Camus POV

Era absolutamente incrível. A técnica dele era impressionante. Sério. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Como ele conseguia aquilo? Quer dizer, em um minuto a situação parecia estar perfeitamente sob controle e no segundo seguinte os lábios dele já estavam sobre os meus e eu não sabia mais o que estava fazendo.

Como isso havia acontecido? Como eu podia ter deixado que as coisas saíssem de controle daquele jeito? Eu simplesmente não conseguia entender. Porque eu nem era o tipo sexual. E ele já havia deixado bem claro no nosso primeiro encontro que não queria nada comigo, não havia? Quer dizer, que ele me achava um nerd esquisito que não valia um segundo olhar, cuja mera possibilidade de tocar era demasiado repugnante pra se levar em consideração, não foi?

Então como agora ele podia estar ali, com os lábios se movendo contra os meus e as mãos envolvendo meu rosto daquele jeito? E por que meu corpo tinha que responder daquela maneira ao toque dele?

Até a minha boca, que eu vinha mantendo firmemente fechada até então, parecia estar sucumbindo às carícias dele. Se entreabrindo e entregando-se como se ele tivesse proferido alguma palavra mágica. Só que, claro, não seria uma simples mágica que me faria sentir daquele jeito. Tão deliciosamente lânguido e vivo ao mesmo tempo.

E então, antes que eu percebesse o que estava acontecendo, ele habilmente (obra de mestre, é claro) fez com que a ponta de sua língua escorregasse por entre meus lábios. Apenas um ligeiríssimo contato, e eu já estava gemendo dentro da boca dele, sem saber mais onde eu estava. Entreabrindo mais os lábios... e lá estava a língua dele outra vez, se movendo sofregamente de encontro a minha. Meu Deus, o que era aquilo! E eu que achava os beijos da Saori excitantes!

Só que os beijos da Saori nunca me fizeram sentir daquele jeito. Não mesmo. Como se meus joelhos fossem feitos de manteiga e meu coração fosse explodir no peito pelo simples prazer físico vivenciado pelos meus lábios.

Que era exatamente como o beijo dele estava me fazendo sentir, diga-se de passagem.

O fato era que eu nunca havia sido beijado daquela forma antes, sabe. E havia algo de extremamente sedutor naquilo. Na profundidade com que ele me beijava. Como se ele quisesse realmente muito fazer aquilo. Não era um beijinho fofo, ou um beijo de mentirinha. Era um beijo ávido e possessivo. Altamente erótico. Eu podia sentir sua intensidade, seu calor, seu peso, desde a boca até a ponta dos dedos dos pés. Que se contraiam em resposta ao toque elétrico dos lábios dele.

O que era totalmente ridículo, é claro. Que os meus pés respondessem ao beijo dele, eu digo. Porque eu não era nenhum adolescente cheio de hormônios, ou uma garotinha virgem, por favor! Eu era um homem adulto. Um executivo maduro e bem sucedido, cuja carreira e vida amorosa (pelo menos até a semana passada) poderia servir de exemplo aos ruivos esquisitos de todo país.

E um único beijo do queridinho da América, Milo Scorpion, me fazia derreter como uma poça de gelatina. Era vergonhoso.

Então, em algum lugar do meu cérebro, que ainda não havia virado uma pasta derretida de neutrons, eu pensei que aquilo absolutamente não podia ser real. Porque não tinha como aquilo estar acontecendo de verdade, tinha? Quer dizer, eu nem gostava de homens, fala sério! Então como é que ele poderia conseguir com um simples toque dos seus lábios me fazer sentir daquela forma? Como se pela primeira vez em anos eu estivesse realmente vivo.

Por que o calor e a sensação rígida do corpo dele no meu me faziam ter vontade de puxá-lo ainda mais contra mim? Por que a forma como ele segurava meus cabelos agora e me pressionava contra a parede me faziam querer tirar a roupa dele e (mon Dieu!) percorrer o corpo dele com a língua?

Não. Não fazia o menor sentido. Em um momento eu tinha vontade de socar o cara e no outro lá estava eu. Gemendo feito um gatinho nos braços dele.

E não havia nenhuma mágica de Hollywood naquilo. Não mesmo. Não tinha nenhum efeito especial naquela cena. Aquilo ali era química pura. No sentido mais antiquado da palavra.

Química! Entre Milo Scorpion e eu! Impossível!

