Apreciação Perpétua
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Ela e Fiddleford acharam uma mesa mais afastada de todo o tumulto dos jovens para poderem conversar com mais calma. Shermie havia aparecido alguns minutos antes e tomado Tate emprestado, então seriam apenas os dois. Os assuntos não foram mirabolantes e complicados e iam surgindo aos poucos, a maior parte do tempo ela fazia perguntas e ele tentava ser razoavelmente sincero nas respostas.
Tentou falar de Stanford, umas vez que era sobre ele que ela precisava saber. E não era tão complicado, apesar de tudo. Ele o conhecia bem, mais do que um bom numero de pessoas. Contou como o conhecera na faculdade, que haviam sido colegas de quarto. E que, alguns anos depois, Stanford o chamara para ajudar com um projeto grande. Todas as partes eram verdades até então. Até onde ele dizia que os sentimentos começaram a ficar mais fortes com essa convivência. Mas ele não podia contar o resto. De como Ford fora ficando paranoico, como o afastava quando ele queria o ajudar, como ele simplesmente não sabia mais se podia ou não confiar nele, se era ou não importante para ele. E como saíra de uma vez na sua vida. E de que havia tentado voltar. Mas acabara conhecendo Stanley. E felicidade. Essa parte ele teve que ocultar e foi o que mais doeu. Porque Stan o fazia feliz. Ele simplificou com um “Tivemos nossos altos e baixos, mas estamos juntos desde então”, foi como encerrou a breve narrativa. E aquilo era injusto demais. Injusto demais com Stan. Era Stan quem vinha o fazendo feliz desde que podia se lembrar. E era Stan que estava se esforçando tanto, trabalhando tanto, gastando tudo que ganhava e todo o tempo que tinha, sacrificando tudo para trazer Stanford de volta. Justo Stanford, que havia sido tão egoísta com o irmão. E que se metera nisso e os metera nisso. Era injusto pensar em como, para a família, Stanley estava morto. E que “Ford” era uma boa pessoa. Não que ele fosse ruim, mas ele não era como Stanley. E todos só pensavam isso porque as vezes Stan fugia um pouco do papel. Era injusto.
— Desde a faculdade. – Ela comentou. – Faz um bom tempo, não? Imagino que se conheçam muito bem.
— Uhun, muito.E já faz um bom tempo que... Vivemos juntos. – Ela sorriu, assentindo.
— E vocês são felizes juntos, Fiddleford? – Fidds sorriu Aquele sorriso sincero, tocado, comovido, grato. Não era como se ela precisasse de uma resposta maisor depois disso, lendo cada sentimento estampado ali, naquele sorriso que parecia tão puro, tão genuíno e cheio de emoções, de sentimentos. Mas ele fez questão de dar uma resposta verbal, acrescentando:
— Stan é a minha felicidade. – E continuou apenas sorrindo por mais alguns segundos. Perdido em todas as boas lembranças. Mas logo pigarreou. Essa não era bem a pergunta, afinal. – E, bem, eu tento... Eu acho que o Stan também...
— Ele parece estar bem feliz. – Ela disse e a troca de olhares foi gentil.
— Obrigado. – E pensou um pouco. – E também, sabe, por tê-lo aceito... Ele, ele merece... – Ela sorriu, se acomodando melhor na cadeira.
— Não vou negar que fiquei um pouco surpresa. E curiosa. Esse tipo de coisa é... Novo, para mim. Mas, no final das contas... Eu não negaria um filho meu. Eu já fui uma péssima mãe uma vez, Fiddleford. – Ela disse, um pesar assombroso pairando em cada silaba. – Não me permitiria ser novamente. – Fiddleford negou com a cabeça e segurou as mãos da senhora, compreensivo.
— Não foi sua culpa. E eu... Tenho certeza que Stanley concordaria com isso, que a senhora foi uma mãe maravilhosa para ele. – E então ela pareceu um pouco mais seria. Não necessariamente seria. Fiddleford não soube explicar.
— Chegou a conhecê-lo, Fiddleford?
— ... O suficiente...?
— Então ele e Stanford tinham contato? – Ela sorriu e Fiddleford já estava sufocado naquele mar de mentira. Como podia continuar com isso? Onde Stan estava?!
