Aprendendo a Seduzir
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Milo POV
No que eu estava pensando? No que em nome de Deus eu estava pensando?
Eu absolutamente não pensara. Esse era o problema. Alguma coisa acontecia comigo toda vez que eu me aproximava daquele ruivo. Era algo diferente de qualquer coisa que já me acontecera antes.
Antes, eu sempre tinha sido capaz de me manter relativamente no controle sobre as minhas ações, minhas emoções. Atrair, manipular, envolver, era um jogo no qual eu era mestre desde garoto. Ou pensava que era. Pelo menos até Camus Lafreve Chevalier me mostrar o contrário. Por que eu sempre tinha que parecer um idiota na frente dele? Por que o único cara que eu queria impressionar era o mesmo que me levava a me comportar de modo tão estúpido?
'Não estamos?' Droga, o que raios estava passando pela minha cabeça? Onde diabos eu queria chegar com aquilo? Não era como seu eu estivesse apaixonado por ele, afinal. É claro que não. 'Apaixonado'... Ridículo! Como se eu pudesse realmente me apaixonar por alguém. Atração, era isso... ele me atraía, só isso. Realmente, me atraía muito.
O que ocorrera naquele escritório era um bom exemplo disso. Eu apalpei mais uma vez minhas costelas doloridas. Incrível! Era mesmo surpreendente que nenhuma delas estivesse quebrada. Eu realmente não conseguia detectar o que me fizera obedecer ao meu desejo daqule jeito. Atacá-lo daquela forma e depois... as coisas que eu falara...
Eu não estava acostumado à indiferença, era isso. Essa era a única explicação possível. Todos os que eu já havia conhecido eram fáceis de consquistar. Ele era praticamente a única pessoa em toda a minha vida – com excessão da minha mãe e dos meus irmãos – que parecia ser completamente imune ao meu... digamos... charme. Era por isso que eu nunca sabia muito bem como agir quando ele estava por perto. Eu não sabia lidar com a rejeição.
Claro que havia pessoas com quem eu não me dava muito bem. Aquela roteirista que sempre me punha pelado, por exemplo, com quem eu acabei me desentendendo durante a gravação de uma cena. E eu também não ia muito com a cara do Russell Crowe. Mas aquele ruivo era o único que parecia expressar irritação só de olhar pra minha cara. Ele me odiava.
Ou talvez nem tanto porque havia momentos, quando nossas bocas se encontravam, por exemplo, ou quando eu acariciava o corpo dele com os lábios, que ele parecia apreciar bastante. Eu podia me lembrar com perfeita clareza da maneira como ele gemera e puxara meus cabelos naquele escritório, há poucas horas. Da forma elouquecedora com que ele se movimentara sob o meu corpo.
Se pelo menos ele admitisse isso...
Não que eu não tivesse nada mais importante com o que me preocupar no momento. Haviam as ameaças do Dohko, é claro, e a história toda com a tiara. Isso pra não mencionar toda aquela neve que voltara a cair com força enquanto eu dirigia de volta pra casa. Eu estava com frio, confuso, exausto, e meus dedos dos pés eram como pequenas pedras de gelo dentro dos sapatos.
Mas, naquele instante, o meu problema mais urgente estava ali, pressionando meu zíper insitentemente.
Sério, qual era o problema comigo? O que me passara pela cabeça pra atacar o cara daquele jeito? Eu sabia que devia ir com calma, eu já havia prometido a mim mesmo manter minhas mãos longe dele. Mais do que isso, eu tinha perfeita consciência de que ele era meu patrocinador e que eu não podia por tudo a perder daquela maneira. E apesar disso, parecia que toda vez que eu me aproximava dele meu único pensamento era tirar tanto quanto eu pudesse da roupa do cara no mínimo tempo de que dispunhámos. Que modo de tratar alguém era esse?
Não era de admirar que ele quisesse cortar relações comigo. O modo como eu agira era imperdoável. E eu não havia sido capaz de me conter, não mais do que eu era capaz de parar de respirar. Provavelmente era exatamente por isso que ele estava colocando um ponto final naquilo. Se eu não conseguia controlar seus instintos mais básicos na presença dele então... bem, então talvez fosse melhor mesmo manter uma distância segura.
