Aprendendo a Dizer Adeus
1 Aprendendo a Dizer Adeus
Aprendendo a dizer adeus...
Capítulo único
— Venham por aqui, rápido! — corri na direção da pequena cabana às margens do campo de batalha, pedindo para que me seguissem.
Às minhas costas, dois ajudantes que acabavam de chegar à linha de frente, o carregavam conforme eu os havia orientado.
Ao passar pela porta de entrada os guiei até o leito improvisado mais próximo e pedi que o pusessem ali, o mais delicadamente possível, antes de correr afoita, de um lado a outro para juntar os instrumentos necessários a esse primeiro atendimento.
Sentindo meu corpo tremer, respirei fundo em busca de calma e pedi aos rapazes que nos deixassem sozinhos por algum tempo. Em seguida, aconselhei que retornassem a linha de frente, em busca de mais feridos que pudessem socorrer.
Acomodei-me a seu lado na pequena cama e o observei por um momento. Seu estado era deplorável. Seu corpo possuía inúmeros ferimentos, tantos que me tonteavam. Encarando seu semblante debilitado e sem cor, eu nem ao menos sabia por onde começar.
Tornei a respirar fundo dizendo a mim mesma que não era hora para aquilo. Estávamos em Guerra. Uma médica não podia se dar ao luxo de entrar em choque, ou mesmo hesitar.
Ainda tremendo, decidi que o mais certo seria tentar es-tancar a hemorragia e diminuir os danos internos. Não podia arriscar que ele sofresse uma parada cardíaca. Não quando estávamos tão longe do hospital.
Suas roupas encharcadas de sangue e poeira estavam rasgadas, revelando ferimentos profundos que pareciam competir para ver qual tiraria sua vida primeiro. Minha mente gritava que não havia tempo, que eu precisava agir rápido, mas meu coração hesitava, temendo que qualquer movimento pudesse ser o último.
Minhas mãos tremiam enquanto eu manipulava o chakra esverdeado que cintilava sobre minhas palmas. Era um brilho fraco, cada vez mais difícil de sustentar. A verdade era cruel, naquele estado e sozinha seria difícil, quase impossível para mim, mantê-lo comigo por muito mais tempo.
Meus olhos encheram-se de lágrimas não derramadas. A guerra havia drenado quase tudo de mim — força, energia, esperança e até mesmo fé de que conseguiríamos sobreviver a isso. Mas Sasuke... Sasuke sempre foi a exceção.
Frustrada, quis gritar com o moreno. Implorar para que não desistisse. Para que simplesmente acordasse tempo suficiente para que pudesse levá-lo a um lugar seguro, mesmo que fosse para me abandonar outra vez logo depois. Sasuke precisava me ajudar a salvá-lo!
Em dado momento, ao infundir chakra em um certo ponto de pressão, observei-o recobrar a consciência por alguns instantes. Seu rosto era uma perfeita máscara de dor. Contorcendo-se em meus braços e gemendo angustiadamente, sua mente não tardou a abandonar-me outra vez.
Chamei por seu nome na tentativa falha de que ele fizesse um esforço para se manter consciente, mas a dor que sentia era visivelmente demais para seu corpo cansado.
Vendo-o tão frágil, odiei-me mais uma vez por ser tão fraca, enquanto todos os sentimentos que prometi manter trancados, vinham à tona de uma única vez. Sasuke Uchiha, o homem que sempre fora a sombra de meus pensamentos, agora repousava à beira do abismo entre a vida e a morte.
A pequena cabana mal iluminada, que outrora fora um refúgio temporário, agora parecia um túmulo antecipado. Seus cantos eram preenchidos por sombras que dançavam ao ritmo da brisa que atravessava as frestas das paredes de madeira. O cheiro de sangue impregnava o ar.
Eu estava exausta. Meu chakra vacilava, e minhas mãos, tão hábeis em curar, pareciam impotentes diante do estrago que o tempo e a guerra haviam feito a nós dois. Meu corpo lutava contra o pânico de perdê-lo. Eu quase não conseguia respirar, mas não tinha escolha.
