão cruel e patriarcal como Xebel. Em um último ato, ele conseguiu abrir um portal para que sua única filha fugisse.

Infelizmente, Xebel era uma outra dimensão, incapaz de ser facilmente acessada. Arthur não sabia muito além do que sua esposa lhe dizia, e, pelo pouco que ele ouvira, talvez tivesse sido bom ela ser exilada; Xebel era um reino duro, cruel, vivendo a base da luta e morte. Apenas os mais cruéis sobreviviam naquele mundo esquecido pelos deuses do mar.

Arthur sabia como era sentir saudades de uma figura paterna. Todos os dias que vivera naquela praia, seu pai sempre estava com ele no pier, observando o mar, e esperando pela mãe de seu filho.

Arthur também estivera lá com seu filho, mas isso fora há muito tempo… Ainda podia ouvir a risada dele, o calor de sua pele… Nada era mais lindo que o riso de Arthur Jr.

Lembrar-se daquilo o fez sentir um aperto no coração, mas ele o ignorou, como sempre o fazia.

Ele abraçou Mera, sentindo que ambos precisavam de um pouco de carinho.

— Sente muita falta dele, não é? — Ele indagou, enquanto a segurava em seus braços. Arthur sabia que ele e sua esposa sentiam falta de muitas pessoas. Era algo sobre o qual nunca falavam, uma dor muda que sempre os acompanhava.

Mera assentiu, mas não disse nada. Sua esposa era a pessoa que ele mais amava e confiava em toda a sua vida; mas ela ainda era da realeza, e, tal como Orm, parecia guardar muito para si.

— Mera, por que você não tenta ir até seu reino? — Ele perguntou, sentindo o coração dela bater. Sentia os seios dela contra a sua pele e o calor do corpo dela. Só o fato de estarem tão próximos o fazia querer tomar ela em seus braços, levar ela para a cama ou o fundo do mar, e fazer amor com ela, dar prazer para ela. — Podemos tentar ir para Atlantis e…

Mera abanou a cabeça.

— Não. — Ela disse, enfática quanto aquilo, como sempre foi em relação aquele assunto. — O que eu tinha já se foi há muito tempo, Arthur…

Ela está falando da realeza ou da nossa vida passada?, ele se viu perguntando, mas não tinha coragem de indagar aquilo para ela. Posso enfrentar a fúria de deuses e encarar todas as criaturas dos sete mares, mas nunca conseguirei encarar a verdade.

— Tem certeza? — Ele indagou. — Nereus…

— Já tomou o que era de meu pai. — Ela o interrompeu, irritada. Estava cansada de ter que continuar com aquela mentira, farta de sempre ter de ir contra o altruísmo do marido. — Meu pai já se foi, o povo de Xebel não tem nada para mim. Eles queriam Nereus, então que façam bom proveito.

Arthur pegou a mão dela, era pequena, pálida e com unhas naturalmente vermelhas-escarlate, e a levou para os lábios.

— Está bem, Mera. — Arthur respondeu, não querendo criar uma querela entre eles. — Será como você quiser. — sorriu. Era um sorriso triste e cansado. Fazia anos que ele não conseguia dar um sorriso genuíno como antigamente.

— Ora, Arthur, não vamos ficar com assuntos do passado. — Mera disse, passando a mão pelos braços do marido, que passou um deles pela cintura dela, a puxando. — Está um dia lindo demais para lamúrias.

Ele riu, feliz em vê-la sorrir. Mera tinha lábios de um vermelho profundo e brilhante, como se estivesse sempre de batom. E seus sorrisos eram sempre lacivos, mesmo que ela nem sempre parecesse ter esta intenção.

Arthur pegou uma mecha dela e brincou com ela, fazendo caracóis com dois dedos. Os cabelos dela também eram de um vermelho profundo e brilhante, sempre sedosos. Espessos, mas suaves como seda.

Ah, como ela era linda! E estava ainda mais linda sob a luz dourada do sol, com o roupão aberto e caído, expondo os ombros pontudos e os seios quase totalmente expostos. Ele e sua esposa não eram de usar muita roupa em casa, sempre ficando confortáveis em deixar os corpos amostra.

— Realmente — Ele disse, sorrindo, sentindo-se endurecer dentro dos calções de escamas, sabendo que Mera podia sentir o falo duro dele contra seu corpo. Puxou-a para si com mais força, olhando para o verde profundo de seus olhos, molhados e brilhantes; podia ver a euforia neles. —, está um lindo dia, pois você está aqui comigo.

