Apreciação Perpétua
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Stan havia dirigido desenfreado pelo pais, o que, se fosse ser visto como um fato isolado, não era novidade. Mesmo assim Fiddleford estivesse praticamente em pânico, no banco de passageiro ao seu lado, tentando desacelerar o marido por grande parte do percurso.”Calma, Stan, nós vamos chegar lá, de um jeito ou de outro, nem é como se tivéssemos hora marcada, ou... pela madrugada, Stan!”, acabava interrompendo a si mesmo quando Stan quebrava mais uma das incontáveis leis de direção, “Você não quer que eu dirija?!”. Tate não se importava muito, tranquilo no banco de trás, apreciando as paisagens.
As paradas foram breves e só revezaram o volante pouco antes de chegar, já na Califórnia, no final das contas. E então Fidds ficou na direção até, finalmente, chegarem ao destino. E quem diria, não é?
Desceram do carro, ali estavam eles. Stan respirou fundo ao bater a porta, entusiasmado. Fiddleford desceu logo em seguida, os olhos pousados no marido, que fitava, nitidamente animado, a construção à sua frente. Logo depois de fechar sua porta aproximou-se dele com um sorriso sereno, pousando a mão no seu ombro com carinho, Stan o fitou brevemente, mais um suspiro. Isso era importante, Fidds sabia. Porque ele sabia, e sabia bem, o quanto família significava para Stanley Pines. De todas as prioridades em toda uma vida, ai estava o que ficava no topo da sua lista.
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Stan não tinha como ter previsto isso, ele não imaginava. Ele sempre fora criativo e, depois de viver tudo que havia vivido, sabia que a vida podia ser ironicamente sacana. Mas ele definitivamente não imaginava esse nível de ironia. Não que fosse ruim, ele só não fazia ideia. Então simplesmente não imaginava como reagir a isso, embora a parte sentimental tivesse aceitado receber isso de forma bem comovida.
“Pines”, certamente não foi difícil encontrá-los. Shermie já estava esperando do lado de fora do quarto e, apesar do sorriso radiante, não era difícil perceber que ele já havia chorado alguns oceanos. De alegria, disso não havia duvidas, é que seus olhos inchados sempre traiam o fisionomia séria que ele tentava levar. Os cumprimentos foram breves, todos estando ansiosos demais. “E então, como foi tudo, Shermie? As coisas correram bem?”, depois do irmão tranquilizá-lo, contando que não havia forma de as coisas terem corrido de um jeito mais tranquilo, aliviou um pouco a preocupação que tende a ser costumeira nesses casos, mas a ansiedade só ia crescendo. Stan sorriu e deu um tapa nas costas do irmão. “Então, você já o viu, não é? Como ele é? Quando vamos poder vê-lo? Alias, é ele ou ela, afinal?”. E então Shermie fez uma pausa em tudo, ficando sério por breves segundos, para então sorrir o mais comovido possível: “Você não vai acreditar, Ford”. Bem, ele suspirou, porque da ultima vez que haviam lhe dito isso nesse tom, Stanford, no caso, tantos anos atrás, ele realmente não havia acreditado. As coisas foram complexas. Preocupo-se um pouco, esperando que Shermie só estivesse fazendo drama, como ele costumava fazer. Ele trocou olhares com Fiddleford, o loiro já praticamente tendo pego a mensagem no ar e segurou a mão do marido com carinho. Stan não entendeu. Isso só até entrar no quarto.
Agora, seus olhos brilhavam, lágrimas disfarçadas de comoção enfeitando-os, as sobrancelhas meio curvadas, transmitindo nesse mesmo olhar um certo carinho inegável. Talvez ele tremesse um pouco, porque era lindo, de certa forma. E talvez respirasse mais devagar do que estava acostumado, de leve, porque talvez quisesse ouvir melhor. E sentir melhor, as respirações que vinham de encontro ao seu peito. Em seus braços os dois recém-nascidos descansavam. Tranquilamente, um sono não tão leve, cheio de suspiros. Eles eram tão pequenos, eles eram tão frágeis e adoráveis. E tão, tão parecidos. Olhou para eles, porque era só o que conseguia fazer. Ele não conseguia desviar o olhar, sentindo aquele calor tão bom que vinha deles, era incrível. E eles eram... Idênticos, não é? Se não fossem as mantas que os envolviam, uma azul e a outra rosa, podiam ser confundidos, não é? Idênticos, se não fosse aquela pequena marca de nascença na testa do menino. Pequena, porque, céus, eles eram tão pequenos. Idênticos, se não fosse aquela pequena “anomalia”, não é? Ah, seu pobre coração... Como ele podia aguentar esse tipo de coisa? Porque ali, em seus braços, estavam seus sobrinhos-netos. Gêmeos. Idênticos, não é?
— Céus, você os viu, Fidds...? Eles são tão adoráveis... – Perguntou, a voz nitidamente embargada. Ah, qualquer respiração mais funda de algum deles já arrancava-lhe suspiros. Fidds sorriu, nitidamente comovido e assentiu gentilmente, admirando a cena com um sorriso sereno. – Olhe para eles, Sherman. Eles são...