— Não exatamente... Eles se encontraram uma vez e... Bem... O Stanley é uma boa pessoa, não? – Ela assentiu.
— Ahh, ele é. – “Ele é!” Fiddleford havia dito isso! Péssimo uso de palavras, péssima sentença, péssimo... Tempo verbal? Ele simplesmente havia perdido a linha! Stanley era uma boa pessoa. Ou era como a frase deveria ter sido. “Droga!”. – Bom, o importante agora é a felicidade de vocês. Stan é um bom marido? – Fez que sim.
— Ele é um homem maravilhoso. Desde que estamos juntos eu vejo as coisas de um jeito diferente e o mundo não parece mais um lugar tão sombrio. Ele me faz feliz. Ele é a luz da minha vida.
— E um homem de sorte também, pelo visto. Você realmente o ama, não é, Fiddleford?
— Com tudo que posso. – Foi a vez de ela dar-lhe uns tapinhas carinhosos na mão.
— Então fico feliz por vocês. É o que importa.
A conversa se estendeu por mais um tempo, casualmente. A mãe de Stan contou a Fiddleford um pouco sobre a infância dos meninos e coisas da espécie. Dos velhos tempos, da família. Ele falou do trabalho com computadores e ela ficou feliz por ele poder ser uma boa influencia para Alan, que já seguia esse caminho com entusiasmo. Falaram dele e da esposa também, do casamento e depois de Shermie. Fidds fez o possível para evitar aquele mar de mentiras, mas acabava tendo que improvisar uma ou outra entre um assunto e outro. Vez ou outra. Não era bom nisso. Isso era coisa que o Stan fazia bem, não ele. E Stan, por sua vez, conversava entusiasmado com um grupo de convidados, contando histórias mirabolantes sobre mistérios a eles, a pedido do sobrinho que, junto da esposa, também as escutavam interessados. Fiddleford quase conseguia ver o marido surgindo com alguma mala cheia de bugigangas como as da Cabana do Mistério, tentando vendê-las, porque era isso que ele usualmente fazia e fazia bem! Stan era uma espécie de vigarista, afinal de contas, sem duvidas. Mas era também adorável e, apesar de ele ser um especialista no que fazia, não era necessariamente por mal. Ele era lindo. E estava lá, sorrindo e contanto estórias e mentiras. Ele era lindo. Apesar dos apesares, de estar tenso, de estar frágil, de não querer muito estar ali, porque era complicado demais para ele, seria exaustivo demais para ele, sentimental demais e ele estava já tão frágil. Mesmo com tudo isso ele sorria e parecia o homem mais entusiasmado do mundo. Seu senso de humor, um pouco duvidoso, certamente, também fora uma das coisas que cativara Fiddleford desde o começo. E ele amava aquele sorriso e depois que aquilo acabasse ele ia beijar todo o rosto de Stan até toda a dor ir embora. Porque era o mínimo que ele merecia. Stan era sua felicidade. A senhora notou isso, aquele sorriso sincero que Fiddleford mantinha no marido, o olhar ainda tão apaixonado, como se eles ainda fossem dois adolescentes e aquele era um sentimento puro. Verdadeiro. E ela apreciava isso e ficou feliz por eles. Era um sentimento puro. Lindo.
— Eu não te conheci antes, Fiddleford, mas você ainda olha para ele como um adolescente apaixonado.
— Talvez eu seja. – Ele disse, mal prestando atenção. Talvez não tão “adolescente”, mas ainda sim “apaixonado”. Perdidamente apaixonado. Stan olhou para ele e deu aquele sorriso. Ahh, aquele sorriso! Piscando também em seguida. E aquilo sempre mexia com ele, fazia seu coração transbordar, transbordar de alegria. Stan fazia tudo ser bom de novo e ter aquele gosto de felicidade. Ahh, se não fosse por ele... Logo ele perdeu o foco. Porque Stan fazia isso com ele. De o levar ao seu limite e depois o puxar de volta. Com um simples sorriso. Não era a toa que Tate havia descoberto sobre eles. Fiddleford olhava para Stanley com todo o amor do mundo. Sem perceber. Ele só não conseguia controlar isso. A senhora sorriu assentindo.