Eu podia reclamar da injustiça da vida, mas de alguma forma eu não a achava injusta. De todo modo, parecia certo que, depois do jeito estúpido com que eu agira, me fosse negado algo bom e prezeroso.
Eu balancei a cabeça. Que ótimo, eu estava começando a parecer o Saga agora!
Bom, podia ser pior, eu podia estar parecendo o Kanon. E então eu ia saber que estava definitivamente enrrascado.
Ainda assim, não me importava o quanto de razão aquele ruivo pudesse ter ou o quanto ele pudesse argumentar, eu não ia deixar aque as coisas simplesmente terminassem daquele jeito. Com ele me arremessando – literalmente– pra fora do escritório dele como se eu fosse um traste inútil qualquer. Qual é, eu também tinha o meu orgulho!
Então por que meu instinto de sobrevivência continuava me dizendo pra dar meia volta enquanto eu ainda podia? Por que eu tinha aquele sentimento estranho de que eu podia perder bem mais do apenas o meu orgulho se continuasse com aquilo?
Ora, em que raios eu estava pensando? O que mais além do meu orgulho eu poderia perder? Certamente que não o meu coração. Aquele pedaço de carne trêmula não sabia o significado de um vínculo verdadeiro. A única coisa que me afetava eram os laços de sangue. Nenhum outro vínculo valia à pena. Nada mais era real.
– Boa noite, rapaz!
Eu me assustei com a voz do Dohko vinda de dentro da minha sala.
Eu acabara de entrar no apartamento e nem me preocupara em acender a luz, enquanto fechava a porta com o pé e punha a chave no lugar. Estava desabotoando o casaco quando percebi que não estava sozinho.
Confortavelmente instalado em uma das minhas poltronas, e iluminado apenas pela luz da rua que atravessava as janelas, ele me olhava no escuro.
– Maldição! Quando é que você vai parar de rastejar para dentro da minha casa? – Com um suspiro de frustração, eu atirei o casaco em uma cadeira e acendi as luzes. A última coisa que eu precisava naquela noite era ter o Dohko no meu pé, sério.
– Espero que tenha ido atrás da minha joiazinha. – ele sorriu, cínico
Eu passei a mão pelo rosto. Estava cansado, confuso, e tudo o que eu queria era cair na cama e puxar a coberta pra cima da cabeça.
– Eu estou providenciando.
Ele se levantou da poltrona, movendo-se furtivamente na minha direção, diminuindo a distância.
– Então providencie rápido. Eu não tenho a vida iteira.
Ele já era assim grosseiro quando eu ainda gostava dele? Ou era só uma fachada, e eu é que achava que ele se comportava como um pai? Sem dúvida eu só vira o quisera ver naquele crápula, e não o que ele era na verdade.
– Vou consegui-la.
Ele levantou um dedo no meu rosto.
– É melhor, mesmo. Tenho sido paciente por causa do nosso antigo relacionamento, mas não vou esperar muito tempo mais. Ou você chega à maldita tiara por si mesmo ou vou fazer você conseguí-la.
Eu empurrei o dedo dele para o lado.
– E exatamente como você pretende fazer isso?
Ele sorriu. Seu rosto era como o de um doce homem de idade com alma de demônio.
– Seria uma vergonha se nada acontecesse com um daqueles seus irmãos, não?
Eu senti meu sangue gelar de repente.
– Você não faria isso.
Ele sacudiu os ombros.
– Talvez fizesse, talvez não. Quem sabe nada irá acontecer com eles, afinal. Andei ouvindo histórias sobre você... — Ele atirou uma polaroide na mesinha de centro. Eu peguei a foto. Ela mostrava uma imagem minha e do Camus saindo do restaurante no Soho na quinta feira. – E então, você vai ou não me dizer qual é a jogada?
– Filho da mãe! Você estava me seguindo? – eu exclamei.
– O que é isso, garoto! Você acha que um velho como eu poderia acompanhar o ritmo dos passos dos jovens? Não, não... mas... digamos que eu tenha meus contatos. – ele sorriu.
– Você mandou que me seguissem! – eu constatei.
