Notas iniciais
Disclamer: Saint Seiya não me pertence, o que é uma pena realmente XD
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia

Camus POV

Eu tive que me escorar ao sofá pra não cair enquanto fechava as mãos com força. A água do copo que eu deixara cair escorrendo sob os meus pés, quase tão gelada quanto a sensação no meu estômago, à medida que as palavras de Milo Scorpion se repetiam ondulantes e enevoadas, como um eco diabólico na minha mente: 'Roubo', 'tiara', 'Saori Kido'.

Eu não conseguia acreditar. Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia ser verdade. Era surreal demais. O Milo não podia... não podia estar... Mon Dieu, como doía pensar que ele estivera apenas me usando! E pra conseguir uma jóia! Eu havia suspeitado que ele pudesse estar atrás de uma única coisa, é claro. Mas eu pensara que essa coisa seria o meu corpo. Diversão. Sexo casual. Nunca me ocorrera que essa 'única coisa' poderia ser algo de valor material. Era cruel demais.

- Por... Por quê? – foi tudo o que eu fui capaz de perguntar. O que quer que ele dissesse, eu esperava que provasse que eu estava errado. Que minha suspeita não era correta.

Ele estava de costas pra janela e a luz que se infiltrava pelas cortinas não iluminava diretamente seu rosto, lançando sombras escuras em seus olhos. Os lábios estavam contraídos. Óbviamente ele não estava contente por eu ter acordado.

- Ca... camus, — ele gaguejou outra vez – eu... eu posso explicar.

Sua voz estava entrecortada. A sensação gelada pareceu aumentar.

- Por quê? – eu repeti, dessa vez mais firme.

Ele pareceu prender o ar por um momento, e então o soltou.

- Eu nunca tive a intenção de que isso acontecesse. Eu não queria roubar nada. Não quero! Eu não tive escolha.

Eu me senti empalidecer de repente. Minha vista fivou turva e eu comecei a passar mal do estômago. Era verdade então, eu percebi, sentindo-me cada vez mais enjôado. Mon Dieu, era verdade! Mas por quê? Por que ele estava fazendo aquilo? Por que um cara como Milo Scorpion roubaria minha tiara? Por que dessa maneira? Não fazia nenhum sentido.

- Você está precisando de dinheiro? – eu me ouvi perguntar distante. Era como se outra pessoa falasse pela minha boca.

Ele balançou a cabeça, sem olhar pra mim.

- Dinheiro não tem nada a ver com isso.

- Então faz isso por achar exitante? – minha voz soou cáustica, sarcástica, até mesmo pra mim.

- Faço isso por achar que era o que eu tinha que fazer. – Seu tom deixava tranparecer que ele não esperava realmente que eu entendesse. É claro que não entenderia. Como poderia?

- Tinha que fazer? – que coisa ridícula! – Por que teria que roubar uma tiara?

Ele ergueu o rosto e seus olhos se cruzaram com os meus... E quando isso aconteceu foi como se eu encarasse um estranho.

Ele deu um suspiro antes de dizer:

- É uma longa história, que agora já não tem importância. O que importa é que não estou fazendo isso por minha própria vontade. — sua voz se tornou mais séria — Você tem que acreditar em mim.

- Acreditar em você? – Eu quase ri com aquelas palavras. – E por que eu deveria acreditar em qualquer coisa que você dissesse? Pelo que sei tudo o que sai da sua boca é mentira.

Ele pareceu se indignar. Como se tivesse algum direito de se sentir indignado.

Apontando um dedo para mim ele disse:

- Nunca menti pra você. Não sobre questões importantes.

Eu deixei escapar uma gargalhada de descrédito.

- E você não acha que isso seja importante?

- Não estou mentindo pra você agora — ele respondeu.

- Non? Então me diga, por que quer a tiara?

Ele passou uma das mãos pelo cabelo em um gesto claro de nervosismo.

Ele stava nervoso? Ótimo.

- Eu não a quero. – ele disse — O homem para quem trabalho a quer.

O homem pra quem trabalhava? Pelo amor de Deus, há quanto tempo ele fazia aquilo?

- E quem é esse homem? – Eu quis saber.

Ele coçou o nariz e suspirou outra vez.

- Alguém que você nunca iria querer conhecer.

- E por que ele quer a tiara? — eu perguntei.

- Pra vendê-la a alguém – ele respondeu deixando a mão cair.

