Aprendendo a Dizer Eu te amo

1 Uma aliança, uma apresentação e uma paisagem


Notas iniciais
Nada para dizer. Leiam :3

Eu estava lá, de pé no altar de uma igreja, vendo minha irmã, Jullie, em um vestido branco desfilar pelo tapete vermelho e ser obrigado a usar terno e gel no cabelo. Eu odeio usar gel no cabelo. Meu cabelo fica muito melhor sem gel e despenteado. Se você pudesse me ver nesse momento, ia concordar.

Teve a cerimônia do casamento dela com o Fernando que, desde que eu entendo que a vida é vida, eu sabia que ia acontecer. Então, o padre perguntou para ela se ela aceitava Fernando como marido e ela pensou durante muito tempo. Mas foi muito tempo mesmo. Aí aconteceu alguma coisa e ele começou a falar que não aceitava as condições do padre e de que estava arrependido de fazer aquela promessa. E eles se beijaram, mesmo assim.

Então os dois entrelaçaram os dedos (eles amam fazer isso na minha frente, o que piora ainda mais a minha teoria de eu ser um forever allone, mas acho que é porque eles tinham acabado de se casar e tudo mais, então acho melhor eu ficar quieto) e saíram da igreja ao som de aplausos e com arroz caindo em cima deles. Nunca entendi o porquê do arroz; rosas são melhores, mesmo que eu não goste de rosas.

Foi aí que eu olhei para a frente. Tinha uma garota de vestido azul claro lá. Eu não a tinha percebido antes, acho que foi teletransportada. Ela ficou me olhando e eu fiquei olhando para ela. A garota parecia muito com o Fernando, com o cabelo preto e os olhos ainda mais escuros, além do nariz. Os narizes eram idênticos. O cabelo dela caía em ondas por cima do vestido e suas mãos estavam parcialmente cobertas por luvas prateadas. Uma tiara com pedras brilhantes reluzia no seu cabelo e sua maquiagem estava fraca. A garota ficou me olhando com aqueles olhos grandes e penetrantes, depois se virou e foi embora.

Fui atrás dela, com as mãos enfiadas no bolso do terno preto. Minha mãe me parou no meio do caminho e disse:

- Você foi um ótimo pajem, filho.

- Ahn, obrigado.

- Sua irmã deve ter ficado tão feliz.

- Pois é.

Ela sorriu para mim e foi comigo até o pátio da entrada, então se separou, indo em direção a um grupo de adultos. Não gosto de me meter no meio dos adultos.

A tal garota estava sentada em um banco de cimento, de frente para as grades da igreja. Seu rosto estava inclinado e seus olhos focavam a paisagem. Hesitei antes de caminhar em sua direção. Mas tudo o que eu precisava eram dos motivos certos para fazer aquilo, por exemplo, de que Fernando também hesitou antes de falar com a minha irmã e agora eles tinham acabado de se casar.

Sentei-me ao seu lado. Ela me olhou e depois voltou a olhar para frente. Fiz o mesmo.

Certa vez, Jullie tinha me levado para ver o pôr-do-sol com ela na praia quando eu tinha seis anos. Era praticamente a mesma coisa, só que não tinha o mar embaixo. Em seu lugar, haviam montes verdes que estavam alaranjados pela luz.

- É lindo, né? — a garota perguntou, sem desviar o olhar.

Concordei com a cabeça antes de me dar conta de que ela não estava me olhando.

- Sim – respondi.

- Quando eu for mais velha e tiver tempo, vou vir para cá apenas para observar isso de novo. A gente se perde.

Virei o rosto para vê-la.

- Já experimentou ver na praia?

- Meu irmão viu com a esposa dele. Na época, eles eram namorados.

- Minha irmã me levou para ver com ela, uma vez. Era bonito, mas não me lembro muito bem, eu era pequeno.

- E tem vontade de ver novamente?

- Sim, com certeza. Eu poderia ver todos os dias.

Quando ela se virou em minha direção e percebeu que eu a observava, senti meu rosto queimar. Concordou com a cabeça.

- Um dia, eu verei.

- E me leve com você.

Ela abriu um sorriso, e seu rosto ficou ainda mais bonito depois disso. Então, virou novamente para olhar para o sol.

- Olhe – e apontou.

Um grupo de corvos passaram em frente ao sol, mas não consegui olhar para eles por muito tempo. Meu foco era aquela menina.

- Qual o seu nome? — perguntou-me.

- Victor. E o seu?

- Marcelle.

- Você é irmã do Fernando, né?

- Tá tão na cara?

- Sim.

Amei ouvir o som da sua risada. Quando parou, ela me olhou com o rosto inclinado e me observou por um tempo. Sabe como é a sensação de uma garota bonita te observar por muito tempo, sem desviar o olhar? Então sabe como me senti.

- Irmão da Jullie?

- Você percebeu?

- Os mesmos olhos, mas o resto é bem diferente.

- Somos irmãos de mães diferentes, mas temos o mesmo pai.

- Ah, sim. Ela me fala muito de você. É verdade que seu sorvete caiu no chão e você começou a chorar?

Se eu já estava vermelho, fiquei ainda mais depois disso.

- E é verdade que você conseguiu um papel na peça da escola e caiu do palco, fazendo com que a água caísse na sua calça?

Ela abriu um sorriso, sem graça.

- Ele também falou de mim...

- Você acha?

- Mas eu tinha oito anos!

- Bem, eu tinha nove. Mas era fanático por sorvete.

- Fernando disse algo do tipo. Quase ficou sem falar com a sua irmã porque ela não quis te levar para tomar um pouco.

- Ela estava me trocando por ele! Você não faria algo do tipo?

- Então você é ciumento, hein?

- Olha, Marcelle...

- Marcy.

- Olha, Marcy, eu sou irmão dela há mais tempo do que eles se conhecem! Ao invés de levar o irmão para tomar sorvete, eles iriam para a praia! Você não teria raiva?

- Na verdade, tive sim. Fernando não foi em uma apresentação minha porque estava ocupado demais com ela...

Senti-me mal, de verdade, por ela. Afinal, Jullie simplesmente não tinha me levado para tomar sorvete. Fernando havia faltado a apresentação da irmã. Isso era pior.

- Pelo menos, ele foi na minha formatura.

- Que bom.

Ouvimos um grito, chamando-a.

- É o meu pai – ela falou – Eu preciso ir agora.

- Tchau. A gente se vê no salão.

- Sim, com certeza.

Ela se levantou do banco, deixando-me sozinho com aquela vista.

Pude ver a lua surgindo, mas não por muito tempo. Meu pai me chamou cinco minutos depois de Marcy ir embora e entrei no carro. Encostei a cabeça na janela, ansioso pelo momento em que voltaria a vê-la.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui. Espero que tenham gostado :3