Aprendendo a Amar
4 A Descoberta de Um Sentimento
Notas iniciais
Rodrigo saiu sem ao menos saber para onde ir. Estava sentindo uma coisa estranha, como se houvesse deixado para trás algo muito importante. Quando Lucas ofereceu a carona, até pensou em aceitar, pois viu ali uma forma de saber mais sobre ele e quem sabe deixar de pensar tanto no que tinha acontecido. Talvez este tempo conversando faria com que o ar de mistério não mais existisse e tirasse estas sensações que estava sentindo. Mas ao mesmo tempo, tinha medo do que poderia acontecer caso aceitasse. Parado onde o ônibus deveria estar, se perguntava agora o que faria. Pelo jeito o último já havia saído mesmo. O campus ficava um pouco longe de onde morava, teria que esperar o ônibus do transporte público, que não sabia o horário, pois nunca precisou utilizar. Foi quando viu um carro azul se aproximando. As luzes do farol o cegaram, mas ele já imaginava quem era.
— Tem certeza que não quer mesmo que eu te leve até o ponto onde o ônibus te deixaria?- Lucas falou querendo aparentar indiferença, mas na verdade estava preocupado com aquele teimoso. Quando estava se dirigindo ao carro enxergou alguém parado em meio ao nada. Não conseguiu resistir em parar.
Ao ouvir aquela pergunta, Rodrigo pensou por um tempo. Não tinha outra opção. Era isto ou chegaria muito tarde em casa. E ainda correria perigo por ficar sozinho ali parado.
— Certeza que eu não vou atrapalhar você? O bairro onde eu moro não é muito central, onde provavelmente você deve morar, se quiser pode...
— Se isto fosse me atrapalhar eu não teria oferecido — Lucas não deixou ele completar — Vamos, pois está ficando tarde.
Rodrigo entrou no carro após ouvir aquilo. Ficou um pouco receoso pela resposta do outro. Talvez estivesse fazendo tempestade em copo d’água. Lucas não parecia ser gay. As chances daquilo que havia acontecido entre eles na festa ter sido surpresa até mesmo para ele eram grandes, apesar do olhar que lhe lançou naquela noite. Não é?
— Então, você pode me guiar porque eu estou apenas dois meses aqui na cidade, ainda não consegui registrar todos os caminhos. Mesmo usando o GPS- gracejou o mais velho.
— Claro basta seguir reto. Esta cidade é assim, cheia de ruas principais que te guiam para outras. Estou um pouco mais de tempo por aqui. Isto eu já aprendi. — disse Rodrigo, falando com naturalidade. Pelo menos tentando.
— Você não é daqui da cidade então?
— Não, quer dizer, sou do interior da região. Vim para cá faz um ano, desde que entrei na universidade. Pode dobrar a esquerda agora. — instruiu.
— Você mora sozinho? Deve ser difícil, tão jovem ter que se virar sem os pais.
Lucas torcia para que demorassem a chegar na casa do mais novo. Estava gostando da conversa que estavam tendo. Nem parecia que pela manhã estava sem pistas nenhuma sobre o rapaz.
— Sim, no início até foi. A vida aqui é mais corrida, e o pessoal é tão diferente das pessoas que eu conhecia. Ainda tem vezes que eu acho que não nasci pra este mundo. Que acho que deveria ter ficado com meus pais, ajudando a cuidar da lavoura... — aquela pergunta do professor fez Rodrigo falar mais do que deveria.
— Por que, você não tem amigos por aqui? – isto explicava o fato dele estar sozinho e deslocado aquele dia na boate.
— Sim, claro que eu tenho...- disse Rodrigo vagamente.
— Então por que parecia tão deslocado aquele dia na boate? – Não conseguiu conter a pergunta.
— Tu podes me deixar aqui, obrigado. Daqui consigo ir pra casa.
— Eu posso deixar você lá, me diga para onde eu vou.
— Não precisa, eu consigo ir daqui, pode parar, por favor.