- A quem? – Quem queria tanto aquela tiara que contrataria alguém pra roubá-la? Era uma peça bonita sem dúvida, mas certamente havia outras mais valiosas.

A mão que ele deixara cair subiu novamente pra coçar a nuca.

- Não sei.

Não sabia, ou não havia essa pessoa?

- Por que essa pessoa a quer?

- Não sei.

- Por que o tal homem pediu pra você roubá-la? – Se ele me dissessse que não sabia, eu atiraria alguma coisa nele.

- Porque... – ele começou, e então parou inspirando o ar, como que buscando coragem pra continuar — Eu meio que costumava trabalhar pra ele. Há muito tempo. Você deve ter ouvido falar no caso do 'Ladrão Fantasma', não é?

Ladrão Fantasma? Eu recuei um passo, apertando ainda mais as mãos, minhas unhas se afundando na pele da minha palma. Eu estava em Oxford naquela época, e passava pouco tempo nos EUA, mas é claro que eu me lembrava do caso. Quem não lembraria? Bom Deus, ele não podia estar sugerindo que ele... que ele... Tudo bem, agora eu realmente precisava me sentar porque achava que poderia cair a qualquer instante.

- V... você... era você? – foi tudo o que eu fui capaz de articular.

- Sim. – ele disse sem tentar fingir inocência.

Eu fechei os olhos. Sentia-me desamparado. Eu sabia que ele estava escondendo alguma coisa, mas nunca imaginei que pudesse ser isso. Se ele era mesmo o tipo de pessoa que podia tirar coisas dos outros sem pensar nas consequências, realmente não era o homem que eu imaginara.

- E foi por isso que ele te escolheu? Por que te conhecia? – Eu voltei os olhos pra ele outra vez.

- Sim. – ele afirmou novamente. – Porque sabia que eu era bom.

Mon Dieu, ele não estava sendo convencido? Claro que estava. Ele não era apenas um ladrão desprezível e um salafrário, mas também um patife egocêntrico. E esse tipo de cara sempre quer se promover alardeando suas bravatas.

- Mas eu nunca prejudiquei ninguém – ele continuou, se justificando -. Não de verdade. As pessoas que eu roubei sempre tiveram condições mais do que suficientes pra subtituir as coisas roubadas.

Pra substituir as coisas roubadas? Se ainda havia em mim qualquer vestígio de simpatia por ele, ele conseguira acabar com ela.

- E você nunca parou pra pensar que essas coisas talvez pudessem ter algum valor sentimental para seus proprietários, independente de seu valor real? – como o fato de que aquela tiara significava muito pra minha família. Ela pertencera a minha mãe. Meu pai dera a ela como presente de casamento.

Ele abaixou a cabeça.

- Isso não tem mais importância agora. De qualquer forma, todas aquelas coisas já foram recuperadas pela polícia e voltaram às mãos de seus legítimos proprietários.

E isso resolvia tudo, não? Ele falara de modo tão desapegado, tão displicente! Esse era seu verdadeiro eu, ou ele estava simplemente fingindo? Essa pessoa estranha e sem princípios não era o homem que eu conhecia. E definitivamente, não era quem eu queria pra mim.

- E a tiara? — eu perguntei — Também voltaria as mãos de seus legítimos proprietários?

Seu silêncio já era uma resposta. Eu senti meu coração apertar.

- O que ele lhe ofereceu em troca? – eu quis saber.

Ele me olhou de novo.

- Isso importa? – Sua voz denotava frustração.

Por estranho que parecesse, importava. Eu queria saber qual tinha sido o preço para que ele me mutilasse daquela forma. Queria saber se tinha valido a pena.

- Sim. – eu respondi.

Ele pareceu refletir por um momento e então levantou o queixo, quase de modo desafiador.

- Ele estava me chantageando. – disse — Ameaçou ferir alguém que é importante pra mim. Isso é tudo o que você precisa saber.

Alguém que era importante pra ele. As palavras me cortaram por dentro, como se fossem lâminas. Eu senti um amargor subir à garganta, lembrando-me do quão pouco eu realmente significava pra ele. Ele não se importava de me destroçar, mas se preocupava em proteger outra pessoa.

Engolindo a dor, eu sorri cínico.

- Então você non costuma mentir pra mim, mas também não me diz toda a verdade?

Ele estava inflexível.

- Não vou dizer nada que possa lhe causar dano.

Aquilo era engraçado. Ele realmente esperava que eu acreditasse nisso? Que eu acreditasse que ele se preocupava? Depois de tudo?