– Você achou que eu não ia notar? – a voz dele agora era severa — Achou que eu não ia somar dois e dois e entender que havia algo mais ali do que em uma de suas meras investidas? Seria melhor que você me contasse logo de que se trata tudo isso, garoto, se um pequeno acidente acontecesse com esse rapaz, você só teria a si mesmo pra culpar.
Eu senti um súbito arrepio na espinha.
– Deixe o Camus fora disso. Ele não tem nada a ver com essa história. – Pensar no ruivo envolvido naquilo fazia com que o meu estômago se revirasse de uma forma descofortável.
– É mesmo? Bom, acontece que eu acho que ele tem sim. Que ele tem tudo a ver com essa história, na verdade. Afinal ele...
– Ele é só o meu patrocinador! – eu falei depressa.
– Como é? — ele me olhou desconfiado.
– É isso mesmo que você ouviu. – eu confirmei — A empresa dele está patrocinando o filme que eu vou produzir pra conseguir por as mãos na tiara. Ele não sabe de nada.
Ele continuou me olhando em silêncio. Os olhos escuros perscrutando meu rosto, como um jogador de pôquer faria com um adversário. Eu sutentei o olhar dele, mas era impossível adivinhar o que se passava atrás daquelas íris castanhas.
– Hum... – ele falou finalmente — então talvez você também não saiba que aquela tiara foi um presente de noivado que a Srta. Kido recebeu da família do noivo dela?
Eu não entendi o porquê da pergunta àquela altura, mas respondi mesmo assim, aliviado pela súbita mudança de assunto.
– Eu nem sabia que a garota estava noiva, como eu ia saber que a tiara havia sido um presente de noivado?
– Meu Deus, garoto, você já foi melhor do que isso! O que você têm feito nas suas horas livres além de correr atrás daquele ruivo?
Eu não disse nada, e ele logo continuou.
– Sabe, isso me faz pensar... Se aquele rapaz está te desconcentrando assim, talvez as coisas fossem mesmo mais rápidas com ele fora do caminho. O que acha?
Aquela coisa incômoda e gelada voltou a embrulhar meu estômago, ao mesmo tempo em que algo quente e feroz se expandia rapidamente dentro do meu peito.
De dentes cerrados, eu lutava para me controlar apesar do impulso de acabar com aquele sujeito que me assaltava.
– Eu já disse que é pra você deixá-lo fora disso.
De novo, ele deu aquele sorriso pretensamente charmoso.
– Não se preocupe, se você fizer exatamente o que eu quero, ninguém será ferido. Mas se agir de modo contrário alguém vai sangrar, e, você sabe, todos nós estamos propensos a acidentes, o Sr. Chevalier não é exeção.
Meu pouco controle se esgotou. Em um movimento rápido e impensado eu me atirei em cima dele, desferindo-lhe um soco no queixo que o lançou de volta ao sofá. Agarrando-o pelas lapelas do casaco, eu o levantei mais uma vez, armando o punho para outro soco.
Ele me encarou, o sangue escorrendo no canto da boca. Alguma coisa em sua expressão me fez parar, impedindo-me de chegar mais perto. Então eu senti alguma coisa me cutucando de encontro às costelas. Eu não precisava olhar pra baixo pra saber o que era. Ele puxara uma arma pra mim. Uma glock 9 mm, com ferrolho oxidado, como eu vim a constatar.
Eu abri o punho devagar, soltando-o. Ele não se moveu, mas me olhava com uma expressão ameaçadora. Ali estava o verdadeiro Dohko. E pensar que eu já tivera consideração por aquele homem, que quisera ajudá-lo. Qualquer assassino teria sido um mentor melhor do que ele.
– Nunca mais faça uma coisa tão estúpida de novo, rapaz. – A voz dele soava tão pesada e perigosa quanto sua expressão. – A menos que queira sair ferido – ele completou, me encarando.
– Não me importo com o que faça comigo – eu respondi, fixando o olhar nele também.
Um sorriso irônico se espalhou por seu rosto.
– Sei, mas se importa com seus irmãos e com o ruivo, não é? Conheço você, garoto. Sei que não vai querer arruiná-los nem ter o sangue deles em suas mãos. Você sentiria isso de um modo muito profundo.