A resposta do outro deixou Lucas nervoso. E se sentindo um idiota. Eles estavam conseguindo manter uma conversa, por que ele tinha que voltar aquele assunto logo agora? Rapidamente os medos do passado, a certeza de ser inconveniente a todos que tinham o desprazer de conviver com ele por mais do que alguns instantes surgiu. Não tinha o direito de agir assim, nem ter trazido a tona aquela noite que o mais novo parecia não querer lembrar. Encontrou um local para estacionar e parou.
— Aqui está bom? – após a confirmação de Rodrigo, Lucas virou o rosto para o outro lado e se despediu. Não queria demonstrar o que estava sentindo. Estava péssimo.
O mais novo abriu a porta do carro, estranhando o comportamento do outro. Ele estava diferente, a postura que havia tido durante toda a noite parecia ter caído por terra.
— Professor, desculpe se eu agi de forma errada, mas é que... – começou a dizer antes de sair.
— Pode me chamar de Lucas, e, por favor, Rodrigo, saia do carro. Já está tarde, você não tem que ir?
Lucas perdeu a paciência de vez. Precisava ficar sozinho, não tinha o costume de se desestabilizar na frente de ninguém. Muito menos de pessoas que deseja levar pra cama. Sim, porque este é o único interesse que ele tem... tinha em relação ao Rodrigo, repetia isto para si.
— Boa noite – disse Rodrigo fechando a porta. Ao dar o primeiro passo ouviu o carro de Lucas sair em disparada, acima da velocidade permitida.
Quando Rodrigo chegou em casa, ainda não conseguia tirar os instantes de agora a pouco da cabeça. Que droga, que cara mais mimado! Pelos modos de Lucas, apesar dele não ser nenhum pouco simpático, dava para perceber que ele vinha de família rica, sem dificuldades financeiras. Era visível. Por que então parecia ser tão fechado? Ainda tentando entender isto, Rodrigo foi tomar um banho para acalmar. Seu corpo parecia ter ficado em atividade por muito tempo. Veio o caminho inteiro muito tenso, pensando na situação com Lucas. Não sabia como encará-lo na próxima vez que se vissem.
**
Lucas girou por ruas que nem sabia onde o levariam. Ele não queria encarar o vazio de seu apartamento, não queria sentir tudo novamente. Entrando em uma rua qualquer, alisava o peito do lado esquerdo, tentando amenizar a dor que vinha dali. Queria voltar, pedir para Rodrigo fazer qualquer coisa com ele, precisava de alguém. Aos 32 anos, Lucas não tinha mais como fugir. Não conseguiria nem queria continuar vivendo sozinho. Mas se sentia perdido, não sabia a solução para isto, já que não via a possibilidade de alguém gostar dele.
Resolveu ligar o rádio pra ver se distraia. Foi quando Lulu Santos começou a preencher o carro:
Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção
E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção
Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição
E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar
Ao ouvir aqueles versos, Lucas parece ter ficado mais calmo. Iria para casa pensar. Em outros tempos, quando sentia aquilo, apenas conseguia melhorar passando a noite com alguém na cama. Mas desta vez resolveu fazer diferente. O sentimento que ainda não sabia dizer qual era, mas estava sentindo por Rodrigo, o fazia não se sentir tão sozinho assim. Chegando ao apartamento, tomou um banho e resolveu navegar um pouco pela internet. Em uma atitude de curiosidade, resolveu entrar no facebook e procurar Rodrigo. Não foi difícil de encontrá-lo, já que alguns alunos já haviam adicionado ele, estava aceitando algumas solicitações. Entrando no perfil de Rodrigo, percebeu que não era no modo público, então não conseguiu visualizar muita coisa sobre ele, apenas algumas fotos e postagens que estavam em aberto. Estava se sentindo ridículo, quase adolescente, mas aquilo tudo estava trazendo novos sentimentos a ele. Uma sensação de liberdade responsável. Era meio doido isto. Sempre teve uma vida sexual agitada, não negava que era bonito e interessante para homens e mulheres. Mas agora era diferente. Queria ser alguém para o loiro. Queria conquistar o Rodrigo.
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