- Nada que você me diga poderia me deixar pior do que já estou. – eu falei.

Talvez eu não devesse admitir o quão profundamente sua traição me machucara, mas não conseguia evitar. Queria que ele soubesse.

- Camus, eu... – ele começou, mas eu não deixei que continuasse.

- Se eu non tivesse acordado e escutado o que escutei, você nunca me contaria, não é? Você me usaria pra conseguir o que quer e então simplesmente desapareceria, não é mesmo?

- Não! – ele balançou a cabeça com determinação. – Eu não ia fazer isso. Eu nunca usaria você... eu... Camus, eu amo você.

Como ele ousava? Como tinha coragem? Ele não tinha o direito de me falar aquilo. Não depois de tudo o que tinha feito. Por Deus, eu poderia bater nele!

A raiva esquentou meu sangue, reforçando minha decisão e me fazendo seguir em frente.

- E quanto ao patrocínio, aquela história toda... era tudo parte do plano, non? Foi tudo por causa da tiara, não foi?

Ele desviou os olhos outra vez, mirando novamente o chão molhado aos nossos pés, os cacos de vidro espalhados.

- Sim – ele disse, assentindo sem jeito.

Eu senti meu peito se estreitar e doer, dificultando a respiração. Eu sabia que essa seria sua resposta, mas ainda assim doía ouvir isso diretamente de seus lábios.

Todo aquele tempo que nós tínhamos passado juntos... Deus, todos aqueles beijos, as conversas que tanto tinham significado para mim, as palavras, as carícias... tudo. Fora tudo planejado. Cada gesto. Cada toque.

Como era horrível descobrir que eu estava tão errado sobre ele quando queria tanto estar certo.

- Você planejou tudo. — eu falei — Desde o começo. Você só aceitou a minha proposta pra conseguir a tiara.

Seus olhos se encontraram com os meus, e foi como se ele tivesse enfiado uma faca no meu peito.

- Não... não foi só por isso.

Levando em conta o que ele dissera, eu podia entender que ele havia aceitado a minha proposta em parte pra conseguir a tiara. A faca imaginária em meu ventre penetrou mais fundo.

Ele sabia de tudo desde o ínicio. Ele sabia sobre mim, sobre a Saori. Provavelmente aquela cena que eu presenciara entre eles naquela festa não fora mais do que sua primeira tentativa de abordagem. Uma abordagem mais 'direta'. Mas a Saori não fora tão ingênua. Ela não se deixara seduzir além da cama. Eu era o grande idiota. O tolo que se deixara apaixonar por um canalha. Deus, eu tinha raiva de mim. Como eu podia ter acreditado que um homem lindo e carismático como Milo levaria um cara feito eu a sério? Me senti tão estúpido, tão estúpido.

- Tudo o que me disse... – eu falei então — Você non levou nada a sério.

- Levei tudo a sério! — A expressão dele agora estava suplicante, e seu tom, resoluto.

É claro que ele diria isso. Ele diria o que fosse pra me confundir. Meu Deus, aquilo era pior que qualquer coisa. Ele não queria meu corpo. Não queria diversão. Queria um prêmio muito maior.

Eu senti meus olhos arderem estranhamente e minha garganta se fechou. O punhal se enterrando um pouco mais

A umidade queimou meu rosto quando uma lágrima teimosa escorreu de meus olhos.

- Você fez sexo comigo por uma jóia!

- Não! – ele exclamou num ímpeto, dando um passo na minha direção. – O que aconteceu entre a gente não teve nada a ver com isso.

- Teve tudo a ver com isso! – Com raiva, eu enxuguei a lágrima solitária que escorria pelo meu rosto.

Ele se encaminhou na minha direção, o rosto devastado pela emoção. E por um instante, só uns segundos, eu realmente acreditei que ele estivesse falando sério ao dizer que nunca quisera me magoar. Então voltei à razão.

- Camus, — ele falou — eu concordei em roubar a tiara porque achava que não tinha escolha.

O tom de súplica em sua voz me machucava ainda mais. Que hábil mentiroso ele era.

- Você já disse isso.

- Mas eu percebi que tinha escolha, sim. E eu escolhi acabar com isso. Você me ouviu no telefone. Eu escolhi ser alguém melhor. Por você. Camus, eu escolhi você! – Sua voz estava agitada, mas frustrada. Ele estava realmente incomodado por eu não acreditar nele prontamente.