Eu não respondi. Nem precisaria fazê-lo. Ele já conhecia a verdade. Tudo porque não eu conseguira me controlar. Ele havia ameaçado meus irmãos e eu não tinha feito nada, ele falara do ruivo e eu perdera completamente o controle. O que fora aquilo? Que raios havia de errado comigo pra sair batendo nele daquele jeito?
– E então, vai fazer o que eu lhe disse agora ou precisa que eu seja um pouco mais convincente?
Ser 'convincente' para o Dohko provavelmente envolvia algo doloroso e pessoal, eu tinha certeza. E naquele caso não se trataria de dor física. Ele iria tentar me atingir por intermédio das pessoas que significavam alguma coisa pra mim. Nem seria preciso que fosse necessariamente alguém da família. Podia se um amigo. Podia ser um amante.
Engolindo a bile e o orgulho, eu levantei o queixo.
– Vou conseguir a tiara pra você.
Se ele notou que eu não concordava com o que havia dito, não demonstrou. Apenas sorriu.
– É isso aí, garoto. Sabia que você ia recuperar a razão. Quando?
– Não sei. — eu disse, dando de ombros. – Logo, eu acho.
Ele levantou a arma, apontando-a diretamente para a minha cabeça. Eu não me esquivei. Ele não ia me ferir – precisava muito de mim. Podia ter sido alguma coisa em outros tempos, mas agora era apenas um homem velho, e não havia como pudesse conseguir ele mesmo a tiara sem ser apanhado. Eu sabia disso, e ele também.
– Lembre-se, você tem até Fevereiro. – ele disse.
– E como você espera que eu produza um filme até Fevereiro? – eu retruquei
– Você não tem que produzir um filme. – ele sorriu mais uma vez — Eu soube por fontes seguras que a Srta. Kido usará a tiara em seu casamento. Você só vai precisar estar lá, e fazer a jóia sumir misteriosamente. Nada que você nunca tenha feito antes. Então não crie caso e não me faça perder a paciência. Você não sabe como eu fico quando perco a paciência.
Eu pisquei os olhos. Não, eu não sabia. Mas podia imaginar. Eu precisava pegar a tiara logo ou ele iria cumprir sua ameaça e começar a ferir as pessoas.
– Já disse que eu vou consegui-la.
Abaixando a arma, ele se afastou, sorrindo.
– Bom. Então estamos entendidos. – ele guardou a pistola no coldre interno que escondia sob casaco. – Entrarei em contato em alguns dias. Não me desaponte, Milo.
Em silêncio, eu o assisti sair. E só então permiti que meus ombros relaxassem. Fui atá a porta e a fechei novamente, resistindo à tentação de pôr também uma mesa diante dela. Ele não voltaria, não aquela noite.
Caminhei devagar até o quarto e tirei as roupas, me metendo na cama com um suspiro. Deitado de lado, dobrei meus joelhos em direção as costelas e fiquei olhando a noite através da janela. Eu me recusava a pensar em Dohko e suas ameaças. Em vez disso, era melhor pensar em coisas prazeirosas. Em Camus, por exemplo, e na voz rouca dele gemendo em meus braços. Pensava na inesperada doçura em seus olhos quando ele falara no irmão e no gosto dele em meus lábios. E quando minha garganta se fechou e meus olhos começaram a arder, eu continuei pensando nele. Pensei nele até sentir o rosto úmido por causa das lágrimas que escorriam dos meus olhos, e então parei.
Eu não chorava desde os cinco anos e não ia começar a fazer isso agora só porque me sentia como um garoto.
oOoOOOoOo
Camus POV
Já passava, e muito, da meia noite quando eu finalmente consegui chegar em casa. Apesar da hora tardia fui recepcionado por um Afrodite esbaforido e de olhos vermelhos e inchados.
O que, claro, só podia significar duas coisas: ele brigara com o Mascára, ou estava assistindo outro daqueles dramas românticos antigos que ele adorava, e o namorado odiava. O díalogo pomposo em um inglês britânico perfeito que vinha do home cinema mais adiante, somado à cara de sono do Máscara atrás dele, apontavam para a segunda hipótese.
