Aprender
1 Aprender
Atena fechou mais um livro, suspirando, e fechou os olhos, exausta. Ele tinha cerca de duas mil páginas, todas falando sobre diferentes tipos de computadores e outros aparelhos tecnológicos, uma verdadeira enciclopédia. E, mais uma vez, não lhe dera nenhuma informação que já não soubesse. Mais uma vez.
Poderia até não parecer, mas a deusa odiava reinar logo a sabedoria. Poderia ser os mares, como Poseidon. Ou poderia viver caçando, como Ártemis. Mas não. Tinha que ser a deusa sabe-tudo, aquela que nem teve direito a uma infância. Preferiria ter nascido bebê e passar esse tempo na barriga de Cronos a ter nascido adulta.
Ela invejava seus filhos.
Eles aprendiam com rapidez, tinham preparo mental para isso, mas descobriam coisas novas. A cada dia, aprendiam, o que a deusa não poderia fazer, cercada pelas grades de sua sabedoria e inteligência. A deusa já sabia de tudo possível, desde nomes inúteis da história até quantos quilômetros quadrados a Terra tem.
Conforme lia, confirmava aquilo, sabia de tudo das páginas, completava as frases mentalmente antes mesmo que terminasse de lê-las. Em livros de ficção, era tão inteligente que já adivinhava o final nas primeiras páginas, sabia todas as línguas do planeta, ela era a deusa que tinha todas as respostas, e detestava isso.
Ela tacou o livro na parede de seu templo, lágrimas nunca derrabadas em seus olhos cinzentos. Uma vez, pedira para Apolo que lhe ensinasse a pintar, porém, logo na primeira aula, se mostrou quase tão talentosa quanto ele. Em seguida, pediu a Ártemis para lhe ensinar a atirar com o arco e flecha. Mais uma vez, sucesso em questão de segundos. Depois, implorou a Hefesto que lhe instruísse como montar máquinas, mas foi bem sucedida imediatamente, pois instruções do além simplesmente surgiam na sua cabeça.
Nos últimos séculos, vinha tentando encontrar o limite de seu cérebro, mas ele não parecia existir. E isso era aterrorizante. Pensava, pensava, pensava e pensava, esperando a hora em que ia pifar, mais nunca acontecia. Atena não tinha motivos para viver, mas também não podia morrer. O que move a todos na vida é aprender. Aprendemos a cada dia, mesmo que seja algo estúpido, como o fato de a mulher que vende balas na esquina nunca ter pintado o cabelo. Mas ela não. Ela sabia de absolutamente todos os fatos do mundo, e gostaria de deletar tudo aquilo de sua mente, apenas para ter a emoção de aprender.
Atena saiu de seu templo, caminhando pelas ruas do Olimpo. Ninfas e sátiros vinham adora-la, mas os dispensou com um gesto. Entrou no elevador que dava para o Empire State, e começou a descer para o térreo. Era hora dos mortais, os burros e adoráveis mortais a distraírem de sua dor.
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