Merlin andou com seu cavalo, mas logo teve que puxar as rédeas, pois nenhum dos dois os seguira:

—O que foi? Você não estava ansioso para encontrar com os druidas, Arthur Pendragon, príncipe de Camelot? —perguntou o mago, pronunciando aquele nome com orgulho, carregado de sentimentos misturados e confusos que beiravam a tristeza e a saudade.

Bern não teve coragem de dizer nada, apenas desviava o olhar de Arthur para Merlin, de Merlin para Arthur. Em poucos segundos, Arthur conseguiu driblar a própria surpresa e disfarçar:

—Vamos acampar por hoje! Na verdade meu servo precisa descansar!

—Eu não precis... —e ao perceber o olhar de Arthur. —Sim! Preciso descansar.

Merlin riu e murmurou consigo:

—É sempre cansativo servir um Pendragon—e desceu do cavalo.

Bern começou a juntar gravetos para acender uma lareira

—Eu faço isso, descanse—disse Merlin, tomando aquela tarefa para si com uma alegria que não experimentava há muito tempo.

Arthur se sentou, pensando em como poderia abordar o assunto que queria. O mago logo pousou os gavetos no chão e começou a construir uma pequena fogueira. Enquanto isso teve a chance de observar o jovem príncipe. Achou-o muito parecido com o pai. Agora notava as poucas diferenças: seu cabelo não era tão loiro, puxava para o castanho claro, assim como os seus olhos. Mas, a maneira de falar, a voz, a postura com a qual andava e cavalgava eram idênticas às do falecido Rei.

Um pouco desabituado em acender o fogo sem magia, teve alguma dificuldade e se lembrou de quando Arthur, próximo da morte, sugeriu que acendesse usando magia...

—Então, —começou Merlin, tentando afastar um pouco aquela lembranças. Porque o tempo pode curar qualquer ferida, mas faz desgraças quando o assunto é saudade... —o que aconteceu para vocês precisarem procurar os druidas?

Bern encarou Arthur em pânico. Completamente controlado, o jovem começou:

—Qual a sua opinião sobre magia?

—É proibida em Camelot.

—Isso não é uma opinião, é uma informação.

—O melhor que posso dizer, já que a opinião de uma pessoa comum como eu não deve ter importância.

—Se não tivesse importância eu não perguntaria.

—Se quer saber sobre os druidas que irá conhecer, são um povo pacífico.

Arthur não esperava que Merlin articulasse tão bem suas saídas e Merlin não esperava que Arthur fosse tão astuto em suas perguntas e argumentações. Puxou essa parte de Gwen, ele imaginou.

Para o jovem Pendragon aquele era o momento em que tudo poderia mudar. Não parecia ser fácil tirar respostas daquele homem. Decidiu alterar o rumo da conversa:

—Merlin, você foi servo do meu pai, não é?

O mago parecia surpreso. Há anos, quando o pequeno príncipe nasceu, ele mesmo decidiu com Gwen que qualquer coisa que relacionasse Merlin e o Rei seria deixada fora de questão, no dia em que o maior mago de todos os tempos e a Rainha decidiram juntos os rumos do futuro de Camelot.

—Quem te contou isso?

—Gaius.

—Gaius! —percebeu. Fazia sentido, devia ter cometido um deslize em avisá-lo. Ou após tantos anos, o curandeiro podia imaginar que não havia mais importância dizer. —Bem, sim, eu fui servo do seu pai por muitos anos. Desde a nossa juventude até o dia em que ele se foi.

—Em Camlann.

Merlin se sentiu incomodado e sentiu uma onda de tristeza ao ouvir aquele nome. Mesmo assim, retornou com um sorriso gentil:

—Sim, em Camlann—e moveu alguns gravetos na fogueira para alimentar o fogo.

—Você pode me contar como foi? Como foi a batalha em Camlann?

O mago ergueu as sobrancelhas:

—Talvez um dos cavaleiros possa te explicar melhor. Eu sempre segui o seu pai, mas eles atuaram ao lado dele na batalha.

