Aprendiz de Sentimentalista

1 Único capítulo, por agora


Notas iniciais
Máscara da Morte de Câncer contraiu uma certa doença viral, chamada...
paixão.

ESTA É UMA FANFIC TOSCA, LAMECHAS, CHEESY, AÇÚCAR COM ADOÇANTE.

O Máscara tem muito ódio no coração e às vezes (muitas vezes) fala palavrões, então tentem perdoar o génio do cão e concentrem-se nas suas boas qualidades *cof cof*. Ele é uma criança revoltada e com a boca suja mas tem bom coração, eu prometo.

E sinceramente, essa fanfic não faz sentido nenhum, mas queria explorar como seria a interação desses dois personagens tão diferentes. Espero ter-lhes feito justiça, mas quem sabe... O que o coração de uma fujoshi quer, ele quer com muita força...

Podia-se dizer que Máscara não era um garoto amigável, verdade, tanto que o próprio corroborava isso; mas a verdade era que nem todo ele picava. Afrodite brincava com isso, referindo-se ao amigo italiano como a “rosa mais pura e espinhosa que já conhecera”. Que nem o próprio Afrodite conseguia ser tão mortífero e ao mesmo tempo tão honesto e humano quanto ele. Se era um elogio, uma ofensa, ou apenas uma observação... nem ele sabia. A verdade é que Afrodite o compreendia perfeitamente, escavando reentrâncias na sua alma e explorando à luz de meia-vela cada recanto dela. Os dois pareciam peças de um puzzle reencontradas, que encaixavam perfeitamente: demasiado perfeitamente. Foi aí que Máscara soube que, apesar da grande amizade que nutria para com Afrodite, nunca poderiam passar além disso. Ele não conseguiria, pelo menos.

—------

Nunca iria admitir uma única palavra acerca do fogo que o consumia por dentro.

Meu deus, como crepitava alto aquele fogo de labaredas flamejantes e possessivas.

Estava sozinho na sua loucura, sabia disso. Sempre soubera... Era diferente, não era feito do mesmo molde que os outros. Para o relembrar disso, Saga, a um templo abaixo, almejava tornar-se o novo grande mestre do santuário, era um exímio protector dos mais novos e um rapaz extremamente bondoso. Um templo acima, Aiolia, futuro cavaleiro de Leão e irmão do traidor... Talvez ele fosse páreo para a sua situação. Mas não, ele parecia demasiado absorto na dor de perder o irmão e de ser maltratado para pensar pensamentos doentios. Shaka de Virgem... bem, o signo falava por si só. Milo de Escorpião, demasiado ocupado a pregar partidas e ser mal comportado pra pensar nessas coisas. Para além que ele vivia colado na sola do tal Camus... E Aldebaran, a dois templos abaixo do seu, era o bom companheiro, demasiado bom, tão bom que até aborrecia e meu Deus, como aquela bondade toda entediava Máscara da Morte. Cozinhava para os esfomeados de Rodorio, descia à vila para alegrar o dia das pessoas com o seu sorriso perfeitamente branco, e acima de tudo, passava os dias conversando com o aprendiz de cavaleiro de Áries.

Agora Máscara tinha chegado onde queria: ao assunto que o importunava a altas horas da noite, que fazia os seus olhos a se estreitarem mais que o normal, como se fosse míope, que o incitava a fumar compulsivamente para se esquecer da sua mera existência.

Mas a verdade era que isso se lhe afigurava uma tarefa impossível: como se quisessem troçar dele, as florzinhas na encosta do seu templo eram nada mais nada menos que lavandas, puramente lilases; a fumaça do seu cigarro?, no céu da noite se tingia de roxo; e o objecto do seu desejo, lhe ignorava veemente.

Talvez devesse ter aceite a proposta de Afrodite, feita antes do sueco deixar o santuário para treinar. Ele ainda não havia sido moldado pelos treinamentos, o seu corpo era alvo como a neve e longilíneo; lembrava mais uma garota que um garoto. Quem os via juntos suspeitava do seu namoro, chegavam até ao cúmulo de o parabenizar pela ‘linda garota’ que conquistara. Quando os dois estavam sozinhos, riam dessas idiotices.

Mas agora Afrodite, o mais próximo que ele tivera de um amigo, tinha ido embora, e Máscara da Morte encontrava-se irremediavelmente atraído pela coloração violácea de uns certos cabelos (e pelo seu dono). Afrodite riria dele? Compreenderia o problema? Ajudá-lo-ia na sua loucura? Ás suas perguntas, obtinha um longo silêncio como resposta. Como fazia falta um conselho amigo naquela hora...

