Aprendiz de Vampiro
1 Memórias
Mellanie
Era uma noite fria e tempestuosa. Eu estava pensando em apenas uma coisa, uma única palavra pulsante que se repetia mil vezes no meu subconsciente: sangue. Enquanto corria pelo asfalto negro de New York City, só pensava nisso. Estava confusa. Minha cabeça doía até não poder mais aguentar de dor.
Havia uma multidão de pensamentos em minha mente, mas a memória mais recente era também a mais assustadora. Ela ia e voltava, nunca parava. Era clara como o dia, coisa da qual eu temia mais do que tudo naquele momento. Me lembrava de como meu pai chegara em casa irritado, reclamando de tudo. As palavras de sua briga com minha mãe, as quais entreouvira pela porta do quarto, pairavam em meus pensamentos:
“- Grace, a sede é muito forte, não consigo aguentar mais.-” dissera meu pai. Era uma frase que, naquele momento, não fizera o menor sentido para mim.
“- Mas, Jack, você tem que se controlar. Pense no dano que poderá causar se tentar saciar essa sede. Todos estes anos você conseguiu se controlar. O que pode ter causado isso?...”- Houve uma grande pausa em que não tive coragem nem para respirar de tanto medo. “- Jack?” - perguntou minha mãe, aflita.
Foi nesse momento que o medo tomou conta de mim. Ouvi um barulho alto, como um rugido, e minha mãe deu o grito mais alto que já ouvira. Então, o grito cessou, e seguiu-se um silêncio perturbador, em que se poderia ouvir uma agulha caindo. De repente, comecei a ouvir passos fortes vindos em direção à porta. Segurei minha respiração e me colei à porta, esperando que quem — ou o que – estivesse saindo de lá dentro não me visse.
Meu pai saiu do quarto em disparada. Não sabia ao certo, mas podia jurar que havia visto um filete vermelho saindo de sua boca, e infelizmente sabia que não era suco de groselha.
Respirei fundo e adentrei o quarto dos meus pais. Foi então que desabei. Caí em prantos. Fiz isso, pois, no chão do quarto estava o corpo de minha mãe, totalmente dilacerado. Caí ajoelhada ao lado do cadáver e comecei a chorar. Não sabia nada do que havia acontecido, só sabia que em um minuto eu estava em meu quarto ouvindo música e no outro estava ali, ajoelhada ao lado do cadáver de minha mãe. Seus olhos, que sempre foram brilhantes e alegres, olhavam para cima, completamente opacos e vazios. Com meu polegar e meu indicador, graciosamente fechei-lhe os olhos.
Não aguentava mais ficar ali, vendo aquilo. Peguei um lençol, cobri o corpo de minha mãe e me virei para a porta para sair do quarto.
Estava quase chegando quando de repente, senti uma rajada de ar frio passando pela minha frente, e a porta subitamente se fechou.
Respirei fundo. Meu coração batia a não poder mais. Girei lentamente sobre meus calcanhares, suando frio. Não havia nada – ou pelo menos era isso que eu pensava.
De repente, me deparei com alguma coisa na minha frente, que vinha em uma velocidade sobre-humana.
As últimas coisas de que me lembro antes de cair dura no chão foi de ver o rosto de meu pai, totalmente desfigurado, vindo em direção ao meu pescoço, e depois, vê-lo com uma cara aflita, gritando: “O QUE EU FIZ?!”.
Não conseguia respirar. Não conseguia ouvir ou cheirar nada. Meus olhos olhavam para cima, mas não viam nada. E, o mais importante, não sabia se ia sobreviver. O único pensamento que passava por minha cabeça naquele momento era a imagem de minha mãe, com quem eu achava que havia acontecido a mesma coisa. Mas, era essa mesma a razão pela qual ela agora jazia morta no chão do quarto, e era isso que mais me preocupava.
Quando acordei novamente, me sentia diferente. Por dentro e por fora. Estava tonta, com vontade de vomitar. Tentei me levantar, mas cambaleei de volta ao chão.
Minhas pernas estavam dormentes, assim como todo o resto de meu corpo. Esperei alguns minutos e tentei novamente me levantar. Desta vez, consegui. Tentei dar um passo. Tombei um pouco para a esquerda, mas consegui me equilibrar.
Assim, dando um passo por vez, estando completamente nauseada, foi que consegui chegar ao banheiro.
A primeira coisa que fiz foi me olhar no espelho. Meu queixo quase despencou de meu rosto. Samantha Jonesolhava para o espelho, mas alguma outra pessoa desconhecida olhava de volta para mim.
Primeiramente, notei o total empalidecimento de minha pele. Estava branca como papel. Não, desculpe. Mais que papel! Meu cabelo também havia mudado. De uma cor preta-piche, havia passado para completamente loiro. Estava estupefata me olhando – ou ao menos achava que era eu a quem olhava – na frente do espelho.
Foi então que percebi um mínimo, mas muito importante detalhe: meus olhos.
Não sabia como, mas eles haviam passado de verde-água para um verde-escuro, o mais escuro que já havia visto.
Havia lido muitos livros em minha vida, e muitos não eram realidade. Ou pelo menos era isso que eu achava – até agora. As mudanças, a palidez, a velocidade com que meu pai havia me atacado. Sabia o que ele era, e sabia em que me havia transformado. Eu era, a partir de agora, uma vampira.
De repente, comecei a sentir uma sede enorme. Minha garganta estava tão seca que parecia que eu ia morrer de desidratação a qualquer minuto. A sede era tão grande que tomava conta de mim.
