Aprendendo a Amar

37 Sentimentos profundos. Espaços que guardam segredos.


Notas iniciais
Oi, queridos! Muito obrigada, mais uma vez, por me acompanharem ♥ Fico encantada com cada comentário. Adoro vocês. São luzinhas na minha vida! Espero que gostem de mais este capítulo. beijosss Agridoce

— Lucas Mattos, o doutor Félix já está te aguardando.

Luke estava sentado ao lado de Rodrigo fazia uns 10min. quando ouviu seu nome ser chamado. Até chegar o dia da consulta foram noites de ansiedade. Mas se sentia um pouco mais confiante, pois, precisava tentar. Principalmente pelo namorado, que como tinha combinado, estava ao seu lado, passando toda a confiança que conseguia.

— Está tudo bem, amor? Se não estiver a gente pode remarcar, não tem problema. Lembra que tu precisa fazer apenas o que tu estiveres à vontade de fazer.

Lucas apertou ainda mais a mão de Rodrigo, que não soltou desde que chegaram no consultório.

— Eu sei, mas eu preciso fazer isso. Ainda mais porque eu sei que quando eu passar por aquela porta terei você aqui, me esperando. Diferente das outras vezes. – E como se tivesse passado algo em sua cabeça, sua expressão mudou – Você vai ficar aqui me aguardando, não é?

Rodrigo fez um carinho nos cabelos de Luke, abrindo ainda mais seu sorriso.

— Claro que sim, eu não prometi? Até trouxe uns xerox que certo professor vai cobrar na prova de Teoria da Imagem. Quem criou a semiótica mesmo? Signos, índice, ícones... que coisinha mais complicada! Vai ser ótimo estudar enquanto tu estás lá dentro. Depois podes me dar uma aula particular caso reste dúvidas...

Luke não deixou de sorrir ao ouvir o namorado e perceber que ele falou aquelas coisas apenas para descontrai-lo antes de entrar no consultório, já que estava muito bem nas duas cadeiras que ele lecionava. E nas outras também, aliás, por ser bastante aplicado.

Com um último beijo, após ouvir um “eu te amo” de Rodrigo que o deixou, como sempre, reluzente, o moreno levantou e acompanhou a secretária até a sala.

Ao entrar, Lucas percebeu que, diferente do que imaginou a principio, Félix era um homem de meia idade, e não um senhor, como seu antigo médico. Isto o fez ficar um pouco nervoso, já que sentia um pouco de vergonha de falar sobre si, ainda mais com alguém que não era tão mais velho.

— Oi, Lucas, muito prazer.

Lucas não era de falar muito, e se sentia intimidado em consultórios. Por isso, apenas concordou com a cabeça, oferecendo a mão para um aperto. Era sempre complicado estes primeiros momentos.

— Quer alguma água, um café. Fique à vontade.

— Não, tudo bem... eu estou bem.

Félix analisava aquele jovem pensando no quanto há no mundo pessoas que buscam este tipo de ajuda hoje em dia. Lucas parecia ser um homem sem medo algum, mas com seu olhar apurado, e as informações que o colega passou, sabia que não era verdade. E já sentia vontade de ajudar.

— Mas então, o que te levou a me procurar? O César me disse que já faz um bastante tempo que não te consultavas com ele.

Lucas respirou fundo, pensando em como e o que começar a falar. Mas ainda sentindo a sensação de Rodrigo em si, resolveu responder antes que a pouca coragem se esvaísse.

— Sim, é que eu mudei pra cá faz alguns meses já. Por causa de uma vaga de emprego, acabei vindo rápido e não consegui avisar ele de fato. Na verdade, acho que mesmo que eu tivesse tido tempo, não teria avisado... eu sempre fugi das consultas, apesar do César ser um ótimo profissional. As consultas sempre foram bastante esporádicas, eu não conseguia manter uma continuidade, apesar dele sempre ter se mostrado bastante disposto em me ajudar. – Lucas após falar até se surpreendeu com a clareza que conseguiu demonstrar.