—--*---

O dia amanheceu escaldante. Logo às sete da manhã, o sol queimava na pele do italiano e o fazia suar como uma porca. Dormira pouco mais de três horas naquela noite, e por isso arrastar-se para os treinamentos era uma tarefa assustadora. Temia não conseguir sequer manter-se em pé, quanto mais lutar. Assim que o sol lhe alcançou os olhos, virou-se na cama e levantou-se imediatamente: quanto mais rápido fosse, mais rápido estaria de volta ao templo, que durante a tarde esfriava pois o sol não o fustigava com os seus raios importunantes. Seria a hora ideal para uma sesta, portanto. Vestiu uma túnica à pressa e pegou os protetores de ombros, joelhos e cotovelos e saiu depressa da quarta casa zodiacal.

— Que merda você foi fazer, Máscara – resmungava consigo mesmo ao sentir os raios de sol tostarem-lhe a pele. – Mais uma noite sem dormir, e o sol mandando um grande 'foda-se' para você.

Passou pela Casa de Gêmeos sorrateiramente, afinal parecia que Saga ainda estava dormindo e continuou até à casa de Touro. O brasileiro tinha o costume de se levantar cedo, por isso talvez o encontraria a pé e não teria de invadir o seu templo.

— Bom dia, Máscara da Morte – cumprimentou-o vivamente Aldebaran, sorrindo um de seus sorrisos brilhantes. – Passando para treinar?

— Tem de ser – retrucou entredentes. A boa disposição do taurino incomodava-o.

— Eu e Mu estamos tomando o desjejum ainda, você quer se juntar a nós? – convidou, ainda sorrindo.

Oh sim, era só o que mais faltava, uma maldição de cabelos roxos a cair em cima de si logo pela manhã. Fantástico.

— Eu—

— É, você já fez seu desjejum... Máscara da Morte? – o italiano sentiu a estranheza na voz do tibetano ao pronunciar o seu nome. Não era assim que se chamava um colega. Não era assim que queria que o chamasse... Não, não, o que é que ele estava a pensar mesmo? Máscara estava pouco se fodendo para essas palhaçadas de coleguinhas e amiguinhos. Estava apenas decidido em treinar, e ser o melhor ele que podia ser.

Mas a voz pausada e límpida, ainda não completamente atingida pela puberdade mas já profundamente calmante, o atingiu por completo naquele momento, tão completamente que, nauseado como estava por não ter comido e fumado logo pela manhã, cambaleou alguns passos para trás, desnorteado.

— Máscara? Máscara! – logo viu, de relance, o brasileiro levantar-se rapidamente do seu assento e amparando-o nos braços firmes. Máscara sentiu um impulso de o empurrar e sair correndo, mas estava demasiado tonto para isso. Levou a mão à cabeça, sentindo a testa quente. Todo o seu corpo lhe parecia pesado e pegajoso...

— Posso ver que não tomou café hoje – repreendeu Aldebaran, como quem ralha com um filho rebelde. – Você vai sentar aí até comer tudo o que eu lhe der. Sem resmungar!

O brasileiro saiu do cómodo para preparar algo ligeiro ao rapaz, deixando-o assim sozinho com ninguém menos que... Mu.

O jovem de cabelos lilases tinha ficado estático ao ver o italiano perder o equilíbrio, não se levantando nem fazendo perguntas. Vá lá. Pelo menos por isso Máscara estava agradecido. Mas logo se apercebeu que, primeiro: eram menos de nove da manhã, e ele sempre tinha o gênio do cão nessas horas; segundo, tinha acabado de fazer figura de fraco, quase desmaiando; e terceiro, estava sozinho no cómodo do Templo de Touro com o garoto tibetano. Sim, aquele dia tinha começado da melhor forma possível...

Um silêncio constrangedor se abateu sobre os dois; Máscara estava decidido a não dirigir a palavra a Mu, e parecia que o outro retribuía o gesto.

— Máscara, você não tem outro nome? – ah, que pena me ter enganado, pensou o italiano amargurado. Sentiu os olhos do outro sobre si, mas não se virou para o encarar.

Se ele tinha outro nome? Claro que tinha. Aquele nome... o nome que guardava a sete chaves num canto do seu coração, protegido pelo tempo e pelas memórias que teimavam em não lhe dar descanso... memórias de tudo o que tinha perdido na vida; memórias vagas do nome que não fazia mais sentido, se não podia sentir os braços dela aconchegando-o antes de dormir.