— E o Tate parece um bom rapaz... – Ela continuou e Fidds percebeu que seria um pouco mal-educado da parte dele continuar um dialogo com ela com o olhar completamente colado em Stan. Contato visual, passar confiança e demonstrar interesse era o mínimo que podia fazer enquanto conversava com a mãe do marido, mesmo estando um pouco desconfortável. Não por ela, mas pelas mentiras todas em si. Quando, foi voltar o olhar para ela, sorrindo, percebeu uma mulher aproximando-se de Stan de uma forma nada sutil. Ela lançou um sorriso para ele. Aquele sorriso que Fiddleford conhecia tão bem porque Stan costumava o usar com ele. A mulher tinha seios fartos e estava vestida como uma típica cigana americana. Isso era apropriado para uma festa de casamento? Bem, Stan também parece ter notado a primeira parte, uma vez que não a olhava diretamente no rosto e isso fez com que Fiddleford esquecesse completamente que seria educado voltar a atenção à conversa que estava tendo. Esperou mais alguns segundos, respirando fundo e mordendo o lábio inferior, um pouco irritado com aquela situação, quase levantando da mesa. E ele definitivamente quase levantou porque Stan retribuiu o sorriso! Aquele sorriso que ele usava quando flertava, que ele usava quando flertava com Fiddleford e ele o usou para ela! Também se aproximando e Fiddleford sentiu o sangue ferver e uma irritação crescente que ele desconhecia. O Que Stanley estava fazendo?! Ele era comprometido! Era o seu Stan, não é?! Por que ele cederia às insinuações daquela mulher?! Tentou respirar fundo e manter a calma, mas a cena por si só já era suficiente para lhe tirar completamente do sério. – Está tudo bem, Fiddleford?
— Perfeitamente bem! – Respondeu de antemão, o olhar ainda focado nos dois, completamente incomodado. Ela, percebendo a sua distração, prosseguiu com os assuntos diversos:
— Então, o Stan cozinha para vocês?
— É, ele cozinha. É claro que ele cozinha! Ele sempre faz “receitas ciganas de família”. – Soltou, ainda irritado. Porque, claro, Stan dizia que era tão importante, que cozinhar é uma coisa especial e, claro, ele sempre fazia isso para Fiddleford com amor e carinho e agora isso?! Ficar flertando assim?! Com uma mulher?! Com Fiddleford bem ali?! Ele estava se questionando seriamente quais eram os quesitos para alguma coisa ser “importante” para Stan. – Humpf. – Soltou, virando o rosto, tentando ignorar a situação. – No nosso primeiro encontro ele fez uma receita cigana de família. Estava ótima e ele disse que cozinhar... – Então a fixa caiu e Fiddleford parou subitamente de falar. Stanford não cozinhava. E essa, como todas as outras perguntas, havia sido uma daquelas insinuações. Sua irritação do momento o deixaria completamente cego e vulnerável e ele havia acabado de confirmar todas as teorias mirabolantes que aquela mulher tinha na cabeça, fossem elas quais fossem. Molhou os lábios e até esqueceu, momentaneamente, da situação com Stan e aquela mulher, porque ele havia dado um passo realmente errado dessa vez e podia ter estragado tudo por um impulso de ciúmes. “Droga, Fiddleford!”. Olhou para ela, que sorria inocentemente.– D-Digo...
— Fico feliz que ainda lembre disso. Parece que guardou com carinho. Você sabe o que cozinhar significa, Fiddleford? – Stan já havia lhe perguntado isso algumas vezes, mas sempre desconversava depois. Então era mesmo algo importante. E Fiddleford tento focar-se um pouco naquilo, esquecendo da cena que provavelmente estava acontecendo logo ali e tentando ignorar aquela revira-volta que seu estomago dera porque ele provavelmente estragara tudo. Negou com a cabeça. – É um ritual de doação, carinho e amor. Você é especial para ele, Fiddleford. De uma forma imensurável.
— Ohh, Stan... – Voltou a olhar para a cena. Agora ele sorria tranquilamente, de forma simpática, nada mais. Estaria exagerando? Não conseguiu não se sentir um pouco idiota por aquilo tudo, enquanto sentia o coração ser aquecido aos poucos, por felicidade. É claro que ele sabia que era especial e importante, o quanto era, mas algo assim era definitivamente a prova certa de que ele sabia o que era felicidade e, céus, como era amado!