– Ainda bem que você chegou. – ele disparou logo que me viu entrar – esta casa está mais cheia do que a Macy's em época de liquidação de natal...
– Por favor, Di – eu o interropi, atirando minhas luvas sobre o aparador. – Agora não. Eu não estou com ânimo.
– Pois vai estar logo – o Máscara falou sorrindo maliciosamente, enquanto eu passava pela sala caminhando na direção de uma porta interna -, assim que vir quem...
Mas eu apenas fiz um aceno com a mão, dispensando o aviso. Em outra situação eu talvez tivesse escutado, mas naquele momento tudo o que eu queria era me atirar na cama e mergulhar na deliciosa incosciência do sono. Em algo que me fizesse parar de pensar em como eu me sentira com as mãos de Milo sobre meu corpo. Nas minhas partes mais íntimas. Em lugares onde eu jamais sonhei que alguém pudesse vir a tocar... e que ele manipulara sem o mais leve escrúpulo.
E eu permitira! Isso é que era o mais chocante de tudo. Eu ficara deitado lá e deixara que ele o fizesse.
E havia gostado daquilo!
Mon dieu, o que estava acontecendo comigo? Eu não costumava me relacionar com homens e Milo Scorpion era definitivamente um homem. Um ator egoísta e petulante regido pelo próprio temperamento. Um sujeito irritante e leviano incapaz de se comprometer. Eu não deveria 'gostar' de ser tocado por um cara assim. E tocado daquele jeito ainda por cima.
E apesar disso...
Apesar disso, ele havia sido bem gentil naquela hora, me onvindo falar sobre o acidente do Hyoga. E pareceu que ficara realmente preocupado. Não como se estivesse sendo apenas educado, sabe, mas como se realmente estivesse gostando e genuinamente interessado. Interessado em mim.
Mas como ele era um ator, era bem capaz que o interesse também fosse de mentira.
Caso contrário eu não teria como explicar aquelas palavras, teria? 'Não estamos?' É claro que não era verdade. Ele estava só encenando tudo aquilo. Afinal, essa era a especialidade dele, não era? Quer dizer, ele era um ator, era isso que ele fazia, ele finjia.
Então por que meu coração ainda insistia em bater tão rápido daquele jeito?
– Camus... – o Dite chamou minha atenção, preocupado — aconteceu alguma coisa?
– Nada de mais, – eu respondi levando uma mão às têmporas que latejavam – eu só preciso de um bom analgésico.
– Você vai precisar de muito mais do que um analgésico antes que a noite termine – ele resmungou, enquanto eu passava por ele indo direção a escadaria que levava aos quartos.
No corredor superior, eu passei pelo quarto do Hyoga. A porta estava fechada, sinal de que o Shun estava ali dentro com ele. A voz do garoto que eu ouvi vinda de trás dela confirmou minha teoria.
– Eu não gosto disso, Hyoga – ele estava dizendo quando eu passei -, você deveria contar logo a verdade pro seu irmão.
Eu sorri. Se a verdade a que ele se referia dizia respeito a real natureza do relacionamento deles, eu sinceramente achava desnecessária uma comunicação oficial.
De qualquer forma, talvez em outra ocasião eu abordasse o assunto com ele. Mas não hoje. Hoje tudo que eu precisava era de um análgesico e uma boa noite de sono. Tá, esqueçam a 'boa noite de sono'. Apenas um analgésico e um sono sem sonhos já seria suficiente.
Foi só quando eu abri a porta do meu próprio quarto, no entanto, que eu descobri o que realmente o Dite quisera dizer com aquele negócio de 'a casa estar mais lotada do que a Macy's em época de liquidação de natal'. Porque, estendida no meio da cama da minha cama de dossel, com um lençol que mal cobria sua pele branca como leite até os ombros, estava ninguém mais, ninguém menos do que Saori Kido. Minha noiva.
Ela me olhou com um ar recatado e disse:
– Bem, já era hora de você voltar pra casa.