Eu sorri incrédulo.

- Você disse aquilo porque eu flagrei a sua conversa. – eu falei — E agora é a minha palavra contra a sua se eu alertar as autoridades. Mas sem dúvida você diria a eles que eu o acusei porque estava ofendido depois de ter sido dispensado, não é? Mais uma pobre vítima ensandecida do afamado Milo Scorpion!

Ele teve a petulância de se mostrar afrontado.

- Você realmente acredita que eu faria uma coisa como essa?

Deus, eu estava cansado. Muito cansado e triste. Desapontado. Desiludido.

- Meia hora atrás eu non teria acreditado que você pudesse me enganar, Milo. Agora acredito em qualquer coisa.

- Camus, por favor!

Não, eu não queria ouvir mais nada. Já havia lhe dado oportunidade suficiente para se explicar, mas ele não dissera nada que me desse algum motivo para perdoá-lo. Eu havia confiado nele. Havia entregado meu coração a ele. E ele me ferira. Mais do qualquer outra pessoa em toda minha vida. Mon Dieu, meus inimigos poderiam tomar aulas com ele!

- Qual era o seu plano, Milo? – eu quis saber, amargo — Antes dessa sua repentina mudança de sentimento, é claro.

Por que eu estava fazendo aquilo comigo mesmo? Será que já não me magoara o bastante?

- Camus...

Ele avançou mais um passo na minha direção. A mão estendida, como se pudesse me tocar através da sala. E então a deixou cair novamente sem dizer mais nada. Nem precisava

- Eu non conheço você. – eu murmurei – Pensei que o conhecesse, mas não.

Ele estava muito perto agora, eu podia ver cada detalhe de sua expresão devastada.

- Camus, você me conhece melhor do que ninguém.

Ele era mesmo um bom ator. Eu tinha que reconhecer. Se aquela traição não tivesse transformado meu coração em pedra, eu poderia realmente acreditar nele.

- Non, o homem que eu achava que conhecia nunca faria uma coisa dessas. Não sem uma boa razão, e non creio que você tenha alguma.

Ele levou novamente a mão ao cabelo. E eu me amaldiçoei pela lembrança de como aqueles fios sedosos se entrelaçavam em meus dedos.

- Eu lhe disse por quê. – ele insistiu — Alguém importante pra mim está em perigo.

Sim, ele já me dissera isso.

- Mas você non vai me dizer de quem se trata?

Ele apertou os lábios.

- Não. – falou, e então relanceou os olhos pra longe. Mas não antes que eu visse algo neles. Será que era em sua família que ele estava pensando? Será que era um dos seus irmãos que ele estava tentando proteger?

Mon Dieu, eu não estava realmente começando a acreditar nele, estava? A única pessoa que ele devia estar querendo proteger era a si mesmo, por favor.

- Pelo que eu sei — eu falei -, essa pessoa sem nome nem existe.

Seus profundos olhos azuis cruzaram com os meus.

- Você pode confiar em mim.

Eu poderia ter rido de seu tom esperançoso se aquilo não tivesse me atingido tão fundo. De todas as coisas fúteis e sem sentido que ele poderia ter dito, ele resolvera escolher logo aquela.

- Como se atreve a me pedir isso? – eu falei — Confiei em você mais do que você merecia.

Ele me encarou consternado, os olhos azuis fixos nos meus, e por alguns segundos que pareceram horas apenas o som do vento soprando na janela se fez ouvir pela sala.

Tão bonito e tão traiçoeiro, eu pensei. Ele era Lúcifer encarnado.

- E o que acontece agora? – ele perguntou finalmente. Sua voz estava fraca — Eu vou ser preso, é isso?

A idéia de sua prisão me deixava doente, mesmo sabendo que ele merecia isso.

Não, eu não tinha intenção de entregá-lo as autoridades. Era fraqueza minha, eu sabia, mas eu não conseguiria traí-lo dessa forma, mesmo tendo sido traído por ele.

Eu suspirei.

- Eu non vou te denunciar, Milo.

Parte de meu desgosto devia estar refletido em meu rosto, porque os olhos dele mostravam tristeza.

- Obrigado. – Ele murmurou.

- Eu é que devo lhe agradecer – eu falei impassível.

Ele olhou pra mim intrigado e perguntou

- A mim?