— Ah, bem, e, se você não se importar, Fiddleford, eu fiquei um pouco curiosa com uma coisa... – Respirou fundo novamente. Ela iria fazer mais alguma pergunta. “Vamos lá, Fiddleford! Pense no que dizer dessa vez, não dê mais um fora extraordinário como esse!”. Engoliu em seco e mais um suspiro. Ponderou consigo por alguns segundos. Não devia ficar se preocupando tanto, que só deixasse o assunto fluir. Provavelmente era capaz de ser alguma pergunta sobre sexo. As pessoas tendiam a ficarem curiosas sobre isso quando descobriam sobre o relacionamento. Era diferente, afinal, tudo bem, talvez não fosse diferente com ela, de um jeito ou de outro. Mas, bem, não tinha porque ficar cogitando a coisa toda. Entrelaçou os dedos de uma mão na outra e fez que sim com a cabeça.
— Sobre? – Uma pausa.
— Onde está o Stanford, Fiddleford? – E tudo parou. Ele não conseguia ter uma reação sequer a isso. Nenhuma que fosse. Sua perna começou a balançar, irrequieta. Porque que raios de pergunta era essa?! Não tinha como reagir a isso! Que ela suspeitava Fiddleford já sabia, mas nunca imaginou que ela seria tão direta! E ainda mais continuando com aquela expressão calma, completamente impassível. Ele estava em pânico e, pelos céus, onde estava Stanley agora que tanto precisava dele?!
— Desculpe, o Stanford... Ele está ali. – Apontou na direção de Stan, que ainda falava com alguns convidados. – Conversando com o Alan e a... – Continuou, tentando parecer convincente. E se fosse só isso mesmo? E se a pergunta não tivesse nada demais, nenhuma armadilha? Tentou ser o mais convincente que podia e ela assentiu.
— Claro.
— Claro... Ah...
— Então! – Shermie disse animado, aparecendo do nada e jogando-se em uma das cadeiras vazias, a gravata já desfeita. Fiddleford suspirou aliviado, ou quase isso, ainda suando frio. – Então, mãe, o Fiddleford não é mesmo uma pessoa maravilhosa, como eu havia dito? – Ele piscou para Fidds, que ainda não processava as coisas bem, os olhos focados na senhora, a boca meio aberta.
— Ele é um homem bom, Shermie. – Ela respondeu com casualidade. – É realmente um prazer tê-lo na família, Fiddleford. – Ela estendeu as mãos e segurou as dele, parecendo sincera. Ele fez o possível para corresponder o sorriso, apesar de ainda estar bem tenso. E Shermie parecia satisfeito com a situação toda. Ele se alongou na cadeira, bocejando.
— Sobre o que estavam falando?
— Receitas ciganas. – A mãe respondeu, ele fez que sim com a cabeça. E Fiddleford também bocejou, agora percebendo o quanto tempo já fazia que estavam ali. E Stan finalmente apareceu, parecendo bem mais descontraído e leve que antes. Ahh, ainda bem, foi a primeira coisa que Fidds pensou, olhando para o marido com carinho, mas então lembrando daquela breve troca de sorrisos que Stan tivera com aquela mulher e se emburrou.
— E como está o tempo em família? – Ele perguntou. – Fidds, tudo bem?
— Claro.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. – Respondeu, seco. Stan passou um dos braços por cima do ombro do marido. – Não é nada, Stan.
— Fidds, me diga... – E então aquela mulher apareceu. E massageou os ombros de Stan de forma insinuadora. E Fiddleford, como se possível, ficou ainda mais irritado com a situação, que achava já ter esquecido. Mas aquilo estava bem ali! E ele ia acabar agredindo era Stan se ele correspondesse os flertes de novo!
— Não quer vir dançar, Stan~? – Ele mal teve tempo de olhar de volta para ela quando Fidds o puxou mais para si, o fazendo envolvê-lo.
— Ele está acompanhado. – Respondeu direto, acomodando-se no peito do marido. Stan corou de leve e Shermie gargalhou, enquanto a mulher se afastava, entre confusa e irritada. A mãe deles também riu um pouco.