Félix não deixou de abrir um pequeno sorriso. Era comum algum paciente desistir ou ficar um tempo sem dar notícias.

— Mas vocês tiveram um bom número de sessões, não é? – Félix questionou e percebeu que Lucas o olhou inquisidor. Percebeu que ele tinha um olhar bastante apurado, até mesmo por sua profissão que tinha visto em sua ficha, o jovem era jornalista. – Não se preocupa Lucas. O César apenas me passou informações que me permitissem seguir adiante o tratamento. E que sabes, são confidenciais. O resto eu espero que você me diga quando se sentir à vontade.

— Tudo bem... desculpa. É que é estranho passar por isso novamente. Eu tenho tentado fazer com que o tratamento dê certo nos últimos anos, mas parece que a cada sessão eu saía pior do que tinha entrado. Sempre ouve uma inconstância. Eu me obrigava a ir porque sentia que precisava colocar pra fora certas coisas e pensei que pagando alguém pra me ouvir era o mais indicado. Mas acho que eu estava enganado. Ao menos antes.

— Sim, eu entendo. Mas e agora, como tu te sentes em relação a isso tudo? – Félix estava realmente surpreso com a facilidade que Lucas falava, pois, César o alertou em relação ao tamanho dos traumas que ele tinha, que o faziam ser bastante fechado. O amigo ficaria feliz em saber desse avanço.

Lucas ficou um tempo pensando, já que não sabia responder de fato como se sentia atualmente. E isto o fez girar a aliança em seu dedo, mania que adquiriu desde que Rodrigo lhe deu. Era como se sentisse que ele estava ali consigo quando fazia isso.

— Talvez agora eu tenha um motivo pra querer ficar e entender tudo que se passa comigo. Eu sinto que tenho um lugar pra voltar. E pra ficar.

Félix concordou com a cabeça, fazendo alguma anotação.

—Tu conseguirias ser um pouco mais específico? Eu acho ótimo isso que tu acabaste de dizer, mas conseguirias me explicar com mais detalhes que lugar é esse que tu encontrou?

Lucas se recostou mais na cadeira confortável, pensando em quais palavras usar, já que seus sentimentos por Rodrigo eram tão seus... não sabia se conseguiria falar com outra pessoa. Ainda mais com alguém que estava avaliando suas palavras. Essa dificuldade existia até mesmo para falar com o próprio namorado. Havia vezes que apenas ficava parado, observando o loiro, sem conseguir encontrar palavras para descrever o que sentia, mas ao mesmo tempo, sentindo o mundo inteiro dentro de si.

— Como talvez o César pode ter te adiantado, faz uns 10 anos que eu vivo praticamente sozinho. Na verdade, eu sempre me senti assim na vida, percebo agora. Eu nunca consegui me encaixar na vida das pessoas, pensava que não era adequado pra merecer... – Lucas sentia suas mãos tremendo – pra merecer o amor de alguém. E isso me impediu de valorizar o amor dos meus avós que foram aqueles que me criaram após a morte de meus pais, que me negligenciavam em vida. – Lucas encontrou um ponto pra fitar e continuou falando – Eu me tornei alguém tão inseguro, que tem medo de criar laços, por pensar que em breve eles serão quebrados por alguma besteira que eu fizer.

Félix em nenhum momento deixou de prestar atenção no paciente, ao mesmo tempo em que fazia assinaturas mentais, registrando o quanto Lucas parecia diferente do laudo que tinha, parecendo até mesmo bastante esclarecido sobre seus traumas.

— Mas faz alguns dias que isto vem mudando. Na verdade, semanas. Eu tenho lutado comigo mesmo em busca da quebra desses medos todos e desses traumas. Não tem sido fácil, mas eu estou realmente tentando. Pela primeira vez eu sinto que essas sensações ruins não são parte de mim, e que eu posso ser alguém diferente.

