Aprendendo a Amar
13 Recomeço
Notas iniciais
—Ela não vai descer novamente?-perguntou Percy abatido, tinha olheiras sombreando seus olhos, não conseguia dormir a algum tempo.
Katie sentiu as bochechas esquentarem, era realmente uma situação constrangedora, já fazia cerca de uma semana desde que seus patrões haviam brigado e a geniosa Annabeth se trancafiara no quarto.
—Perdão senhor, mas ela se sente indisposta. -repetiu as frases que a loira a orientara mais cedo. Sentiu o coração se compadecer com a aura de frieza que se instalara sobre seus patrões.
—Ela vem se alimentando corretamente?- se preocupou.
—Senhor eu... A senhora Annabeth, ela anda muito abatida e quase não se alimenta. Desculpe dizer senhor, mas ela se recusa a vê-lo.
Percy riu seco, por mais que já soubesse, havia errado e agora pagava o preço.
—Você só esta dizendo verdade. -concluiu Percy.
—O senhor precisa de algo ou posso me retirar?-perguntou educadamente.
—Esta tudo bem Katie, pode tirar o resto do dia de folga.
—Obrigada senhor, mas a senhora precisa de mim, ela pediu para que eu ficasse. — contrapôs um pouco angustiada.
—Tudo bem! Só cuida...
—Eu cuidarei bem dela senhor. -informou prestativa.
***
Já fazia mais de vinte minutos e ainda não conseguira ler nenhuma linha de um de seus livros prediletos. Sentia uma queimação nos olhos e na garganta mais se recusava a derramar as lágrimas que tanto queriam fluir por seu rosto. Elas desejavam escorrer por suas faces até que sua alma estivesse limpa, largou o livro sobre o criado mudo, não conseguindo ler mais nada, pois as lágrimas embaçaram sua visão. Não iria chorar nem fraquejar, ela era a mulher traída, era a vitima da sua infame história de amor, mas acima de tudo ela era dona da sua vida. O marido a traíra? Uma pena, mas não era motivo para ver sua vida parar. Decidiu nesse momento encarar sua realidade.
***
—Annabeth a senhora deseja que eu sirva seu almoço aqui no quarto?-perguntou apenas por obrigação, pois sabia que a patroa negaria.
—Não Katie. Hoje eu vou almoçar a mesa. — respondeu confiante. — Como estou?
Apontou para sua roupa como uma forma de reforçar a pergunta já feita, usava um vestido esverdeado que acentuava suas curvas e tinha os cabelos loiros soltos fazendo com que os fios de ouro se enroscassem nos seus ombros pálidos.
—Belíssima, mas se me permite, por que vai tão arrumada para o almoço?- perguntou constrangida, até por que pelo que sabia ela não estava falando com Percy.
—É parte do segredo querida Katie, não posso deixar as pessoas me verem do jeito que estava, quando você se sente bem com sua aparência, fica mais fácil encarar as pessoas.
—Vai encarar o senhor?-perguntou absorvendo aquelas palavras e prometendo se tornar uma mulher como Annabeth.
—É necessário, o que aconteceu não posso perdoar, minha confiança uma vez perdida pode demorar muito tempo para ser conquistada.
— Sim senhora, está muito bonita.
Annabeth deu um sorriso meigo como resposta, Katie era somente alguns anos mais nova do que a própria, porém ela era inocente, ela ainda tinha no olhar o brilho de menina espoleta, tinha um sorriso marcado de esperança e talvez fosse por isso que Annabeth gostasse tanto dela. Ela era parecida demais consigo mesmo para que pudesse ignorar, sentia a ferocidade contida no olhar da jovem, uma ferocidade que ela tentava domar.
— Antes de descermos gostaria de perguntar como foi o encontro com o advogado?-perguntou Annabeth, tendo parcialmente a noção de que tentava adiar o momento do encontro com seu marido o quanto fosse possível.
Katie sentiu as bochechas esquentarem, Annabeth tinha o dom de constrangê-la, tossiu algumas vezes tentando ser firme na hora de falar.
—Ele foi muito gentil patroa, me trouxe rosas vermelhas!- exclamou um tanto sonhadora.
—Você sabe o que isso significa?-perguntou.
—Sim senhora, eu sei, ele tem interesse em mim. -respondeu constrangida.
—E você claramente tem interesse nele, a pergunta realmente é: Até que ponto você quer levar adiante?
-Eu, eu, eu... — a garota parecia confusa.
—Não precisa responder agora, mas saiba que em qualquer decisão que você tomar eu vou estar com você.
Katie sorriu por entre as lagrimas, nunca tivera alguém que a cuidasse dessa forma. Deu um caloroso abraço na loira que retribuiu com carinho. A mais nova sussurrou no ouvido da patroa, palavras simples, mas de um grande significado. Essas palavras encheram Annabeth da coragem anterior
—Vai dar tudo certo, eu também vou estar aqui. — Katie sussurrou, não por que sentia obrigação de dizer, muito menos sentia pena, fez isso por que foi o desejo do seu coração.
