Aprendendo a Amar
10 Seguindo o coração
Notas iniciais
Lucas todos os anos já esperava aquela semana horrível que se iniciava neste domingo, com um sentimento de tensão. Seus avós haviam falecido com uma diferença de um ano. Primeiro o avô, após ser internado as pressas após um mal estar, e depois de alguns meses a avó, que sentindo algumas dores, descobriu que estava com câncer bem avançado. Quando fez um ano da morte do avô o quadro dela piorou e veio a falecer. Deste último momento Lucas lembra apenas que sentou durante uma hora no chão do hospital sem saber o que fazer. Eles não tinham muitos parentes, apenas alguns distantes. E diferente de quando o avô morreu desta vez ele não tinha a avó ali do seu lado. A pessoa mais próxima a ele era Marcus, seu amigo desde a infância. Foi para ele que ligou após sair de seu momento em transe. Em menos de 30 min. o moreno não muito alto, de olhos castanhos chegou e abraçou o amigo. Marcus já o conhecia muito bem, sabia que ele não diria nada, não deixaria que as lágrimas rolassem. Mas as palavras não eram necessárias. Desde que o conhecera sabia o quanto os avós eram importantes para o outro.
Passado alguns anos, com Marcus sempre tentando de alguma forma estar com ele nesta data, Lucas percebia o quanto as coisas nem sempre podem ser como a gente quer. Fez de tudo para que Rodrigo visse nele alguém que merece ser amado. Ele quis mais do que tudo isto. Mas não deu. Agora ele estava lá, com aquela garota que, pelo amor de Deus, não tinha nada a ver com ele. Lucas se perguntava até que ponto aquele relacionamento não era uma afronta às coisas que ele lhe disse. Mas agora não importava mais, Rodrigo não era gay, e não tinha a menor chance deles ficarem juntos.
No último fim de semana havia passado um tempo com um garoto que conheceu durante a festa. Não o levou para sua casa, pagou um motel qualquer para passarem a noite, porém, após transarem, acabou indo embora e o deixando. Não haviam conversado sobre nada, foi apenas sexo mesmo. E o pior, o vazio que ele estava sentindo pareceu aumentar. Quando chegou na segunda-feira e viu Rodrigo com Maiara, aos beijos, caiu mais uns 10 degraus na vida. E a semana toda havia sido assim, constantes encontros com o novo casal.
Pensando nisto, nesta manhã de domingo Lucas, como sempre, dirigia sem rumo, para lugar nenhum. Visualizou o recado que Marcus havia deixado, mas não estava querendo conversar com ninguém. Sabia que o amigo lembrará que hoje fazia mais um ano da morte de seus avós, e que na segunda-feira era o pior dia desde que eles se foram, o dia do seu aniversário. Há 10 anos que ele não fazia a mínima questão de comemorar, e neste ano não seria diferente. Ou seria, já que normalmente passava sozinho, e amanhã teria que estar em sala de aula. Claro que ele poderia ter cancelado, mas era com a turma de Rodrigo e, querendo ou não, vê-lo sempre o deixaria melhor. Dirigindo sem rumo certo, percebeu depois de um tempo que estava indo em direção ao litoral, onde passou aquele dia com Rodrigo.
Ficou ali pela praia até a madrugada daquele dia, os habitantes da cidade pareciam curtir bastante a paisagem, mesmo sendo inverno. Na manhã seguinte, no dia que completaria 33 anos, desde que acordou o dia já lhe pareceu carregado. Entrou nas redes sociais pra ver se via alguma coisa de Rodrigo, mas nada dele aparecer. Foi quando decidiu entrar no de Maiara e não foi surpresa ter várias fotos dos dois juntos. Neste momento ouviu um barulho dos céus. Pelo jeito seria mais um dia chuvoso e frio. Pelo menos combinaria com seu humor.
No trabalho, Rodrigo estava conversando com Clarissa e mostrava que havia tomado uma decisão, para a alegria da amiga. Ela estava mexendo com ele sobre as fotos que Maiara havia postado.
—-Sério, Rodrigo! Esta garota é muito maluca. Ela não para de mostrar ao mundo que está contigo! — dizia enquanto dava muita risada.
—- Você está rindo porque não é contigo – disse o loiro meio bravo, mas não por muito tempo. – eu não aguento mais isso!
— Então por que você não acaba logo este relacionamento? – ela havia ficado surpresa quando ele contou estar com Maiara. Ainda não havia esquecido o que viu no olhar do amigo quando ele falou do tal professor.
— Ai é complicado...
— Complicado por quê?! Você estar com ela não querendo que é um problema. – de repente lhe veio uma pergunta – você não está com ela apenas pra esquecer o Lucas, não é?
Rodrigo inconscientemente já havia feito esta pergunta para si, mas nunca respondia. Mas sim, era isto que estava acontecendo mesmo. A semana que passou havia sido um inferno, parecia que sempre que estava com Maiara do lado o professor aparecia. Não queria que ele lhe visse com ela, tremia ao pensar o que aquilo causava nele. Pensando melhor, havia percebido que o ataque da última vez que se viram era sem propósito. Sabia que o mais velho tinha sim sentimentos por ele, nem que fosse de amizade. Sentia isto, ainda mais quando lembrava daquele beijo... Então não tinha motivos para ter sido tão rude.
Ao ver o que se passava em sua frente, Clarissa pode apenas abraçar o amigo.
— Rodrigo, por favor. Lembra daquilo que eu conversei contigo da última vez. Não é sempre que encontramos alguém que nos impulsione que nos faça bem. Essa guria não tem nada a ver contigo!