Eles se beijaram, com os lábios quentes e sedentos se tocando. Suas línguas se entrelaçaram, dançando como duas enguias rosadas e gosmentas. Arthur alertou as nádegas dela com as duas mãos, sentindo ela empurrar a cabeça loira dele para frente com as duas mãos. Eles raramente se controlavam em seus encontros, de modo que, caso eles estivessem abraçando algum humano, este provavelmente seria esmagado pela força bruta deles.

Arthur queria rasgar o roupão da esposa e fazer amor sob o píer, sem se importar com quem quer que os visse, porém, antes que ele se deixasse levar pelos impulsos, Mera afastou a cabeça, separando os lábios deles.

— Aqui não… — Ela disse, sem fôlego, porém rindo. Ele sentia o calor do corpo dela, o tamborilar de seu coração batendo em uníssono com o dele, e o fervor do verde em seus olhos.

Ele a amava mais do que tudo que tinha.

Rindo, Arthur assentiu e passou um braço por baixo e ergueu a esposa entre seus braços, rindo. Mera também riu ao ser erguida, sem se importar com o roupão verde cair mais e deixar um de seus seios à mostra.

— Se nos virem nus novamente — Ela brincou, enquanto Arthur beijava sua clavícula —, vão acabar nos expulsando daqui!

Rindo, Arthur se virou, e correu pelo pier, indo para dentro do farol.

Por um momento, eles se sentiram jovens de novo, nos primeiros anos do relacionamento, quando tudo era aventuras e fazer amor loucamente. Por um instante, eles voltaram a ser felizes de novo, esquecendo da realidade.

Jackson olhava para a maré, em frente a sua casa. Estava na beirada entre a terra e o mar, com um monte de pedras à sua frente. O sal do mar já havia desgastado algumas, enquanto outras estavam cobertas de musgo. Ele sentiu o calor do sol bater contra sua pele escura e tatuada.

Jackson não sabia explicar, mas, quando estava perto do mar, ou, melhor ainda, dentro dele, cercado por água, ele sentia-se completo. Como se uma energia única vibrasse em seu corpo. A brisa marítima era um chamando-o para… para…

— Jackson! — Sua mãe, Dorothy, o chamou. — Venha filho, o almoço está pronto!

Jackson se virou, sorrindo.

— Já vou mãe! — Ele respondeu, voltando a olhar o mar e sentir a brisa. Era estranho explicar, mas era como se em momentos como aquele ele sentia-se completo. Sentia-se no lugar certo.

Dorothy se virou para o marido, Jonathan.

— Eu não gosto de como ele tem estado tão distante. — Ela confidenciou. — Não gosto dele estar tão perto do mar.

Jonathan passou um braço pelos ombros da esposa.

— Você sabe que um dia ele descobrirá a verdade, Dorothy. — Ele disse, mas tentando parecer gentil. — Não podemos esconder a verdade dele para sempre.

A mulher de pele escura tocou na mão do marido, mas ainda olhando fixamente para o filho. Ela sabia, em algum lugar de seu coração que ele estava certo, entretanto, não conseguia aceitar a verdade sobre aquilo. Jackson ainda era um rapaz jovem, distante de todo o mundo de pessoas poderosas e seus perigos…

Ao olhar para o local onde o seu filho estava, ela ainda podia lembrar-se e visualizar toda a cena novamente. A mulher de roupa verde e cabelos vermelhos como sangue saindo das águas; o bebê chorando em seus braços; a estranha caixa de conchas…

Ela vira aquela mulher novamente, nos noticiários; era a companheira do herói chamado “Aquaman” e morava há três estados dali. Várias vezes teve vontade de tentar encontrá-la, mas nunca a coragem para o fazer. Aquilo significaria admitir a verdade diferente da qual ela vivia, a verdade na qual criara aquele pequeno bebê como seu, a verdade em que Jackson era seu filho…

— A verdade é que ele é nosso filho — Declarou ela, lutando para não chorar, e sentindo um aperto no peito. — Isto é tudo que eu sei. Aumentou o aperto na mão do marido, como se estivesse tentando se sentir segura com aquele simples gesto.

Jonathan abanou a cabeça, sabendo que um dia, seu filho descobriria a verdade —seja lá o que ela fosse—, de uma forma ou de outra. Ele apenas poderia rezar para que Jackson ainda os amasse após descobrir tudo… E que nada abalasse a vida que eles tinham.

— Vamos, filho! — o pai o chamou, abanando o braço. — Sua mãe está esperando e logo já é hora de ir para a escola!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.