Aprendendo a Seduzir
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Milo POV
Tudo bem, era uma piada, certo? Não, porque aquilo simplesmente tinha que ser uma piada. Alguém estava obviamente querendo tirar uma com a minha cara. Só podia. Porque quando é que um ruivo totalmente deslumbrante daquele ia simplesmente entrar pela minha sala e me fazer uma proposta daquelas? Quer dizer, esse tipo de coisa simplesmente não acontece, não é?
É claro que eu estranhei quando a minha agente me passou aquele telefonema na quarta feira e uma mulher disse que a Invoice Finnancial and Factorig Corporate estava interessada em patrocinar o meu filme. Porque, vocês sabem, a Invoice Finnancial and Factorig Corporate não é exatamente o tipo de companhia que sai por aí patrocinando filmes. E estranhei ainda mais quando ela me disse que o vice presidente da empresa (o vice presidente, fala sério!), gostaria de marcar uma reunião comigo pra discutir o assunto. Quer dizer, não é como se o vice presidente de uma companhia do porte da Invoice Finnancial fosse ficar por aí confraternizando com atores cujos filmes eles inexplicavelmente queriam patrocinar. Porque o normal nesses casos não seria eles mandarem, sei lá, o secretário, o diretor executivo, ou algum outro subalterno qualquer? Então é óbvio que eu achei a coisa toda muito esquisita. Mas até aí a imaginar que em vez de um cinqüentão grisalho, ia entrar pela minha sala aquele espécime de ruivo, era algo que, vocês hão de concordar, eu absolutamente não poderia prever.
Só que foi exatamente o que aconteceu. Porque quando a secretária anunciou pelo nome de Camus Lefevre Chevalier (eu já sabia que o nome do vice presidente da Invoice Financial era esse por causa de umas pesquisas que andei fazendo no Google) e a porta da sala se abriu, eu tive que piscar umas três vezes pra ter certeza que eu não estava sonhando. De verdade. Porque ali, na minha frente, ao invés do velhote barrigudo que eu esperava, estava um dos homens mais lindos, que eu já tinha visto. Fora de brincadeira. E olha que eu já vi bastante. Intimamente, inclusive, se me permitem acrescentar.
Só que definitivamente nenhum era como aquele. Não mesmo. Totalmente exótico e elegante, sabe. Com aqueles cabelos vermelhos longos e lisos e aquele ar sério, em um Armani impecável. E a forma como os lábios dele se mexiam quando ele articulava as palavras, então? Meio que fazendo um biquinho, em um sotaque francês totalmente enlouquecedor. Isso, claro, pra não falar dos olhos. Meu Deus, o que eram aqueles olhos? Másculos, retos, gélidos. Mas que se adivinhava calor por baixo. De uma cor que ora parecia castanho, ora tomava tons de vinho, e, que se você olhasse bem, era ainda capaz de distinguir, lá no fundo, nuances de azul. Sério, uma pessoa era totalmente capaz de se perder naqueles olhos, só tentando adivinhar qual cor ainda poderia descobrir ali se olhasse mais fundo.
Então é claro que ninguém poderia realmente me culpar por estar ocupado demais tentando imaginar como ele seria por baixo daquele terno, ou em como iria ficar lindo deitado na minha cama com aqueles olhos indecifráveis nublados de desejo, pra me preocupar em prestar atenção ao que ele dizia, poderia?
Na verdade, eu realmente não consigo entender como é que um homem com aquela aparência pode ser vice presidente de uma multinacional. Sério. Quer dizer, será que alguém realmente presta atenção a alguma palavra do que ele diz em alguma reunião? Porque eu te digo, isso é totalmente impossível! A menos que todos os executivos sejam eunucos, é claro. Porque, fala sério, tinha que ter alguma lei proibindo uma pessoa de mexer os lábios desse jeito. Assim, fazendo esse biquinho, sabe. Quase como se estivesse pedindo pra ser beijado.