— Eu sei, mas nunca me vi namorando um outro homem... e além do mais, depois da última vez que a gente conversou – disse isto fazendo aspas no ar – penso que ele não deve estar querendo me ver nem pintado.
— Pois eu aposto que apenas se ele fosse um louco pra se desfazer de um gato lindo e inteligente como você. – não cabia em si de amores por ver o amigo apaixonado, porque sim, ele estava! – E sobre ele ser homem, isto é outra história. Que não tem tanta importância quanto a de saber que vocês dois se gostam. Não desperdiça essa chance, vai!!
— Acha mesmo? – disse depois de hesitar.
— Certeza! Mas primeiro tu precisas acabar com aquela lambisgoia! – disse fazendo cara de nojo.
Quando saiu na hora do almoço, Rodrigo estava decidido em acabar tudo com Maiara. Marcou com ela para almoçarem juntos. Mas nos primeiros 10 min. já se perguntava os motivos de não ter terminado com ela pelo telefone mesmo.
— Ai, não aguento essa cidade, não vejo a hora de chegarem as férias e eu ir viajar. Eu te falei daquela minha tinha que tem casa em...
— Maiara, eu te chamei aqui porque eu queria falar contigo, lembras? Desde que chegou não paras de falar! – não queria ter perdido a paciência, mas não aguentava mais.
A guria ficou um pouco sem reação, até que parece ter voltado ao seu ar costumeiro.
— Ai, desculpa! É que você é sempre tão calado. Mas vai, fala. Daqui a pouco eu tenho que ir, marquei com as gurias de ir ao... – antes que ela emplacasse mais uma história, ele interrompeu.
— Eu acho melhor a gente terminar.
Maiara na mesma hora parece ter ficado sem palavras, pela primeira vez na vida.
— Ai, como assim, Rô? Olha, se é por eu falar demais eu sou assim, sabe como é, filha de peixe, peixinho é, meu pai é jornalista e fala pra caramba...
— Maiara, não é isto. Eu só acho que não estou pronto pra assumir uma relação agora. E a gente estava se encaminhando pra algo sério... antes disso eu prefiro parar pra não magoarmos ninguém.
Maiara ficou um tempo olhando para Rodrigo. Estava mesmo começando a gostar dele. Mas sentia que não era retribuída. Na viagem que fizeram eles estavam mais como amigos do que como quase namorados. Ela tentava ficar um tempo sozinha com ele, mas ele não fazia nenhum esforço para isso. E agora ouvindo o loiro falando, percebeu que doía mais pelo fato de nunca ter levado um fora de alguém. E agora passava por isto logo com ele, sempre tão reservado nas aulas. Bom, não deixaria transparecer, se ele não queria ficar com ela, problema era dele. Tinha muitos que queriam, falava para si.
— Bom, se é isto que você quer, ok. Espero que, pelo menos, a gente possa continuar amigos, não é? Ou eu falo demais também pra isso?
A vontade de Rodrigo era dizer que sim, ela falava demais mesmo. Mas resolveu não esticar o assunto e afirmar que poderiam continuar amigos.
Quando terminaram de almoçar, a garota foi embora e ele ficou um tempo ainda pensando. Enquanto chovia lá fora, ele deixava o pensamento livre e, claro, irem de encontro a Lucas. Sabia que veria o moreno mais tarde, mas não queria ter que esperar até o final da aula pra conversarem. Ao mesmo tempo, tinha medo de ser repelido se fosse ao encontro dele, e isso tornaria a aula duplamente pior. Não sabia ainda o que esperava desta conversa, mas não queria mais ficar brigado com ele. A sinceridade que teve sempre consigo, desde a história com Mariana o fazia pensar que não podia desperdiçar isto que eles tinham, fosse o que fosse. Olhou sua agenda do celular e fez aquilo que o levaria a descobrir quais os caminhos deveria seguir daqui pra frente. Ao quarto toque, já impaciente, finalmente Lucas atendeu. E apenas em ouvir sua voz seu coração disparou muitas vezes neste segundo.
— Oi Lucas, precisamos conversar. Será que podemos nos encontrar agora?
Ao ouvir aquela voz do outro lado da linha Lucas não acreditou.
— Rodrigo? – Lucas consegui dizer após a surpresa, com uma voz que pareceu ao loiro mais nostálgica que o normal. Será que havia acontecido alguma coisa? – Eu não sei se é uma boa ideia hoje...
—Olha, por favor. Eu juro que a gente não vai brigar. Eu preciso falar contigo... É sobre nós.
Após um momento de hesitação, que pareceu uma eternidade, finalmente a resposta veio. Lucas não sabia o que dizer, nem o que esperar, mas não queria estar sozinho. Agarrou-se a esta ligação como um bálsamo.
— Ok, você quer marcar em algum lugar?
— Pode ser em sua casa?
— Aqui? É... – pensando, pensando, pensando – Está bem, eu te passo o endereço agora por mensagem
— Ok, aguardo. Até mais.
— Te espero – e desligou.
Rodrigo estava tremendo ao deixar o celular em cima da mesa. Mas mais do que nunca tinha certeza que queria resolver esta situação da melhor forma. E se isso significasse que eles teriam que desenvolver uma relação da forma que Lucas queria, tudo bem. O que não podia, e não queria, era ficar longe dele. Após o toque de mensagem recebida levantou e foi em direção à porta. Que tudo ocorresse bem.
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