Afastou rapidamente os pensamentos daquele lugar sombrio; por agora, não queria banhar-se na dor que lhe dilacerava o peito cada vez que sentia o seu foco desviar-se para as lembranças da sua infância, daquele dia e de muitos outros.

Apesar da sua língua e coração afiados, Máscara da Morte não era tão mortífero assim. Era, nos termos mais simples, um garoto que cresceu muito em um pouco espaço de tempo.

Sentiu-se tentado a revelar-lhe, só a ele, ao ouvido, o seu nome; mas a cobardia, tão sua fiel amiga, o puxou para trás, convencendo-o a não arriscar demais ou arcaria com as consequências dos seus actos.

— O meu nome é Máscara da Morte – respondeu frio, sem tirar os olhos da mesa de madeira de castanho à sua frente.

Percebeu os olhos do tibetano mudarem de foco, concentrando-se agora no prato de desjejum que lhe havia sido oferecido: um prato amarelo, com a cor desbotada e algumas imperfeições de fabrico, cheio de nacos de variados queijos e artigos de charcutaria, assim como maçã, pêra e melancia cortadas às fatias. Máscara observou o prato do outro com os olhos abertos e atentos, até ser forçado por um forte ronco estomacal a desviar o olhar, envergonhado.

Mu virou-se preocupado para ele.

— Pode servir-se do meu prato, Máscara.

— E-e-eu—gaguejou atrapalhadamente, mas antes que continuassem aquela conversa estranha e sem sentido, Aldebaran voltou da cozinha com um prato cheio de iguarias e coisas boas, coisas que cairão muito bem num estômago vazio, pensou Máscara da Morte, sentindo o referido órgão dar um solavanco audível. Aldebaran pousou o prato na mesa com um baque e foi sentar-se ao lado de Mu, pegando uma fatia de maçã no seu prato e mastigando vigorosamente.

— Tudo isso? – perguntou Máscara, incrédulo.

— Tudo isso – sorriu Aldebaran do outro lado da mesa. – Nem vem que não tem fome. Você precisa se alimentar direito, rapaz. É pra comer tudo!

— Acho que o Máscara tem mais que muita vontade de fazer isso, Alde – riu Mu. Subitamente, o italiano sentiu um bolo nada agradável na garganta, e tratou de engolir em seco, esperando que ninguém repararasse na sua atrapalhação.

O resto do desjejum desenrolou-se sem maiores problemas, com o italiano evitando ao máximo o diálogo com os outros dois aprendizes. Enquanto saboreava as iguarias que o brasileiro lhe servira, matutava sobre algo que lhe contraíra o peito mais cedo...

Que nome idiota... Rapaz idiota!

Máscara seria ainda mais idiota, se fosse possível. Eram todos idiotas, e ele estava metido numa grande alhada.

Os seus pensamentos deixaram de fazer sentido, complicando-se tanto que o próprio Máscara falou um ‘dane-se’ mentalmente e concentrou-se na refeição à sua frente (e que refeição! Mas aquele prato nunca mais esvaziava!). Ao seu lado, Mu e Aldebaran abordavam vários tópicos de conversa, a maioria deles bem leves e inocentes, se bem que Máscara jurou ter ouvido um deles mencionar uma festa qualquer, Milo de Escorpião, garotas, confusão e sexo. O italiano estava por demais familiarizado com tais temas, mas não estava de todo à espera de ouvir tais palavras de garotos bem comportados como aqueles.

Terminada a refeição, levantou-se abruptamente, atraindo sobre si os olhares curiosos dos outros dois.

— Vou indo treinar para a arena – falou depressa, jurando para si mesmo que com um pouco menos de cuidado teria comido sílabas. Odiava o seu jeito de ficar nervoso quando tinha que agradecer algo, ou despedir-se... – Obrigado, Touro, Áries. A gente se vê por aí. Tchau – saiu rapidamente, quase correndo, antes que algum deles pudesse reivindicar. Quando estava quase a alcançar a porta do cómodo, no entanto, sentiu alguém levantar-se.

— Espera por mim, Máscara! – Mu chamou, correndo ao seu encontro. Fantástico. Era só o que mais faltava.

— Sabe, eu realmente estou com pressa—

— Que é isso, Máscara? – cortou o brasileiro, levantando os pratos dos três. Parecia ligeiramente chateado. – Mu está pedindo pra você esperar porque eu ainda tenho que tomar banho e desço depois. Só isso. Tem algum problema?