Bom, talvez não tão impossível assim. Pelo menos se o que estava acontecendo logo abaixo da minha cintura servisse de indicação. E vamos admitir que estava acontecendo muita coisa ali.

Só que infelizmente a pessoa que estava fazendo com que todas aquelas 'coisas' acontecessem era, como vocês sabem, Milo Scorpion. O ator mais badalado do momento, maior galinha do meio artístico, pra não mencionar, amante da minha noiva. Meu Deus, aquilo era totalmente doentio! Como eu podia estar me sentindo daquela forma pelo cara que tinha transado com a minha noiva? Eu tinha que dar um jeito de parar com aquilo. Rápido. Só que o meu corpo não parecia muito disposto a colaborar comigo.

Pra minha sorte, no entanto, naquele exato momento a porta do escritório se abriu inadvertidamente e um homem aloirado (um dos que estavam com ele no teatro se eu não estava enganado) entrou na sala.

- Ah... Hã... Foi mal. – ele disse parecendo bastante constrangido e saindo novamente, fechando a porta

A cena toda não pode ter durado mais de um minuto, mas foi o suficiente pra que eu conseguisse me soltar dele e me dirigisse vacilante até a cadeira mais próxima. Porque eu não achava que poderia realmente me manter em pé por muito tempo, sabe. Quer dizer, meus joelhos não haviam se recuperado totalmente ainda.

Pra piorar eu não conseguia falar nada. Eu estava sem ar, meus lábios estavam dormentes e a língua pesada como chumbo. Mon Dieu, que tipo de reação era aquela?

-Isso... – ele disse, quebrando o silêncio – Não foi tão desagradável assim, foi?

Era impressão minha ou a voz dele parecia um tanto instável? Não. Não podia ser. Era impressão minha, é claro. Quer dizer, o cara era um ator, ele beijava dúzias de pessoas diferentes todos os dias, pelo amor de Deus! Ele não ia ficar todo abalado só por causa de um beijo como eu. É claro que não. O que eu estava pensando?

- E então? — ele continuou circulando a cadeira para se sentar ao meu lado – Você acha que já deu pra aprender direito, ou precisa que eu repita a lição?

Eu balancei a cabeça estupidamente. Era como se o meu cérebro estivesse cheio de teias de aranha.

- N-não. Eu creio que não será necessário – eu respondi, encontrando finalmente a minha voz. – Sua demonstração foi... hum... bastante satisfatória. Acho que eu entendi bem

- Bom.. .- ele comentou displicente. — Você aprende rápido.

- Ah, sim, — eu me vi respondendo. — eu... costumava ter notas excelentes no colégio.

- Eu imaginei. – ele respondeu, irônico. — Então, o que nós vamos fazer agora? — ele continuou fixando em mim aqueles incríveis olhos azuis dele. – Tem algum outro 'assunto em específico' que você gostaria de abordar?

Ele estava se referindo ao beijo, é claro. E ao fato de que havia sido eu que quem começara com aquela história toda, em primeiro lugar. Eu senti meu rosto queimar imediatamente e sabia que devia estar ficando vermelho. Droga! Eu odiava isso. Por que eu sempre tinha que corar daquele jeito na frente dele? Será que alguém poderia, por favor, fazer a gentileza de me indicar o buraco mais próximo?

Ele, no entanto, parecia estar gostando daquilo, porque apenas sorriu felinamente e continuou:

- Eu poderia fazer algumas demonstrações realmente bastante elucidativas, sabe – ele falou, se inclinando na minha direção e deslizando displicentemente um dedo pelo meu pescoço. Em uma carícia que poderia parecer absolutamente inocente a princípio, mas que me fez estremecer completamente.

Eu devo ter recuado porque ele baixou a mão e completou — ... a menos que você prefira voltar ao tópico da criação de uma atmosfera romântica para sua sedução, é claro.

- Não. – eu respondi depressa – Creio que isso já é o suficiente por hoje. Talvez devêssemos nos encontrar de novo na semana que vem.

- Mesmo? Bom... você é quem sabe. Então, à mesma hora na semana que vem? – ele perguntou, levantando-se graciosamente enquanto eu me esforçava pra me por de pé também.

- Hum... – eu respondi enquanto ele me acompanhava até a saída. – Sim, acho que sim, se estiver tudo bem pra você.

