Aprendendo a Amar
20 Velha casa
Notas iniciais
—Você acredita que vamos conseguir alguma resposta amanhã?-Percy acariciou os cabelos loiros, já estavam prontos para dormir. — Sabe, sua avó ela é muito estranha, ela revelou tantas coisas para o detetive, não parece no mínimo duvidoso?
Ela soltou uma pequena risada anasalada.
—Faz muito tempo que parei de tentar entender minha avó... -ela revelou. — Ela parece ser várias pessoas ao mesmo tempo, num instante amável e prestativa no outro uma mulher asquerosa e manipuladora.
—Ela parecia conhecer meu avô, já me falou que eu parecia com ele, antes pareceu algo normal, mas agora parece mais com uma ofensa. -fechou os olhos com força. — Será que é demais querer respostas? Eu só preciso saber... É impossível que um assassinato não deixe nem um rastro.
—Nós vamos conseguir. — sorriu, apertando uma das mãos de Percy como uma forma de passar segurança. — Amanhã, nós dois vamos aquele lugar e vamos conseguir.
—Meu pai e minha mãe desejam ir conosco amanhã, e sua mãe falou comigo pela manhã, ela também deseja ir. No final, acho que todos querem as respostas. -compartilhou ansioso. -Isso é tão complicado.
—Percy... -começou.
—Eu sei... Ou pelo menos finjo entender, mas eu quero saber o que aconteceu, parece loucura, nunca conheci meu avô, sinto que tem algo muito maior por atrás de tudo isso. — riu nervoso.
—Eu entendo, não é loucura, eu sentiria a mesma coisa. E lutaria atrás das respostas e é exatamente isso que vamos fazer, vamos descobrir a verdade. Sobre tudo...
Percy sorriu apertando levemente as mãos de Annabeth. Era como se dissesse que acreditava, e ele realmente acreditava que sentir o calor dela entre seus braços era o que o mantinha lúcido em meio à confusão tempestiva que sua vida estava.
***
—Você tem certeza de que é este o lugar?- questionou Annabeth ao detetive, a construção a sua frente aparentava tanta fragilidade que por um instante a loira temeu até a mais leve brisa. — Parece destruído, não deve ter ninguém aqui.
Beckendorf a olhou por cima dos ombros, e respondeu:
—Mas se o Sr. Jackson esteve por aqui, deve ter deixado algo para trás, o lugar estar abandonado vai nos ajudar, se ele estiver assim há muito tempo pode significar que existem provas ainda intocadas lá dentro. — explicou calmo. — Creio que seria melhor se as damas ficassem aqui fora, pode não ser seguro.
As palavras mal terminaram de escapar por seus lábios e ele recebeu três olhares mortais lançados em sua direção, Atena, Sally e a própria Annabeth o encararam como se ele viesse de outro planeta.
Poseidon e Percy se encararam nervosamente, sabiam que não seria apropriado que as três entrassem naquele lugar, mas não conseguiriam segurá-las de qualquer forma. O mais novo encarou Annie de forma esclarecedora, e ela bufou impaciente, não estava acreditando.
—Você não pode estar falando serio!- Annabeth explodiu. — Você não está!
—Annie... Por favor, tente entender, é perigoso. -explicou. — Não posso perder você.
A última parte ele completou para que só a própria Annabeth pudesse ouvir, e mesmo emburrada, ela assentiu. Percy enfim pode respirar tranquilamente, com ela fora da casa, seria muito mais fácil se concentrar no que quer que ele encontrasse lá dentro, afinal se ela o acompanhasse estaria mais preocupado com o fato da estrutura daquele lugar não ser muito segura e seria fácil que o teto desabasse sobre suas cabeças.
E foi pensando nisso que os três homens desapareceram pela porta que foi aberta com um rangido no mínimo assustador.
—Filha... -Atena começou zombeteira. — Você vai conseguir ficar aqui parada?
—Não. — ela sorriu significativamente, sabia que Percy poderia ficar bravo com ela, mas não poderia ficar parada, observando os outros fazendo as coisas.
—Sally?-Atena questionou olhando para a amiga de longa data.
A morena levantou a saia do vestido, mostrando sapatos rudes demais para uma dama de sua posição.
—Vamos explorar. — balançou a cabeça confirmando sua presença. — Essas botas tem que ser bem confortáveis.
***
Annie sentia o cheiro de mofo lhe inundar as narinas, por alguns segundos se sentiu tonta, aquele lugar abafado parecia sugar todas as energias. Como se houvesse uma áurea forte que desejava sufocar tudo que entrasse naquele local, as vozes masculinas pareciam vir do andar de cima do bordel. Aquele ambiente antes deveria ser bem movimentado ao julgar pelos quadros quebrados e as paredes com marcas de unhas em alguns lugares do extenso corredor. Atena e Sally caminhavam calmamente atrás da loira, observavam com uma mistura de nojo e surpresa aquele lugar, sabiam que a maioria dos homens frequentavam lugares como esse uma vez na vida.
Tudo estava em um estado deteriorado, as paredes tinham traças e no chão era possível ver a trilha de pegadas evidenciadas pela poeira, mas ainda sim era nítido o tipo de gente que aquele lugar devia ter abrigado. Os palcos e as mesas deixavam tudo ainda mais claro, e um salão grande que se fosse possível voltar no tempo seria possível ouvir as risadas e as trocas de palavras de baixo nível, o cheiro do dinheiro trocado por algumas horas de prazer sem compromisso.