— Mas isso é maravilhoso, Lucas. O primeiro passo é estar consciente daquilo que nos faz mal. Ou ao menos estar disposto a descobrir quais são estes elementos obscuros que nos afligem. E pelo jeito tu sabes que não é fácil isso.

— Sim, e como eu sei. É como se eu subisse uma longa escada, todos os dias que eu acordo. Mas vai passando as horas e tudo isso vem tomando forma e eu não consigo me conter e a caixa de pandora se abre mais uma vez. E essas inconstâncias são tão... dolorosas. E me deixam irritado, me achando um idiota, querendo me punir. Eu acabo me afastando das pessoas e das coisas que poderiam me ajudar a ser feliz.

— Sim, compreendo... Mas então quer dizer que agora tu tens pessoas importantes pra ti? Pelo que o César me disse, e tu mesmo relatou agora pouco, sempre fostes sozinho. Hoje pelo jeito parece que consegues perceber que há pessoas em tua volta que podem ser tua salvação desses medos? – Félix percebeu que o moreno utilizava uma aliança. E como sabia que ele não tinha nenhum relacionamento amoroso, pensou que talvez fosse essa a grande novidade na vida de Luke.

Lucas focou seus olhos em Félix e acabou abrindo um sorriso.

— Sim... eu encontrei pessoas muito sinceras e que me fazem muito bem neste pequeno tempo em que estou aqui. E é por elas que eu decidi continuar o tratamento. Na verdade, encarar, já que antes eu não levava muito a sério. – Lucas acabou levantando de sua cadeira e indo até a janela do consultório, que era daquelas como se fossem uma porta, toda de vidro, e dava pra ver o movimento lá fora. – Eu estou namorando uma pessoa muito especial. Alguém que me faz sorrir mais do que eu pensei que pudesse ser possível... e que todos os dias me faz acreditar que as coisas podem dar certo e melhorar.

Félix seguiu concordando.

— E gostarias de me falar mais sobre essa pessoa? Parece ser parte importante de todo esse teu processo contra estes sentimentos que tu falas serem ruins em ti.

— Sim... o Rodrigo é como se fosse uma luz em meio as sombras que se apresentam algumas vezes em mim. Ele passou a ser meu norte, meu motivo pra viver, respirar, acordar... – Até mesmo Lucas estava surpreso com a facilidade com que as coisas estavam saindo – E isso me deixa tão nervoso. Eu não consigo deixar de pensar a todo o momento o que vou fazer caso ele me deixe, caso ele perceba que eu não sou a pessoa que ele busca. Pensar que o Rodrigo pode constatar que estou sendo um fardo, alguém dependente até mesmo pra decidir uma refeição, incapaz de controlar até mesmo seus pesadelos e medos infantis. Assim como os ciúmes que eu sinto a cada pessoa que ele encontra. Isso me atormenta tanto... fora o medo que eu tenho que a qualquer momento ele seja levado de mim, assim como meus avós foram.

Luke falou e foi como se um peso que estava guardado saísse de si. Conseguir dizer foi como um jeito de libertar um bichinho que mora em si e coça, o alertando que tudo pode mudar.

— Mas não achas que estás olhando as coisas de forma errada? – Com essa primeira frase Félix conseguiu voltar a ter a atenção do moreno – Lucas, o passado não pode ser mudado, mas é possível construir o futuro quando paramos de deixar que aquilo de negativo que passou influencie tanto o nosso presente. Tens agora uma pessoa que está ao teu lado, e que deseja que tu sejas alguém especial eu presumo. Então, por quê o medo?

E nos minutos seguintes, Lucas contou a história de sua infância, de como os pais não o desejavam e o trabalho que deu aos avós enquanto crescia e não conseguia retribuir totalmente o amor que eles o desejavam. E Félix conseguiu entender um pouco nas entrelinhas quais eram as bases para os medos de Lucas.