Realmente, ao mesmo tempo em que era uma boa coisa poder dispensar os criados na época das festas e ser recepcionado pelo seu melhor amigo em vez de um mordomo qualquer, às vezes, isso também era bastante problemático, sabe. Quer dizer, um mordomo profissional teria mencionado assim que eu cheguei, que a minha noiva pedira pra entrar e que estava naquele momento no meu quarto, nua como veio ao mundo. O Dite, no entanto, com seu jeito todo peculiar de dizer as coisas, tinha transmitido a informação em termos tão coloridos que eu não tinha sido capaz de entender suas implicações.
Eu devia estar muito sobrecarregado mesmo, para não entender a implicação do que ela fez em seguida, que foi lançar para o lado o lençol revelando que ela estava realmente nua como eu suspeitava.
– Vem para a cama? – ela perguntou, com um sorriso malicioso.
Ela era realmente bonita, tinha-se de admitir. Com os longos cabelos escuros e os imensos olhos amendoados na face delicada, ela era exatamente a jóia de estilo que todos afirmavam que ela era. Tendo ocasião de observá-la na maioria das situações e ambientes ao longo desses seis meses de relacionamento, eu podia testemunhar com segurança a veracidade desse fato. De pernas longas e esbeltas, bem distribuidas nas partes certas, a exótica beleza oriental da Saori não passava despercebida. Seu apurado gosto em matéria de moda, que sempre destacava seus atributos, era comentado aonde quer que ela fosse e seu nome raramente ficava de fora de qualquer lista de convidados. Em suma, em todos os quesitos que importavam – pelo menos na opinião do Belle Mondé -, eu deveria me sentir gratificado por encontra-la estendida em minha cama em nudez extrema.
No entanto, eu só conseguia me sentir irritado.
Ela era bonita, é verdade, mas ela era divertida? Ela era engraçada? Ela tinha pelo menos um pouco de senso de humor? Não, nenhum.
Eu não podia culpá-la por não gostar do Afrodite, é claro, ou por não rir junto com todos das piadas que ele constantemente fazia sobre ela, mas ela parecia se incomodar demais com aquilo, quase como se fosse uma afronta pessoal a ela.
Temperamental? Bem, se ela não recebesse a atenção que achava que merecia, ela simplesmente fechava a cara. E ficava muito, muito séria.
Mas ela era realmente bonita, não tinha como negar. E ela havia escolhido a mim... o 'Cenourinha', o 'Quatro Olhos' ... Está certo que esses apelidos haviam sido totalmente esquecidos desde que eu entrara pra faculdade, mas mesmo assim. Quer dizer, eu havia sido o escolhido, e não o capitão do time de basquete, ou algum outro cara popular qualquer. Minha conquista fora quase como um golpe de Estado, e todos os nerds esquisitos do país vibraram com a minha vitória.
Mas isso parecia haver chegado ao fim. Finalmente os capitães dos times de basquete haviam vencido. Afinal, Milo Scorpion não era diferente deles. Só que na versão grega.
Não, não era verdade, Milo Scorpion nunca poderia ser comparado à eles. Ele não era apenas popular e jamais poderia ser considerado simplesmente bonitinho. Ele tinha uma beleza única. Com seu olhar azulado, os cachos louros e o sorriso perfeito, ele era um deleite para todos os seres humanos sexuados da face da Terra. Mais do que isso. Ele tinha uma espécie de brilho. Era algo que vinha de dentro. Ele brilhava de uma forma que eu, sempre sentado na frente de um computador por horas a fio, sabia que nunca iria brilhar – nem por dentro, nem por fora.
Só que não era com ele que eu ia me casar em pouco mais de dois meses, e, obviamente, não fora ele que salvara a vida do Hyoga.
A pessoa que fizera todas essas coisas estava ali agora, à minha frente, me encarando toda coquete enquanto fazia pequenos círculos com o dedo no lençol de linho sobre o qual estava deitada.
Eu suspirei profundamente tentando manter a calma.
– O que você está fazendo aqui? – eu perguntei.
– O que parece que eu estou fazendo aqui? — ela retrucou em voz macia, piscando os olhos. Seus cílios escuros chegavam a tocar o alto das maças do rosto
Outra forte onde de irritação me invadiu. Qual era a utilidade de se ter uma fechadura na porta da frente da sua casa, se qualquer um que quisesse poderia entrar sem pedir licença e se sentir em casa?
– Quando você voltou? – Eu quis saber.