Annabeth fez algumas caretas enojadas ao entrar em um dos quartos do corredor, o lugar poeirento e mal iluminado abrigava em seu interior duas pequenas camas colocadas lado a lado, a cômoda de madeira gasta tinha as gavetas abertas e vazias como se a pessoa tivesse fugido tão rápido que não tivera nem tempo de fechá-las. Observou atentamente a única parte visível do quarto, já que outra permanecia oculta pela falta de luz, andou até o pequeno móvel, correndo os dedos sobre sua extensão. Sentiu falta de Sally e de sua mãe que antes andavam atrás dela, mas desconsiderou tudo isso, ao ver um pequeno livro escondido entre a cômoda e a parede, ao segurá-lo entre as mãos, sentiu uma corrente fria se alastrar por sua espinha.
Tinha alguém a observando.
***
—O que vocês estão fazendo aqui?-indagou Poseidon meio nervoso ao encontrar as duas mulheres caminhando tranquilamente pelo grande salão. — Deviam ter ficado lá fora.
—Você acha mesmo que íamos perder a diversão?- Atena indagou sarcástica. -Convivi com seu pai e por um instante quase fizemos parte da mesma família. Acho que tenho o direito de saber o que aconteceu com ele.
Poseidon estreitou os olhos, mas percebendo que Atena não desviaria o olhar, ocupou-se para que ele mesmo o fizesse, já que os olhos tempestivos o encaravam com uma mistura de orgulho e raiva que ele não seria capaz de suportar muito tempo. Olhou para a esposa que tinha nos olhos castanhos um brilho diferente, lembrou-se rapidamente da adolescência, dos acessos de rebeldia e das pedrinhas jogadas na janela do quarto da estrangeira.
—Onde está a Annabeth?-Percy questionou preocupado, aparecendo lado a lado ao detetive, ao ver a mãe e a sogra no andar de baixo não fora difícil deduzir que elas haviam desobedecido aos pedidos feitos com tanto empenho. — Ela por algum milagre ficou lá fora?
—Não, ela estava andando por o corredor do andar de cima, deve ter subido quando vocês já desciam por isso não se encontraram. — Sally apontou a direção. — Não me olhe dessa maneira, Percy! Eu ainda sou sua mãe, garoto!
O moreno já se preparava para subir quando ouviu um grito fino e estridente que fez seu coração parar por alguns segundos, seus pés se moveram sem seu consentimento, enquanto ele subia as escadas de onde tinha vindo o barulho, a cada degrau que subia sentia o coração doer fortemente. Era ela...
O grito tinha sido de Annabeth, e isso foi razão suficiente para que Percy sentisse seu mundo desabar.
***
O coração da loira estava apertado, por mais que já tivesse observado mais de uma vez o lugar a sua volta, aquela presença parecia nunca sumir. Focou o olhar no pequeno exemplar em suas mãos trêmulas, a capa de couro gasta não lhe permitia ver nenhum titulo. Parecia um livro bem antigo. Abriu a capa com extremo cuidado como se temesse que o livro de desintegrasse em suas mãos, o que era realmente capaz de acontecer, já que as páginas apresentavam uma fragilidade enorme. Observou a assinatura na primeira página, foi feita com tinta, as letras eram desajeitadas e mal feitas como as primeiras tentativas de uma criança de escrever, mas o que realmente o que a surpreendeu não era como estava escrito, e sim o quê, porque era visível a quem esse livro pertencia.
—Este livro pertence à Hera Dare. -Annabeth sussurrou para si mesma, surpresa demais para falar em bom tom.
Ouviu uma risada macabra que a fez soltar o livro pelo tamanho susto, de repente o ambiente se iluminou, alguém havia puxado as cortinas no final do quarto, a única parte que a loira não podia ver. Annabeth encarou atônita a mulher sentada de forma elegante em uma das cadeiras que ocupavam o lado outrora obscuro, ela abotoava as luvas de cetim, e olhava para Annabeth de uma forma descontraída.
—O que faz aqui? -a loira indagou gaguejando diversas vezes até conseguir formular uma frase.
—O que eu faço aqui?-perguntou alisando o tecido do deslumbrante vestido negro e andou até Annabeth ficando a praticamente um palmo de distancia da garota. — O que eu faço aqui? A pergunta certa seria o que você faz aqui?
—O que você faz aqui?-repetiu a pergunta temerosa recuando até a parede, não tinha mais volta, a mulher segurava uma pequena adaga em uma das mãos, e ela manobrava a arma com extrema destreza.
—Essa é a minha casa. -balançou os braços de forma teatral. -É uma beleza não é?
Não respondeu, sentia um tremor em seus músculos, desejou ter ficado lá fora, mais que isso desejou que estivesse com Percy, discutindo algo bobo na biblioteca.
—Foi você? Foi você... — Annabeth questionava desnorteada. — Todo esse tempo, em todas as coisas... Era você, vovó?
Hera sorriu de forma sádica, finalmente o dia havia chegado, encarou a lâmina afiada em suas mãos.
—Sempre. -sorriu lançando a adaga em direção a Annabeth.
Ela não soube o que fazer, ouviu um grito estridente, que veio a perceber tarde demais que era seu.
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