— Então a todo momento eu penso que estou fazendo igual com Rodrigo. Eu sei que a história é diferente, que meus avós foram obrigados a ficar comigo e...

— Lucas, desculpa te interromper. Mas não há obrigações no amor. Teus avós, tenho certeza, cuidaram de ti porque te amavam, assim como amavam a filha deles, tua mãe. Você não entendeu isso quando pequeno porque é realmente difícil para uma criança lidar com perdas, mas hoje em dia eu quero que tu entendas que não há culpas na relação de vocês. Eles devem ter feito o possível para que tu fostes feliz, e sei que tu sabes que sim, já que é visível o amor que tens por eles até hoje através de tuas palavras.

E como sempre acontecia, os olhos de Lucas marejaram ao ouvir essas palavras. Ele queria muito acreditar nisso e seguir em frente, mas era complicado. Amava muito os avós ainda, e se sentia em divida com eles, não podendo mais fazer nada por eles já terem ido embora.

— Não se preocupe em me explicar, eu sei que é algo que apenas o tempo fará com que tu consigas olhar pra trás e veja o quanto foram coisas que aconteceram e tu não tinhas como fazer algo, pois eras uma criança. Não te cobre tanto, se permita sentir raiva, dor, fraquezas. Isso faz parte do processo e guardar apenas te faz levar adiante todas estas sombras que tu diz sentir existir dentro de ti.

— Mas eu não quero que as pessoas que estão comigo percebam isso, porque eu sei que é um incômodo. Eu não quero que o Rodrigo tenha que passar comigo estas inseguranças. Ele é mais novo que eu e consegue ser tão maduro. Eu fico me sentindo um completo idiota perto dele na maioria das vezes.

Félix compreendeu que a culpa era o que gerava as inseguranças de Lucas. Sua relação com os pais era algo que precisariam trabalhar e muito, já que o elo que ele sentia com eles ainda é muito forte, apesar do abandono e da morte dos dois. Era como se ele enquadrasse suas relações naquela que teve com os pais, o que não era algo bom.

— Mas vocês não estão em um relacionamento? Não acabam conversando sobre estes medos? É normal que se faça isso quando se está com alguém.

“É normal quando se é uma pessoa normal”, pensava Lucas.

— Quem sabe tu conversas com ele, explica esses medos quando eles surgirem? Talvez avisá-lo quais atitudes que te fazem ficar mais inseguro. Agir como se estivesse sempre confiante não vai te fazer bem, não achas?

— Sim, mas é que eu não quero ficar cobrando a atenção dele, eu sei que ele já se esforça bastante pra estar comigo. Assim como meus pais tentavam o máximo que conseguiam e eu ainda sim me sentia sozinho. Eu agi exatamente assim com eles dois e olha o que aconteceu, eles não me amavam...

Era visível que Lucas não conseguia entender que os pais o negligenciaram porque não eram bons pais, ou por outros motivos que não tinham em nada a ver com ele. Era preciso que ele entendesse isso.

— Lucas, tu podes sentar aqui novamente? – Félix pediu isso enquanto servia um copo de água para o moreno, que estava chorando silenciosamente. – Quero que tu saibas que para uma primeira consulta tu conseguiu avançar bastante. E eu espero que tu retornes aqui semana que vem, podemos marcar? – E vendo que Lucas assentiu, sentou-se também – E vamos combinar outra coisa? Quem sabe tu tentas conversar com Rodrigo sobre esses medos? Pelo jeito que tu falou, acho que já falasses um pouco com ele, mas retorne a conversar. E semana que vem você me diz como foi, pode ser? Se achar melhor, podemos marcar também uma consulta que ele te acompanhe. Isso é bastante comum, não ache que é estranho ou algo assim.

Lucas estava mais calmo, e tentava secar suas lágrimas, já que não queria preocupar o namorado quando saísse da sala. E também porque não se sentia muito confortável em chorar perto de alguém.