E talvez eu realmente devesse beijá-lo. Quer dizer, considerando-se que ele estava ali tão disponível e tudo. E se ele fosse uma mulher eu com certeza já o teria feito. Só que com homens a coisa é sempre mais difícil, sabe. Mesmo pra um cara como eu (eleito o homem mais desejado da América e tal). Porque sempre tem a chance dele ser hetero. O que seria um desperdício total no caso dele, diga-se de passagem.
Quer dizer, não que seja um desperdício transar com mulheres, não é isso. O problema é só transar com mulheres. Porque se vocês me perguntarem não existe estupidez maior do que essa coisa de 'eu só faço isso', ou 'só gosto daquilo'. Qual é? Não vivem dizendo que o amor é divino, sublime e essas coisas? Então como você pode dizer que só vai se apaixonar por alguém se esse alguém for homem ou mulher? Não que eu já tenha me apaixonado antes, de qualquer forma. Mas mesmo assim.
E foi exatamente quando eu estava me perguntando qual seria a reação dele se eu me levantasse daquele sofá naquele momento e o fizesse calar a boca com o melhor beijo da vida dele, que aqueles tentadores lábios que gemiam o meu nome, quer dizer, que se moviam a minha frente, silenciaram subitamente, e eu percebi aqueles olhos frios me fitando inquisitivamente. E estava óbvio que ele esperava que eu dissesse alguma coisa. Só que, claro, eu não fazia idéia do que dizer. Já que eu não estava exatamente prestando atenção ao que ele dizia.
Percebendo a minha situação (ou só tomando por hesitação o meu silêncio, mesmo), ele continuou. E dessa vez eu finalmente consegui prestar atenção ao que ele estava dizendo. Só que talvez eu não estivesse realmente ouvindo direito, não é? Quer dizer, talvez eu ainda estivesse meio que imaginando a coisa toda, sabe? Porque o que ele disse era definitivamente a última coisa no mundo que eu esperava que ele fosse dizer. E o que ele disse foi pra que eu o ensinasse a seduzir! Exatamente. Que eu o ensinasse a seduzir! Em troca do patrocínio da empresa dele, é claro.
Dá pra creditar? Assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo, sabe. Como se todo mundo entrasse todos os dias na casa das pessoas que nunca viram na vida, tomassem um café, conversassem sobre a última queda do dólar, e lhes pedissem que os ensinassem a seduzir! Só que, bom, a menos que eu esteja realmente muito desatualizado dos costumes nova-iorquinos, e eu acho que eu não estou, isso não é nem um pouco a coisa mais normal do mundo. Não mesmo. Principalmente no caso dele. Quer dizer, olha só pro cara! O que ele menos precisa com certeza é de aulas pra seduzir alguém, por favor!
Então é claro que aquilo era uma piada. E a qualquer instante uma equipe de filmagem ia entrar por aquela porta pedindo pra eu olhar pra uma câmera escondida, e então eu ia descobrir que aquele era o mais novo modelo masculino da Vogue. E não o vice presidente da Invoice Finnancial como eu tinha pensado (o que, afinal, fazia muito mais sentido, na verdade). Porque aquilo absolutamente tinha que ser uma pegadinha.
Só que aparentemente não era. Porque ninguém entrou na sala, apesar de eu ter esperado uns bons minutos, e o meu 'modelo masculino da Vogue' continuava apenas me olhando com aquele com aquele mesmo olhar impassível que ele provavelmente usa pra propor acordos, fechar fusões, ou sei lá o que mais que caras como ele costumam fazer naquelas tais reuniões de negócios (aquelas em que eles sempre estão quando a gente tenta procurar algum deles pra entregar um currículo, eu digo), esperando que eu dissesse alguma coisa. E o que eu disse, atônito, foi:
Você quer que eu o quê? Porque eu realmente ainda não tinha conseguido assimilar muito bem a coisa toda.