—Obrigada. -agradeceu se soltando do abraço e enchendo os pulmões de ar, pedindo aos céus que a enchessem de coragem.
***
Percy brincava com a comida entediado, sentia falta de Annabeth, das conversas, dos beijos, das briguinhas sem motivo aparente, mas principalmente tinha falta dela, do jeito meigo e durão ao mesmo tempo. Ouviu o ranger da cadeira e olhou rapidamente, mal podendo absorver a imagem, parecia uma grande ilusão de sua mente esperançosa. Provavelmente estava com cara de idiota, possivelmente seu coração batia tão forte que ela escutava os gritos de sua cadeira.
Annabeth, Annabeth, Annabeth. — ele chamava freneticamente.
—Annie eu... — perdeu a voz e muito provavelmente a razão, os olhos dela estavam opacos e gelados, pareciam uma grande tempestade que destrói o litoral em poucos segundos. Grande, feroz e silenciosa, rugindo através das nuvens o seu potente som e encobrindo o furor que despejaria sem dó.
Ela sentiu o coração martelar furiosamente, um misto de raiva, revolta e saudade.
—O que é?-perguntou ríspida.
—Eu queria pedir perdão. — revelou sem se abater pela hostilidade que lhe havia sido conferida.
—Voltamos ao princípio? Você quer realmente que eu repita, pois bem, eu não quero parecer uma criança mimada Percy. Mas, acho que é inevitável que você me veja assim, você me traiu. Desde o seu primeiro ano em Londres pelo que pude entender você poderia estar casado com ela hoje, e eu poderia estar vivendo minha vida. Ou até mesmo você podia ter me contado no inicio do nosso casamento, eu ficaria com raiva, mas entenderia que seu coração pertence à outra, não deixaria que meu tolo e ingênuo coração jamais se interessasse pelo seu — falou em um só fôlego.
—Mas meu coração não pertence a ela, ele é única e inteiramente seu. — rebateu.
—Você pode entender muito bem Percy que te perdoar não é tão fácil assim, eu me sinto largada, você era meu noivo e jamais sequer passou pela minha cabeça a ideia de traição e agora saber que eu passei anos sendo enganada, você já parou para pensar em como eu me sinto?- perguntou exausta, sentia o coração se contorcer dentro do peito, ele parecia querer dormir e desejar que quando acordasse tudo não passasse de um terrível pesadelo.
—Eu entendo. — respondeu igualmente cansado.
—Então consegue compreender o fato de que eu não consigo esquecer essa traição, consegue estender de que quando olho para você só consigo ver aquela mulher, só posso ver o futuro que teriam juntos. Sinto-me uma intrusa na minha própria historia. -sussurrou exaurida.
Ela não conseguia gritar como a mente mandava e nem chorar como o coração implorava, naquele momento se sentiu vazia, um quadro em branco que fora largado sem pintura.
—Annabeth...
—Está tudo bem. — ela afirmou.
—O seu coração está dizendo que não, ele chama por mim, assim como o meu chama por você. — contrapôs esperançoso.
Annabeth se viu rindo, um sorriso sem vida, e inanimado. Mas aquele sorriso marcaria seu novo recomeço, uma historia somente dela.
—Meu coração chama por você, mas minha mente pede distância, dessa vez eu prefiro ouvi-la, ela faz com que eu me machuque menos. — informou.
—Nós podemos dar a volta por cima, podemos contornar essa situação, foi um erro, mas eu prometo consertar.
—Percy eu quero o divórcio. — ela pediu, não por que desejava, mas por que precisava.
***
Thalia sentia o filho chutar sua barriga, era uma sensação completamente nova e fazia com que ela perdesse o fôlego por alguns segundos, estava completando quase cinco meses completos de gestação.
—Thalia?- ela ouviu a mulher com sotaque italiano a chamar.
—Senhora?- ela respondeu um pouco emocionada.
—Esta tudo bem mia figlia. —perguntou com o rosto mergulhado em preocupação. — O bambino?
—Está tudo bem, é só que ele acaba de chutar, eu nunca senti isso antes, é de alguma forma uma coisa mágica. -informou tranquilizando a mãe de Nico e fazendo com que um sorriso surgisse no rosto da mulher.
Maria di Angelo nasceu e foi criada na Itália, descendente de uma família pura e com uma riqueza transpassada de geração a geração, casou com um americano no auge da sua juventude, por isso conseguia entender a língua, mas aquele forte sotaque não desaparecera por completo, assim como a alma alegre e feliz que não desaparecia com o passar dos anos.