- Perfeitamente bem – ele respondeu, me entregando minha pasta onde eu guardei a agenda.

- Bom, até semana que vem então, Sr. Scorpion. – eu me despedi, pensando que, ecxeto pelo fato de ter ficado um pouco ruborizado, eu realmente não lidara tão mal com situação, afinal. E já ia me voltando pra sair dali quando a voz dele me fez parar de novo.

- Ruivo? — ele chamou

Eu olhei pra ele. Alguns cachos loiros haviam se soltado do elástico que os prendiam e caiam desalinhados pelos ombros. Os olhos azuis brilhavam intensamente e os lábios ainda pareciam úmidos e vermelhos pelo beijo.

- Sim? – eu perguntei piscando os olhos, um tanto desnorteado.

- Você esqueceu seus óculos. – ele disse, segurando-os no alto.

- Ah! Sim. Obrigado. – eu respondi, caminhando novamente até ele pra apanhá-los. – Eu só preciso deles pra ler... E escrever... E assim por diante. — eu expliquei, sem compreender como eu podia ter deixado que ele me visse de óculos, e compreendendo ainda menos por que eu me preocupava com aquilo.

- Hum. E assim por diante. – ele disse, concordando com a cabeça.

- Bem... até logo de novo. – eu falei então, me apressando pra sair logo dali antes que ele tivesse a chance de me chamar de volta, ou de fazer qualquer outra coisa. E, claro, antes que eu tivesse a chance de descobrir como eu poderia corresponder àquela 'coisa' que ele poderia fazer.

oOOoOoOOo

Milo POV

Certo. Então talvez as coisas não tivessem saído exatamente como o planejado. Mas e daí? Quer dizer, elas nunca saem mesmo, não é? Conforme o plano, eu digo. E tudo bem, talvez eu tivesse perdido um pouco o controle e agarrado o cara. Tá, eu perdi completamente o controle. Mas ele também não reagiu tão mal assim, não foi? Quer dizer, tá certo que ele não pulou no meu colo dizendo que me amava (isso seria um pouco assustador, na verdade), mas ele também não quebrou a minha cara, não foi?

Sério, eu realmente não consigo entender. De todas as pessoas do mundo pelas quais eu podia sentir atração porque eu tive que escolher justo a única (quer dizer, certamente não a única, mas a única que eu conheço) que não tem o menor interesse em mim? Aliás, qual é o problema com aquele ruivo, afinal? Ele parece ser totalmente imune a mim.

Bom, talvez não tão imune assim. Porque houve um momento em que ele realmente correspondeu ao beijo. E como correspondeu! Eu pude sentir o arrepio por todo o corpo quando os dedos dele deslizaram pela minha nuca, e o toque suave, mas enlouquecedor, da língua dele na minha.

E não só isso. Ele havia gostado do beijo. Pelo menos se a forma como ele gemia dentro da minha boca servisse de indicação. E como, alguém me diz, eu poderia conseguir pensar em manter qualquer tipo de controle com ele fazendo aquilo? Gemendo daquela forma dentro da minha boca, eu digo. Impossível!

Porém ainda mais impossível eram os efeitos que o beijo dele estava causando abaixo do meu pescoço. Mais especificamente naquela região sensível entre as minhas pernas. Que passara a pressionar insistentemente meu zíper em busca de alívio. Era incrível. Como eu podia ficar naquela situação por causa de um simples beijo? Quer dizer, eu já não era mais nenhum adolescente, por favor!

Eu já havia fantasiado como seria beijá-lo, é claro. Várias vezes, diga-se de passagem. E eu também já havia imaginado que haveria algum fogo sob aquela superfície gelada. Mas nem nos meus melhores devaneios eu poderia supor que seria daquela forma. Não mesmo. Porque beijá-lo era exatamente como pegar um fio conectado a eletricidade e colocar a outra ponta dentro da boca. Sério.

Comparado àquela experiência todos os outros beijos que eu já tinha dado na vida eram como, sei lá, beijar um tapete.

Finalmente eu entendia aquela coisa que as pessoas diziam sobre o beijo francês ser o beijo da alma, sabe. Porque era realmente como se ele estivesse atraindo pra dentro dele a minha alma. Fora de brincadeira. Eu podia senti-la saindo de mim. Quase como se saltasse da minha boca pra dele, e então ele a lançava de volta. Era uma sensação completamente fascinante. Quase miraculosa.