Saí do banheiro, ainda estarrecida. Não me acostumara ao novo eu, e andava com dificuldade. Andei até a cozinha. Abri a geladeira e peguei uma grande garrafa de água.
Enchi um copo até a boca e o bebi. Não foi o suficiente para saciar aquela sede. Bebi outro copo, e mais outro depois daquele. Não aconteceu nada.
Sabendo o que eu era, a verdade estava óbvia em frente ao meu rosto. Sabia do que precisava, mas era horrível demais para admitir. Precisava de sangue.
Foi aí que percebi outra coisa: não via meu pai em lugar nenhum. Procurei pela casa toda, e não o achei. Fui até a entrada da casa. A porta estava aberta de par em par, revelando a noite escura do lado de fora. Pensei no pior. Meu pai se fora, deixando-me sozinha com meu novo corpo.
Subitamente, sem nem querer, a raiva tomou conta de mim. Tudo isso era culpa dele. Ele fizera essa coisa horrível comigo e depois me deixara sozinha com esta nova forma de mim que conhecera há pouco tempo e já odiava.
Saí da casa, enfurecida. Fui até o meio da rua e urrei com todo o meu ser. E então, desatei a correr.
***
E é aqui que estou agora, correndo pela West Side Highway, que no momento está vazia. Não sei o que fazer, só sei que preciso saciar minha sede, e é esse o meu maior medo.
Saciar minha sede. Só consigo pensar nisso e no acontecimento recente. Enquanto a chuva fria tamborilava em meu rosto, eu não parava de correr. Eu tenho medo disso pois eu sei que para saciar minha sede tenho que tomar sangue... humano. Por mais que fosse agora vampira, minha sanidade humana não havia desaparecido, e eu não queria machucar ninguém, por isso resolvi ir ao hospital para chegar até o banco de sangue.
Corria em uma velocidade inumana, por isso em um minuto estava no Kings County Hospital.
Adentrei ao hospital correndo na mesma velocidade, assustando várias enfermeiras desprevenidas. Estava com pressa. A sede naquele momento era demais para aguentar. O banco de sangue era no fim do hospital. Infelizmente duvidava disso, mas rezei de coração para que conseguisse me segurar até lá.
A transformação havia me concedido um outro poder: audição aguçada. Por isso, enquanto passava pelo corredor, ouvia tudo o que acontecia nas salas.
Ouviam-se gritos de mulheres em agonia ao parir, choros de bebês recém-nascidos e vozes de enfermeiras dizendo: “Parabéns, é menino” ou “Parabéns, é menina”.
Ouvia tudo o que se passava, só não me permitia cheirar nada, pois sabia que o odor seria muito forte e eu não conseguiria me conter.
Por mais que não fosse mais humana, a necessidade de respirar não se fora, e sabia que não conseguiria conter a respiração por muito tempo. Estava certa.
Quando não aguentei mais, parei, e me deixei inalar ar uma vez. Infelizmente, foi o suficiente.
Havia parado em frente a uma maternidade, e tanto cheiro de sangue fresco era demais para mim. Não consegui me conter.
Saí correndo e tentei abrir a porta. Estava trancado. Então, me afastei, correi em direção à janela e entrei no quarto, quebrando a janela em milhares de estilhaços. O alarme começou a tocar, mas para o tempo em que os médicos chegaram para ver o que havia ocorrido, já era tarde demais.
Assim que entrei, comecei a morder os bebês. Eu não queria fazer aquilo, mas a nova parte de mim, a que dependia de sangue, falava mais alto.
Sentia o gosto amargo do sangue das crianças em meu paladar. Sabia que era errado, mas não conseguia parar. Mordia exatamente no mesmo lugar: entre o pescoço e o ombro, em um pequeno ponto. Rezei para que todos conseguissem sobreviver.
Só depois de saciar finalmente minha sede e voltar a mim mesma foi que percebi a gravidade do que havia feito. Havia transformado tantas crianças inocentes no monstro que eu agora era. Senti a maior vontade de chorar em minha vida, mas não consegui. Por mais triste que estivesse, as lágrimas simplesmente não saíam.
Ouvi uma multidão de passos atrás de mim, que de repente pararam. Quando me virei, vi pelo menos vinte médicos e enfermeiras vindo em minha direção. Uma moça com cara simpática e usando roupas de enfermeira veio, segurou meus ombros e disse:
- Calma, não vai lhe acontecer nada. É melhor você ficar conosco até sabermos exatamente o que ocorreu aqui. Qual é o seu nome?
- Samantha – respondi quietamente, em uma voz baixa.
A enfermeira percebeu minha cara de assustada e perguntou docilmente:
-Você sabe de algo que queira me contar, querida?
Balancei a cabeça, nervosa. Não podia ficar ali. Alguém acabaria descobrindo que havia sido eu a causadora de tudo aquilo. Aproveitei o momento em que todos estavam olhando para dentro da maternidade e fugi. Saí correndo, sem nenhum objetivo, apenas continuar correndo.
Teria que mudar meu nome, fugir desta cidade para sempre. Ninguém nunca poderia descobrir a verdade, a obscura e secreta verdade. A partir de lá, seria para sempre Mellanie Blake. Samantha Jones era uma simples garota normal. Mellanie Blake era um monstro. Era o que eu era agora, e sempre seria. O único em que conseguia pensar era nos rostos daqueles bebês inocentes, e de como eu, e mais ninguém, havia sido a causadora da destruição de suas vidas.
Notas finais
qualquer critica será bem vinda
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