Máscara não respondeu, nem olhou para trás; apenas correu automaticamente para a saída do templo, pegando seus pertences pelo caminho e não se atrevendo a ver se algum deles o seguia. Chegado à entrada do templo, encostou-se a uma pilastra grossa, arfando vigorosamente com as mãos nos joelhos trementes.

— O que deu nele? – perguntou-se Aldebaran. – Pode tentar apanhá-lo ainda, Mu. Sei que não costuma ir para a arena, então é melhor alguém ir com você enquanto eu me arrumo.

— Obrigado Alde! – gritou o ariano, correndo pelo templo também. É claro que não ia encontrar Máscara da Morte. Como se o italiano quisesse realmente esperar por ele...

Mu foi caminhando mais calmamente, suspirando derrotado: seria um problema encontrar a arena sozinho. O melhor seria voltar para trás e esperar por Aldebaran.

No entanto, dar uma vista de olhos à entrada do templo encontrou ninguém menos que o rapaz de rebeldes cabelos azuis, encostado a uma pilastra, cansado da correria anterior. Caminhou até ele apressadamente, esperando o outro não fugir.

— Máscara? – perguntou baixo. – Porque fugiu de mim? – realmente, a pergunta soava muito mais ridícula quando dita em voz alta...

Máscara da Morte ficou com a cara de quem tinha acabado de levar com um balde de água fria quando viu o tibetano à sua frente, franzindo o cenho.

— Espere, não fuja de novo! – adiantou Mu antes que o italiano fizesse alguma coisa brusca. – Eu só preciso de ajuda para achar a arena.

— Deve estar de sacanagem – retrucou o outro, cortante.

— Saca--Como assim sacanagem? – Mu franziu o cenho, para em seguida desfazer a expressão num abano de cabeça. – Só preciso de ajuda. Eu não costumo treinar na arena, e não me lembro bem do caminho. Alde está se preparando, então eu pensei que pudesse descer com você.

Qual seria a intimidade entre Áries e Touro?, perguntou-se Máscara. Pelo uso do apelido carinhoso, devia ser grande. Há quanto tempo se conheceriam? Será que brincaram juntos e agora lutavam juntos? Sem dúvida, era uma história interessante... Uma história, quem sabe, de amor...

— Máscara da Morte? – Mu tentou, ao ver a expressão meio aluada do outro.

— É, eu vou descer – o italiano pôs-se em marcha rápida novamente, esperando o ariano não ser rápido o suficiente para o acompanhar. As pernas consideravelmente mais pequenas deveriam ser uma desvantagem. – Não me segue.

— Eu só preciso de ajuda...

— O Grande Mestre por acaso não lhe ensinou como chegar na arena? Tanta coisa com esse mestre e afinal não lhe ensinou o que devia. – retrucou Máscara azedo, prosseguindo de queixo erguido, deixando o ariano para trás.

Se Mu tivesse sobrancelhas, estaria franzindo-as no momento, numa careta de desagrado.

— Eu vou-lhe seguir na mesma – Mu murmurou entre respirações. – Você é sempre assim tão antipático?

— Aff, que merda – Máscara bufou, pulando de uma pedra para outra que estava a uma distância considerável. – Tudo bem, segue à vontade, mas eu não me responsabilizo por você, ó...

Pronto, estava acontecendo de novo! Após pular entre as pedras, Máscara virou-se para trás a contragosto. Que se dane, por muito filho da puta que fosse não podia deixar o pupilo do Grande Mestre morrer tentando chegar na arena. E assim acabou vendo o tibetano cerrar os olhos, contrair a cara e desaparecer. Sentiu-se empalidecer quando o perdeu de vista. Já percebera que o rapaz possuía capacidades telekinéticas, mas isso não o impedia de não saber o caminho para a arena. Merda, e agora?

Deu meia volta, só para ver o idiota encarando-o, apoiado na pedra, de olhos ainda fechados e com um sorrisinho sacana no rosto.

— Ah, muito bem – resmungou em voz baixa. Ia acrescentar mais, talvez prosseguir conversa, mas.. não! Teria de se controlar, ou acabaria arruinando tudo como das outras vezes. Já esgotara seu leque de opções. Ou agora dava certo, ou ele bem podia ir embora do santuário para sempre.