—Lembro quando estava grávida de Nico!- ela parecia nostálgica ao relembrar os velhos tempos. — Ele não parava de chutar um só instante, não me deixava dormir e quando nasceu era tão grudado em mim que eu mal conseguia respirar.
—Ele não parece tão manhoso agora. — lembrou-se do jeito sério do marido.
—Acredite figlia, o menino não desgrudava de mim por um segundo sequer. Hades até ficava com ciúmes! — ela exclamou com um grande sorriso.
Hades era uma figura, de longe parecia um senhor serio e hostil, mas isso quando você não o conhecia bem, ele era calmo e silencioso, mas ainda assim tinha uma personalidade cativante e sarcástica. Além de que muito carinhoso com o neto que ainda nem nascera.
—Acredito na senhora, mas como o Nico se tornou essa pessoa tão ranzinza?-perguntou em tom de brincadeira, tendo total noção do marido parado na soleira da porta.
—Aquele menino ele é um grande paspalho que nem o pai dele! Duro por fora mais é todo derretido por dentro!
Nico se aproximou abraçando a mãe por trás e a pegando de surpresa, ela deu um pequeno grito e se pôs a bater levemente nos braços do filho.
—O que é isso mamãe? Mal posso sair e as duas já armam um complô contra mim. Sinto-me traído, as duas mulheres da minha vida falando mal da minha pessoa tão boa e prestativa?
—Mas como você faz drama Nico. -Thalia revirou os olhos em sinal de descaso. — Sua mãe apenas me contava do garotinho fofo que você era?
Nico se virou para a mais velha, e arqueando a sobrancelha perguntou:
—Eu era mamãe? Eu continuo com minha fofura habitual!
—Coitadinho do mio figlio!- exclamou exageradamente. — O que posso fazer para reparar-me?
—E eu não sei se vou poder te perdoar algum dia mamãe foi um golpe duro demais para mim!- fez drama.
—Posso te recompensar com a sua comida favorita, mas acho que é muito pouco...
—Não mamãe! Eu te perdoou, para que perceba que sou um bom filho, agora me dê aquela Lasanha!
—Não sei se é o suficiente!- rebateu fingindo desistência.
— Mamãe não seja tão modesta!Já te perdoei. — ele forçou um sorriso exagerado.
—Então tudo bem! Lasagna para todos!
Thalia observava tudo com um sorriso discreto, agora acreditava plenamente nas palavras da mulher.
Nico realmente era um filhinho da mamãe.
***
Hera andava de um lado para outro da pequena sala, tinha uma expressão de nojo e descontentamento.
—Titia está tudo andando como os conformes!-exclamou divertida enquanto alisava o novo vestido! Ele era um vestido para mulheres de alta classe, não um vestido para uma dançarina de um bar qualquer.
—Já disse para não me chamar assim Rachel!- ralhou Hera.
—Mas você é minha titia!- disse Rachel sarcástica. — Você é irmã da minha mãe se você não se lembra.
—Prefiro não me lembrar de coisa desagradáveis. — rebateu superior.
—Te dói muito não é titia saber que você é pobre e filha de uma simples dançarina de boate! Você nunca vai ser uma mulher da alta sociedade, continua com esse cheiro de pobreza, talvez tenha sido por isso que seu primeiro marido te largou... — gritou venenosa.
Ela foi calada com um tapa, para logo depois rir de forma estridente.
— Olha só como você me ama me deu até esse vestido, deve ter custado caro!- exclamou ainda sorridente, não se abalando com o tapa desferido instantes atrás.
—Você sabe muito bem por que está usando esse vestido, não se faça de sonsa! É só um pagamento.
—Ahhhh é mesmo, o misterioso plano da tia Hera!-exclamou fingindo assombro. — Você bem que podia planejar as coisas de um jeito que fizesse mais sentido, se você quer tanto os pirralhos juntos, por que me mandar logo agora?
—Esse plano é complexo demais para uma mente tão pequena quanto a sua!
—Bem que você podia me usar para ficar com o garoto! Ele é caidinho por mim!- exclamou se jogando de encontro ao sofá vermelho do pequeno apartamento.
Hera a olhou de forma reprovadora, em seguida se sentando no espaço livre deixado pela ruiva.
—Você é cega igual à Juno, minha irmã era tão burra igual a você. É por isso que você não consegue entender o meu plano, não consegue perceber quando o coração das pessoas muda, o garoto não ama mais você.
—Eu posso conquistá-lo novamente! Já fiz isso antes.
—Eu nunca usaria você Rachel!
—Por que titia?-questionou desafiadora, levantando o queixo em um sinal de revolta.
Hera segurou em um dos cachos ruivos da mulher e aspirou o cheiro.
—Você também fede a pobreza, minha cara sobrinha. — finalizou largando brutalmente a mecha de cabelo e no processo arrancando alguns fios.
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