E eu sei que essa não era exatamente a coisa mais inteligente do mundo a se dizer no momento e tudo. Mas não se pode exigir muito de alguém numa situação dessas, pode? Ele pelo menos pareceu compreender esse ponto, porque se prontificou a explicar pacientemente todo o caso de novo. E eu digo 'de novo' porque é claro que ele já devia ter explicado a coisa toda antes. Quando eu estava mais entretido em imaginar como ele seria sem roupa, eu digo. Não que a idéia (dele sem roupa) ainda não fosse totalmente tentadora.
E o caso era que a noiva dele (eu sabia, ele tem uma noiva, nada no mundo pode ser perfeito) tinha corneado ele com um cara, e ele pretendia ter algumas lições com o 'sexy simbol' do momento (vulgo, eu) para reconquistá-la. Porque aparentemente ele não era sexy o bastante.
Dá pra acreditar?
Quer dizer, como assim ele não era sexy o bastante? Eu lá quase atacando o cara há um minuto atrás, e ele não era sexy o bastante? O bastante pra quem, posso saber? Pra estúpida da noiva dele? Fala sério! Qual é o problema com as mulheres, afinal? Alguém me diz. Não, porque deve ter alguma coisa de muito errada com a cabeça delas, se elas realmente não acham um ruivo desses sexy. Quer dizer, quem elas acham sexy, afinal? Robert Pattinson? Por favor!
E está certo que ele não faz o gênero óbvio (tipo, olhar de mormaço, jeans apertado e tórax à mostra, como... bom, como eu), mas, por favor! Se as mulheres não sabem do tesão de se tirar um terno elas realmente precisam de ajuda. E muita. Principalmente quando o terno em questão cobre o corpo de um ruivo totalmente lindo, em que meio que dá pra adivinhar os contornos de uma musculatura absolutamente perfeita, mesmo por sob as camadas de tecido.
(tudo bem, Milo, foco!).
Além disso, porque diabos ele iria querer reconquistar uma mulher que tinha corneado ele? Quer dizer, o normal nesses casos não seria simplesmente dispensar ela logo, em vez de se dar a todo esse trabalho? Ele tinha que ser mesmo muito idiota pra aceitar isso assim, e ainda se preocupar em reconquistá-la, não tinha? E foi exatamente isso o que eu disse a ele. Só que sem a parte do ele ser muito idiota, claro.
Então ele explicou que ela, a noiva dele, eu digo, aparentemente tinha salvo a vida do irmãozinho dele, e por causa disso ele meio que não podia largá-la. Quer dizer, considerando-se que faltavam menos de três meses pro casamento deles, e isso arruinaria a reputação dela e essas coisas. Ainda que ela fosse uma completa vagabunda. Só que é claro que ele não disse isso.
E eu entendo totalmente essa coisa, sabe. Não, não de ser uma vagabunda. De se preocupar demais com os irmãos e acabar ferrado por isso. Porque eu tenho quatro. Irmãos, eu digo. E é justamente por me preocupar tanto com eles que eu estou nessa encrenca agora.
E tá, eu sei que eu também tenho minha parte de culpa nisso. Uma grande parte, diga-se de passagem. Considerando-se que fui eu que resolvi entrar naquela vida, pra começo de conversa. Mas, ei, vocês pensam que é fácil ser um imigrante ilegal na América? E eu sei que os fins não justificam os meios e aquela coisa toda, mas eu tinha que sobreviver de alguma forma, não tinha?
Quer dizer, quando eu cheguei da Grécia (é, eu sou grego) aos dezesseis anos, fugido de casa (não porque eu não me desse bem com a minha família, ao contrário, eu adoro eles. É só que a minha mãe é meio superprotetora e não queria me deixar sair de casa de jeito nenhum. E o meu sonho sempre foi morar fora), e cheio de delírios de grandeza, eu não fazia idéia da realidade que iria enfrentar. 'Tio San'? 'Sonho Americano'? Sei. Então quando o Shura e o Deba (Aldebaran, na verdade), que eram os caras que dividiam o quarto comigo na pensão em que eu fui morar quando cheguei (e que trabalham comigo até hoje como seguranças, aliás), me chamaram pra 'trabalhar' com eles, eu não tive dúvidas.