E se era assim que ele beijava alguém de quem ele nem gostava, imagine como seria se ele tivesse uma pontinha de afeição?

A noiva dele era definitivamente uma idiota.

E eu também era. Por não ter matado o Aoria no minuto em que ele entrou naquela sala. Maldita hora e que eu fui ter a brilhante idéia de dar uma cópia da chave do meu apartamento pra ele.

Só que aquilo também foi um pouco de sorte, eu acho. Que o Oria tivesse aparecido naquele momento, eu digo. Porque na situação em que eu estava eu era bem capaz de, sei lá, cometer uma loucura. Sério. E isso significaria não só o fim do meu patrocínio como um belo escândalo e um possível processo por assédio. (não riam!) Então eu acho que eu meio que devo agradecer pela inconveniência patológica do meu irmão. Até certo ponto, é claro.

E por falar no Diabo:

- Milo? Terra para Milo, tem alguém aí? Câmbio.

- O que você quer agora, Aoria? — eu respondi.

Era Quinta Feira e nós tínhamos saído pra outro jantar em família. O quarto desde que minha mãe resolvera desembarcar em New York. Não sei se pra visitar a gente ou pra uma milésima tentativa de convencer o Oria a desmanchar o noivado. Provavelmente um pouco de cada coisa.

O que era ridículo, é claro. Que a minha mãe ficasse azucrinando o Oria por causa do noivado, eu digo. Porque a Marin, a noiva dele, é uma garota totalmente incrível, sabe. Quer dizer, eu nem sei o que ela está fazendo com o imprestával do Oria, pra começo de conversa. Definitivamente o amor torna mesmo as pessoas cegas. Então a minha mãe tinha é que dar graças a Deus, sabe, e não ficar fazendo essa coisa toda de campanha contra.

E não me levem a mal, eu adoro a minha mãe e tudo. Quer dizer, ela criou a gente praticamente sozinha depois que eu meu pai morreu (e vamos admitir que nós não éramos exatamente uns anjos). É só que, sabem como é, ela é uma típica mãe grega. Toda superprotetora e tradicionalista e coisa e tal. E, na opinião dela, todos os filhos têm que casar com 'boas mulheres gregas', ter um monte de filhos e assar carneiros no final de semana pra reunir a família. Até parece!

Mas, voltando ao Oria:

- Credo, que mau humor! – ele reclamou do seu lugar na mesa, ao meu lado — Tudo isso ainda é por causa do incidente de Segunda Feira? Pois saiba que eu também não tive a menor intenção de presenciar as suas safadezas, sabe. E você devia fazer isso no quarto. Que nojo!

- Que safadeza? – o Kanon, do outro lado da mesa entrou no assunto.

- Mas que orelha, heim? – eu comentei, irônico.

- O Kanon tem uma audição especialmente sensível pra certas palavras em particular. – O Saga, ao lado dele, respondeu.

- Que safadeza? – ele insistiu.

- Segunda Feira eu tive o desprazer de surpreender o Milo com a sua mais nova vítima no escritório do apartamento dele. — – o Oria se deu ao trabalho de explicar -Totalmente traumatizante! – Ele completou com uma careta de nojo.

- Nova vítima, é? – O Kanon perguntou curioso – E quem é o infeliz da vez? O ruivo?

- Como você sabe do ruivo? – Eu quis saber, indignado.

- Elementar meu caro Milo, você não desgrudava os olhos do cara Sábado passado no teatro. – o Saga se intrometeu outra vez.

- Saiu do camarote logo atrás dele... – o Kanon começou.

- Ficou um tempo desnecessário no banheiro... – o Saga continuou, naquela mania absolutamente enervante que eles tinham de falar em conjunto.

- E voltou, vejam só, exatamente alguns minutos depois do cara também ter voltado pro camarote dele. Bastante suspeito você não acha, Saga? – ele completou sarcástico, olhando pro gêmeo que apenas concordou com a cabeça com cara de quem entendia das coisas.

- Ei, vocês não deveriam estar assistindo a peça em vez de estarem xeretando a vida alheia, não? – eu lancei, irritado.

- Ora, nós somos detetives, maninho, xeretar a vida alheia é o que nós fazemos de melhor. – o Kanon, é claro.

- E as suas reações são sempre mais divertidas de se assistir do que qualquer peça. – o Saga completou.