O moreno estava ali, na minha frente, estendido sobre um leito improvisado. Um espectro do homem que outrora fora.
— Sasuke-kun... Por favor... — minha voz saiu como um sussurro trêmulo. — Não me deixe...
Não houve resposta.
Nos primeiros instantes era como se o silêncio entre nós fosse mais ensurdecedor do que qualquer grito de dor que ele pudesse dar. A respiração do Uchiha era irregular, fraca, e, mesmo assim, a sombra de determinação que sempre o definiu ainda permanecia em seu semblante.
Pressionei minhas mãos contra o ferimento mais crítico em seu abdômen, obrigando meu chakra a fazer seu trabalho, mesmo contra o meu intenso desgaste.
Parecia em vão. O sangue do moreno não parava de escorrer, tingindo os lençóis e encharcando minhas roupas. Usei o máximo de chakra que pude, até meu corpo pender para o lado, sentindo cada gota de energia se esvair de mim.
Depois do que pareceu uma eternidade; de implorar a Kami e infundir o que ainda restava de meu chakra em um ponto crítico, o Uchiha finalmente abriu os olhos. Aqueles olhos. Um deles ainda exibia o sharingan, brilhando fracamente como uma chama prestes a se apagar.
— Sakura... — sua voz era um fio de som, rouca e carregada de dor, os olhos se fechando outra vez.
— Sasuke-kun, está me ouvindo? Consegue apertar minha mão? Fique comigo, ta bem!
Apoiei meu corpo cansado sobre o seu, desejando lhe dar um abraço. Toquei-lhe os lábios brevemente em um gesto desesperado.
Ele gemeu, a voz rouca e abafada pela dor.
— Estou aqui, Sasuke-kun. Estou aqui... — pressionei minha testa contra a dele, tentando ancorá-lo à vida. — Você vai ficar bem. Só... só confie em mim, está bem?
Sua cabeça virou levemente em minha direção. Por um momento, ele abriu os olhos outra vez — olhos que eu conhecia tão bem.
O moreno tentou erguer a mão, mas seu corpo não correspondeu a seus esforços. Em seu olhar de repente havia algo que me atingiu mais forte que qualquer golpe: resignação.
— Você está péssima. Não deveria... estar aqui — ele murmurou, os lábios rachados pelo esforço.
Revirei os olhos para conter as lágrimas que tentavam irromper por meu rosto e aproximei um pouco mais nossos corpos.
— Shiu, fique quieto, tá bem. Não se esforce. Não vou deixar você morrer aqui, Sasuke. Não depois de tudo.
O moreno fechou os olhos brevemente, como se estivesse reunindo forças para um último ato.
— Tsc, irritante! Sakura Haruno... você sempre foi tão teimosa. Mas isso... é o fim. Eu sinto. E aceito. Você precisa aceitar também.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Não fale assim, por favor. Eu vou curar você, eu prometo. Eu vou dar um jeito. Eu sempre dei um jeito, não é?
Um sorriso pequeno e quase imperceptível curvou os lábios dele.
— Você é forte. Mais do que pensa. Mas eu... minha jornada termina aqui, rosada.
— Não! — exclamei, lágrimas finalmente escorrendo livremente por meu rosto. — Não, não, não! Você prometeu! Prometeu que voltaria, que me deixaria ao menos lutar ao seu lado! Então, pare de falar como se estivesse desistindo! — gritei, a voz embargada pelas lágrimas que ameaçavam me engolir.
Ele respirou fundo, ou pelo menos tentou. A dor estava claramente consumindo-o, mas ele não desviava os olhos de mim.
— Eu nunca desisti, Sakura. Nem de você, nem do que eu acredito... Mas, às vezes... a batalha tem que terminar de algum jeito.
Balancei a cabeça, recusando-me a aceitar que o homem da minha vida estava me deixando mais uma vez.
— Eu voltei... para dizer que você sempre foi meu ponto de luz. Mesmo quando não mereci.
Minhas lágrimas caíam em sua mão, misturando-se ao sangue que eu não conseguira estancar.