— Respondendo você, Stan, querido, bem. Seu marido parece uma pessoa maravilhosa.
— Eu não sabia desse seu lado possessivo, Fiddleford. – Provocou Shermie, ainda rindo. – Ele é uma boa pessoa, mãe. Melhor que você, Ford! Ele parece ter algum apreço ao que “família” significa. – Stan não soube como responder. Tanto por Ford não saber mesmo o que família significava, tanto pelo acesso adorável de ciúmes de Fidds, que ainda estava emburrado, deitado no seu peito. Ele resmungou um “bah” e deu de ombros, deixando por isso mesmo, afagando os cabelos de Fidds, que foi, aos poucos suavizando as expressões, com carinho. – uh, Tate é um bom garoto.
— Alan também.
— Argh, Stanford, olhe para nós! Como estamos velhos! – A mãe deles sorriu, negando com a cabeça.
— Vocês sempre serão meus garotinhos.
E a mesa ficou em um breve silencio por alguns minutos. Os ruídos vindos aos redor compensando aquilo. Fiddleford já estava mais calmo e aceitava o cafuné sem cerimônias. Shermie bebia um pouco, trocando palavra ou outra com a mãe e Stan estava se sentindo um pouco mais leve. Um pouco que fosse. Quando o assunto foi começar na mesa novamente a noiva apareceu e chamou a avó para participar do momento em que ela jogaria o buque. Shermie comentou como “Arrume um pai legal pra gente, mãe” e a senhora se deixou levar pela moça, tendo a promessa de Stan que conversariam quando ela voltasse. Os minutos pareceram passar bem rápido depois disso.
{...}
— Sua família é adorável, querido. – Sua mãe comentou. Ela não havia pego o buque e havia voltado rápido. Shermie e Fidds agora jogavam conversa fora então ela havia pedido ao filho se não podiam conversar um pouco também. Ele certamente hesitou, mas teve que acabar cedendo, no final das contas. Era inevitável. Agora, os dois fora do salão de festas, supostamente “tomando um ar”, ele acabara esquecendo como era “improvisar” e perdido completamente a noção de como era ser o Ford. Haviam sido anos pensando que a família o odiava. Anos afastado, sem ninguém, sozinho. Achando que não passava de um erro, uma grande falha. E então tantas coisas haviam acontecido e ele estava ali agora, com a sua família, passando momentos, fazendo lembranças, sendo importante. Como Stanford, obrigou-se a lembrar e isso o machucava. Porque talvez se ele não estivesse fingindo ser o Stanford as coisas não estivessem assim. Havia sido convidado e, de fato, a família do Stanford era adorável. Stanley nem devia estar ali, se fosse ser franco consigo mesmo. Era isso que estava o matando. O afeto familiar todo que ele considerava tão importante. Talvez para Stanford não fosse nada, mas para Stanley era. E ele não podia fazer nada em relação a isso. – Stan?
— Uh? Ah, obrigado, mãe. – Ele suspirou, as luvas começando a incomodar mais do que antes e o dedo fantasma parecendo estar, aos poucos, ganhando vida própria. Ele havia derrubado dois copos na mesa, o dedo, contra a sua vontade. Olhe havia olhado para Fiddleford as vezes que o incidente ocorrera e o outro acabou sorrindo culpado, já sabendo a tendência de suas criações a voltarem-se para a destruição.
— Stan, querido... Tem algo te incomodando, não tem? – Ela ternamente pousou a mão no ombro do filho.
— Mãe...
— Você sabe que pode me contar, não é? – Engoliu em seco, os olhos ficando subitamente úmidos demais. Ele tinha que ser forte. Vinha sendo, não é? Não era hora de desmoronar.
— Não é nada, mãe. – Esfregou os olhos. – Estou preocupado com a Cabana, não costumo ficar longe do trabalho por tanto tempo.
— Stan...
— Mas,bem, — Ele tentou mudar o foco. – A senhora e o Fidds conversaram um pouco, não? Falaram sobre o que? Estava me constrangendo com memórias da infância pra ele? – Brincou. Tudo bem. Ele podia fazer isso. Ele precisava.