- Será que vocês poderiam parar de falar besteira e fazer logo os pedidos que a garçonete está esperando? — o Aioros, que estava folheando o cardápio na cabeceira da mesa, finalmente se manifestou — Além disso, a mamãe já deve estar voltando do banheiro.

O que, é claro, significava que era melhor nós mudarmos de assunto. Porque, vocês sabem, a minha mãe não era exatamente compreensiva com essa coisa toda de liberdade sexual. Por causa daquele negócio de ela ser tão apegada as tradições e querer que os filhos casassem com boas mulheres gregas e tudo mais. Então não era realmente uma boa idéia inteirá-la da minha vida romântica, sabe. Que não era lá muito tradicional, por assim dizer.

Então o Kanon simplesmente pegou o cardápio dele e se adiantou pra garçonete, dizendo.

- Bem, nesse caso acho que eu vou querer esse Curry Especial, um Chapati, uma porção de Sabzi Pilao, e... ah, e uma porçãozinha de Samosas.

- E isso é pra comer você e mais quantos, Kanon? – o Aoria ironizou.

- Aliás, — ele continuou — porque a gente tem que vir sempre nesse restaurante?

- Porque é o único em que a mamãe não reclama da comida. – o Saga respondeu.

- Bem, eu adoro comida indiana mesmo então... – o Kanon falou, dando de ombros. – Mas já que é pra mudar de assunto – ele continuou agora se dirigindo a mim, que estava indeciso entre um Steak Indiana ao Curry ,que era um filet mignon ao molho de tomate, batatas e masala, e um Chicken Massala, que era um filet de frango ao molho de iogurte, tomate, cebola, alho e especiarias.- Você vai mesmo largar aquele seriado de TV?

– Claro. — Eu respondi, largando o cardápio — Aquela roteirista é louca. Ela sempre dá um jeito de me colocar pelado em alguma cena.

- Bom, Milo, não se pode realmente culpar a mulher por querer dar ao público o que o público quer ver, não é? – o Saga interveio. No exato momento em que a nossa mãe voltava a ocupar seu lugar na ponta da mesa, ao meu lado.

- Ou vai ver ela tem alguma queda por você. – o Oria entrou no assunto.

- Queda? Sei. Ela me odeia, isso sim. – eu respondi — Vocês acreditam que ela queria me colocar só de cueca, perdido no gelo, em meio a uma estação de esqui? Ela quer me matar de frio? – eu completei indignado, angariando risadas de todos. Menos da minha mãe é claro.

- Sem roupa na neve! – ela exclamou chocada — Oh, meu Deus! Já pensou se você pegasse uma pneumonia?

É, essa era minha mãe.

- Mas também o que esperar de uma gente protestante, que se alimenta mal? – ela continuou. — Deus me livre! Eu realmente não entendo por que vocês insistem em morar nesse lugar medonho, sabe. E esse tempo então? Que coisa horrorosa. Esse frio. A gente não consegue nem ver o céu direito. Isso pra não falar da barulheira infernal, da falta de espaço, da correria, credo! E como vocês esperam encontrar alguma mulher decente nesse lugar, heim? Vocês tinham é que ouvir a sua mãe e voltar pra casa. Arrumar uma boa mulher grega pra casar. Ter filhos. Continuar a família...

E lá íamos nós novamente.

Eu voltei a consultar o meu cardápio.

- Miluxo. – ela se voltou subitamente pra mim enquanto eu fazia meu pedido (Chicken Massala com uma porção pequena de Samosas). – Você se lembra da prima Nena? Filha do tio Pepe, que era primo em terceiro grau do papai? Vocês brincavam tanto juntos quando crianças.

É, eu me lembrava da prima Nena. Uma gordinha chata cuja principal diversão era quebrar as coisas e colocar a culpa em mim. De forma que eu apenas fiz que sim com a cabeça já sabendo o que viria.

- Pois então, eu a vi no almoço com a família o mês passado, sabe. – ela continuou — E você não acredita que moça bonita que ela ficou! Tão prendada. Precisa ver como ela me ajudou com o molho do carneiro. Você realmente deveria considerar a possibilidade de se casar com ela, Miluxo. Vocês se davam tão bem. E ela gosta tanto de você. Tem todos os seus filmes, que eu sei.