E era tão fácil. Quer dizer, ninguém nem desconfiava de um lindo garotinho loiro de rosto angelical. As pessoas são tão descuidadas. Principalmente os turistas. Então eu meio que comecei com furtos pequenos, sabe. Tipo bater carteira e essas coisas. Só que eu era realmente bom naquilo e evoluí depressa. Logo eu estava circulando só pelas altas rodas, e acabei me especializando em jóias. Não demorou muito para os jornais começaram a falar no 'Ladrão Fantasma'. Que foi o apelido que eles me deram. Porque de acordo com eles as jóias simplesmente desapareciam misteriosamente bem debaixo do nariz das pessoas. A coisa meio que cresceu, e logo não havia um único jornaleco no país que não falasse de mim.
É claro que àquela altura eu já não precisava mais recorrer àquilo pra sobreviver, mas então tudo tinha meio que virado um jogo, sabe. Era divertido enganar as pessoas. Bolar as estratégias. E depois ver meu nome nos jornais. Quer dizer, o nome do 'Ladrão Fantasma'.
Além disso, eu não achava que eu estivesse realmente prejudicando alguém. Já que eu só roubava socialites (que podiam muito bem comprar outra jóia no lugar). E que o meu receptador, o Dohko, me garantia que usava parte do dinheiro dos roubos pra fins assistenciais. E, tá, eu sei que isso soa ridículo, e que nem uma criança acreditaria numa história dessas. Só que eu acreditava. De verdade. E me sentia meio como um Robin Hood moderno, sabe. É, eu sei que eu era um imbecil. Mas, ei, eu só tinha dezenove anos. E foi então que o impensável aconteceu.
E o impensável foi que o Saga e o Kanon, que são meus irmãos mais velhos, foram transferidos de Atenas pra cá. Passando então a membros integrantes da força policial de New York (como o são até hoje, inclusive). E, como não podia deixar de ser, foram imediatamente colocados à frente das investigações sobre o caso do Ladrão Fantasma. Pro meu completo desespero.
Porque enganar a polícia era uma coisa, agora enganar aqueles gêmeos estava totalmente além das minhas possibilidades. Primeiro que eles me conheciam desde que eu nasci. O que os deixava em certa vantagem, vocês hão de convir. Segundo que eles são os melhores detetives que eu conheço.
Fora de brincadeira.
Então não demorou nada pra que eles logo descobrissem tudo sobre o Ladrão Fantasma. Incluindo a identidade dele, é claro. E, bom, vocês podem imaginar o que aconteceu quando o Saga (o policial certinho, defensor da justiça) descobriu sobre a coisa toda. Vamos dizer apenas que não foi o melhor momento da minha vida. Podem acreditar!
Depois disso o Kanon meio que 'deu um jeito' de arquivar o caso (depois que o Saga me fez prometer que eu não faria aquilo de novo e tudo o mais), e nós decidimos que seria melhor não contar nada para os outros. Porque, tipo, a mamãe ia ter um treco, com certeza. O Aioros é melhor nem pensar (provavelmente ele ia perder o ano tentando descobrir qual o trauma que me levou àquele comportamento desviante. Que é como ele e os amigos psiquiatras dele chamam tudo que foge do que eles consideram normal). E o Oria era ainda capaz de achar legal e querer seguir o exemplo.
E desde então eu tenho totalmente cumprido a minha promessa. De não fazer aquilo de novo, eu digo. Ficando longe dos crimes e tudo o mais, e trabalhando nessa coisa de cinema, ainda por cima. Que também é uma forma de se enganar as pessoas, se vocês forem parar pra pensar. Só que legalmente permitida.
Então eu não tinha realmente qualquer intenção de voltar pra aquela minha antiga atividade. Até uma semana atrás. Porque há uma semana aquele maldito do Dohko resolveu aparecer de novo na minha vida. E agora eu já sabia que ele não era nem um pouco o cara legal que eu achei que ele fosse. E que, definitivamente, não usava o dinheiro dos roubos pra fins assistenciais. Não mesmo.
