Aprendendo a Seduzir

29 Capítulo 28 (final)


Notas iniciais
Disclamer: Saint Seiya não me pertence, o que é uma pena realmente XD

Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia

Aviso: Capítulo com altas doses de limão e açúcar, consumam com moderação XD

Milo POV

– Milo! – Minha mãe gritou da cozinha para se sobressair a balbúrdia de vozes que enchiam a casa. Na minha família só existiam dois volumes: alto e mais alto.

Nós estávamos na nossa casa em Mikonos. Cinco meses havia se passado desde aquela explosão no Plaza. E, diferente daquele Fevereiro nebuloso em Manhatan, o céu de Julho estava azul e o sol brilhava forte sobre as praias pedregosas e o mar turquesa da ilha, onde nos reuniramos para o casamento do meu irmão caçula.

– A banda já está pra chegar – ela continuou quando conseguiu driblar as crianças correndo no caminho e me alcançar no pé da escada -, você precisa ir buscá-los no porto.

– Mãe – eu reclamei -, eu tenho que encontrar o Camus.

Fazia dois meses que eu tirara o gesso da perna e três dias que meus irmãos e eu foramos praticamente compelidos a vir pra ilha ajudar a família com os preparativos do casamento. Camus não pudera vir comigo por causa de alguns assuntos que tivera que resolver na empresa, mas prometera estar presente na igreja, e, segundo a mesagem de texto no meu celular, havia desembarcado há exatos quarenta e cinco minutos.

– Camus, Camus... – tia Diane apareceu se queixando. Tia Diane era a irmã mais velha de mamãe. Minha mãe tinha doze irmãos e eu, vinte e oito primos. Só de primeiro grau. Minha família era grande e barulhenta e estavam todos sempre juntos falando, comendo, e se metento uns nas vidas dos outros.

– Desde que chegou que ele só sabe falar nesse rapaz... e esses cabelos compridos – ela apontou para os meus cabelos. — ... Você deveria trazer esses meninos de volta pra casa, Anita, e casá-los logo. Estão ficando velhos!

Eu suspirei.

Minha tia dizia isso desde que nós completamos 18 anos. Porque aparentemente um bom rapaz grego deve fazer três coisas na vida: Ter uma mulher grega, ter filhos gregos e trabalhar para engordar a todos até o dia em que morrer.

– Você deixa que eles vivam como querem. Longe da família. E olha o que aconteceu. Agora meu sobrinho vai se casar. E ela é uma boa moça grega? Não, não é grega. Não é grega! Uma estrangeira! Ela é de boa família? Eu não sei. Ela é respeitável? Eu não sei... porque nunca ninguém me conta nada. Ninguém pede minha opinião.

Sinceramente, se reclamação fosse considerado esporte olímpico minha tia Diane seria medalhista em todas as modalidades.

– Você está insinuando que eu não sei cuidar dos meus filhos? – Minha mãe revidou — Você acha que pode criá-los melhor do que eu?

– Não! – tia Diane falou, depressa. Nunca, nunca mesmo, mexa com uma mãe grega. Aparentemente, elas têm o direito de avacalhar os filhos à vontade, mas só elas, e ninguém mais — Eu só queria dizer... você sabe...

– O quê? O que você quis dizer? Eu administro uma pousada, cozinho, cuido da casa, eduquei cinco crianças... e ensino na escola dominical. Sabe, é uma sorte mesmo eu ter você para assar meus carneiros.

– Anita...!

– Mãe, esse é o meu smoking? – O Kanon apareceu interropendo a discussão.

– Não, querido, esse é do Saga, o seu está no quarto de hóspedes. – Ela falou, e então gritou pra cozinha quando o barulho de alguma coisa metálica caindo chamou nossa atenção: — Mamá, o que você está fazendo?

Minha avó apareceu na porta da cozinha com uma faca na mão.

– Descascando batatas.

– Por que está descascando batatas? Eu as descasquei de manhã.

– Eu sei, mas vamos precisar de mais batatas para acompanhar o carneiro.

– Yiayia (1), nós contratamos um buffet para isso – o Aioria surgiu de algum lugar no meio daquela bagunça.

Minha vó fez um gesto de descaso com a mão enrrugada.

– Esses buffets não sabem como preparar um bom carneiro.

– Para quantos está cozinhando? – minha mãe perguntou.

– Um monte de pessoas. – Vovó disse.

– Mas são só cinquenta convidados. – o Oria lembrou.

– E a família – minha mãe falou.

– A família? – meu irmão ecoou — Você convidou a família inteira?

– Claro.

– Mãe, eu e a Marin concordamos que seria uma cêrimônia pequena.

– Ora – minha vó falou voltando pra cozinha junto com a minha mãe –, não seja bobo. Nós não podemos deixar de chamar a família, tenho certeza de que a noiva não vai se importar.

– Mas, vó... – ele a seguiu cozinha adentro.

– Coma alguma coisa, Oria – minha mãe encerrou.

Era sempre assim que as discussões terminavam em casa. Era uma sorte nós não estarmos todos gordos.

Ele soltou um suspiro e balançou a cabeça frustrado.

Eu me aproximei dando alguns tapinhas confortantes em seu ombro pra tentar animá-lo.

– Vamos, não é tão ruim assim – eu falei.

– Não é tão ruim? – ele me encarou — Você está brincando? Faz três dias que eu trouxe a Marin pra cá, e desde então fico esperando o momento em que ela olhará pra mim e dirá: 'Certo, você não vale tudo isso'.

– Ei, relaxa – O Kanon se aproximou também -. Você vale tudo isso, ok?

– Tá – O Oria falou desânimado -. Valeu.

– Mãe, — O Oros apareceu – o Angelo, da banda, está no telefone, quer saber quem vai apanhá-los no porto.

– O fotógrafo já chegou! – Minha prima Nikki entrou na cozinha também fazendo estardalhaço — Onde está a noiva? – Então seus olhos recaíram sobre nós e ela franziu as sobrancelhas – Ei, o que vocês ainda estão fazendo aqui? Hoje a casa está proibida pra meninos.

– Mãe...! – O Oria reclamou.

– Ela está certa, crianças, está na hora de vocês irem. As garotas precisam se trocar. E não esqueçam de buscar a banda no porto e leva-los para o hotel.

– Vocês ouviram. Agora vão, vão! – Nikki ia dizendo enquanto nos empurrava porta afora.

– Não sei por que você tem que se trocar na minha casa! – O Aioria lançou um olhar torto pra ela.

Quando chegamos no quital – depois de resgatar o Saga das garras de três primas solteiras, e juntar nossas coisas – meu queixo literalmente caiu.

Uma gigantesca tenda de listras prateadas e brancas estava plantada no gramado que se extendia até a praia. Em todos os canteiros de flores estava escrito 'Aioria e Marin' em Botões de Ouro. Havia tochas espalhadas ao longo da orla e luzes minúsculas em cada arbusto disponível no jardim. Um jardineiro uniformizado estava polindo uma nova fonte de granito com uma imagem de Afrodite – a deusa, não o melhor amigo do meu namorado -, outra pessoa estava varrendo o pátio, e dentro da tenda eu podia ver um monte de mulheres de meia-idade sentadas num semicírculo, segurando cadernos.

Pelo jeito minha mãe estava caprichando mesmo naquilo.

– Tia Hera está dando as orientações às mulheres – Kanon explicou acompanhando a direção do meu olhar – Ela entrou nessa de organizar casamentos, pelo que a mamãe falou. Quer começar a fazer isso profissionalmente.

Eu assenti.

– Agora — ouvi minha tia dizendo, enquanto passávamos em direção ao carro estacionado na calçada. — As pétalas de rosa de emergência vão estar numa cesta de prata perto da coluna A. Todas vocês poderiam anotar, por favor, em suas plantas-baixas...

– Parece que ela leva jeito pra coisa. – Eu falei antes de me despedir dos meus irmãos e entrar no Mini Cooper 'S' que havia alugado.

O hotel que Camus havia escolhido para ficar ficava ao Sul da ilha. Todo em estilo Paternon antigo, com colunas, estátuas de deuses gregos, e varandas amplas que davam para o mar.

A mocinha morena na recepção parecia ocupada demais com as próprias unhas para reparar em quem entrava e sequer levantou os olhos quando eu passei por ela.

Eu galguei de dois em dois os degraus das escadas até o terceiro andar do prédio e empurrei com cuidado a porta destrancada do quarto. E então parei, sentindo meu coração se agitar por dentro. Idota, eu sei.

A suíte sofisticada estava à meia luz e havia uma TV ligada na sala. Na tela, uma elegante festa transcorria de forma agitada, em preto e branco. Mas foi o homem esticado confortavelmente sobre o sofá de couro em frente a ela que atraiu minha atenção.

Por mais que aqueles filmes antigos fossem sensuais, com sua atmosfera de sombras e tons misteriosos, o homem que o asssistia era muito mais. E existia em três gloriosas dimensões.

Com efeito, ele estava vestido com uma roupa preta e branca, o colarinho da camisa desabotoado com casualidade. Na ponta de suas pernas compridas enfiadas em calças escuras, seus pés estavam descalços.

O motivo de todo aquele quadro me parecer tão escandalosamente sexy naquele momento eu não saberia explicar.

Mesmo assim, era aquele rosto que sempre me impressionava. Uma verdadeira obra de arte. Ele ia muito além de Tciano e Da Vinci. Uma beleza clássica, artisticamente esculpida no que parecia o mais puro mármore. Cabelos vermelhos muito sedosos e brilhantes emolduravam tudo aquilo, caindo-lhe lisos pelas costas até quase alcançar a cintura. Uma tentação para os dedos e mãos de qualquer um.

Então, de repente, embora eu não tivesse emitido som algum nem me aproximado mais, ele virou a cabeça na minha direção. Nossos olhos se encontraram e ele sorriu.

E eu senti meu coração dar a costumeira cambalhota dentro do peito, coisa que não deixava de me admirar.

– Bom jour, Grec. – Ele estendeu a mão, me convidando a me aproximar.

Eu fui até ele e entrelacei nossos dedos.

– Você demorou — eu falei -. O que está assistindo?

– Tarde Demais para Esquecer, com Cary Grant e Deborah Kerr — ele disse -. Eles se apaixonam em uma viagem e combinam de se encontrar no topo do Empire States um ano depois, mas ela sofre um acidente e fica paralítica.

– Puxa – eu suspirei -, isso é horrível.

– Mas ela reencontra seu amor de forma muito emocionante no final. – Ele me puxou pela mão, em um convite para que eu me deitasse ao seu lado no sofá.

Já que chegara até ali, eu decidi, seria uma boa idéia aceitar o convite e tomar um gole do cálice de vinho que ele degustava.

Ele se mexeu um pouco, abrindo espaço para mim no sofá, e eu sorri feliz ao vê-lo aninhar a cabeça em meu ombro quando eu deitei. Suas costas pressionadas contra o meu peito e um de meus braços envolvendo sua cintura.

– Por que você assiste a esses filmes antigos, se já sabe como a história acaba? – Eu perguntei enquanto embrenhava o nariz naqueles cabelos macios e aspirava o perfume que nunca, agora eu tinha consciência, nunca, iria deixar de me entorpecer.

– A graça está em curtir as coisas que levam a história até lá – ele falou, e tremeu de leve, a pele alva se arrepiando quando eu o mordisquei na nuca. — Você já almoçou?

Eu fiz que sim com a cabeça, devolvendo-lhe o vinho ao mesmo tempo em que deixava que uma das minhas mãos delizasse por sua coxa.

Ele deixou escapar um suspiro baixo e se virou nos meus braços inclinando a cabeça para roçar os lábios nos meus suavemente, e então tornar a fazê-lo.

Meu corpo se aqueceu de imediato. Minhas mãos se lançando para frente, a fim de agarrar-lhe os cabelos e puxá-lo mais para perto, querendo saboreá-lo mais, e mais fundo.