- Oui. – Meu tom agora estava frio. Tanto que eu podia sentir meus próprios ossos gelados. – Pelo menos você se revelou antes que eu me apaixonasse de verdade. Isso teria sido cruel demais... até pra você.

Ele recuou como se eu o tivesse esbofeteado. A dor claramente etampada em suas feições. Ou ele era um ator melhor do que eu imaginava, ou estava verdadeiramente magoado com as minhas palavras.

Eu esperava que estivesse. Eu quisera ferí-lo. Se o coração dele estivesse partido um décimo do que o meu estava, ele já sofreria o suficiente, e eu me sentiria pelo menos um pouco recompensado.

- Agora saia daqui. – eu pedi enquanto ele ainda me olhava, parado – Eu non quero mais ver você. E vou avisando, se essa tiara desaparecer a qualquer momento daqui pra frente, vou repensar minha posição de non procurar as autoridades. Entendeu?

Demorou algum tempo até que ele expresasse alguma reação. Então simplemente assentiu com a cabeça em silêncio e terminou de se vestir, pra depois caminhar na direção da porta.

Antes de sair, no entanto, ele se voltou pra mim outra vez.

- Camus? — Sua voz parecia estranhamente cansada.

De modo desafiador, eu levantei o queixo enquanto o fitava sem dizer nada.

- Também estou contente por você não ter se apaixonado por mim.

E então saiu para o frio lá fora, deixando-me sozinho com a minha dor.

oOOoOOoOOo

Milo POV

E foi isso. Eu fui expulso do apartamento do Camus como um mendigo fedorento.

Andei sem rumo pela cidade, com o rosto ardendo por causa do frio, depois sentei em um banco em frente ao Sena.

Um homem passeando com o cachorro passou por mim acenou e disse:

- Bonne nuit. C'est un beau coucher de soleil, n'est ce pas? (1)

Só então percebi que já estava anoitecendo.

O sol, uma imensa bola vermelha, descendo no horizonte. Parecendo o tal tablete de vitamina C efeverscente gigante. O céu todo laranja. Sustentando o sistema imunológico do mundo.

Não sei dizer quanto daquele tempo eu passara ali sentado e quanto estivera vagando a esmo. Só sei que meus dedos estavam duros e congelados sob as luvas e que um vento frio descia pelo meu pescoço me fazendo tremer.

Mas eu não me importava. A friagem ali fora não era nada perto da que eu sentia interiormente. Eu estava entorpecido, totalmente entorpecido, doente e cansado.

Então era assim que a gente se sentia quando estava de coração partido?

Eu ouvira a sensação ser descrita várias vezes, mas realmente nunca a experimentara. O mais próximo disso que chegara fora o que havia sentido quando meu pai morreu – uma sensação fria, de pânico, como se eu estivesse trancado numa cela escura e sem ar.

Como, eu me perguntava, isso podia ter acontecido? Como 'o homem mais desejado da América' estava agora sentado em um banco em Paris, olhando para o 'Rio Dos Namorados' (2) sofrendo pelo único cara que não podia ter?

Eu só conseguia pensar que talvez realmente houvesse algum tipo de justiça poética no mundo. Quantos homens e mulheres eu já não havia feito sentir por mim o que eu estava sentindo agora? Sim, agora eu entendia os telefonemas, as súplicas. Agora entendia as longas cartas e e-mails implorando pra que eu mudasse de idéia. As ameaças, as lágrimas.

O amor doía.

E doía ainda mais por saber que, embora muitas vezes naquela tarde eu tivesse dito a mim mesmo que era melhor assim, que se ele não podia confiar em mim agora, jamais poderia, isso não era verdade. Não era melhor assim Não era melhor sem ele. Eu precisava dele. Com uma necessidade quase física que me deixava doente. Precisava sentir seu corpo, sua voz, seu calor, seu perfume... Maldição, precisava até daquele maldito gênio infernal que ele tinha!

E era minha culpa que ele não confiasse em mim, afinal. Eu não me mostrara digno de confiaça. Eu mentira pra ele. Ou omitira, no caso. Não que isso mudasse alguma coisa.

E ainda havia a minha reputação. Quanto tempo fazia que eu era conhecido como o maior leviano de Hollywood e não fazia nada pra mudar isso? Eu era famoso pelas minhas conquistas, pela minha lábia, por meus inúmeros, inúmeros, casos de amor. E não dava a mínima pra isso, insistindo que não queria magoar ninguém. Só que nenhuma daquelas pessoas que eu supostamente não queria magoar, nenhuma, se tranformara naquilo que eu procurava. Que eu sentia que era o certo pra mim.