Não. Era maldição. Tinha que ser. Primeiro o negócio com o Dhoko e o roubo da tiara. Depois a coisa toda com o ruivo. E agora eu ainda tinha que aguentar a minha mãe com aquela história de 'prima Nena'. Fala sério! Eu tinha jogado pedra na cruz e acertado o saco de Cristo. Só podia.

- Mãe, — eu respondi, tentando permanecer calmo — eu e a prima Nena nunca nos demos bem. E nem com todas as cirurgias plásticas do mundo ela poderia ficar bonita!

- Oh meu Pai! – ela exclamou, levantando as mãos pro alto, dramática. – Que desgraça ter parido filhos tão bonitos e tão superficiais. Não me diga que você também gosta daquele tipo de modelo pálida e doentia, incapaz de prover uma família?

'Modelo pálida e doentia'? Bom, digamos que no momento eu estava muito mais pra executivo alto, ombros largos, pele branca e longos fios ruivos. É, só que eu acho que não ia dar pra contar isso pra ela.

Felizmente eu não precisei responder a pergunta porque ela continuou:

- É isso o que esse país faz com vocês, sabe. Promovendo essas garotinhas anoréxicas de quadris estreitos, incapazes de gerar um filho, como essa noiva do seu irmão!

- Mãe, a Marin não é anoréxica. E ela é perfeitamente capaz de gerar filhos. – o Oria se manifestou em defesa da namorada.

- Com uma cintura daquele tamaninho? Duvido. – minha mãe revidou.

- Mãe, a Marin é legal. E é uma boa moça. – O Aioros interveio e todos concordamos.

- E como vocês podem saber? – ela disse, exasperada. — Vocês nem conhecem a família dela! Ela não é da nossa religião e...e... ela nem é grega! — E voltamos ao cerne do problema.

Felizmente nesse momento a garçonete chegou com os pratos e o Saga aproveitou a deixa pra cortar diplomaticamente o assunto com um:

- Mas e quanto ao contrato, Milo? Você tinha um contrato com a emissora de TV, não tinha? Tem certeza de que não vai dar problema largar a série assim? – ele perguntou com a maior naturalidade do mundo, como se nós nunca nem tivésemos saído do assunto anterior.

Certo. Eu tinha que admitir. O Saga podia ser bem irritante às vezes, mas ele certamente sabia ser útil.

- Não se preocupe. – eu respondi, pegando o espírito da coisa. – O Shaka certamente pode dar um jeito nisso pra mim.

- Shaka? – ele indagou. – Ah... é aquele seu advogado budista, não?

- 'Advogado budista'? – o Kanon ecoou caindo na risada enquanto eu só concordava com a cabeça. – Isso existe? – ele perguntou quase se matando de rir.

- Qual o problema com um advogado budista? – O Aioros entrou no assunto.

- É que, bom, você sabe o que dizem dos advogados, não é? — o Saga explicou, rindo também – E os budistas pregam aquela coisa toda de desapego material e tudo. Então um advogado budista é quase como...

- Um judeu nazista! – O Kanon completou sem fôlego, e os dois explodiram em gargalhadas.

- Ei, eu ainda estou aqui, sabe! – o Oria finalmente se manifestou.

O Oria etambém era advogado e estava terminando a especialização dele em Direito Comercial pela Universidade de New York. Que foi onde ele conheceu a Marin, por sinal.

- Ah! E por falar em Shaka, – eu me lembrei de repente — vocês não vão acreditar em com quem ele está saindo. – eu completei, fazendo uma pausa estratégica pra que todos os olhares se voltassem na minha direção.

- Com quem? – O Oria perguntou

-Desembucha logo! – O Kanon se impacientou.

E eu não pude deixar de pensar que os cientistas estavam realmente negligenciando uma parte poderosa da genética ao deixar de considerar os fatores hereditários da curiosidade.

- Com o Mú! – eu anunciei por fim, pra espanto geral.

- O Mú... 'Mú'? – O Oria disse abobado.

- O nosso Mú? – foi a vez do Kanon.

O Mú era um amigo de infância nosso. Um tibetano que tinha feito o colégio com a gente na Grécia. Ele era da minha classe, mas no fim todo mundo meio que acabou adotando ele, sabe. Até a minha mãe.

- O próprio. – eu respondi.

- Eu nem sabia que ele estava em New York. – o Saga comentou, surpreso – Como ele veio parar aqui?

- Ah, o de sempre. – eu respondi.