O desejo que tomava que meu corpo toda vez que eu o tocava, era outra coisa que não deixava de me surpreender. Às vezes eu me perguntava se isso nunca iria passar.

Ele gemeu por entre o beijo e entreabriu os lábios. Apenas o suficiente pra que eu pudesse deslizar minha língua por entre eles. Sua boca tinha gosto de saudade e vinho.

Antes que ele tivesse a chance de se ajeitar melhor e colocar o cálice de lado, eu girei o corpo e acabei esbarrando no copo, que tombou no chão no instante em que eu subi sobre ele, cobrindo seu corpo com o meu, enquanto praticamente devorava sua boca.

Ele afastou os lábios, ofegante, e juntou nossas testas segurando meu rosto com força.

– Eu senti sua falta. – disse – Senti muita falta mesmo. Peguei uma de suas camisas para usar. – Ele riu de si mesmo. – Foram só três dias, e mesmo assim eu non consegui deixar de ir até o seu apartamento. Invadi literalmente seu closet e roubei uma das suas camisas, uma daquelas pretas que você tem às dúzias. Vesti a roupa e saí sorrateiramente dali, como um ladrão, para que ninguém me visse.

Absurdamente tocado com aquilo, eu esfreguei o nariz no pescoço dele.

– De noite – eu confessei -, eu ficava repassando as suas ligações sem parar, só pra poder ficar ouvindo sua voz.

– É mesmo? – Ele soltou uma risadinha, um som muito raro em se tratando dele. – Nossa, Milo, nós estamos tão melosos um com o outro hoje!

– Então vamos fazer disso nosso pequeno segredo, certo? — eu pisquei.

– D'accord. – Ele disse, puxando mais uma vez meu rosto para outro beijo voraz.

Meu corpo respondeu imediatamente. De repente, eu sentia uma necessidade vital de sentir a pele nua dele contra minha.

Ela parou o beijo e levantou uma sobrancelha, seus olhos brilhando quando meus dedos hábeis começaram a desabotoar sua camisa.

– Eu diria que nós sabemos como esta história vai terminar também, ne c'est pas?

– Sim. – Eu sorri, e me inclinei sobre ele novamente para morder-lhe o lábio inferior. – Então vamos curtir as coisas que levam a história até lá.

oOOoOOo

Camus POV

E mais uma vez ele me assaltava todos os sentidos, até parecer que só existia ele no mundo. Não só o sentido da visão – embora todo o meu campo de visão estivesse tomado por ele, pelas superfícies planas de seu rosto, pelos olhos azuis, pelo ângulo forte da mandibula, pelo nariz bem feito, pelos lábios avermelhados. Também não era só o sentido do tato, embora eu percebesse o crescimento diário da barba dele contra a pele do meu rosto e o calor que parecia irradiar pela camisa enquanto ele se mantinha colado ao meu corpo.

Não, eram meus outros sentidos, dos quais eu mal me conscientizava até Milo entrar no ambiente, que pareciam ser hipersensíveis a sua presença. A respiração desordenada que soava rude aos meus ouvidos, mas que também me excitava por saber que era eu que provocava aquela oscilação... Os sons guturais – mas muito prazerosos – que ele emitia enquanto me beijava, deixando-me tão frágil e derretido. Era como se a mera noção de que ele não conseguia controlar esses sons – como se ele próprio estivesse descontrolado – me atraísse numa dimensão de certa forma animal.

E não era só isso que provocava em mim uma reação animalesca. Ainda que estivesse vendado numa sala com cem homens, eu seria capaz de reconhecê-lo apenas pelo olfato, pois seu cheiro era inconfundível. Inconfundível... e excitante. Eu jamais deixaria de sentir aquelas fisgadas na virilha, e meus mamilos nunca deixariam de se intumescer só de sentir aquele odor. Embora certamente não pudesse explicar o que podia ser tão erótico no misto de cheiros de sabonete, loção pós-barba, e, mais vagamente, de maresia, amaciante de roupa e vinho. Ainda assim, sempre que o odor tão peculiarmente masculino de Milo penetrava minhas narinas, eu era inundado por uma sensação de contentamento como se...

Como se sentisse o cheiro de casa.

Milo chegava a ter gosto de algo do meu passado. Algo não propriamente doce, mas de modo algum amargo. Picante talvez, mas não desagradável. Ah, nem um pouco desagradável, eu pensei quando senti suas mãos apertarem minhas nádegas, suspendendo-me – minhas pernas entrelaçadas em sua cintura -, enquanto ele caminhava comigo até o quarto.

Um segundo depois eu sentia o colchão macio da cama do hotel se afundar sob o peso do meu corpo.

Eu tentei me apoiar nos cotovelos, afastei um pouco o cabelo emaranhado do rosto, e olhei para ele, que estava ao lado da cama com o olhar fixo em mim.

– Agora sim. – ele disse. Os olhos azuis estavam faiscantes — Assim está bem melhor!... – decidiu, e então subiu sobre mim na cama e começou a desabotoar lentamente minha calça — ...ou pelo menos vai ficar, assim que eu te colocar nú.

– Você tem me colocado nú a cada vez que dou uma piscada nos últimos cinco meses – eu falei.

Ele levantou uma sobrancelha.

– Isso é uma reclamação?

Eu sorri.

– Jamais. – E ataquei sua camisa enquanto ele me livrava das calças.

– Meu Deus, — ele sorriu também – eu criei um monstro. – E então perdeu a paciência tirando ele mesmo, em um único movimento, a camisa e atirando-a de qualquer jeito no chão.

Por um instante, seu tronco bronzeado brilhou à luz do abajur, e eu mordi o lábio ao admirar mais uma vez aquele físico que era digno de uma escultura de Michelangelo... músculos rijos, cobertos por uma camada fina de pelos dourados.

Eu ergui outra vez os olhos e me maravilhei ao vê-lo sorrir – um sorriso tranquilo de satisfação pessoal que, mais do que os beijos, mais do que a ansiedade do desejo, me jogou diante da nossa nova realidade.

Ele me amava. Ele, o sexy e mundialmente cobiçado Milo Scorpion, o homem eleito por cinco anos consecutivos a celebridade mais bonita do mundo, até mesmo precisava de mim. Esse era o maior enigma de todos. E talvez, já que eu não conseguia resolvê-lo, eu pudesse aprender a simplesmente... aceitar.

E então ele se debruçou sobre mim mais uma vez e desceu os lábios até o meu pescoço, incapacitando-me de qual quer outro tipo de pensamento. Eu senti uma das suas coxas, que estava entre as minhas pernas, pressionar o meu membro e arfei com força. De repente, o que no início era apenes uma pulsação suave na virilha se transformou numa necessidade, numa ânsia que, eu sabia, só poderia ser aliviada de uma maneira.

Eu arqueei a garganta e lancei os quadris pra frente, de enconcontro a virilidade tesa dele, provocando-lhe um gemido rouco. Um instante depois, suas mãos estavam sobre minhas nádegas, os lábios saboreando meus mamilos – um depois o outro. A barba curta em torno da boca roçava as aréolas sensíveis enquanto ele os sugava, e eu mergulhei os dedos nos ombros largos, deixando escapar um suave gemido.

Isso só pareceu encorajá-lo a agir com mais intimidade.

Antes que me eu desse conta do que ele pretendia fazer, seus dedos já haviam furtivamente se esgueirado para o cós da minha cueca e, em um rápido movimento, ele a retirava.

Eu estremeci e gemi alto com o toque firme e cadenciado das mãos fortes no órgão rígido e pulsante entre as minhas pernas. Mas aquilo era ainda apenas o começo daquela doce tortura. Logo a seguir, as mãos foram substituídas pela boca. Eu resfoleguei diante da conhecida sensação daquele calor úmido envolvendo a extensão intumescida do meu membro. Ao primeiro toque da língua de Milo, meu dedos, que eu instintivamente enterrara nos cabelos dele, contrairam-se entre os cachos, guiando-lhe a cabeça enquanto ele me sugava.

Ele deixou que uma das mãos escorregasse pelos meus quadris... e finalmente seus dedos se afundavam naquela zona quente e apertada entre minhas nádegas.

Eu deixei escapar um gemido. Não importava quantas vezes nós fizéssemos aquilo, nada nunca iria me preparar para as sensações que sempre me inundavam quando ele me acariciava daquela forma. Com seus dedos indo e vindo, atingindo em cheio aquele ponto. Ah, aquele ponto...!

De repente, minha única opção era jogar a cabeça pra trás e gemer. Amavelmente separando um pouco mais as pernas para acomodá-lo, na esperança de que ele retirasse logo os dedos de lá e os substituísse pela parte do seu corpo que eu mais ansiava.

Mas ele não o fez. Para minha completa supresa ele afastou o rosto e os olhos, cobertos pela meia luz, pareciam estanhamente magnetizados, como as marés pela lua, por aquele ponto onde seus dedos brincavam.

E não era só o olhar dele que aquele lugar quente atraía. Seus lábios já começavam a queimar uma trilha ao longo da parte interna de uma das minhas coxas. Então, colocando minhas duas pernas sobre os seus ombros, ele suspendeu meus quadris e curvou-se, o cabelo desobediente caindo para a frente, roçando minhas coxas, quando ele começou a explorar novamente aquele lugar apertado na junção das minhas nádegas. Só que desta vez não só com os dedos, mas com os lábios e a língua.

Eu quase o atirei para fora da cama.

Nun gesto instintivo, eu fechei as pernas, efetivamente prendendo-o num aperto que, embora para muitos pudesse parecer um tanto erótico, era bastante restitivo, na verdade.

– O que está fazendo? – eu perguntei, espantado.

– Se soltar minha cabeça – ele respondeu com uma voz levemente sufocada -, eu poderei mostrar.

– Mas non... Você não deve... – Eu protestei, no entanto, mesmo enquanto falava, eu me sentia ir relaxando, recostado nos travesseiros. Ele usou a oportunidade para gentilmente afastar minhas coxas. – Milo, isso non...

Mas meus protestos morreram num suspiro de puro enlevo ao sentir a língua macia penetrar minha entrada, enquanto ele me estimulava daquela forma absolutamente inédita. Isso era algo que nunca ninguém mencionou... que um homem pudesse sentir tanto prazer ao ser tocado dessa forma... uma das sensações mais maravilhosas que eu já experimentara, de fato.

Milo aprofundou mais a língua, levando uma das mãos a minha ereção e eu gritei, apertando os lencóis da cama, enquanto todo meu corpo estremecia de prazer.

Então, mais cedo do que eu poderia achar possível, esses tremores se transformaram em ondas, que em vez de me percorrer suavemente se intensificaram. Cada uma com mais força e mais intensidade do que a anterior. E nenhuma parecia conseguir extinguir a chama que me devorava por dentro... Mais e mais quente... À medida que ele continuava em seu ataque implacável. Minha respiração, antes apenas irregular, tornou-se ofegante, cada vez mais curta, meus dedos se contorciam nos lençóis como se eu segurasse as rédeas de um cavalo rebelde.

E quando com a mão livre ele me segurou pelas nádegas para me aproximar mais de sua boca, eu joguei novamente o corpo pra frente... mas desta vez com júbilo. Pois subitamente pareceu que eu enfim fora abraçado por uma dessas ondas, cada vez mais alta, até se quebrar, comigo no topo. Ela apagou a chama, ensopando-me totalmente. Eu percebi algo como um grito rouco me escapar da garganta, e meus membros estremeceram por completo como se eu de fato tivesse sido mergulhado em um daqueles mares lá fora: gelado, de tom turquesa e coberto de espuma. E quando tudo terminou, eu estava fraco e sonolento, como na infância, quando saía da piscina num dia quente de sol, completamente molhado...