— Então, fale com ele. Não precisa ser agora, nem de uma hora pra outra, pode ser aos poucos. Vamos ver até semana que vem o que tu consegues falar com seu namorado. Quero que entendas que apenas sendo sincero contigo e com quem está do teu lado vai ser possível que consigas perceber certas coisas.

Lucas conseguiu enxugar suas lágrimas e levantou, indo apertar a mão do médico.

— Obrigado... acho que até mesmo eu me surpreendi com o tanto de coisa que eu consegui falar hoje.

Félix deu mais um dos seus sorrisos tranquilizadores.

— Eu fico feliz que tenhas te sentido à vontade. Quero que saibas que podes entrar em contato comigo a qualquer hora ou momento. Tem meu número de celular no cartão, e endereço também. Vou me sentir bem se puder te ajudar.

— Obrigado... e você acha que eu já posso parar de tomar os remédios? Eu deixei a receita com a secretária no dia que marquei a consulta pra que você pudesse ver e...

— Ah sim. Eu conversei com César sobre isso. Vamos fazer assim, quem sabe nesta semana tu continuas ainda, porque toda ação tem uma reação, e não sabemos como teu corpo vai reagir após essa consulta e este inicio de tratamento. De acordo com o tempo, vamos diminuindo eles.

Luke não conseguiu disfarçar a expressão de desaponto ao ouvir Félix. Sabia que era muito em cima da hora pra achar que estava tudo bem, pois, sentia que não. Mas se sentia um fraco por depender dos remédios e queria o quanto antes deixar de usá-los.

— Hey, um passo de cada vez. É preciso que tu te sintas confortável com cada etapa. Se continuarmos assim, em breve tu conseguirás ter controle da tua vida novamente, e de tuas emoções. Mas pensa que no momento precisas de ajuda e que isso não é demérito nenhum. Ok?

— Ok... e mais uma vez obrigado. No vemos semana que vem.

Ao voltar para a sala de espera, Lucas viu Rodrigo sentado, como prometido, lendo um de seus xerox. Não conseguiu deixar de dar um suspiro ao vê-lo, o que parece ter feito o mais novo perceber sua presença.

Sem dizer nada, ele guardou os papeis e levantou, indo de encontro ao moreno, que o olhava dentro dos olhos, buscando a segurança que sempre sentia ao lado do namorado.

— Vamos? – Rodrigo não perguntaria nada ali, deixaria Lucas se sentir livre pra falar sobre a consulta.

Concordando, Luke se deixou guiar em direção ao elevador, enquanto não largou a mão de Rodrigo momento algum, nem mesmo enquanto dirigia para sua casa. Não perguntou para o namorado, mas eles sempre acabavam ficando mais na casa do mais velho. Até mesmo por causa de Solange, que sempre era uma presença agradável de ter, pois ela se sentia sozinha, às vezes, e aparecia com uma desculpa pra conversar.

***

— O que nós vamos comer? Estou com vontade de comer uma pizza. Quem sabe a gente não pede uma? Hoje eu deixo que esse seja o jantar.

Os dois chegaram em seguida em casa, pois, Lucas morava bem no centro, onde também estava localizado o consultório.

— Eu não sei se eu quero comer... mas aceito pra te acompanhar.

Rodrigo ficou olhando o namorado, sem saber o que dizer, já que estava bastante curioso e com medo de ser invasivo caso falasse algo.

— Pode ser outra coisa também, vou ver o que tem na geladeira.

Lucas percebeu que o mais novo estava tenso, até porque ele também estava. Queria falar pra ele o que tinha se passado na consulta, mas ao mesmo tempo não se sentia preparado. Parece que sua coragem na consulta se esvaiu depois de sair do consultório de Félix.

— Me dá um beijo e um abraço? Já falei pra você que apenas em te sentir respirando já me sinto preenchido por dentro que nem sinto vontade de fazer mais nada, a não ser te sentir assim, pertinho de mim?