— Não, Sasuke-kun. Você não vai terminar assim. Nós temos tanto para viver, tanto para reconstruir! Pense em Konoha, pense no que podemos fazer juntos! Na família que podemos construir. Por favor, fica comigo!
Ele fechou os olhos, como se estivesse absorvendo mi-nhas palavras. Quando os abriu novamente o sharingan o havia abandonado e havia algo novo ali — uma mistura de paz e pesar.
— Sakura, ouça... Você precisa entender... Você sempre foi meu porto seguro. Mesmo quando me perdi, você esteve lá, esperando. Eu não sei se merecia... mas você me deu mais do que eu jamais poderia retribuir. Obrigado!
Minhas lágrimas descontroladas tornaram-se soluços. Meu corpo balançava desolado. Em desespero, voltei minhas mãos para o corpo do moreno emitindo a luz verde como um último recurso ilusório.
— E é assim que você retribui? Hein? Morrendo? Isso é tão injusto, Sasuke-kun! Por favor, não diga adeus, Sasuke-kun. Não assim!
— A vida nunca foi justa para nós... Mas saiba que eu sempre guardei você aqui. — Ele tocou levemente o peito, bem onde o coração dele ainda batia, fraco e irregular.
O moreno fechou os olhos novamente, e um longo silêncio caiu entre nós. Pensei que o tivesse perdido, mas, de repente, ele falou, mais suave do que o vento.
Minha visão ficou turva, meu corpo ameaçou ceder. Minhas mãos ainda trabalhavam, mas meu chakra estava acabando. Não importava o quanto eu quisesse, não era suficiente. Eu não era suficiente.
— Você é forte, Sakura. — Ele interrompeu meus pensamentos como se os tivesse lido. — Mais forte do que eu jamais fui.
Ele tossiu, um som rouco que fez sangue escorrer pelo canto de sua boca. Com dificuldade, segurou minhas mãos, seus dedos entrelaçando-se aos meus.
Quis brigar com ele para que me deixasse voltar ao trabalho.
Minha mente gritava que não havia tempo, que eu precisava agir mais rápido, mas meu coração hesitava, temendo que qualquer movimento pudesse ser o último.
— Obrigado, Sakura... por me amar... mesmo quando eu era incapaz de retribuir.
— Pare de repetir essas coisas. Pare de falar como se fosse um adeus! — implorei, quase em desespero.
O cheiro do sangue de Sasuke misturado ao perfume das flores murchas que algum sobrevivente abandonara ali, de repente me tonteava. Eu quase não conseguia me manter de pé, mas não tinha escolha.
— Às vezes... dizer adeus... é tudo o que nos resta. Estou feliz por termos essa chance. Sakura, eu...
As mãos dele, antes tão firmes e cheias de poder, perderam a força nas minhas. Os olhos dele começaram a se fechar, e eu gritei seu nome, tentando trazê-lo de volta. Mas era tarde demais. Naquele instante, soube que estava sozinha.
— Por favor, Sasuke-kun... Por favor, não me deixe. Sasuke-kun! Volte para mim!
Curvei meu corpo sobre o seu em um abraço doloroso. Manchei seu rosto de lágrimas num pedido silencioso para que Kami não o tirasse de mim. Não adiantou.
O céu além das janelas se tingiu de um vermelho intenso, como se o próprio mundo estivesse de luto.
O silêncio na cabana tornou-se insuportável.
Fiquei ali, segurando-o em meus braços, enquanto o sol se punha.
— Eu também te amo... — sussurrei, sabendo que ele não podia mais ouvir.
Sasuke Uchiha, o homem que carregou o peso de tantas vidas, havia partido. E eu, que sempre fui forte para todos os outros, me vi quebrada.
A guerra havia levado tudo, mas levar Sasuke foi a maior de suas crueldades.
Ali, ao lado do homem que foi meu primeiro e último amor, compreendi o que significava verdadeiramente ser dilacerada de dentro para fora.
Naquele instante, aprendi que o amor não é apenas sobre encontros; é também sobre aprender a dizer adeus.
Fale com o autor