E era por isso que eu precisava dar um jeito de produzir aquele filme. Porque era a única forma que eu tinha de conseguir por as mãos na tiara. Quer dizer, a tiara de diamantes que pertencia à herdeira dos Kido, e que o Dohko queria que eu pegasse.
Não que eu tivesse concordado com isso. Não mesmo. Só que ele, o Dohko, eu digo, simplesmente apareceu na minha casa uma noite dessas (e quando eu digo 'apareceu', eu falo literalmente. Porque quando eu cheguei em casa de uma gravação, ele tinha simplesmente invadido meu apartamento e estava me esperando, todo sorrisos, sentado na minha sala) dizendo que precisava de um favor, pelos 'velhos tempos'. Até parece!
Segundo ele, a pessoa que o contratara meio que exigira os préstimos do Ladrão Fantasma. E que era pra eu pensar nisso apenas como um favor pra um velho amigo. 'Amigo'? Sei. Daí ele veio com aquela história de que estava encrencado, e de que usaria esse dinheiro pra sair do país, e que eu nunca mais iria ouvir falar dele de novo e coisa e tal. Só que é claro que eu não acreditei nele. Porque, fala sério, eu já estava vacinado das mentiras do Dohko. Então eu só respondi que não faria favor algum a ele, e que eu não estava mais no ramo.
E foi então que ele me mostrou os arquivos. Arquivos confidenciais da polícia, diga-se de passagem, e que tinham, inexplicavelmente, ido parar nas mãos dele (embora eu bem pudesse imaginar a forma como eles foram parar lá. Considerando-se que eles estavam muito bem guardados em um cofre no banco. E que o Dohko é, infelizmente, o melhor especialista em cofres que eu conheço).
Arquivos esses, aliás, que se referiam ao antigo caso do Ladrão Fantasma, e que provavam a conduta, no mínimo suspeita, de certos policiais. Que eram os responsáveis pelo caso na época. E que, aparentemente, haviam entendido por bem, simplesmente arquivar o caso sem qualquer motivo aparente. E pior, exatamente quando as pistas finalmente pareciam começar a querer apontar pra algum suspeito. Ou melhor, para um suspeito: Milo Panagopoulos. Que, por acaso, vinha a ser o irmão mais novo dos tais policiais. E que atualmente era também o famoso ator de sucesso Milo Scorpion (É, Scorpion é meu nome artístico. Bom, vocês não acharam mesmo que eu chamava Scorpion, né? Porque quem no mundo chamaria Scorpion, por favor!). Ou seja, um prato cheio pra mídia.
E então ele (o Dohko, eu quero dizer) me garantiu que se eu não fizesse o que ele estava pedindo, que era roubar a tiara de diamantes da tal garota Kido, alguns conhecidos dele dariam um jeito daqueles arquivos caírem nas mãos do chefe de polícia local. E dessa vez eu acreditei nele. Porque eu sabia que ele era totalmente capaz de cumprir a ameaça. E isso, claro, iria reabrir toda a história. E apesar de ser impossível conseguir me incriminar só com aquilo e sem a ajuda dos gêmeos (e é claro que eles não iriam ajudar), isso iria acabar com a carreira deles. E eu nunca iria poder me perdoar.
Então era óbvio que eu tinha que fazer o que ele queria, não é? Quer dizer, eu não tinha outra saída, tinha? E de acordo com as minhas fontes a tal Saori Kido nunca retirava a jóia do cofre que mantinha no banco. Só que eu sabia que podia convencê-la a fazer isso. Se dissesse que queria usar a tiara em um filme, é claro. Porque pelo que eu soube a garota era totalmente deslumbrada com essa coisa Show Business. E isso não ia nem levantar suspeitas. Já que é super normal um produtor novato querer usar alguma jóia famosa pra promover um filme e tudo. E, conforme o contratante havia exigido, a jóia ia sumir bem debaixo do nariz das pessoas. Que é a marca registrada do Ladrão Fantasma. Enfim, era um plano perfeito. Só me faltava, é claro, o patrocínio.