O de sempre, claro, era o tio dele. Porque o Mú era órfão desde pequeno, sabe. E vivia com um tio lá dele. Até aí tudo bem. O problema é que o cara tinha um trabalho super esquisito, que ninguém (pelo menos nenhum de nós) nunca entendeu muito bem do que se tratava, e vivia sendo transferido de país pra país. E o Mú, claro, tinha que ir junto. Resultado: os dois já tinham morado no Tibete, na Índia, na China, no Japão, na a Grécia e por aí vai. E agora eles estavam em New York.

- Lembra, Saga – o Kanon falou – no terceiro ano, quando a gente apostou quem tirava o Seu Heráclito do sério mais rápido? – o Seu Heráclito era o nosso bedel no colégio. Acho que hoje nem tem mais isso, não é? De qualquer forma, ele era todo sério e os gêmeos adoravam aprontar com ele.

- Claro. — o Saga respondeu, rindo — O Mú perdeu, e você fez o coitado pintar o cabelo de roxo.

- Ah, foi por causa daquele moleton com o desenho do Signo dele que ele usava. Tinha um carneiro lilás estampado, lembra? Eu queria que ficasse combinando – o Kanon explicou, rindo também.

- E daí todo mundo começou a chamar ele de carneirinho. – o Saga lembrou, e todos caíram na risada.

- Mas o pior é que ficou bonitinho. – o Aoria comentou.

- Pelo jeito ele também gostou – eu entrei no assunto. – porque ele manteve a cor até hoje.

- Você tá brincando? – os três disseram em uníssono.

Eu fiz que não com a cabeça

- Se vocês não acreditam, podem conferir com seus próprios olhos. – eu completei lançando um olhar pra porta do restaurante por onde entravam, naquele momento, dois homens: Um loiro alto e um ligeiramente mais baixo, de longos cabelos lilás.

- Mú! Shaka! – eu chamei acenando.

- Nossa, a quanto tempo! – o Mú exclamou ao se aproximar da mesa, abraçando todo mundo.

- Carneirinho! – O Kanon soltou ao cumprimentá-lo, e todo mundo caiu na risada de novo. Menos o Shaka, é claro, que só levantou a sobrancelha sem entender.

- Nossa, tá todo mundo aqui hoje, é? – ele se limitou a perguntar.

- A minha mãe insistiu em um jantar em familía, então... – eu respondi. – Mas e vocês, o que fazem por aqui? – eu quis saber.

- Ah, esse restaurante é da família do Shaka, – o Mú começou – você não sabia?

Eu não sabia. De forma que apenas olhei surpreso para os dois.

- A gente sempre acaba aqui de um jeito ou de outro. – o Shaka completou.

- É, mas hoje é diferente, — o Mú falou – o Shaka quer apresentar uns amigos dele pra mim, então a gente combinou um jantar aqui, né Sha?

- São só uns amigos. – o Shaka respondeu, dando de ombros.

- São seus melhores amigos! – o Mú retorquiu, voltando-se pro namorado. – Eles estudaram juntos e foram colegas de apartamento em Oxford – ele disse, agora pra mim .

- Aliás, — ele continuou, animado, voltando-se pra todos. — por que vocês não ficam também? Assim todo mundo já fica conhecendo todo mundo.

- Eu adoraria, rapazes, mas pego o avião cedinho amanhã de volta pra Grécia. – o Aioros se desculpou. Ele era o único que ainda morava em Atenas. Ele tinha vindo pra um congresso internacional de psiquiatria em New York, e minha mãe aproveitara pra vir junto.

- Bom, meninos, acho que é hora dos mais velhos se retirarem então. – Minha mãe falou, pegando a bolsa e acompanhando o Aioros. – Mú, querido, foi um prazer rever você. – ela falou, pregando um beijo em cada bochecha dele, que sorriu constrangido. — Vê se come direitinho, viu? Você continua tão pálido e magrinho. – ela completou.

- E Shaka... é Shaka, né? — ela continuou — Meus cumprimentos ao seus pais, esse restaurante parece ser o único no país que serve alguma comida decente. Bom, fiquem com Deus, crianças. E eu vejo vocês no aeroporto amanhã. – Ela finalmente concluiu, pra mim e para os meus irmãos, abraçando e beijando cada um de nós antes de sair.