O loiro ficou um pouco mais leve ao ouvi-lo falar aquilo, e se sentiu até um pouco envergonhado. Apesar do moreno estar sempre falando coisas deste tipo, ele ainda não estava acostumado com tanta atenção.

— É mesmo? Eu vou lembrar disso quanto tu me pedir pra fazer um copo de leite pra ti, mesmo eu não gostando do cheiro. – Rodrigo entrou na brincadeira e respondeu, mas ao falar percebeu que o moreno ficou tenso em seu braços. – Hey, sabe que é brincadeira, né? Eu faria 10 copos se fosse pra te ver bem.

Rodrigo passava as mãos nos cabelos de Luke, enquanto falava. Era mais um dos costumes que ele adquiriu e que fazia Lucas relaxar. O loiro olhava nos olhos do moreno, para ter certeza que ele entendeu, mas nenhuma resposta foi dita, o que fez perceber que talvez a carga da consulta estivesse sendo sentida naquele momento.

— Eu acho que não quero comer nada. Vou tomar um banho e deitar. Você deveria fazer o mesmo, amanhã e sexta-feira e tens que ir trabalhar. Come algo e te espero na cama, pode ser? – Lucas não se afastava, estava ainda junto de Rodrigo, mas parecia um pouco receoso. Mas o mais novo sentia que ele tinha algo pra dizer.

Enquanto terminava um sanduiche e um copo de suco que acabou jantando, Rodrigo se distraia no celular, e também falando com a mãe ao telefone, que tinha ligado pra saber como tinha sido seu dia. Após lavar a louça e esquentar um copo de leite pro namorado, foi em direção ao quarto, enquanto apagava as luzes do apartamento. Não foi surpresa encontrá-lo já deitado, olhando para porta, de certo esperando sua chegada.

— Acho que tu já escovou os dentes pra dormir, mas como eu sou teimoso, trouxe um copo de leite pra ti. E na temperatura ideal, acho que aprendi. Bebe?

Lucas sentou na cama, pegando o copo e dando um gole em seguida. Enquanto isso, Rodrigo mudou de roupa, arrumou algumas coisas pelo quarto e foi até a cama enquanto percebia que Lucas terminava já de a bebida. Sem dizer nada, deixou o copo ao lado da cama e deitou junto a ele.

— Queres me falar alguma coisa?

Luke conseguiu abrir um sorriso, enquanto constatava, mais uma vez, que Rodrigo estava sempre atento a ele. Resolveu que deixaria se levar pela pergunta e falar um pouco do que o afligia.

— Me desculpa?

Lucas fazia carinho nas mãos de Rodrigo, continuando mesmo quando o loiro levantou e sentou-se na cama, para poder enxergá-lo melhor.

— Me desculpa por ainda desconfiar do seu sentimento por mim? Por ainda achar que em qualquer momento você vai embora, que não me ama... Desculpa por desconfiar de todo mundo que chega perto de você, de me sentir tão inferior aos seus amigos, por ter ciúmes de cada sorriso seu que não é direcionado pra mim. Eu me sinto um monstro por pensar essas coisas, por não conseguir agir da forma que a gente combinou que deveria ser... eu ainda não consigo falar abertamente sobre algumas coisas, nem confiar sempre na gente. Mas eu juro que eu estou tentando, e vou conseguir, eu só preciso de um tempo.

Após a fala do moreno, Rodrigo ficou um tempo apenas olhando para os cabelos de Luke, que neste momento já tinha abaixado a cabeça, enquanto continuava apertando sua mão, como uma forma de sentir que estavam ali, juntos. O loiro ficou até um pouco surpreso já que até imaginava que o mais velho ainda tinha problemas com sua confiança, mas nos últimos dias ele estava se mostrando tão mais confiante, aparentemente... deveria ter percebido que não.