— É, eu sei, eu os vi, Ford. Eles são lindos. – O outro respondeu, a voz grave, segurando-se para não recomeçar a choradeira.
Então houve aquele breve silencio, cheio de suspiros, as emoções todas tomando conta do ambiente por um tempo. Alan segurava a mão da esposa, que ainda descansava na cama, ambos sustentando aquele sorriso orgulhoso, a felicidade não cabendo no peito. Fiddleford e Tate também sorriam, meio abobados. Ali estavam eles, no final das contas, entre os Pines? E quem diria, afinal? Os recém-nascidos também descansavam tranquilos. E eram de fato adoráveis. O silencio só durou até Shermie e Stan perceberem isso novamente: O quanto aqueles pequenos seres eram encantadores, e acabarem criando uma pequena guerra, brigando para tê-los nos braços por mais um tempo. “Adivinhe quem é o avô, Stanford”, Shermie argumentou. “Bom, mas adivinhe você quem tem um gêmeo, panaca”, foi a resposta de Stan. Mas a discussão foi breve. Durou apenas tempo suficiente para os dois perceberem que ainda teriam a vida inteira para todos esses e outros mimos.
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As despedidas iam tornando-se cada vez mais difíceis. Porque, no fundo, Stan sabia que não queria ir. Ele sabia, e tão bem, da importância da família. Queria poder estar com eles, estar mais perto que fosse, ser mais presente. Mas então não seria o “Stanford Pines”, porque o Stanford não era assim. Ahh, como queria poder ficar... E agora tinha os gêmeos. E a vida nessa de brincar tanto. Queria poder vê-los crescer, de perto. Todas as interações e a coisa toda. Mas voltar... Voltar também era pela família. Tudo em que vinha trabalhando era por essa família. Stanford era parte dela. E, para Stan, talvez, o mais essencial. Porque Stanford era, apesar de tudo, importante.
Olhou para o céu e tragou fundo o cigarro. Porque novamente haviam o convidado para ficar. Passar a noite que fosse. Mas ele seguia cheio de desculpas. Soltou a fumaça dos pulmões e desceu o olhar para Fiddleford que, como ele, fitava as estrelas acima deles. Do lado de fora do estacionamento de um hospital, lá estavam eles. Aquilo quase chegava a ser poético. Tate ainda estava lá dentro, terminando as despedidas e os assuntos prolongados com Shermie. Eles pareciam sempre ter o que conversar.
— Acha que alguma coisa vai mudar, Fidds? – A pergunta não foi a mais sutil, veio daquele jeito sincero que todas as coisas sempre vinham para o outro. O marido voltou o olhar para ele. Aquele mar que o sufocava desde sempre. As vezes o único oceano no qual Stan queria velejar era naquela imensidão azul que Fiddleford trazia no olhar. O menor sorriu, ternamente.
— As crianças? – Segurou-lhe a mão com carinho. Stan assentiu. – Não acho que vá haver qualquer mudança alarmante, querido. Eles vão nos visitar as vezes. Isso não é uma coisa boa? – Tragou fundo o cigarro uma ultima vez enquanto assentia. De fato, seria bom. Seria maravilhoso, não é?
— O destino pode ser bem sacana as vezes, não é?
— Por eles serem gêmeos? – O senhor mistério deu de ombros e não respondeu. Respirou fundo e, tomando aquela coragem, as palavras saíram ainda meio baixas demais:
— Acha que eles vão... Sabe... Ser bons, um para o outro...? – Foi a vez de Fidds suspirar. Trouxe Stan para mais perto e o envolveu com carinho. Ele tinha certeza que isso o afetaria. Em todos os sentidos possíveis. E, enquanto tinha vontade de confortá-lo e ampará-lo e dizer, porque é, era o que iriam fazer, dizer que trariam Stanford de volta algum dia, não tinha certeza se era o dialogo adequado. Porque ele simplesmente não sabia, e tinha lá suas grandes duvidas, se poderia completar com um “E as coisas vão ficar bem”. Então focou no momento, no que devia ser realmente importante: Os recém-nascidos. Ainda teriam tempo. Todos eles teriam.
— Eles vão ser bons, Stan. Você vai ver, querido. – Afastando-o um pouco do abraço, acariciou seu rosto com delicadeza. – Eles vão se dar bem. E as coisas vão ser boas. Quando vierem nos visitar podemos contar histórias e vamos todos nos divertir. Imagine algum verão não tão distante, Stan. – Ele fechou os olhos, ainda sentindo o toque de Fidds no seu rosto e foi como se, por breves segundos, pudesse ouvir o chamado de algum verão, um pouco distante, mas misteriosamente radiante. – O futuro não parece promissor? – Sentindo o coração um pouco mais leve, assentiu uma ultima vez. – Sem mudanças drásticas. – Fidds sentiu-se na obrigação de completar, porque drástico era, afinal, um pouco demais.
Mas no final, mal sabiam eles. Que todas as situações futuras excederiam as expectativas. E que ainda havia muito mais a ser esperado. E que, algumas vezes, perpetuamente, o Destino aprecia algumas ironias.
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