Arthur abaixou o olhar. Nada daquilo estava funcionando... Queria que Merlin revelasse que possui mágica, mas parecia agora que ele nunca iria fazê-lo. O mago continuou:

—Mas, eu posso te contar que o seu pai foi sempre o mais corajoso e forte guerreiro que eu já conheci. Ele foi um grande homem, um grande amigo e um grande Rei, para toda a Camelot. Ele sempre se sentia responsável por todos e sempre fazia de tudo para que todos estivessem protegidos e felizes. Seu pai não foi só um rei para um reino. Ele foi o Rei para o reino.

Merlin percebeu que surpreendeu o rapaz. Imaginou que talvez as pessoas não conversassem sobre Arthur com ele.

—E... O meu pai sabia sobre você? —abordou Arthur.

—Sabia sobre o que?

—Que você tem mágica.

—Aquele terremoto foi realmente...

—Não precisa mentir. Eu sei que você é Emrys. O grande mago que derrotou os saxões na batalha de Camlann.

—Você está enganado.

—Não estou, o goblin me contou!

—O goblin? Que goblin?

—Aquele que está preso na biblioteca real.

Merlin riu. Fazia tantos anos...

—Ninguém nunca te disse que não deve se confiar nos goblins?

—Aquele bicho era para não existir! Então eu sei que você é Emrys! Ele me disse o seu nome: Merlin, mesmo eu sem saber que esse nome existia! Eu só conhecia a lenda!

—Lenda? —perguntou, um pouco pasmo com aquilo tudo.

—Sim! De Emrys!

Por mais que Kilgahrrah, o dragão, tivesse dito que seus feitos ficariam na memória dos homens por muitos anos, não imaginava que chegaria a se tornar uma lenda.

Sem confirmar sua identidade, insistiu:

—Então, você estava procurando os druidas porque precisa de mágica. O que aconteceu?

Arthur se levantou, fechou as duas mãos e balbuciou algo, seus olhos ganharam um rápido flash de uma cor alaranjada e ele abriu as mãos: uma pequena borboleta surgida do nada, saiu da sua palma e voou livremente para longe dali:

—Eu sou Arthur Pendragon, príncipe de Camelot. E eu tenho mágica.

Antes que Merlin pudesse expressar alguma surpresa, seus sentidos perceberam algo se aproximando há poucos metros dali. Usou sua mágica e percebeu os cavaleiros que se aproximavam

—O que foi? —perguntou Bern.

—São cavaleiros. Devem estar procurando por você—disse olhando para Arthur.

—Vamos fugir! Eu não posso voltar agora!

—Não, Arthur. Você volta agora. Se formos até os druidas os cavaleiros seguirão o nosso rastro. O acampamento será atacado por eles.

—Eu não quero saber dos druidas! Eu queria encontrar você! Você precisa me ajudar com essa mágica! O que eu faço?!

—Eu vou ajudar você. Mas, esse lugar não é seguro. Eu te peço, volte para Camelot. Eu prometo que volto para ajudar você!

Arthur afirmou com a cabeça concordando. Merlin aproveitou para chamar a atenção dos cavaleiros. Logo Sir Percival o viu e cavalgou, liderando outros três cavaleiros, até a sua direção:

—Acho que vocês estão procurando por esses dois, Sir Percival.

—Merlin! Como vai? Faz anos que eu não o vejo! Como os encontrou? —surpreendeu-se Percival, dando tapa em seu ombro, um tapa gentil do ponto de vista de um cavaleiro, uma brutalidade do ponto de vista do mago.

Massageando o ombro, ele respondeu:

—Eles estavam perdidos. Eu os levava de volta para Camelot.

—A Rainha ficará satisfeita! —afirmou e estapeou o ombro de Merlin novamente e ele apenas se perguntou por que era aquele tipo de 'recompensa' que sempre ganhava quando estava perto dos cavaleiros.

O príncipe e seu servo se levantaram, já montando nos cavalos. Percival se despediu:

—Merlin, é incrível, você não envelheceu um único dia desde a última vez em que eu te vi!

—Tenho certeza que envelheci, Sir Percival—disse sem se dar conta da sua aparência, mas tendo a certeza do peso que os anos adicionaram ao seu coração.

Os cavaleiros e os dois rapazes se distanciaram deixando o mago para trás. Arthur olhou algumas vezes para trás com expectativa e encontrou o olhar confortador de Merlin.