Mas eu só pude aproveitar aquela letargia por um breve instante, antes que o rosto de Milo reaparecesse na minha linha de visão. Eu reconhecia aquela expressão de extrema satisfação, embora pudesse perceber nele também um brilho diferente. Algo a mais nos olhos azuis. Com os sentidos ainda embotados pelo orgasmo recente eu não fui capaz de identificar o que era até ele se apoiar nos joelhos e, sem tirar os olhos dos meus, começar a desabotoar a calça. Quando sua ereção emergiu, livre do tecido que a continha, eu arregalei os olhos. Ora, é claro. Aquele algo a mais indefinível que vira no rosto dele era desejo.

Ele me desejava. Milo Scorpion, incrivelmente belo, um espécime perfeito de homem me desejava.

E foi por isso que eu nem pensei em questionar quando ele segurou um dos travesseiros de pena de ganso e o posicionou sob meus quadris com determinação. E eu também não disse uma palavra quando, sem ao meno se preocupar em terminar de tirar a roupa, depois de abaixar a calça apenas o suficiente para não atrapalhar, ele se posicionou entre minhas pernas, apoiando o corpo sobre as mãos e tendo o meu entre elas. Eu lancei uma única olhada apreeensiva para o órgão dilatado que pairava no ar a poucos centímetros de mim – ainda me parecia fisicamente impossível algo tão grande caber num espaço tão pequeno, embora já tivesse comprovado essa maravilha da física inúmeras vezes nos últimos meses -, e então ergui os olhos para encontrar os dele...

Ele aproximou o rosto, e meus lábios sentiram a doçura dos lábios dele enquanto ele deslizava pra dentro de mim em um único movimento firme e forte. Introduzindo-se o mais profundo que pode, com a língua e o pênis.

Eu soltei um grito abafado, comprendendo, assim que ele mergulhou dentro de mim, a função do travesseiro: elevava e inclinava meus quadris a um ângulo tal que ele podia praticamente se enterrar em mim, atingindo em cheio aquele ponto. Sim, aquele ponto. Me fazendo ver estrelas outra vez. Na verdade, era quase como se ele conseguisse tocar-me a espinha dorsal com o pênis... uma sensação nada desagradável, se vocês querem saber.

Mas a função do travesseiro não terminava aí. Ele fazia com que meu próprio membro fosse de encontro ao abdômen firme de Milo, funcionando com a mesma eficácia que a língua e os dedos para estimular aquela parte negligenciada. De repente, a sensação de saciedade me abandonou, e eu estava outra vez sendo levado por aquele turbilhão de desejo... Mas, dessa vez, Milo me acompanhava, viajando pelas mesmas ondas incríveis.

Não demorou pra que o desejo se transformasse em uma ânsia urgente, fazendo com que eu me pressionasse cada vez mais contra a rigidez dele. Minhas pernas presas às costas dele, acompanhando-o a cada movimento. Recebendo com satisfação o sem-número de investidas eróticas em que ele chamava meu nome com voz rouca e as batidas fortes dos nossos corações se encontravam através do meu peito.

Eu não sei ao certo quanto tempo levou para que o mar cristalino nos jogasse de volta à praia, mas eu estava totalmente despreparado para quando, depois de mais uma investida que aparentemente me pregaria no colchão, eu meio que pareci sair do meu próprio corpo — embora fisicamente estivesse mais preso a ele do que nunca.

De repente, eu afundava em um mar de cores. Dourados, azuis, vermelhos... Mais cores do que Frida Kahlo jamais fora capaz de misturar em suas aclamadas telas, mais cores, eu tinha certeza, do que existiam. Elas brilhavam num lampejo repentino sob minhas pálpebras cerradas numa explosão de luz líquida que jorrava a minha volta, como uma chuva de pingos semelhantes a pedras preciosas... Era como se o tempo parecesse parar, minha sanidade se rompendo em mil pedaços. E depois, enquanto eu ainda lutava para recuperar a respiração perdida, Milo também chegou ao clímax. Com tanta intensidade que eu pensei que ele me partiria em dois. Ele explodiu dentro de mim, levando-me a bater contra o colchão enquanto soltava um grito estrondoso. Seu rosto se contorcendo em uma expressão muito semelhante a dor... que foi logo substituída por uma de prazer sublime.

E então ele desmoronou sem cerimônia sobre mim, a testa úmida descansando no espaço entre meu ombro e pescoço. Ele respirava pesadamente, o hálito quente a me penetrar o ouvido, seu coração batendo tão forte contra meu peito que eu cheguei a me perguntar se ele não ia sofrer um ataque... E não pude me impedir de pensar, extasiado: 'Eu causei isso. Ele está assim por mim.'

Essa sensação era quase tão gratificante quanto o orgasmo.

– Non podemos continuar nesse ritmo, sabia? – eu consegui balbuciar, depois de um instante. – Vamos acabar nos matando.

– Pelo menos vamos morrer felizes – ele disse, e deu uma risadinha ofegante. – Eu tinha planejado um pouco mais de romance pra esse nosso reencontro, sabe... champagne, e talvez uma música suave – ele levantou a cabeça, sorrindo enquanto olhava pra mim, embaixo dele -...mas isso funcionou do mesmo jeito.

Então acomodou-se ao meu lado na cama, puxando meu corpo pra junto do dele.

Eu senti uma carícia suave nos meus cabelos suados.

– Eu te amo, ruivo – ele disse antes de pegar minha mão e beijar o dedo que ostentava o anel de ouro trabalhado que eu mandara fazer.

Seus olhos estavam fechados, e eu observei os ângulos de seu rosto, o nariz reto, a boca muito bem desenhada com lábios cheios e os longos cabelos dourados, com cachos desordenados.

– Meu... – ele disse, acariciando o anel no meu dedo, enquanto levantava a outra mão até encostá-la de leve no meu rosto — meu namorado.. meu Camus... meu ruivo.

Eu fechei os olhos. 'Meu namorado'... Pensar naquilo ainda me deixava sobressaltado. Aquele homem com cabelos dourados como o sol, pele bronzeada, rosto esculpido e olhos azuis selvagens e penetrantes era meu namorado. Eu jamais me habituaria a isso.

Eu afastei um pouco o rosto para olhar melhor para ele.

– Tenho que te perguntar uma coisa – disse -. É tão estúpido, mas eu tenho que perguntar.

– O que é? — Ele levantou uma sobrancelha e eu prendi o ar.

– Alguma vez, pra você, foi... – eu mordi o lábio, querendo abafar a necessidade de perguntar — ...antes de mim, com alguma outra pessoa...

– Não. – ele ele se apressou em dizer, tocando minhas sobrancelhas com os lábios, descendo depois para o nariz, o queixo. – Você sabe que não. Jamais foi desse jeito com mais ninguém. – Ele falou, e eu me senti invadido por um incapacitante sentimento de amor. Aquilo que sempre parecia surgir em ondas gigantes e inesperadas, deixando-me sem ação e fraco.

Sim, eu o amava. Naqueles cinco meses de namoro eu havia descoberto que Milo era uma criatura terrivelmente ciumenta, espaçosa, e desorganizada, mas também era um homem fantástico. Um homem que me respeitava e admirava, apesar dos meus defeitos, que ele tolerava, e com os quais até se divertia. Nossa rotina era uma susseção de brigas por ninharia, sexo quente, jantares no meio da noite, discussões por besteiras, longas conversas sobre assunto alheatórios, momentos de riso e suspiros de contentamento.

– Para mim também non – eu acabei confessando, aproximando mais meu corpo até ficar totalmente colado no dele, levando a boca até seus lábios –. Je t'aime, Milo... – eu toquei a aliança em seu dedo — Parece que você também é meu.

Eu não estava preparado para a reação dele. De repente, ele estava rígido. Seu olhar se tornou escuro, ardente. Ele parecia abalado, atordoado.

– O que foi? – Eu arregalei os olhos. – O que houve?

– ...Que você me ama... – ele balbuciou, segurando-me pelos dois braços e me puxando com força pra cima dele. — Você nunca fala isso! – Ele me estreitou mais de encontro a ele, enterrando o rosto nos meus cabelos. – Você nunca fala isso! – repetiu.

E eu não pude fazer nada a não ser segurá-lo. Trêmulo, ao sentir as emoções que pulsavam vindas dele. Mon Dieu, de onde viera isso? Onde ele estivera escondendo tudo isso?

– Mas eu já falei isso sim – eu lembrei -. Claro que falei!

– Não desse jeito. – Ele falou. – Nunca falou assim, sem eu ter que forçar a barra. Nunca sem pensar muito antes de falar.

Eu abri a boca pra negar aquilo, mas reconheci que o que ele estava dizendo era verdade... E era tolice minha, era covardia.

– Pardon, Milo – disse baixinho –. É difícil pra mim. Eu realmente amo você. Às vezes fico apavorado porque você foi a primeira pessoa que amei desse jeito. E a única.

Ele me segurava com força, o rosto ainda enterrado nos meus cabelos. Depois, afrouxou o abraço e me afastou um pouco pra trás, fixando os olhos nos meus.

– Você mudou minha vida – ele disse -. Transformou-se na minha própria vida – e tocou meus lábios com os dele, deixando o beijo se aprofundar lentamente, de forma suave. – Eu preciso de você!

– Então me mostre – eu pedi -... Agora.

oOOoOOo

Saga POV

Eu estava nú, imerso em uma pequena piscina com hidromassagem encravada entre a praia e o chalé, com os músculos frouxos devido à água aquecida e ao sexo perfeito. De olhos fechados ouvia o som das ondas e dos pássaros marítimos, que pendiam no ar como se fossem lágrimas.

Por hora, pelos últimos três meses pelo menos, as pressões do trabalho haviam se mantido a anos-luz de distância.

No final, haviámos levado cerca de dois meses pra arrumar todo estrago que Pandora fizera e concluir adequadamente as investigações para fechar o caso. Depois disso, optamos po uma mudança de planos e resolvemos deixar a Grécia como ponto final do nosso roteiro de férias pra coincidir com a data do casamento do Aioria.

Eu inspirei fundo, conseguindo juntar energia suficiente para entreabrir os olhos.

– Acho que não consigo nem me mexer — disse.

– Então não se mexa. – Kanon falou ao meu lado, entregando-me mais uma taça do vinho branco gelado e predendo meus dedos na haste.

O Oros havia aceitado apanhar a banda no porto e, depois que o Milo havia saído atrás do ruivo dele, nós resolvemos tirar um tempo em uma pousada afastada que eu e o Kanon sempre gostaramos muito.

– Kan... – eu chamei.

– Hmmm...? – ele fez, sololento.

– Você não acha que alguém pode estranhar nós termos fugido para um chalé em vez de estarmos nos trocando na casa da tia Frieda, com o Aioria e os outros, conforme combinado?

Ele balançou a cabeça, tragando longamente seu cigarro.

– Nós somos irmãos, Sa, estamos de férias, é socialmente aceitável que queiramos aproveitar essa oportunidade pra relaxar juntos em uma pousada à beira mar antes do casamento do nosso irmão caçula.

Eu sorri, roubando o cigarro dos lábios dele.

– Como se você se importasse com o que é socialmente aceitável.

Ele sorriu também mexendo as pernas e as entrelaçando com as minhas sob a água.

– Daqui a dois dias nós vamos estar de volta a New York – disse -, e eu vou ser obrigado a compartilhá-lo outra vez com o trabalho e as obrigações. – ele deslizou a mão pela minha panturrilha — Por hora, não quero dividí-lo com nada. Nem com ninguém.

Eu ri. Depois apaguei o cigarro e voltei a me recostar à borda da piscina, deixando-me deslizar ainda mais fundo na água quente e borbulhante.

– Você contou para o Milo? – Ele indagou de repente.

Eu não precisava perguntar pra saber a que ele se referia.