Até então.

Quando era tarde demais

Se eu pelo menos tivesse conseguido fazer com que ele compreendesse! Mas não havia razão pra esperar que isso pudesse acontecer. Se a situação se invertesse, era bem provável que eu também não tivesse compreendido. Ele estava magoado e com raiva, e não importava o que eu dissesse ou que evidência apresentasse, ele não relevaria.

E certamente o fato de não poder lhe dizer toda a verdade não ajudara em nada. Mas eu não podia lhe contar que a pessoa a quem eu estava tentando proteger era ele mesmo. Na melhor das hipóteses, porque ele não creditaria em mim. E porque, que Deus não permitisse, se ele acreditasse poderia querer se envolver e acabar machucado com isso. Eu não podia correr o risco de isso acontecer. Arriscar a reataliação dele contra mim era uma coisa, mas eu jamais iria comprometer sua segurança.

E não era só isso. Havia também os gêmeos nessa história toda. Eles haviam obstruído a investigação de um crime pra me proteger. E essa não era uma coisa que eu acreditava que a rígida moral daquele ruivo pudesse compreender.

Um frio vento noturno agitou meus cabelos enquanto eu percorria mais uma vez às margens do canal em direção ao trânsito caótico das ruas acima. Eu suspirei observando as primeiras luzes brilharem sobre as águas, os Bateau-mouches (3) passando lentos e iluminados, apinhados de turistas com suas câmeras.

Ele me agradecera por tê-lo magoado antes que se apaixonasse realmente por mim, eu lembrei. Se sua intenção era dizer algo que me machucasse fundo, ele havia conseguido. Eu me sentia quebrado, totalmente em pedaços, por dentro.

Então ele não me amava, afinal? Eu pensei. Bem, acho que ele não poderia mesmo me amar, de qualquer forma, poderia? Ele sequer me conhecia. Eu ouvira de seus lábios e lera em seus olhos: eu era um estranho pra ele agora. Eu o havia conquistado por vinte e quatro horas, talvez menos. Por toda uma noite eu soubera como era estar com ele, eu sentira o que era ser amado por ele, o que era estar vivo pela primeira vez. E então viera a verdade. A amarga verdade. De que nada daquilo era real.

Eu não sabia o que doía mais, se o pensamento de que ele realmente chegara a acreditar estar apaixonado por mim durante um tempo ou o fato de isso nunca ter acontecido de verdade.

Eu queria o seu amor. Exatamente como uma criança quer um brinquedo que não pode ter. E agora que estava fora do meu alcance, eu o queria com um desespero tal que me apertava o peito e me fazia doer a cabeça.

Ainda assim, sentia certo alívio pelo fato dele ter descoberto a verdade. Ele sabia agora que tipo de homem eu havia sido. Que tipo de homem eu era. Eu não precisava mais temer que ele viesse a descobrir a verdade. Eu provavelmente devia ter-lhe contado a história toda, mas ele também não parecera muito disposto a me escutar. Se por acaso algum dia ele voltasse a se aproximar de mim outra vez, o que eu achava difícil de acreditar, então eu lhe diria tudo. Se ele quisesse ouvir.

Mas isso era o futuro. E eu tinha outras coisas pra pensar no momento. Precisava tirar aquele ruivo da cabeça, engolir a mágoa e pensar no Dohko, e no que ia fazer daqui pra frente.

Porque ele não parecera muito feliz ao telefone quando eu lhe dissera que mudara de idéia. E certamente estava ainda mais infeliz agora, depois de eu ter simplesmente desligado a ligação na sua cara. Sem dúvida iria me fazer uma visita nos próximos dias.

E o Dohko podia ser muitas coisas, mas era um homem de palavra. Faria qualquer coisa que pudesse pra arruinar a mim e ao resto da minha família, eu tinha certeza. Se eu não penssasse em um bom plano, e rápido, teria que procurar meus irmãos e preprará-los para o pior.

Na verdade, eu ia ter que acabar contando a eles de qualquer jeito, mas preferia ter tudo planejado antes de conversar com os gêmeos. E também tinha que pensar em como garantir a segurança do Camus sem que ele soubesse. Já que nas atuais circunstâncias eu não teria como fazer isso com o seu consentimento.

Inferno, por que eu tive que gostar de um cara tão complicado? Por que eu não havia simplesmente seguido meus instintos e me afastado? Será que eu era masoquista?