— Lucas... eu não quero que tu te contenhas. Eu não quero que tu guarde pra ti o que estás pensando, por mais que ache que vai me magoar. E o principal, eu não quero que tu se sacrifique por achar que determinadas atitudes vão me fazer ficar bem. Estamos nisso junto, não é?

— Sim, eu sei que sim... Félix me disse que era importante que eu conversasse com você sobre isso e é o que eu estou tentando agora. Por mais que seja bastante difícil.

— Eu sei, meu amor. Eu sinto o quanto é difícil. Mas mais uma vez eu vou te dizer, eu te amo. Muito. Mais do que eu pensei que alguém poderia amar alguém. Mais do que um dia eu pensei que poderia amar alguém. E a minha felicidade também é a tua. Tu precisa me dizer sobre o que te deixa triste e então vamos decidir juntos o que fazer. Se eu achar que estás errado, eu vou te dizer. Mas vamos encontrar a solução juntos, tudo bem?

— Eu sei disso... obrigado.

Rodrigo apertou os dedos do moreno.

— Como foi a consulta? – Perguntou baixinho, como quem não quer de fato dizer, mas está bastante curioso pra não falar.

— A gente pode falar sobre isso outra hora? Na verdade eu acho que ainda não quero conversar com ninguém como foi... – Lucas viu a expressão culpada do mais novo. E como não queria que ele se sentisse assim, acrescentou. – Quer dizer, eu poso falar pra você...

— Shiuuu, claro que não, amor. Eu entendo. Desculpa a curiosidade. Acho que vou me formar pra ser fofoqueiro pelo jeito. – E com isso, a risada do mais novo preencheu o quarto e o coração do moreno.

— Eu sei que é preocupação, não se preocupe. Mas quero que você saiba que foi muito bom. Eu me senti bem, apesar de tudo. Acho que o doutor Félix vai ser muito importante na minha recuperação. Tenho que agradecer o César pela indicação.

Rodrigo não conseguia se conter de felicidade por ouvir aquilo. Não aguentando, se jogou pra cima do moreno, que o recebeu em seus braços sem reclamar. Pelo contrário.

— Eu te amo, Rodrigo. Você é minha vida. E eu sei que ouvir isso é assustador, ainda mais pra alguém tão jovem...

— Pois eu adoro ouvir, toda vez! Mas é porque é VOCÊ quem está me dizendo. – O loiro disse, enquanto abria mais um de seus sorrisos brincalhões, já que ele sempre brincava com o sotaque do mais velho e os diversos “vocês” que ele usava.

E com isso, pra começar um beijo foi questão de segundos, onde os dois quase se perderam, até o loiro interromper.

— Ai não, beijo com gosto de leite, blergh! Agora vou ter que escovar novamente só pra tirar esse gosto, Lucas. Culpa tua!

Luke, sem se conter, abriu um largo sorriso, que veio direto de sua garganta, sempre muito raro, mas que cada vez que acontecia fazia Rodrigo perceber que valia cada minutinho ao seu lado.

— Deixa de ser fresco! É muito melhor que os gostos daquelas verduras que você aparece aqui em casa toda a semana!

— Aé, é assim? Vou fazer um complô com a Solange e dizer pra ela não te dar bolo de chocolate quando tu foge daqui pra não ter que comer! Quero ver do que tu vai te alimentar.

— De você, é claro!

E os próximos minutos foram de risadas e pequenos apertos, onde Lucas ficou surpreso por perceber que após a consulta estava conseguindo sorrir e Rodrigo se sentia nas nuvens, por perceber que o moreno estava no caminho de sua recuperação. Ambos sabiam que ainda tinha um grande caminho pela frente, mas juntos conseguiriam ultrapassar essas barreiras. Até porque o amor é paciente e eles sabiam, a história deles dois ainda teriam muitos fatos pra se viver e sentir, pois, juntos, encontraram um pra sempre eterno em seus corações.

Notas finais
Comentários? Aguardo! Curiosa pra saber se não ficou muito ruim já que foi um desafio pessoal esse capítulo.