E de repente ali estava ele. Sob a forma do ruivo mais lindo que eu já tinha visto na vida. E o que ele queria em troca de me ajudar a resolver todos os meus problemas? Que eu o ensinasse a seduzir a noiva idiota dele! O que, convenhamos, acabaria inevitavelmente com ele sem roupa na minha cama fazendo exatamente aquilo que eu desejei fazer desde o primeiro momento em que coloquei os olhos em cima dele. Porque, claro, não dá pra você ensinar alguém a seduzir sem algumas demonstrações práticas. O que, vocês hão de concordar comigo, era a proposta mais inacreditavelmente tentadora que uma pessoa poderia receber na vida. Pra dizer o mínimo.
Então é claro que eu disse que não.
Quer dizer, que não aceitava a oferta dele.
Ei, que tipo de monstro vocês pensam que eu sou, afinal? Quer dizer, eu posso ser um ex ladrão e tudo, mas eu também tenho meus princípios, sabe? E eu não ia me aproveitar do desespero do cara. Não mesmo. Porque era óbvio que ele estava desesperado. Quer dizer, por que outra razão alguém faria uma proposta desse tipo pra uma pessoa que nunca viu na vida se não estivesse totalmente desesperado?
Bom, é claro que vocês também poderiam pensar que aquilo era só uma maneira dele tentar me levar pra cama e tudo mais. O que muitos já haviam tentado, na verdade. E eu mesmo cheguei a cogitar essa possibilidade. Que ele estivesse tentando me comprar, eu digo. Só que porque alguém iria querer comprar o que poderia ter totalmente de graça? Quer dizer, não é exatamente segredo que eu não sou nenhum poço de castidade, não é? E um cara com a aparência dele certamente não é alguém que precise pagar pra ter sexo, por favor!
Então, ou ele devia gostar muito mesmo da tal noiva, ou ser muito grato a ela por ter salvo a vida do irmão. E fosse qual fosse o caso eu não ia me aproveitar disso pra extorquir o cara. Muito menos correr o risco de envolvê-lo naquela história toda onde eu andava metido. De jeito nenhum!
Só que quando eu disse isso. Que eu não podia aceitar a oferta dele, eu digo. Eu acho que eu meio que consegui irritar seriamente o ruivo. Pelo menos se aquele olhar totalmente congelante que ele me lançou servisse de indicação. Sério, acho que temperatura da sala caiu pelo menos uns dois graus com o olhar dele. E o pior foi que ele nem disse mais nada depois daquilo. Só se despediu formalmente e foi embora sem sequer me deixar explicar.
Só que eu também não tinha muito o que explicar, tinha? Quer dizer, o que eu iria dizer, afinal? Que eu era um ex ladrão que estava sendo chantageado pelo antigo receptador das jóias que roubava e que, pra salvar a carreira dos meus irmãos policiais, (que tinham fraudado o sistema pra me livrar da cadeia), precisava produzir um filme pra tentar roubar uma tiara de diamante de uma conhecida socialite, e que, sendo assim, achava melhor deixar ele de fora dessa? Sem chance!
E é por tudo isso que eu às vezes acho que a vida é mesmo muito injusta, sabe. Quer dizer, todo mundo vive puto comigo porque dizem que eu sempre ajo sem pensar, e na única vez em que eu realmente penso, as coisas acabam desse jeito. E eu nem posso fazer nada.
E foi justamente quando eu estava ali sozinho (uns vinte minutos depois de o francês ter saído), pensando nas injustiças do mundo e já começando a me arrepender da minha sábia decisão (principalmente porque talvez ela significasse nunca saber como era ter aquele ruivo na minha cama) que o meu celular tocou. Eu olhei no visor, onde aparecia 'chamada não identificada', e atendi.
Era o Dohko.
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