- Bom, gente, — o Oria aproveitou a deixa – a idéia de passar minha noite de Quinta cercado de cuecas é realmente tentadora, mas eu tenho uma mulher linda me esperando, então... Fui. – ele disse naquele jeitão meio moleque dele, pegando a carteira e saindo também.

- É, parece que só sobramos nós. – eu comentei. – Vocês não vão debandar também, e me deixar aqui de vela, não é? – Eu perguntei, agora pros gêmeos, que pareciam bastante entretidos com alguma coisa no celular do Saga.

- De jeito nenhum! – o Kanon respondeu, largando o celular do outro e se recostando na cadeira. – Nunca antes da sobremesa. – ele completou com um sorriso.

- Você vai acabar gordo desse jeito, Kan. – o Saga advertiu, guardando o telefone no bolso.

- Se ele não engordou até hoje, depois de anos com a mamãe, não engorda mais. – eu disse. – É magro de ruim mesmo!

- Sha, – o Mú se dirigiu subitamente ao namorado – eles não estão um pouco atrasados, não? Nós combinamos às 21:00 e já são 21:30, não é melhor ligar?

- Não precisa, isso com certeza é coisa do Dite, já já eles aparecem. – o Shaka respondeu. – Ligar só vai deixar o Camus mais estressado.

Espera aí, eu tinha ouvido direito? O nome do amigo do Shaka era Camus? Não, é claro que não. Não podia ser o mesmo Camus. O que eu estava pensando? Seria coincidência demais, fala sério! Era impossível.

Quer dizer, então talvez o nome do cara fosse mesmo Camus, mas e daí? Existem milhares de homens chamados Camus, certo? E tá, talvez Camus não fosse o nome mais comum do mundo. E tudo bem, eu nunca tinha conhecido nenhum outro Camus além dele (sem contar o poeta, é claro. O Albert Camus, eu digo). Mas isso também não queria dizer nada, não é? Porque aquilo era New York, pelo amor de Deus! Deviam ter pelo menos uma centena de caras chamados Camus por ali. Então é claro que não era ele. Quer dizer, não podia ser, não é?

Só que aparentemente podia sim. Porque quando o Shaka interrompeu o que quer que eles estivessem falando e disse:

- Ah, lá estão eles!

E eu me virei para a porta pra olhar pra onde ele estava acenando, meu olhar foi imediatamente capturado pelos conhecidos olhos gelados e os longos cabelos ruivos do homem elegante de sobretudo preto que estava parado à entrada. E ele estava acompanhado, é claro. Pela loira aguada da noiva estúpida dele.

Notas finais
Oi de novo gente,

Eu sei que vcs estavam esperando um ch todo do Camus, e de repente a parte dele ficou tão curtinha. Me desculpem por isso.

É claro que eu tb estou com saudades dele, mas eu acho que já explorei bem a relação familiar dele e quis apresentar um pouco a família grega pra vcs. Mesmo pq provavelmente não vão mais existir muitas oportunidades de estar colocando eles na história agora. Só no final, quando eles terão uma participação até bem considerável.

De qualquer forma é possivel que venham mais chs assim, com povs de mais de um personagem, pra dar mais dinâmica. Já que a partir de agora a história meio que vai pedir um pouco mais de dinâmica.

E aí estão, Mú e Shaka dando o ar da graça pra quem estava sentindo falta do casalsinho. XD Eu não tenho muita intimidade pra escrever com eles , mas enfim...

Ah sim, e o beijo é claro. Na visão dos dois pra me redimir com vcs por ter parado o ch passado daquela maneira XD. Espero que eu esteja suficientemente redimida e que vcs tenham gostado. Eu tentei ser descritiva sem ser vulgar, por isso me concentrei mais nas sensaçoes deles, espero que tenha dado certo.

Enfim, muito obrigada de novo a todos aqueles que estão acompanhando e aos que me mandaram reviews em especial: Kamy_Jaganshi, LennaDosAnjos, LettyHyuuga, sayuri hatake, brigadão meninas ^^

Bjos

PS: Créditos devidos: à Meg Cabot, de cujo livro "Ela Foi Até o Fim" eu tirei muitas coisas pra esse ch (tenho culpa que eu comecei a ler o livro e ele se encaixou como uma luva com a história? XD)

Nota: Chapati é um pão indiano, Samosas são pasteizinhos indianos e Sabzi Pilao é um tipo de arroz indiano.