Antes de concluir o caso a perícia havia passado um pente fino no apartamento que a falecida Srta. Kido dividia com o irmão em New York, atrás de rastros de Pandora. Como esperado, nada relevante fora encontrado – se havia alguma coisa ali, Pandora fora esperta o bastante pra se livrar de tudo antes de explodir os garotos -. No entanto, ficou claro pra nós, em algumas correspondências trocadas pela garota com o irmão, a natureza diferente de relacionamento que eles mantinham.

– Eu não acho que a gente esteja em posição de julgar isso, Kan – eu falei.

– Não foi isso que eu perguntei. – ele insistiu. – Contou, ou não contou?

– Não. – Eu disse -. Não contei. Ele ficaria irritado, contaria ao Camus, e que bem isso traria?... – eu suspirei — Acho que já tivemos sofrimento o bastante nessa história.

Ele assentiu, e fechou os olhos, deixando a cabeça pender sobre a borda da piscina outra vez.

– Você tem que parar de fazer isso, Sa – falou então. E eu não precisava olhar para o lado para sentir a preocupação na sua voz. – De se responsabilizar desse jeito – ele ergueu a cabeça, olhando pra mim outra vez — . Você não tinha como evitar o que aconteceu no Plaza aquele dia. Ninguém tinha.

Ele percebera, eu pensei. Fora sempre assim. A vida toda. Não importava o quanto eu pudesse conseguir me fazer de forte para as outras pessas, Kanon sempre percebia tudo.

– Havia pessoas lá, Kan – eu falei -. Havia crianças. Havia bebês em carinhos. Isso não significou nada pra eles. Nadinha!

Eu apertei os olhos tentando afastar aquelas imagens da minha mente.

Os sprinklers haviam sido acionados automaticamente, eu lembrava; poças de líquidos diversos se formaram nos escombros... escorrendo sob eles. Meus pés chapinhavam enquanto eu seguia em frente. O fedor era terrível, insuportável. Sangue fresco e coagulado misturado com fumaça. Eu fazia questão de não pensar nos tipos de material que cobriam o chão, e obriguei-me a ignorar os dois rapazes da equipe de emergência que vi chorando enquanto marcavam os corpos à medida que eu avançava para o centro enegrecido da cratera.

Eu pisquei os olhos outra vez.

– Eles nem tiveram a chance de se defender — disse.

– Eu sei – meu irmão falou com um suspiro -. Aquilo foi miserável e pavoroso. O tipo de cenário que uma pessoa jamais consegue arrancar da memória, a menos que se desligue totalmente.

Eu virei outro gole do vinho, fixando meus olhos na linha turquesa do horizonte.

– Eu ficava dizendo a mim mesmo o tempo todo que não era com pessoas que eu estava lidando, mas apenas com pedaços, provas. E sempre que sentia meu escudo começar a falhar, ou quando o horror de tudo aquilo começava a abalar meus alicerces, eu me forçava a me recompor, tentava limpar a mente e seguia em frente. Então... quando eu pensei que o Milo... – eu puxei o ar com força — Meu Deus, Kan! Foi horrível. Eu tive que trincar os dentes e ordenar às minhas pernas que não tremessem, ao meu coração que se acalmasse e à minha mente que clareasse pra não perder a objetividade, pra não... – Eu prendi o ar deixando que as palavras morressem em meus lábios, antes de soltá-lo com força outra vez.

Eu senti sua mão apertar a minha sob a água.

– Eu sei. – ele repetiu – Eu também.

Eu assenti.

– Não tinha conseguido contar isso pra ninguém até agora – falei –. Não tinha certeza de que conseguiria dizer em voz alta.

– Fico feliz por ter conseguido me contar. – Ele disse — Agora, escute. – Ele pousou sua taça na beira da piscina, e se inclinou para frente, para tomar meu rosto nas mãos. Seu toque era firme e quente, e os olhos eram uma faixa estreita de cor azul cobalto. – O destino é quem manda, Sa. A gente segue os próprios passos, faz planos e trabalha. Então, o destino entra em nossas vidas, rindo, e nos faz de tolos. Às vezes conseguimos enganá-lo e lhe passamos a perna. Mas, com mais frequência, já está tudo escrito. Para alguns, está escrito em sangue. Isto não significa que devemos parar, mas sim que não podemos eternamente nos confortar, sentindo culpa.

– É isso que você acha que eu estou fazendo? Que estou me confortando?

– É mais fácil levar a culpa do que admitir que não havia nada que você pudesse fazer para impedir o que aconteceu – ele disse — . Você é um homem arrogante, Saga. E este é apenas mais um dos aspectos que eu acho atraente em você. É arrogância assumir a reponsabilidade por acontecimentos que estão além do nosso controle.

– Mas eu devia ter controlado.

– Ah, sim. – Ele sorriu debochado. – É claro. Porque as coisa sempre tem que sair conforme você quer.

Eu estreitei os olhos e abri a boca pra protestar, mas fechei-a logo em seguida, respirando fundo.

– Você está tentando me deixar irritado para que eu pare de me culpar, não é?

Ele sorriu sacana.

– E pelo jeito funcionou.

– Certo. – eu deixei que meus olhos se fechassem e a cabeça pendesse sobre a borda da piscina novamente. – Está certo. Não vou mais pensar nisso agora. Você é esperto, Kan – falei com um sorriso -. Essa é uma das coisas que mais admiro em você.

– Pensei que fosse o meu corpo – ele me puxou para si, de modo gentil, envolvendo-me com os braços molhados.

– Ele está bem no alto da lista também – eu reclinei as costas sobre seu peito, soltando um suspiro de apreciação -. Você é muito bom, Kan.

– Milhares concordam com você! – ele murmurou no meu ouvido, e eu senti seus dedos apertarem meu mamilo de forma suave, entre o polegar e o indicador.

Eu mordi o lábio deixando escapar um gemido. Aquilo provocara um efeito forte, que desceu em ondas por dentro de mim, até os pés.

– Não foi isso que eu quis dizer – eu disse.

– Mas foi o que eu quis dizer – ele falou, pressionando mais o corpo contra o meu,

– Se você vai tentar continuar com isso aqui dentro, acho que vamos precisar de equipamento de mergulho – eu avisei, e então fechei os olhos, aproveitando mais daquele contato -. Gosto de estar aqui, longe de tudo, com você.

– Então isso significa que você ficou satisfeito por eu ter forçado a barra para a gente tirar esses três meses de férias?

– Você não forçou a barra...

– Tive que atazanar você – ele mordiscou minha orelha — ...intimidar você – suas mãos desceram pelos meus ombros, até alcançar as mãos, entrelaçando os dedos — ...implorar.

Eu soltei uma risada de deboche.

– Você?! Kan, você jamais implorou por coisa alguma na vida. Mas talvez tenha me atazanado um pouco sim. Nós não tirávamos três meses de férias no trabalho desde... nunca.

– Por que não arredondamos pra quatro? – Ele sugeriu.

– Kanon...!

– Estava só testando... – e riu – Beba o seu vinho – ele pegou minha taça da borda da piscina e a colocou na minha mão outra vez.

– Se sua intenção é me embebedar, já vou avisando que eu estou relaxado demais pra ficar bêbado – eu falei. Mas consegui encontrar o caminho da boca com a taça.

Ele riu, deslizando as mãos para minhas coxas.

– Você está longe de ficar bêbado o bastante para o que eu tenho em mente.

– Ah, é? – Minha pulsação acelerou tolamente. – E o que seria isso?

– Vai perder a graça se eu contar. Vamos dizer apenas que pretendo manter você muito ocupado durante as últimas quarenta e oito horas que ainda temos de férias.

– Só quarenta e oito horas? – Com uma risada, eu bebi o resto do vinho de um gole só. — Talvez, — eu falei — se eu conseguir me arrastar daqui eu possa aceitar a sua interessante oferta.

– Simplesmente relaxe. – ele sussurrou no meu ouvido e deixou a mão deslizar para o espaço entre as minhas pernas, encontrando ali o que procurava e o apertando. – Eu arfei, enquanto ele pegava a taça da minha mão, que já estava escorregando, e a colocava de lado.

Antes que eu pudesse reagir ele já havia girado o corpo, montando sobre mim. Sob a àgua eu sentia sua exitação comprimida contra meu abdomém, suas coxas fortes e escorregadias uma de cada lado do meu corpo, e as nádegas firmes pressionando meu pênis.

Eu apertei seus quadris com força e fechei os olhos, rendendo-me com um gemido quando seus lábios alcançaram um dos meus mamilos intumescidos, mordiscando-os.

Aparentemente, aquele gemido fora o convite de que ele precisava.

Um segundo depois eu sentia-lhe a língua entrando por entre meus lábios semiabertos, enquanto as mãos deslizavam em toques ousados pelo meu corpo.

Era impressionante o poder que ele tinha sobre mim. Envolvendo-me sempre naquele tipo semelhante de magia, deixando-me desesperado por sentí-lo de novo, e de novo.

– Como é que você sempre consegue fazer isso comigo? – Eu perguntei ofegante, quando nossos lábios se separaram.

– Não sei. – Ele sorriu com malicía – Sorte, eu acho.

E então tomou meu membro rígido entre os dedos e o encostou no lugar de seu corpo em que ele se encaixava à perfeição.

Eu trinquei os dentes, aumentando o aperto em seus quadris, impedindo-o de continuar.

– Kan, não — eu não queria machucá-lo -. Você ainda não...

Mas ele não me deixou prosseguir.

– Apenas aproveite – disse, e começou a deslizar sobre mim. Movendo-se tão devagar que era uma tortura. Eu abri os olhos que estavam quase fechados, enquanto ele sorria outra vez e afundava-se mais, parecendo deleitar-se com os ruídos de prazer que eu soltava a medida que seu músculo se tensionava e me abraçava. Eu desci as mãos e lhe segurei as nádegas, os dedos afundando na pele molhada com a intensidade do sesejo. Ele desceu um pouco mais, e então, sem conseguir suportar um instante mais sentou-se completamente sobre mim, lançando-me por inteiro dentro de si.

Eu gemi o nome dele — era sempre o nome dele — e pressionei-lhe as nádegas com força enquanto nossos corpos se encontravam, de modo tão explosivo que uma onda de àgua se formou e caiu como uma cascata para fora da piscina.

E então ele se moveu — apenas uma fração de centímetro — e eu revirei os olhos. Não podia ver nossa união, mas podia sentí-lo, quente e apertado, fechando-se como uma mão em volta de mim.

Seus lábios desceram outra vez sobre os meus enquanto ele se movia, lentamente à princípio, e depois cada vez com mais vontade. Eu o segurei mais uma vez pelo quadril para controlar os movimentos, retesando a musculatura e indo cada vez mais fundo, na urgência de possuí-lo e acompanhar o violento pulsar de seus quadris. Eu não entendia como ainda podia estar tão duro depois de termos feito amor tantas vezes naquela tarde, mas era isso que acontecia. Eu me sentia pulsar intensamente dentro dele, e seu menor movimento me levava, mais e mais perto do fim.

Mas eu me recusava a me permitir a satisfação plena ainda. Queria sentir esse prazer junto com ele, dentro dele, e sabia que logo conseguiria. Seus movimentos estavam cada vez mais frenéticos e, de olhos fechados, ele atirava a cabeça pra trás, revelando o pescoço moreno, onde pulsava uma veia, e mordia o lábio inferior.

Nisso, ele se moveu mais um pouco... só mais um pouco... e eu me senti romper por dentro, como algo além do meu controle. Eu oscilava na beira do Paraíso. Todos os meus músculos retesados, todos os resquíscios fragmentados de razão despencando a minha volta.

Então, enquanto eu subia, de forma inexorável, na espiral de mais um clímax devastador, percebi que meu irmão também me acompanhava. Ele gritou e arqueou as costas, enterrando os dentes nos meus ombros, e despejando-se entre nós, o quadril subitamente imóvel, enquanto eu me impelia cada vez mais fundo, preenchendo-o, e inundando-o com cada espasmo angustiante...