Prosseguiram o resto do caminho em silêncio; Máscara, por querer falar com o outro mas se impedir de o fazer, talvez por medo de uma rejeição ou que não fluísse como ele esperava; e Mu, porque para além de ser calado por natureza, estava ocupado estudando Máscara da Morte.

Chegaram à arena cerca de cinco minutos depois; esta estava ocupada por vários aprendizes de cavaleiros de prata, e os próprios mestres que os treinavam arduamente sob o sol grego. Ao longe, viu Shura acenar-lhe energeticamente, com um brilhozinho nos olhos negros. O seu mestre repreendeu-o imediatamente com um tabefe na cabeça, do qual o espanhol se queixou mudamente, fazendo caretas de desgosto. Máscara achou piada e soltou um risinho, mas achou melhor não ir ter com o amigo se o mestre estava por perto. O mestre de Shura podia ser um pé no saco...

— A gente podia treinar junto hoje – ouviu alguém falar à sua direita.

Claro que o maior pé do saco era o aprendiz a cavaleiro de Áries, mas isso era a opinião pessoal de Máscara da Morte...

Ok, teria de arranjar uma maneira de o dispensar sem ser rude, mas como? Saga não estava à vista, por isso não o podia encaminhar a ele... Hm, Aiolos!

— Vem comigo, Mu.

— Eu não percebo porque eu não posso treinar com você – o ariano murmurou.

Máscara quase parou no sítio. Será que ele queria... ele estava insistindo?

Como fruto da sua indecisão e surpresa, fitou Mu durante um bom tempo com os olhos azuis muito abertos e fixos na cabeça do ariano.

— V-Você quer treinar?

— Sim. Eu nunca treinei com você – disse Mu simplesmente, sem tropeçar nas palavras, tão ao contrário do italiano.

Máscara da Morte (oh! A ironia de ter um nome tão cruel quando o seu coração se assemelhava a nuvens de algodão doce cor-de-rosa no momento) ficou embasbacado a contemplar a afirmação, ponderando aquilo tudo. Ponderou sobre o que sentia, o que não sentia, o que pensava estar a brotar no seu peito teimosamente, por muito que o quisesse calar, sobre a determinação discreta que viu de relance nos olhos de Mu, os cabelos que brilhavam à luz do sol... Quem era ele para pensar em tais coisas? Ele... Aprendiz a Cavaleiro de Câncer, siciliano de gema forjado a ferro e fogo pelas provações duma vida cruel, aquele que prometera ser tão cruel quanto o próprio destino! Ele não tinha tempo para merdas sentimentais. Estava a ser absolutamente ridículo.

Se o ariano queria treinar, não tinha mais do que encará-lo como um igual, apesar da diferença de idades, e lutar.

—O-Ok. Vamos para o outro lado – Máscara apontou o lado oposto da arena e o mais novo o seguiu até lá, onde estavam treinando alguns aprendizes mais novos como Milo de Escorpião e Aiolia, o irmão do traidor.

O sol, como de costume, já brilhava demasiadamente para os olhos do italiano, era sempre assim em Atenas, dez da manhã e já o suor lhe corria por entre os músculos, mesmo antes de começar o treino.

Lembrou-se do mais novo a seu lado, e como que instantaneamente não pôde evitar olhá-lo de relance. Não era como se houvesse mais alguém para quem olhar...

Mu parecia leve, alheio à realidade brusca e violenta à sua volta. Os olhos verdes brilhantes e puxados alternando entre lutas dolorosas e o céu azul ateniense. Viu-o pousar o olhar no mar Egeu, ao longe, esbatido contra o azul do céu, e não evitou compadecer-se, Máscara imaginou estar a sentir o que Mu sentia, se ele sentia algo, devia estar pensando sobre a sua casa, as famílias abandonadas, outras destruídas. Como teria sido para ele? Haviam-no arrancado à força de um lar aconchegante ou seria agora no santuário que conhecia os primeiros raios de humanidade? Máscara da Morte perdeu-se em contemplações, os olhos não desgrudando do céu tão brilhante.

— Máscara da Morte... Máscara? Posso-te chamar assim? – ouviu Mu interromper os seus devaneios à sua direita. Olhou de novo para ele, apesar de ser doloroso – era doloroso porque mais tarde ou mais cedo ia ter de se apartar daquela visão, não se poderia perder nele quanto tempo quisesse.

— Hm. Vamos treinar – o italiano levantou-se lentamente, estalando os músculos dos braços em seguida, para preparar o corpo. – Você é bom em combate físico?

— Eu não sou mau – Mu respondeu, e Máscara não pôde deixar de notar o quanto a resposta do ariano lhe tinha agradado.