E o pior é que eu ficava imaginando se ele também estaria sofrendo desse jeito, ou se ainda estava com raiva demais pra isso. Apesar de tudo, a idéia de que ele realmente pudesse estar sofrendo por minha causa me repugnava. Ele devia estar se sentido usado, enganado, desiludido. Provavelmente pensaria duas vezes antes de confiar em alguém de novo, e pensaria em mim toda vez que fosse agir assim. Bom, pelo menos pensaria em mim algumas vezes. Mesmo que de maneira negativa.

Eu sei que eu estava parecendo um daqueles tipinhos góticos exagerados, mas eu realmente suspeitava que poderia pensar nele o tempo todo pelo resto da vida. E sempre com arrependimento.

Uma garoa fina e gelada começou a cair sobre meus ombros quando eu entrava no táxi que me levaria até o areporto. Pelo menos eu tivera o bom senso de comprar uma passagem de volta. Eu só ia precisar adiantar um pouco as coisas.

Pela janela traseira do carro eu observava a capital francesa iluminada. A torre Eiffel enfeitada, elevando-se majestosa como um pináculo de luz sobre a cidade. 'A Cidade do Amor', eu pensei olhando os milhares de casais de turistas sorridentes que passavam abraçados. Deus, chegava a ser irônico.

Como esperado pra aquela época de festas, o Aeroporto estava lotado. Filas gigantescas de pessoas se acumulavam nos guichês de atendimento, enquanto outras passavam apressadas, empurrando seus carrinhos de bagagem por todo lado. A mulher loira e bem maquiada atrás do balcão da American Airlines apenas relanceou rapidamente os olhos pela minha passagem antes de me informar mal humorada:

- Sinto muito senhor, mas todos os nossos vôos estão completos.

Perfeito! Era tudo o que eu precisava.

Eu respirei fundo, tirando os óculos enquanto forçava o melhor sorriso que era capaz de estampar. O que não era grande coisa considerando-se o meu estado. Eu imaginava se chegaria o dia em que eu seria capaz de sorrir normalmente outra vez.

- Eu entendo senhorita, mas realmente preciso estar em um avião pra New York essa noite.

O arremedo de sorriso pareceu funcionar porque eu vi o brilho de reconhecimento nos olhos da moça que ficou me encarando feito uma coelhinha. Sem piscar ou mover um único centímetro, respondeu.

- Eu vou ver o que posso fazer pelo Senhor, Senhor Scorpion. E meu nome é Sophie – Ela sorriu. Então os dedos de unhas compridas e pintadas de vermelho de Sophie começaram a teclar furiosamente no computador.

- Aqui está – ele disse, satisfeita – tivemos um cancelamento na primeira classe para o próximo vôo.

- Obrigado, Sophie – eu falei, piscando -, você é muito gentil.

Ela não ficou vermelha. Eu não conhecia mais ninguém que ruborizasse, além daquele cuja imagem eu não conseguia tirar da cabeça. Com um sorriso tímido, Sophie colocou a parte da frente do cabelo do cabelo atrás da orelha, conferiu meu passaporte e me entregou o bilhete.

Mais tarde, enquanto assistia pela janela do avião as aeronaves taxiarem na pista, por algum motivo eu pensei no meu pai. Eu sentia tanta falta dele. Ia ser muito bom se ele estivesse comigo agora.

Me lembrei de quando ele estava morrendo – apesar de na época não saber que era isso que estava acontecendo. Ninguém me disse nada, eu só achava que ele precisava de muito descanso -. De tarde, quando voltávamos do colégio, deitávamos todos ao lado dele na cama e, ainda de uniforme, davamos as mãos e assistiamos à reprises de antigos filmes de faroeste na TV.

Adoraria poder fazer isso agora. Deitar ao lado dele, ficar de mãos dadas, e dormir pra sempre.

Se pelo menos eu tivesse minha família ali comigo. Minha mãe, ou algum dos meus irmãos. Alguém que me abraçasse e dissesse: 'Eu te amo, Milo. Mesmo você fazendo tanta besteira'.

Mas eu estava sozinho. Sozinho no mundo. 'Milo, o pequeno orfão'. Era como eu me sentia.

Então, apesar de ter consciência de que seria um exercício sem sentido, acabei ligando pra minha mãe.

- Oi mãe. – eu disse. A voz saindo mais trêmula do que eu desejava.