– Hoje. – ela sorriu – Eu quis te fazer uma supresa. Não gostou?
– Você sabe que eu não gosto de surpresas, Saori, você deveria ter me avisado... – eu não tive tempo de continuar. Em um minuto ela tinha se levantado e se aproximado de mim, levando ambas as mãos aos meus braços.
– Me beije, Camus. – ela pediu, erguendo o rosto e fechando os olhos.
Eu respirei fundo mais uma vez e inclinei a cabeça, depositando um rápido beijo em sua testa. Eu tinha que agir com uma paciência tão forçada, que estava supreso pelo fato dela não ter notado
– Não – ela protestou –me beije direito.
Eu não tinha nenhuma vontade de beijá-la, mesmo assim enlacei sua cintura e inclinei-me novamente, pressionando meus lábios contra os dela.
Eu não havia mentido quando dissera que tirava ótimas notas no colégio. Eu me lembrava com perfeita clareza como Milo havia me beijado. Assim, comecei a distribuir pequenos beijos pelos lábios dela. Mas, diferente do que acontecia quando Milo Scorpion me beijava, meus lábios não se entreabriram automaticamente em contato com os dela, e minha língua e não buscou desesperadamente pela dela. Eu não senti como se minhas pernas fossem incapazes de sustentar o meu corpo, ou como se meu cérebro fosse voar pelos ares em erupção vulcânica. A verdade é que eu não senti nada. Nada além de um simples e morno encontro de lábios.
Mas, bom, o que eu estava imaginando? Que eu poderia de algum modo sentir o que costumava sentir antes de ter descoberto que se passara entre ela e Milo Scorpion? Quando ele ainda não me mostrara o que era um beijo bem dado?
Não. Estava acabado. Agora não havia mais esperança. Estima e amizade, isso era tudo. Bem, não havia nada de errado com estima e amizade, havia?
Eu levei ambas as mãos aos ombros dela e a afastei, gentil, mas firmemente.
– Vista-se, eu vou te levar pra casa. – eu estava sendo grosseiro, eu sabia, mas não conseguia evitar. Era como se eu viesse sendo testado nessas últimas horas. Primeiro por Milo Scorpion, e agora pela minha própria noiva. Eu não sabia quanta pressão mais ainda era capaz de aguentar.
Em vez de fazer o que eu pedia, no entanto, ela deixou escapar uma risada aguda e sem graça, dizendo:
– Você não pode estar falando sério.
E então riu de novo. Em um som que, eu estava certo, saíra bem mais agudo do que ela pretendia.
– Meu deus! – ela exclamou — Espero que isso não seja uma amostra do que será a nossa vida de casado, você me mandando 'vestir' as roupas, em vez de tirar elas.
Ela estava tentando soar divertida, eu sabia, mas eu não estava com humor pra frivolidades.
– Vamos – eu falei, me abaixando para recolher sua calcinha, jogada no chão do quarto junto com o restante das suas roupas. – eu estou cansado. Foi um longo dia.
Aquilo foi um erro de cálculo. Normamente eu teria sido mais paciente. Eu poderia, em qualquer outra noite, convencê-la a vestir as roupas e sair do meu quarto, sem ferir os sentimentos de ninguém. Mas dessa vez eu realmente havia perdido a calma muito rapidamente. Eu simplesmente estava impaciente demais, mal-humorado demais, para agir cuidadosamente.
– Eu vou – ela disse tirando a calcinha da minha mão e olhando para ela com raiva. – Um dia longo, é? – ela continuou, enfiando-se nas calcinhas, por coincidência uma peça que eu havia comprado para ela em Paris, de seda negra, enfeitada com renda francesa. – E eu posso saber o quê ou quem te deixou tão exausto? Alias, onde exatamente você estava até essa hora?
E como eu não respondesse, ela continuou:
– Acho que você deveria saber, Camus – ela mantinha os olhos fixos em mim, enquanto lutava para entrar novamente no tubo preto justíssimo que estivera usando -, que eu pretendo entrar com uma ação, caso esteja pensando em cancelar o casamento. Danos Morais.
Eu levantei uma sobrancelha, surpreso.
– E o que te faz pensar – eu perguntei irônico — que eu pudesse querer fazer algo tão insensato como cancelar nosso casamento?