Não demorou pra que eu me sentisse amolecer sob seu corpo enquanto ele desabava sobre mim, a cabeça tombada no meu ombro. Eu estava esgotado.

Mas ele não nos deu tempo pra recuperação, um minuto depois puxava minha cabeça pra trás outra vez, segurando-me pelos cabelos, e tomava meus lábios com fúria.

– De novo. – disse sedento, enquanto manipulava meu membro com força e enfiava os dedos dentro de mim, trabalhando incessantemente até que eu enduressesse de novo e meus quadris se arqueassem, bombeados de encontro a sua mão hábil.

– Kan... — eu gemi.

– Hoje eu sou tudo o que existe — ele mordeu minha garganta com violência enquanto procurava novamente por minha boca. E seus olhos eram como dois faróis ferozes e azuis -. Nós somos tudo o que existe.

Eu me sentia drogado, indefeso, com o corpo e a alma embaraçados de tanto prazer. Eu não conseguiria impedi-lo, nunca conseguira, e não o faria, nem mesmo quando ele me levou próximo dos gritos, bem na beirada outra vez.

– Deixe... – ele disse – Deixe-me ter você — Sua respiração estava acelerada, rouca.

Antes que eu conseguisse responder, um grito rasgou minha garganta quando ele mergulhou de uma vez dentro de mim, puxando meus quadris para cima e se enterrando mais fundo. Eu podia sentí-lo pulsando, preenchendo-me por completo a cada arremetida desesperada.

Meus sistemas estavam sobrecarregados, tão descompassados quanto a pulsação. Meu órgão sexual tão sensível que o prazer selvagem que sentia era semelhante à dor. Até que, segurando na borda da piscina, eu joguei a cabeça pra trás e senti um arrepio que começava no couro cabeludo e descia formigando até os arcos dos pés.

– Não aguento... – eu consegui falar, enquanto meus quadris se arqueavam, ávidos, e eu me sentia explodir outra vez — ...Não aguento mais!

– Eu amo você – ele disse.

Então, ainda tremendo, eu o abracei com as pernas e deixei que ele me golpeasse para além do delírio.

No final, nós acabamos tendo mesmo que rastejar pra sair da piscina. Minha cabeça girava e meu corpo estava mole.

– Acho que fiquei sem ossos – eu reclamei. Conseguir ficar em pé no chão firme era uma dificuldade. — O que diabos você fez comigo? Até parece que eu entornei uma garrafa de Conhaque.

Ele soltou uma risada, esforçando-se pra por-se de pé também.

– Dessa vez não vou poder ajudá-lo, maninho — ele conseguiu passar um braço em volta da minha cintura -, ou vamos acabar os dois com a cara no chão.

Eu mordi o lábio inferior para testá-lo, e vi que ele estava dormente.

– Sua cabeça também está rodando? – perguntei.

Ele riu outra vez.

– Pode deixar que eu aviso assim que conseguir voltar a sentir alguma coisa acima da cintura. – E puxou minha cabeça para trás, beijando-me levemente, enquanto andávamos trôpegos feito bêbados até o banheiro do hotel.

Mais tarde, no táxi a caminho da igreja, pensando em casamentos e alianças, eu lembrei que o Kanon uma vez dissera que nós éramos duas almas perdidas. Naquele instante eu não podia deixar de concordar com ele. Um com o outro, porém, nós havíamos encontrado algo. Algo que nos redimia e que nos elevava, que nos fazia criar raízes. Eu não precisava da aprovação das pessoas, eu não precisava de alianças, ou da benção de Deus. Eu só precisava dele. Ali, do meu lado, para sempre.

oOOoOOo

Afrodite POV

Quando chegamos à igreja os sinos estavam tocando, o sol estava brilhando e alguns convidados de última hora chegavam correndo. Ventava também e o ar estava tomado de sal marinho. Meu cabelo ia ficar um horror, eu pensei. Tomara que na farmácia local tivesse algum condicionador de tratamento profundo. Droga! Tomara que existisse uma farmácia, eu só me lembrava de ter visto restaurantes e pousadas no caminho até o hotel.

A igreja, no estilo das demais construções na ilha, era toda branca de paredes encaroçadas e grossas janelas pintadas de azul. Um charme. O adro dava para um gramado. Depois, a uns cem metros de distância, vinha o Egeu. — Na verdade, estou inventando essa última parte. Não faço a menor idéia da distância que estávamos do oceano. Só os homens conseguem saber esse tipo de coisas: 'Meio quilômetro.' 'Cinquênta metros.' Indicações de caminho, informações de distância. Eu não faço idéia do quão longe exatamente da igreja o mar ficava... só sei que não ia querer andar até lá de salto.

Os padrinhos já estavam enfileirados na porta, e eu logo reconheci entre eles a figura de Milo, e daqueles gêmeos policiais que conheci no restaurante. Carlo selou meus lábios com um beijo e sumiu para dentro da igreja, enquanto eu fiquei ali, do lado de fora, junto com Shaina e o pai da Marin, esperando pela noiva.

Eu estava com um look feminino, em um vestido longo de cetim azul prateado — que fazia par com o de Shaina -, e um arranjo de rosas cor-de-rosa nos cabelos, que foram encomendadas junto com o buquê de Marin.

A única coisa remotamente sofisticada eram meus sapatos Manolo Blahnik, que nem dava pra ver.

E eu nem me importava. Estava radiante.

Meu Deus, era tão divertido ser dama de honra! Eu ia sentir falta disso.

O som de cascos de cavalo na estradinha de pedra que levava à igreja chamou a minha atenção, e eu me virei para ver a carruagem da noiva subindo pelo caminho estreito como algo saído de um conto de fadas. Seu véu estava voando ao vento, e ela estava sorrindo radiante para algumas pessoas que paravam para olhar. E eu nunca a tinha visto mais linda.

Honestamente, eu não estava planejando chorar. De fato, já havia até planejado um modo de impedir isso, recitando o alfabeto de trás para a frente imitando o sotaque francês do Camus. Mas enquanto ajudava Marin a ajeitar a cauda sentia umidade acumulando em volta dos olhos. E quando a música do órgão cresceu, a Marcha Nupcial começou a tocar, e nós começamos a entrar lentamente na igreja apinhada, tive que fungar com força a cada dois compassos, junto com a música.

Marin estava segurando com força o braço do pai e a cauda deslizava pelo tapete branco. Eu vinha logo atrás dela, ao lado de Shaina, tentando não fazer barulho com os saltos dos sapatos e esperando que ninguém notasse que meu nariz estava vermelho e minha maquiagem começando a ficar derretida.

Quando chegamos à frente do altar, Aioria estava là, em pé, esperando por nós. Eu sempre o havia considerado um homem bonito, mas ele estava mesmo impressionante em seu meio fraque branco que realçava o verde dos olhos e destacava o tom bronzeado natural da pele. E ele olhava pra Marin com amor e admiração tão transparentes que eu já podia sentir o nariz começando a comichar de novo.

Dos dois lados do altar estavam alinhados os padrinhos.

O vigário começou seu discurso do 'Meus amados', e eu me senti relaxar de prazer. Ia adorar cada palavra familiar. Era como olhar o começo de um filme predileto, com minha amiga fazendo um dos papéis principais.

– Marin Saito, aceita este homem como seu legítimo esposo? – O vigário tinha sobrancelhas gigantescas e grisalhas, que ele erguia a cada pergunta, como se tivesse medo de que a resposta fosse 'não'. – Para amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, todos os dias de sua vida?

Houve uma pausa, e então Marin disse:

– Sim – numa voz clara como um sino.

Eu queria que as damas de honra também tivessem que dizer alguma coisa. Não teria que ser muito. Só um rápido 'Sim' ou 'Aceito'.

Quando chegamos à parte em que os noivos precisam dar as mãos, Marin me entregou seu buquê, e eu aproveitei a oportunidade para girar e olhar rapidamente para as pessoas nos bancos.

O lugar estava totalmente apinhado. De fato, não havia espaço para todo mundo se sentar. Havia um monte de mulheres de vestidos coloridos e homens de ternos escuros. Eu vi Shaka e Mú em um dos bancos, e lá estava Camus, espremido entre Shaka e uma moça de vestido verde. Ele estava olhando para o altar e estava sorrindo. Ele sorria para Milo, eu percebi, que lhe sorria de volta. Estavam completamente perdidos um no outro. Pertenciam um ao outro. E, para minha surpresa, eu me senti ligeiramente vazio por dentro. Camus estava apaixonado, Marin estava se casando... tudo mudou.

Ele não precisava mais de mim, eu pensei. Camus tinha outra pessoa, agora. Que sempre viria em primeiro lugar na sua vida. E minha garganta ficou ligeiramente apertada enquanto me lembrava de tudo o que passamos juntos. Os tempos de colégio, a faculdade, as festas, as conversas, as risadas, os conselhos, os planos...

De repente, tinha necessidade de um pouco de conforto.

Levantei rapidamente os olhos examinando as fileiras de convidados outra vez, procurando pelo rosto de Carlo. Por alguns instantes não consegui encontrá-lo, e, mesmo que eu continuasse com o sorriso confiante no rosto, senti um pânico ridículo começar a crescer dentro de mim. Como uma criança que percebeu que foi deixada na escola, que todo mundo foi apanhado na saída, menos ela.

Até que, de repente, eu o vi: De pé, atrás de uma coluna perto dos fundos. Alto, moreno, e sólido. Os olhos azuis fixos nos meus. Olhando para mim e ninguém mais. E quando olhei de volta para ele, senti alívio. Eu também fora apanhado, tudo bem.

O engraçado, eu lembrei, é que quando o vira pela primeira vez, no cemitério, há dois anos, não achei que podia acabar me apaixonando por ele.

Tinha ido visitar o túmulo do meu pai. Agachado, conversando com ele, contei como as coisas estavam indo, como estava a mamãe – na verdade, só mesmo um apanhado geral. Então, no meio do meu relato, percebi que alguém olhava para mim, algumas fileiras de túmulos mais a frente. Um homem. Não era meu tipo. Muito largado. Alto. Moreno. Barba por fazer, impermeável azul marinho, jeans surrado, coturno (olhei muito rápido), carregado de rosas muito brancas. Cabelo escuro, meio espetado (mas isso podia ser o resultado de um dia de vento).

Meu namorado anterior era bem diferente. Fotógrafo, loiro, engomadinho. Um sedutor de olhos brilhantes.

Imediatamente me senti invadido. Quer dizer, eu estava no cemitério. Se não podia falar com meu pai ali, onde então?

– Pai – eu disse -, tem um cara me observando falar com você. Que grosso!

Na minha cabeça, a voz respondeu: — Talvez ele não esteja olhando pra você. Talvez esteja olhando para o vazio. Dá uma chance pro ser humano.

Olhei de novo. Definitivamente ele estava me observando.

Que sacrilégio! No cemitério. Mas talvez fizesse sentido. Sexo e morte, vocês sabem.

Finalmente eu me despedi do meu pai e andei em direção à saída. Teria que passsar pelo homem pra pegar o caminho principal e, apesar de normalmente não ser o tipo que desafia as pessoas, estava na defensiva por causa daquele olhar. Quando cheguei perto do sujeito, parei e disse: — Só estava conversando com uma pedra de mármore porque não tenho escolha. Preferia que ele estivesse vivo, entendeu?

– Seu pai? – Ele perguntou. Tinha um sotaque italiano pronunciado.

– É.

– Eu também. Meu irmão. – Ele disse.

De repente, não estava mais me sentindo invadido, mas triste. Triste por nós dois.

– Não tive a intenção de te deixar constrangido – ele falou.

– Mas deixou.