- Milo? – eu ouvi a voz dela aflita — Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Me arrependi de ter ligado. Tinha deixado minha mãe preocupada. Ela sempre levava tudo tão à sério.

- Não. – respondi, ignorando o aperto no peito. De repente, eu tinha saudades de casa — Eu só queria ouvir a sua voz. Como vão as coisas por aí?

- Bem. — ela disse.

Era mentira. As coisas nunca mais ficariam bem. Ela nunca mais ficaria bem. A única coisa que poderia deixá-la bem outra vez seria ter o papai de volta. Eu entendia perfeitamente isso agora. Perfeitamente.

Eu tenteir engolir o nó que se formava na minha garganta.

- Eu estou ajudando a tia Lena com o quarto do bebê. Você sabia que a prima Ágata está grávida? De gêmeos! E seu tio mandou arrumar o berço duplo que era dos seus irmãos.

- Que bom! – eu disse, sentindo alguma coisa quente e úmida escorrer pelo meu rosto. Eu quis limpar aquela umidade que queimava minha face, mas as lágrimas não pareciam querer parar de cair. Que droga! Por que eu tinha que estar chorando agora?

- Bem, eu tenho que desligar então... – disse – Eu te amo, mãe.

- Eu também te amo, querido.

Então realmente precisei desligar porque eu já não conseguia mais controlar o choro e o avião estava partindo.


"Como são múltiplas as ocasiões para o mal entendido e para a ruptura hostil!" (Friedrich Nietzsche)

Notas:

1 — Boa noite. É um lindo por do sol, não é?

2 — O rio Sena em Paris é também conhecido com o rio dos namorados.

3 — Bateau-mouches são aqueles barcos que circulam pelo Sena em Paris.

Notas finais
Olá a todos,
Aqui estou eu de novo, e antes do previsto, não é marvilhoso? Agradeçam ao trequinho que a gente põe no computador e consegue acessar a net mesmo onde não tem net. E ao tédio, que me tornou tãaao produtiva XD
Enfim, aqui está outro ch, e nossa, quilos e quilos de lágrimas nesse, não? Espero que não tenha ficado piegas demais. Às vezes é facil se perder no drama. Como tb é fácil se perder no lemon. Assim como a fronteira entre o sexy e o vulgar, a fronteira entre o sensível e o piegas é muito tênue, na minha opinião.
E, bom, eu sei que a fic é uma comédia romântica, e pra ser sincera com vcs eu até prefiro escrever as partes mais engraçadas (dramas me dão agonia, e eu tenho que parar no meio pra respirar. Idiota, eu sei, mas o que eu posso fazer?), mas chegamos a um momento em que o drama é inevitável. Eu até tinha tentado colocar umas coisinhas engraçadas nesse ch, mas depois acabei tirando porque achei que cortou o clima, entendem? E o draminha ainda vai correr um pouco, mas cenas melhores virão, prometo. Então, por enquanto, empunhem seus lencinhos e curtam as lágrimas XD
E por falar em lágrimas: *Sai correndo, pega o primeiro avião pra Paris* Será que ainda dar tempo? Argh, que vontade de abraçar o Milo que me deu naquela hora no final u.u. Ele até que se segurou bem eu achei, mas pq é sempre assim? A gente tá mal, aí ouve a voz da mãe, irmão, melhor amigo, e desaba completamente. E por que quando a gente tem uma sensação de perda, acaba lembrando de todas as coisas que já perdeu na vida, e ficando nostálgico? Mistério isso, eu acho.
E só pra constar, caso alguém não tenha entendido, Milo ainda não sabe nada sobre a Saori. Pra ele o Camus não consegue lidar com o fato dele ter sido um ladrão, de estar envolvido com roubos, e por ter sido enganado, com a história do patrocínio e tudo mais. Enfim, um mal entendido danado, por isso o a escolha da frase no final ^^".
Então, acho que é isso gente, brigadão mais uma vez a todos que acompanham e, claro, um obrigado especial aos que tem a paciência de me mandar reviews me incentivando, elogiando, criticando, ameaçando de morte: Chakal_Maldito, Litha_chan, Kamy Jaganshi, Moni-d, gabi-bibi, ddd, sashinha, Kassiminha, PapillonBleu e Su Cabral. Muito, muito obrigada mais uma vez a vcs, garotas ^^
Bjos
PS: Créditos devidos: à Meg Cabot, Marian Keys e Kathryn Smith.