— Nada abaixo da cintura, viu. Golpes baixos não valem – esclareceu Máscara, retirando as mãos pomposamente colocadas da cintura e fechando-as em punhos, erguendo-as ao nível da cara. Ocultando Mu do seu campo de visão. Merda, não ia ser capaz de lhe acertar um soco se o conseguisse ver.

— Tudo bem – Mu assentiu, sorrindo. Afastou as pernas, colocando-se em posição de combate, esperando o sinal de Máscara da Morte.

Máscara sabia que teria a vantagem – era óbvio: ele, mais velho e mais forte; Mu, mais novo, frágil e com uma complexão de quem ficaria sem ar ao subir todas as escadas do santuário. Não podia ser muito brusco com o menino; e sabia disso, mas o pior era que ele não queria – ele nem queria fazer isso pra começo de conversa, e essa conclusão imediatamente azedou o humor já de si azedo de Máscara da Morte.

“Pense no Milo. Pense que esse é o Milo, o escorpião maluco. Pense naquela vez em que ele foi no seu templo pegar comida e não estava a contar com a sua presença. Pense na cara impagável do idiota quando você lhe acertou o primeiro soco.”

Esperava profusamente que o exercício mental tivesse resultado – se olhasse a cara do tibetano perfeita como um anjo e os olhos verdes o mirassem de volta, perderia a coragem e motivação que havia construído. Se era isto que ele queria, ele teria-o.

— Agora! – o moreno bradou, lançando o corpo forte contra o ariano num movimento súbito.

Mu estava preparado, porém, e rapidamente se defendeu com um bloqueio do que teria sido certamente um murro muito doloroso no ombro direito. Máscara da Morte aplicava golpes de todos os tipos e feitios – socos mandados ao calhas, pontapés estratégicos que o tentavam fazer cair oportunamente, mas apesar desse pequeno senão, o italiano era um lutador justo. Se Máscara tinha força, Mu tinha perícia, e sabia sempre para onde se desviar a fim de evitar um golpe demasiado árduo. Máscara continuava a fazer chover sobre si uma chuva de socos, mas Mu percebia que gradualmente eles iam perdendo em intensidade. Assim que, quando o sentiu cansado o suficiente (apesar de o italiano, bravo como um cão de caça, não deixar de o golpear por um único momento), aproveitou para desferir um golpe no abdómen, por cima do osso da cintura no lado esquerdo. Talvez tivesse sido demasiado agressivo, ponderou o de cabelos lilases ao ver Máscara da Morte agarrado à barriga, grunhindo no chão.

— Merda – o italiano praguejou, sentindo a dor agudizando no seu abdómen. Definitivamente o golpe apanhara-lo de surpresa, não contava que o ariano conseguisse realmente servir de adversário. Quando se lembrou que fora realmente Mu a desferir aquele soco, a dor pareceu intensificar-se mil vezes. Como era possível uma criança tão calma e solitária, que parecia tão pacífica e apologista da não-violência, fazia uma coisa daquelas? Que droga, pensou enquanto sentia que a qualquer momento ia chorar. A dor era demasiado intensa. (Sabia que aquela dor era mais do que um murro, mas não ia entrar por aí agora).

Mu devia ter estado chamando-o por uma eternidade, porque Máscara só se apercebeu que o mais novo estava ajoelhado a seu lado quando o cabelo lilás caiu sobre o seu ombro direito, numa carícia leve. Sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, como se tivesse levado um choque elétrico. De repente ficou sóbrio, e o mundo à sua volta começou a entrar em foco. Virou a cabeça dolorosamente por cima do ombro, e sussurrou:

— Você não é mau, ein.

Mu estava dizendo algo, mas parou ao ouvir a voz grave do italiano interrompendo o seu monólogo.

— E... – Máscara começou, desviando os olhos do ferimento para o céu acima de si; a sua garganta deu um nó, o coração um solavanco furioso no seu pescoço quando encarou Mu, a centímetros da sua cara, os olhos esmeralda muito abertos, preocupados. Desejou infimamente que o momento durasse. Enquanto durasse estaria bem. Deixou os lábios entreabrirem-se ligeiramente, os olhos azuis perfurando incisivamente a visão do outro.

Ao olhar para ele, sentia-se como se Mu lhe tivesse desferido outro golpe certeiro. Desta vez, bem mais acima no peito.

Notas finais
Continuarei, ou não. O futuro é incerto... ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.