– Talvez – ela disse, jogando o cabelo para trás – porque há quase um mês você não me toca?
– Você esteve viajando, Saori. – eu respondi tentando ser racional.
– Estou te dizendo, – ela ignorou meu argumento e os olhos motiços se estreitaram. – Não vai ser fácil. Estou me referindo a tudo. Dos homens que rejeitei desde que fiquei com você. O desgaste emocional...
– Não se preocupe, chérrie – meu tom agora era sarcástico – Se acontecer isso, se eu cancelar o casamento, pode estar certa de que terei uma razão muito boa para tanto. Uma espécie de razão que se sustentaria muito bem em um tribunal.
– O que quer dizer? – Ela parou de se vestir e olhou para mim.
Eu a encarei em silêncio.
– Milo Scorpion. – eu falei por fim.
Eu realmente não sei por que eu disse isso. Talvez a dor de cabeça não estivesse me deixando raciocinar direito, talvez eu anciasse secretamente pelo prazer sádico de observar a reação dela ao nome, ou talvez eu só fosse incapaz de tirar completamente aquele grego maldito da cabeça.
– O-o quê? – ela gaguejou, trêmula, perdendo a cor e recuando um passo pra trás. Não havia mais nenhum calor em seu olhar agora. Seus olhos escuros de novo estavam rasos e sem vida.
– Você não queria saber o motivo do meu cansaço? – eu continuei impassível — Pois bem, já que é tão importante pra você saber, eu estava no escritório em uma reunião com Milo Scorpion.
– Milo Scorpion... o ator? – ela perguntou ainda pálida
– Bem, ele é o único que eu conheço. – eu me fiz de desentendido.
– Eu... eu não sabia que você o conhecia. – sua voz estava fraca.
– Eu o conheci recentemente. – eu expliquei em pretença indiferença — Nossa empresa resolveu patrocinar o novo filme dele.
– Hum... e em suas conversas com Milo Scorpion – ela continuou pensativamente, agora sem olhar pra mim, mas para o abajur sobre o criado mudo ao lado da cama -, ele mencionou algo sobre... sobre mim?
Espera, eu estava imaginando coisas ou ela estava querendo pescar informações? Tentando descobrir o quanto eu sabia sobre seu caso com Milo Scorpion? Bom deus, se ela soubesse. Se soubesse o quê exatamente nós estávamos fazendo naquele escritório... chegava a ser hilário se não fosse trágico.
– Milo Scopion? – foi o que eu respondi, no entanto, mantendo a voz suave. – Perguntar por você? Por quê?
– Oh – ela fez em forçada casualidade. – por nada, é só que nós já nos esbarramos em uma festa ou duas, você sabe, então eu estava apenas imaginando.
Ah, sim, eu podia apostar que estava, eu pensei, mas não disse nada. Em vez disso falei:
– Vamos, termine de pegar suas coisas pra que eu possa te levar pra casa.
Ela não protestou dessa vez. Simplesmente pegou seu casaco e a bolsa sobre a poltrona e saiu obedientemente. Nós falamos o mínimo possível até chegar ao carro e permanecemos em silêncio durante todo o resto do trajeto até a casa dela. Afinal, o que mais havia pra ser dito? Eu já me inteirara de tudo quanto era preciso saber.
Eu já sabia, por exemplo, que quando Milo me beijava, todos os meus sentidos se reavivam, como se alguém estivesse soltando foguetes dentro de mim, mas que quando minha noiva me beijara, à pouco, eu não conseguira sentir nada, absolutamente nada.
As calças. Eu não consegui deixar de pensar, enquanto dirigia de volta pra casa.
As calças 'não servem'.
Nota: No Brasil é possível entrar com ação por danos morais e até materiais em caso de rompimento de noivado sem justa causa, em data próxima ao casamento. A justa causa, obviamente retira a razão pra propositura da ação. Infidelidade é considerada uma causa justa pra rompimento de um compromisso de noivado. Eu não sei se o mesmo se aplica nos EUA, mas acredito que sim. De qualquer forma, embora a história se passe em NY, aqui nesse ch eu me baseei na legislação brasileira mesmo ^^".
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