Ele tinha enchido o túmulo do imão de rosas e, não sei por que, isso me tocou. Quer dizer, ele poderia ter comprado qualquer coisa... Um buquê de flores exóticas, orquídeas, lírios... Mas rosa é uma flor sensível.

Ele disse:

– Achei... legal... você conseguir falar com tanta liberdade... – Fez uma pausa, olhou pra baixo, depois pra cima de novo e os olhos azuis dele me causaram um impacto enorme. — Fiquei com inveja de você.

Depois perguntou: — Você vem muito aqui?

Dei de ombros.

– Mais ou menos uma vez por mês.

– Isso não é muito ortodoxo... – ele disse. – Cemitério, essas coisas... eu posso voltar no mês que vem, na esperança de te encontrar, ou... você tomaria um chocolate quente comigo agora?

Inteligente. Chocolate quente era a única coisa – a única coisa – que eu teria aceitado. Seguro. Totalmente diferente de ele ter me convidado para um drink, ou um chá. Bebida alcoólica: vulgar. Chá: bundão com fixação na mãe.

Fomos ao Starbucks do outro lado da rua, tomei chocolate quente com marshmallows e pensei em parentes mortos.

Ele era ítalo-americano, eu descobri. Mãe italiana – morava na toscana e tudo -, pai americano. O irmão era mais velho que ele, morava com o pai nos EUA antes de morrer.

Ele disse: — Toda vez que alguma coisa boa acontece comigo, quero contar pra ele, e toda vez que alguma coisa ruim acontece, quero que ele me ajude.

Eu sabia exatamente como ele se sentia. Nos dois tínhamos doze anos quando perdemos pessoas queridas. Era bom – um alívio e tanto na verdade — conhecer alguém que também tivesse perdido alguém na mesma idade que eu. Me abri, comparei sentimentos, estava atraído pelo cara, mas não sentia desejo por ele. Na verdade, sentia quase como se estivesse fazendo um favor ouvindo-o falar do imão.

Ele disse: — Provavelmente a pergunta é de mau gosto, levando em conta o lugar onde a gente se conheceu, mas há alguma chance de eu ver você de novo? Prometo não falar do meu irmão morto na próxima vez.

Encolhi-me na cadeira assaltado pela imagem dele em cima de mim, nú, excitado, cheio de cabelo no peito. Senti um aperto na boca do estômago. Talvez fosse enjôo. Ele não era mesmo meu tipo. Pensei que parecia mais velho, além de (fútil, fútil, eu sei) não ter gostado da roupa que usava. Mas por que não tentar?

Anotei meu telefone num ingresso de cinema antigo que estava perdido na minha bolsa.

Ele olhou para o papel e disse: — Missão Impossível? Bom?

– Você não viu?

– Não costumo ir muito ao cinema – ele deu de ombros -. Estou sempre ocupado demais com o que acontece por trás das telas – ele sorriu -. Sou diretor.

Achei melhor perguntar o nome dele – é isso que a pessoa tem que fazer, sabe, quando o outro é escritor, ator, ou, isso, diretor de cinema. É quase como se pedissem pra você perguntar.

– Carlo Di Angelis — ele respondeu -, mas as pessoas me conhecem mais pelo meu apelido.

Fiz um gesto afirmativo e disse 'Hummm', pra disfarçar o fato de nunca ter ouvido falar.

Ele me observou entrando no minha Ferrari vermelha. Olhei pra ele pelo espelho retrovisor. Mesmo a distância, deu pra ver o azul dos olhos. Lentes de contato coloridas? Não. Lentes de contato coloridas deixam os olhos esquisitos. Meio parados, com cara de morto. Quem usa parece meio Alien.

Fiquei me perguntando se ele ia ligar. Não tinha certeza. Suspeitei que talvez fosse casado.

Não procurei informações sobre ele no Google. Esse era o tamanho da minha falta de interesse.

No dia seguinte, de manhã cedo, meu celular tocou. Não reconheci o número, mas atendi mesmo asssim. Uma mulher disse: — Aqui é a assistente do Sr. Di Angelis. O Sr. Di Angelis quer saber se você estaria livre hoje à noite. Ele pode buscá-lo às sete. Preciso do seu endereço, por favor.

Fiquei chocado, em silêncio. Depois ri. Disse: — Não.

– Não o quê?

– Não, não vou dar meu endereço. Quem ele pensa que é?

Foi a vez da mulher ficar chocada.

– Se o Sr. Di Angelis quer marcar um encontro comigo — eu continuei -, ele mesmo pode pegar o telefone e ligar pessoalmente.

– Sim... mas... o Sr. Di Angelis está muito ocupado.

Eu entendia de gente ocupada. O meu melhor amigo era a critura mais ocupada do mundo, e eu nunca o vira pedindo pras suas assistentes marcarem encontros românticos por ele.

– Preciso desligar agora – falei –. Obrigado. Um prazer falar com você. Tchau. (Não custava nada ser educado.)

Não fiquei nem indignado. Simplesmente me dei conta de que estava certo, de que ele não era meu tipo. Talvez algumas pessoas vivessem assim, pensei, pedindo aos assistentes que marcassem encontros românticos pra elas. Talvez isso fosse considerado absolutamente normal no show business.

Não esperei que ele me ligasse de novo e realmente não me importei com isso.

De qualquer jeito, alguns minutos depois ele ligou. Rindo. Pedindo desculpas por ser um imbecil arrogante.

Eu disse: — Vocês cineastas perderam completamente a noção da realidade? (Tom leve de gracinha).

– Não.

– Jura? Então, me diz o preço do leite. (Uma vez, por acidente, eu vira um programa em que o ministro de alguma coisa morreu de vergonha por não saber isso.)

Ele disse: — Não sei. Não tomo leite.

– Por quê? Muito ocupado?

Ele riu. A gracinha ia bem.

Eu disse: — Não toma leite com o cereal de manhã?

– Não como cereal – ele respondeu.

– O que você come no café da manhã?

Houve uma pausa, depois ele disse: — Quer descobrir?

Cafona. Não queria mais fazer gracinha.

– Desculpe – ele disse. Pareceu modesto, depois perguntou: — Você está livre hoje à noite?

– Não. (Estava, mas fala sério...)

– E amanhã... ah, não, não posso amanhã. Quarta. Só um minuto – houve uma pausa em que eu ouvi o barulho de papéis sendo remexidos, depois ele voltou ao telefone: — Quinta?

– Vou olhar minha agenda. – Olhei. Depois disse: — Tudo bem, quinta-feira à noite.

– Então, quinta – disse ele. – Eu te pego. Sete?

Que mania de sete! Por que tão cedo?

– Vou reservar nossa mesa em alguns lugares e você escolhe.

– Certo. – eu concordei. E depois: — Só mais uma coisa. Você é casado?

– Por quê? É uma oferta?

Mais cafonice. Perguntei:

– Sim ou não? Casado ou não?

– Não.

– Ótimo.

– Estou realmente ancioso pra ver você – falou.

– ... É, eu também.

Mas eu não tinha certeza se estava. E, quando ele apareceu de moto, camisa de flanela, jaqueta de couro, coturno, pensei: Ah, não, que erro. O estômago deu aquela reviravolta, aquela espécie de enjôo bateu de novo. E, claro, as coisas ficaram piores. Mas depois... sem roupa... tudo mudou. Comecei a realmente gostar do homem. Nunca, nunca me arrependi.

Quando penso nisso hoje — no risco que corri -, sinto calor e calafrio ao mesmo tempo. Quer dizer, eu poderia despreocupadamente ter jogado tudo fora, antes mesmo de começar. E simplesmente não consigo, não consigo, imaginar minha vida sem esse italiano agora. Ele foi a experiência mais intensa de todas. O homem mais intenso, mais carinhoso. O mais lindo, o mais sexy.

O som de sinos tocando me tirou de meus devaneios, o coral começou a cantar e eu percebi que a cerimônia chegara ao fim.

Saímos no adro com uma chuva de pétalas de rosa, e uma multidão que se juntara do lado de fora começou a aplaudir.

– Parabéns! – gritei, dando um enorme abraço em Marin. – E para você também, Aioria! Sei que vocês vão ser felizes de verdade – disse calorosamente, e dei um beijo em cada bochecha dele, e nós três rimos enquanto alguém jogava mais pétalas.

Os convidados já estavam se amontoando do lado de fora da igreja como doces saindo de um vidro, falando, rindo e chamando uns aos outros em vozes altas e confiantes. Apinharam-se em volta de Aioria e Marin, beijando, abraçando e apertando mãos, e eu me afastei um pouquinho, imaginando onde Carlo estaria.

– Damas de honra! – a Marin gritou de repente. – Cadê o Dite? Precisamos dele para uma foto.

Meus olhos se arregalaram.

– Aqui! – gritei, e corri pela multidão pra me juntar a ela e a Shaina. O fotógrafo tirou algumas fotos nossas rindo uns para os outros, depois parou para recarregar a máquina.

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Eu senti um toque leve no braço, e me virei pra encotrar Camus me olhando com uma expressão muito séria.

– Di, escute – ele falou baixo. Estava tão perto que dava pra ver cada pelo ruivo da sua sobrancelha –. Preciso te perguntar uma coisa. Você quer mesmo se casar, n'est ce pas? Isso non é só mais uma das suas manias, é? – ele disse.

– Bom... não. – Admiti. – Realmente, não. Digo, não é só uma mania.

Ele assentiu.

– E você acha que o Máscara é o homem certo? – Ele fez uma pausa. — Sinceramente... Só entre nós.

Eu mordi o lábio. Não entendia por que ele estava me fazendo aquelas perguntas. Atrás de mim alguém dizia em um inglês carregado de sotaque:

– ...E amanhã o padre virá abençoar a nova casa, então tenho que fazer diples.(2)

– É – acabei dizendo, enquanto sentia um rosa profundo surgir nas minhas bochechas. – É, acho que ele é sim.

Ele ainda me olhou interrogativamente por um tempo, e então pareceu chegar a uma decisão. Voltou-se para Marin, que assistia a tudo de longe, e fez um aceno positivo com a cabeça.

– Certo! – ela disse, se aproximando. – Vou jogar meu buquê então.

– O quê? – eu olhei pra ela perplexo. – Querida, não seja estúpida. Você não pode jogar o seu buquê agora. Você tem que fazer isso no final!

– Posso, sim! – ela revidou – Sou a noiva, posso jogar quando eu quiser. Se eu esperar até o final não vai ter graça. Agora, fique ali. – Ela apontou com uma mão imperiosa para um pequeno monte de grama mais afastado. — Oria? – Ela ergueu a voz para o marido. – Vou jogar meu buquê agora, certo?

– Certo! – ele gritou animado. – Boa idéia.

– Vá, Di! – o Camus me incentivou.

– Honestamente! Eu nem quero pegar! – reclamei ligeiramente emburrado. Mesmo assim, fui para o montinho, como foi ordenado.

O negócio levemente estranho era que ninguém estava vindo comigo. Todo mundo se afastara. De repente, notei que o Camus e o Milo estavam conversando alguma coisa com aqueles gêmeos e então os três gregos estavam andando pela multidão e murmurando no ouvido das pessoas, e gradualmente todos os convidados se viravam com rostos luminosos e cheios de expectativa.

– Pronto, Di? – Marin gritou.

– Espere! – eu gritei de volta. – Não tem gente suficiente! Tinha que ter um monte de gente aqui...

Sentia-me tremendamente idiota ali sozinho. Fala sério, Marin estava fazendo aquilo totalmente errado. Será que ela nunca havia ido a um casamento na vida?

– Espera! – gritei outra vez, mas era tarde demais.

– Pega, Dite! – ela berrou. E o buquê veio girando pelo ar...

Eu tive que dar um pulinho para pegá-lo. Era maior e mais pesado do que eu esperava, e por um momento eu fiquei só olhando atordoado pra ele, meio deliciado em segredo, e meio totalmente furioso com meus amigos.

E então meu olhar foi atraído para um detalhe que definitivamente não devia estar ali. Uma espécie de papelzinho saindo por entre as flores. Um envelopezinho. 'Para Dite'.

Tinha um envelope endereçado a mim no buquê da Marin?

Eu levantei os olhos perplexos pra ela, que, com o rosto brilhando, assentiu para o envelope.

Com os dedos trêmulos eu comecei a abrir o cartão. Havia uma coisa dentro. Era... Era um anel. E havia uma mensagem na letra do Carlo. E ela dizia... Ela dizia... 'Você Quer...'

Eu respirei fundo, tentando manter o controle. Mas o mundo estava ficando turvo de repente, e o sangue parecia martelar na minha cabeça.

Eu levantei os olhos, atordoado, e ali estava ele, adiantando-se em meio às pessoas, o rosto sério, mas os olhos quentes.

– Bello... – ele começou, e houve um minúsculo ofegar por todo o adro. – Você aceitaria...

– Sim! Siiimmm! – O som jubiloso estava rasgando o ar antes mesmo que eu percebesse que havia aberto a boca. Meu Deus, eu estava tão cheio de emoção que minha voz nem mesmo parecia a minha. De fato, parecia mais...

– Mamãe? – eu pisquei.

Meu Deus, o que ela estava fazendo ali? Com sua barriga de seis meses proeminete em seu Versace vermelho, de mãos dadas com o pai de Camus. E o Hyoga e o Shun também estavam lá. Parados ao lado deles. Um braço de Hyoga envolvendo carinhosamente a cintura do namorado — depois que o Camus e o Milo haviam se acertado, o Oga também resolvera assumir o namoro.

Eu busquei os olhos do meu melhor amigo e ele sorriu satisfeito pra mim... E eu finalmente entendi o que ele tanto andava escondendo de mim nos últimos dias.

Não dava pra acreditar.

– Desculpe! – minha mãe sussurrou, apertando a boca com a mão, horrorizada. E uma onda de risos perpassou a multidão.

– Sra. Brigitta, eu me sentiria honrado – Meu namorado falou, com um sorriso. – Mas acho que a senhora já é comprometida.

Depois olhou para mim de novo.

– Amato... – Ele falou, e um silêncio completo, a não ser por um minúsculo sopro de vento, espalhando pétalas de rosa, encheu o ar. Ele se ajoelhou – Será que você me daria a honra de se casar comigo?

Minha garganta estava tão apertada que eu não conseguia falar. Fiz um movimento minúsculo com a cabeça e ele segurou minha mão. Desdobrou meus dedos e pegou o anel. Meu coração batia feito um louco. Ele queria se casar comigo. Devia ter planejando isso o tempo todo. Sem me dizer nada. Meu Deus, nós íamos mesmo nos casar. E nem precisava mais ser na Suécia como eu tinha pensado já que haviam legalizado o casamento gay no Estado New York no final do mês passado (3).

Eu olhei mais uma vez para o anel, e senti meus olhos ficarem turvos. Era um anel antigo de diamante, engastado em platina, com minúsculas garras curvas. Nunca vira outro igual. Era perfeito.

– Posso?

– Pode – sussurrei, e assisti enquanto ele o colocava no meu dedo. Ele ficou em pé, me olhou de novo, e me beijou... E os aplausos começaram.

'Não acredito', eu pensei. 'Eu estou noivo'.

oOOoOOo

Milo POV

Nós chegamos a tempo de ver o pôr do sol na praia. Eu olhei para o céu que explodia e cintilava com jorros de luz selvagem, e o globo vermelho imenso e redondo que afundava lentamente, inexoravelmente, em direção à linha azul da água. Depois olhei em volta. A tenda estava luzindo no crepúsculo de verão, a banda estava tocando uma versão precária de 'Unforgettable' e os casais estavam dançando. E talvez a música não fosse tão boa quanto no Plaza. E talvez os convidados não estivessem tão bem-vestidos. Mas aquilo era real. Os noivos se amavam. E as pessoas estavam felizes. Havia risadas, todos falavam ao mesmo tempo, minha mãe e minhas tias, implicavam umas com as outras, enquanto as crianças corriam entre os convidados.

Tivemos um belo jantar composto de tomate assado com queijo feta, sopa fria de iogurte com pepino, carneiro assado, Moussaká, Baklavá e frutas da estação, e tomamos um monte de chanpagne, ouzo, e do vinho grego que meu tio Ted produz na sua vinícula em Creta. Meus tios brigaram pra ver quem ia comer os miolos do carneiro, e então minha tia Diane correu atrás de mim com o olho, tentando fazer com que eu o comesse, pois isso supostamente me faria ficar mais esperto.

Minha mãe ficou encantada com o Afrodite e com o Camus, mesmo pensando que o Dite era uma mulher, e lamentando profundamente o fato do Camus não ser grego. Minha tia Voula travou uma longa conversação com o Shaka sobre os segredos de se preparar um bom carneiro, embora ele fosse vegetariano. E meu avô fez questão de enfatizar para o pai do Camus como quando os gregos já estavam escrevendo filosofia o povo dele ainda estava se balançando nas árvores.

Nós dançamos em círculo, atiramos dinheiro aos noivos, quebramos pratos para dar sorte, e então Aioros bateu com um garfo no copo e fez um discurso sobre Aioria e Marin.

Sobre como o Oria sempre fora uma pessoa alegre que todos queriam ter por perto, mas de como agora ele precisava de alguém realmente especial ao seu lado, alguém que realmente o amasse pela pessoa que ele era. Então ele disse que já havia comparecido a muitos casamentos, mas que nunca tinha sentido a alegria que estava sentindo agora. Que sabia que Aioria e Marin eram feitos um para o outro, e que gostava demais dos dois, e que eles não sabiam como tinham sorte. E, que se fossem abençoados com filhos, eles também não saberiam como tinham sorte.

O discurso do Oros quase fez minha mãe chorar.

Depois o Aioria se levantou e contou sobre como ele e a Marin se conheceram na faculdade e ele a perseguiu até que ela aceitasse sair em um encontro com ele. E como ele me fez conseguir uma mesa pra ele no restaurante mais vip de New York e estragou tudo depois, jogando o carrinho de doces no chão, e quase pondo fogo na toalha. Então ele disse que descobriu que a Marin devia ter algum frisson por baderneiros porque aceitou sem pestanejar sair em um segundo encontro com ele. E todos na mesa riram.

Quando ele se sentou, foi avez do Afrodite se levantar. Ele se apresentou e falou sobre a Marin. Sobre como ela era a advogada mais competente que já conhecera, e como a empresa estaria encrencada sem ela já que ele aparentemente tinha uma tendência a ocupar seu tempo muito mais com as liquidações da Chloé do que com processos trabalhistas. E todos riram outra vez. Depois ele disse que já a tinha visto enfrentar alguns desafios enormes desde que se conheceram e que, de algum modo, ela tinha conseguido resolver todos eles. Sem usar um cartão Visa Platinum, ele acrescentou. E houve a maior gargalhada de todas.

Então minha mãe tomou a palavra. Disse que na vila em que ela vivera quando criança ela vira muitas guerras. Que turcos e alemães, todos eles faziam consessões, e que minha avó dizia: 'Somos sortudos por estarmos vivos'. E ela pensava: 'Nós não temos sorte por estarmos vivos. Não somos sortudos enquanto eles nos dizem o que fazer... como devemos viver, o que devemos comer'. 'Ninguém tem esse direito'- ela falou. Então olhou para o Aioria, depois pra mim e para cada um dos meus irmãos ali sentados e disse que muitas vezes era difícil dexar de lado alguns preconceitos, mas que tudo o que queria é que nós fôssemos felizes. Da maneira como escolhessemos ser. Que ela e o papai haviam se mudado pra Atenas e lutado contra tudo aquilo por nós. Pra que nós pudessemos viver. Pra que pudessemos escolher. Que ela nos dera a vida pra que pudessemos vivê-la. E todos aplaudiram.

Eu senti uma coisa quente me inundar por dentro, então senti a mão do Camus apertando a minha sob a mesa e percebi que sim, minha família era grande e barulhenta, e sim, nós assávamos carneiro no Natal... mas eles eram minha família. Nós brigávamos e nós riamos. E aonde eu fosse, o que quer que eu fizesse... eles sempre estariam lá.

E agora eu estava ali, sentado com Camus na praia. Só nós dois, longe de todo mundo por um momento. Eu havia perdido meu paletó, meu colarinho estava desabotoado, meus sapatos estavam manchados de grama, e os dedos de Athena – minha priminha de três anos — cobertos de chocolate haviam deixado marcas na minha camisa branca. Mas eu estava feliz.

Acho que nunca estivera tão feliz na vida. Ali, com os cabelos esvoaçando pela brisa marítima, ouvindo o som do mar e os ruídos mais distantes da festa, enquanto o sol desaparecia sob o oceano azul, tingindo o céu com o mesmo reflexo vermelho dos cabelos do homem ao meu lado.

– Então... – Eu falei, recostando-me apoiado nos cotovelos e olhando o céu que ia escurecendo aos poucos. – Nós conseguimos.

Ele desviou os olhos do sol, do mar, por um momento e os fixou nos meus.

– Nós conseguimos. – ele sorriu afastando uma mecha de cabelo ruivo que o vento insistia em jogar sobre seu rosto.

– Sabe... – eu disse com um suspiro — às vezes parece que foi tudo só um sonho estranho. Os roubos, a tiara, Pandora, a explosão no Plaza, sua noiva psicopata...

Ele riu, e nós ficamos em silêncio de novo.

– Você está arrependido? – Eu perguntei, de repente.

– Arrependido? — ele ecoou, confuso.

– Sobre a tiara – eu expliquei — . Ela era da sua mãe, afinal. Você não se arrepende de tê-la doado?

Ele balançou a cabeça.

– Eu sempre pensei que ela estaria muito melhor no Louvre, sabe. Meu pai é que queria que ela continuasse com a gente... – ele fez uma pausa — E você?

– Eu?

– Está arrependido?

Eu sorri, levando uma das mãos ao rosto dele.

– Nunca – disse, deslizando a mão pela boxexa alva, agora levemente rosada pelo sol forte da Grécia.

Então estendi a carícia para a mão que ele mantinha sobre o joelho, contornando com o indicador o anel que brilhava ali.

Ele usava a minha aliança, agora, e eu a dele. Era um símbolo, algo tangível que servia como lembrança do que nós representávamos um para o outro. Da nossa união.

Eu respirei fundo.

Havia chegado a hora. A última parte do meu plano. A última cereja em cima do bolo. Será que ele iria aceitar?

– Sabe, Camus... – eu comecei, e senti um pequeno espasmo de nervosismo.– Eu estive pensando muito em nós ultimamamente – eu tomei fôlego outra vez -. Sobre estarmos juntos. Sobre o que vai acontecer daqui pra frente. O que deveríamos fazer... – eu parei, procurando cuidadosamente as palavras. – E o que eu percebi é que há muitas coisas que eu nunca fiz. Eu nunca viajei de verdade, por exemplo. Nunca vi o mundo...

– Você foi morar em New York — ele lembrou.

– Eu sei — eu confirmei -. E New York é uma cidade fantástica, e eu adoro. Mas há outras cidades ótimas, em todo o mundo. Quero vê-las também. Munique, Milão, Mumbai, Hong Kong, Rio de Janeiro... e não somente cidades! – eu abri os braços. – Rios... montanhas... todas as paisagens do mundo...

Ele levantou uma sobrancelha intrigado.

– Resumindo... – eu mordi o lábio. – eu fiz o seguinte: Peguei uma parte do dinheiro que havia separado para o meu restaurante... E comprei duas passagens de primeira classe para uma viagem ao redor do mundo.

– Ao redor do mundo? – ele pareceu genuinamente pasmo. – Está falando sério?

– É. Ao redor do mundo – eu concordei -. Nós podemos demorar quanto tempo quisermos. Só três semanas ou... – eu fixei meus olhos nos dele –. Seis meses.

– Seis meses! – ele me encarou de volta. – Você está brincando?

– Não – eu neguei com a cabeça –. Eu não estou brincando. Olha, nesses últimos meses o Shaka conseguiu rescindir todos os meus contratos, só falta alguns últimos acertos e eu estarei livre. Então, antes de afundar de cabeça nessa coisa do restaurante, eu pensei que nós podíamos... não sei... dar um tempo.

– Milo – ele balançou a cabeça –, essa é uma idéia linda, mas eu non posso simplesmente sair por aí e...

– Pode. – eu o interrompi — Você pode! Está tudo acertado. Eu falei com o seu pai... Quer dizer – eu me corrigi -, o Afrodite falou, e seu pai disse que a filial em New York está praticamente andando sozinha, e que ele não teria problemas em ficar de olho nas coisas por lá por um tempo. Camus, você pode fazer isso. Todo mundo acha que você deveria.

Ele arregalou os olhos.

– Todo mundo?

Eu contei nos dedos.

– Seu pai, Brigitta, Afrodite, Marin, Shura, Deba, meus irmãos, seu irmão, Brian...

– Brian? – ele me encarou perplexo — . Vocês falaram com o meu mordomo também?

Eu assenti.

– Sim. E todos acham que você precisa de uma folga. Você esteve trabalhando tanto, durante tanto tempo. E depois, tudo o que aconteceu...

Ele olhou pra o chão, franzindo a testa, por alguns momentos, e então disse:

– O Dite falou mesmo com o meu pai? E ele realmente estaria disposto a...

– Ele estaria mais do que disposto – eu o interrompi -. Ele disse que está entediado de ficar em New York por casa da gravidez de Brigitta, sem ter nada pra fazer a não ser caminhadas. E disse que, mesmo que você não fique longe, você precisa de uma folga para respirar. Precisa de férias de verdade.

– Seis meses – ele disse, coçando a testa. – Isso é mais do que férias.

– Pode ser menos tempo – eu falei depressa — Ou mais! O fato é que nós podemos decidir enquanto viajamos. Sem amarras, sem compromissos, sem nada para nos prender... Cami, esta é a hora. Enquanto nós ainda somos novos, enquanto temos tempo. Visualize só. Nós dois, percorrendo o mundo. Vendo coisas incríveis. Aprendendo com outras culturas. Poderia ser a nossa Lua de Mel.

Ele sorriu com o canto dos lábios.

– É preciso estar casado pra se ter uma Lua de Mel, Milo.

– Bem... – eu sorri de volta, o coração aos pulos – nós podemos providenciar isso também.

Ele me fitou incrédulo. Balançou a cabeça, abriu a boca e voltou a fechá-la outra vez, só pra abri-la de novo um segundo depois.

– Milo, isso... isso é uma proposta?

– Você aceita?

Ele piscou algumas vezes, então olhou para o chão, e durante um longo, longo tempo tudo que se pode escutar foi o barulho das ondas quebrando na praia, o vento passando zunindo nos ouvidos, e os múrmurios distantes da festa mais atrás.

Meu coração se apertou. De repente, eu tive certeza de que ele diria que não. Que não aceitava.

Então ele levantou a cabeça – e ali estava um pequeno sorriso em seu rosto.

– Mas nós teremos que estar de volta antes do casamento do Afrodite – ele disse, deixando-se cair de costas no chão – Ele me mataria se eu perdesse isso.

Eu senti meu coração dar aquela conhecida reviravolta no peito. A pulsação martelando.

– Isso é um sim? – Eu me inclinei sobre ele, mal conseguindo conter a empolgação, o rosto sobre o dele, um braço esticado de cada lado de seu corpo — Camus, isso é um sim?

Ele encolheu os ombros

– Nós já temos as alianças mesmo, então... — Ele sorriu amplamente dessa vez. — Eu tenho opção?

– Não. – eu sorri radiante – Não tem. – E então o puxei pra um beijo urgente.

– Eu amo você. – Eu sussurrei quando nossos lábios se asfastaram.

Um pouco mais de cor apareceu em seu rosto. Ele se comovia com tanta facilidade, eu pensei, perguntando a mim mesmo se ele tinha alguma idéia do quanto era adorável.

– Je sais – ele abriu os olhos –. Eu, hã... estou começando a me acostumar com isso.

– Ótimo! – Eu sorri e mergulhei meus dedos em suave carícia pelos cabelos macios.

Então, ouvindo a canção das ondas que lambiam a praia e a brisa suave que sussurrava entre as oliveiras cheias, ele levantou o rosto e me olhou com uma intensidade estranha antes de dizer:

– Por muito tempo eu achei que isso nunca fosse acontecer, sabe – ele respirou fundo — o amor... me apaixonar por alguém assim... Eu pensava que isso non era pra mim. Às vezes ainda acho que vou acordar e estar enterrado na minha biblioteca memorizando números, esperando minha vida começar. Mas aconteceu. Aconteceu, e eu entendi algumas coisas. Entendi que sim, nós somos muito diferentes. E sim, nós brigamos muito. E talvez esse non seja aquele final feliz que esperamos das histórias que nossos pais liam pra nós quando crianças... Mas é o meu final feliz. E se eu tive que doar uma jóia, enterrar uma noiva e sobreviver a uma explosão pra poder estar aqui com você agora, então eu só posso dizer que valeu a pena.

Ele levantou uma das mãos e afastou alguns fios de cabelo que haviam caído sobre o meu rosto.

– Você me faz feliz. – Ele sorriu e nossos olhos se encontraram. Foi maravilhoso e, por um momento, simples.

– Eu sei – eu falei, e então juntei meus lábios aos dele outra vez.

Não, jamais javia sido daquele jeito com mais ninguém. De todos que eu conhecera, ele era o único com quem eu me sentia compelido a ficar, e tinha o impulso de tocar. Tudo isso ia além do físico, do desejo básico e aparentemente insaciável que ele inspirava em mim, e que era uma fascinação constante. Eu o amava. A sua cabeça, o seu coração, os seus defeitos, os seus complexos.

De repente, eu me dava conta, como andava acontecendo com certa frequência ultimamente, que começara a me apaixonar por ele no momento exato em que o vira. Na sala do meu apartamento, pedindo-me pra que eu lhe ensinasse a seduzir.

Fazia cerca de sete meses, eu percebi. Aquilo acontecera apenas sete meses e meio antes, quando nossas vidas haviam colidido. E se modificado de forma irrevogável.

Eu passei o polegar sobre aliança no meu anelar. Ele era meu agora. Meu Camus. Meu noivo. Meu ruivo. Eu iria gostar de pensar nisso quando o cavalgasse, ou quando ele se remexesse por baixo de mim, ou quando se largasse deitado de costas, esgotado, ao meu lado. Aquele homem fascinante de olhos avermelhados pertencia a mim.

Ele me procurara pra que eu o ensinasse a seduzir... E no final nós dois acabamos seduzidos.

– Milo! – A voz da minha mãe se fez ouvir à distância. – Meninos! Está na hora de cortar o bolo! Taki, acenda as luzes.

– Certo! – Gritou meu tio.

– Estamos indo! – Eu gritei de volta.

E então, enquanto as tochas eram acesas uma à uma na orla e luzes minúsculas começavam a piscar a nossa volta, nós voltamos pela praia sob o crepúsculo até a festa do casamento, minha mão apertando a do Camus com força.

E ali, olhando para os nossos dedos entrelaçados, o anel brilhando na mão dele, eu pensei que algumas coisas realmente duram pra sempre. Algumas coisas bem simples. Como o amor.

FIM

"Unforgettable, that's what you are.

Unforgettable though near or far

Like a song of love that clings to me

How the thought of you does things to me!

Never before has someone been more.

(Inesquecível, é o que você é.

Inesquecível, estando perto ou distante.

Como uma canção de amor que está grudada a mim

O pensamento em você provoca coisas em mim!

Nunca, antes, alguém foi tanto para mim).

Unforgettable in every way

And forever more, that's how you'll stay.

That's why, darling, it's incredible

That someone so unforgettable

Thinks that I am unforgettable too.

(Inesquecível, de todas as maneiras

E para sempre, é assim que você irá permanecer.

E é por isso, querido, que é incrível

Que alguém tão inesquecível

Ache que eu sou inesquecível também)."



NT:



1 – Yiayia é uma palavra grega para avó.



2 – Diples é uma sobremesa grega, são rolinhos de massa tipo folha fina, fritos, mergulhados em mel, e polvilhados com nozes picadas e canela.



3 – O casamento homossexual foi legalmente reconhecido no estado de New York no final de Junho de 2011.



Notas finais
Ola a todos,

Bem aí está finalmente o último ch dessa história. Essa minha primeira fic finalizada e vocês não sabem a emoção que eu senti ao escrever aquelas três letrinhas 'fim' ali em baixo. Tão feliz, e triste ao mesmo tempo.

E esse ultímo ch veio pra bater récordes, não é? O maior que eu escrevi até agora pra felicidade - ou carma - de vocês XD. E veio recheado de lemons também, pra alegria de muitos que sei huahuhua. E não reclamem que foram vocês que pediram XD, só espero que esteja a contento ^^.

Mas não foi só lemon, teve as partes fofas e açucaradas e as engraçadas também. Eu me baseei muito no filme Casamento Grego e na minha própria família criar as cenas com a família do Milo família de italianos é bem parecida com família grega, pelo visto XD. Eu lembro até hoje quando minha tia virou pra mim e disse: 'Você já viu o filme Casamento Grego?' eu disse que não - eu não tinha visto ainda na época -, então ela me mandou ver porque era igualzinho a nossa familia, e realmente era XDD.

E o POV do Dite, foi meu presenitnho final especial, não só pra vocês como pra mim mesma. Eu amo escrever com ele, e, depois de tudo eu acho que ele merecia, né? Na verdade eu tentei meio que dar uma finalizada em todos os personagens mais principais ^^.

E o que vocês acharam dos noivados? No começo minha idéia era de um noivado apenas para o Dite e o Máscara, e eles realmente se casariam na Suécia, porque realmente o casamento homossessual ainda não era reconhecido em NY. Mas, então aconteceu a legalização quando eu estava no meio da fic, e eu pensei: 'Não é possível, essa tem que ser a minha deixa, né?... Camus e Milo subornaram alguém lá, certeza' XD, então dei uma adaptadinha no final, espero que tenham gostado ^^.

Eu também quis mostrar um pouco mais dos casais, como casais mesmo. Interagindo como casais, ou contando, lembrando, suas histórias de casais. E quis mostrar como seriam mais oumenos daqui pra frente Milo e Camus na minha visão, com muitas brigas, e diferenças, sim, mas com muito amor também. ^^

Então é isso aí, espero que tenham gostado desse final. Deixem reviews, please. E quero saber o que acharam do epílogo também ^^.

Por fim, agradeço de coração a todos que chegaram comigo até aqui. Muito obrigada por tudo, vou sentir uma falta enorme de conversar com vocês: ddkcarolina, Lemony, LauraLuna, Sarah, Hitsujikai Atsuya, Deb, Kamy Jaganshi, Shuichi Duh, Shall, e Rhee outros tantos cujo nome ainda que não citados agora aqui estiveram sempre presentes.

Bjos.

PS1: Lembrando que o nome Carlo Di Angelis para o Mascára da Morte é criação da escritora Pipe. Muito obrigada mais uma vez, Pipe, por me deixar usar sua criação. Bjos

PS2: Créditod devidos à: Meg Cabot, J.D. Robb, Marian Keyes, e Sophie Kinsella