— De certa forma. – Ela cruzou os braços, um sorriso nostálgico acompanhando o olhar perdido. – Falamos um pouco sobre a sua infância. – Ele assentiu. – E falamos também de receitas de família. – Stanley congelou. Mas não tinha porque se preocupar, não é? Fiddleford sabia, talvez melhor que ninguém, que Stanford era um péssimo cozinheiro. Péssimo. Ele não ia ter se deixado levar nesse ponto. – Eu disse a ele que você é assim desde sempre. Um homem de personalidade.
— M-mãe... – Era agora o momento que ele tinha que cortar isso. Dizer a ela, de maneira rude, que o Stanley estava morto. E, acrescentar, como se fosse mesmo Stanford, em um tom ressentido e levemente ofendido, que não era certo o que ela estava fazendo. De tentar suprir a perda de um filho no outro só por eles serem gêmeos. Dizer que Shermie tinha sorte por não ter um gêmeo. Era agora que ele dizia tudo isso e a machucava e se machucava, mas era para o bem dela. Era a hora que ele fazia isso porque era a coisa certa a fazer. Ou era a hora que ele começava a chorar. – Mãe... – Ele recomeçou, sem muita certeza de como deveria prosseguir, tocado, sensível, pela primeira vez na vida cansado de mentir. As lágrimas estavam todas ali, formadas, prontas para escorrer. Respirou fundo mais de uma vez e olhou para cima, tentando conter-se. Engoliu em seco e molhou os lábios. – Eu sou um gênio, não preciso de personalidade. Stanley tinha “personalidade”. Eu não sou o Stanley, mãe. – Precisava ser forte. Levantou a mão, espalmada. Seis dedos. E um obrigado silencioso a Fiddleford.
Ele não conseguiu ler as expressões da mãe como devia. Ela parecia neutra, de certa forma. E então parecia como ele: Se esforçando para não chorar. Precisava ser forte. Talvez precisassem. E ela demorou a dizer algo, aquele silencio o matando. Porque, ah, estava o matando! E então uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto dela enquanto ela dava um sorriso gentil, secando-a. Ela não pediu desculpas por, supostamente, confundir os filhos. O que possivelmente queria dizer que ela não se arrependia. Mas também não insistiu com teorias mirabolantes sobre estar falando com Stanley ao invés de Stanford. Ela simplesmente o abraçou, assim, com tudo que podia. Com todo o carinho de uma mãe. Com todo o carinho do mundo. E Stan só precisava ser forte. Só precisava ser um pouco forte, que fosse. Mas, com tudo que já acumulara na vida, derramar uma lagrima ou duas, sem entender nada, não foi o seu maior pecado.
{...}
— Promete que vocês vem mais vezes? – A mãe perguntou. Apesar da falta evidente de diálogos ela não se afastou dele o resto dos últimos minutos que ficaram na festa. Enfim a hora da despedida havia chego e o abraço que ele o ofereceu, depois de ter se despedido de Fiddleford e Tate, ainda era acolhedor.
— É, vamos ver. – Foi o que conseguiu responder, sorrindo. Depois do abraço acenou em despedida, segurou a mão de Fidds e junto de Tate começaram a caminhar em direção ao carro.
— Stan! – Ela chamo0u e ele virou um pouco a cabeça. – Eu te amo. – Sorriu.
— Eu também te amo, mãe. – Fiddleford sorriu comovido, tanto quanto a mãe do marido e o próprio Stan.
— Eu dirijo. – Tate anunciou e Stan lhe entregou as chaves do carro, sem nem perceber. De fato, muitas coisas haviam acontecido.
Quando entraram no carro ele e Fidds se acomodaram nos bancos de trás e ele olhou para o retrovisor: Não estava tão velho quanto vinha pensando. Encontrar a mãe havia o feito perceber isso. Tinha, de fato, um punhado de fiso brancos, uns aqui e outros ali, mas não era como se os castanhos não fossem mais os dominantes. Não estava totalmente grisalho, como costumava ver quando se olhava no espelho. Assim como Fidds continuava com os cabelos claros, mas não totalmente brancos. Sua imaginação vinha lhe pregando algumas boas pressas. Até tinha expressões cansadas, mas não estava velho ainda. E isso o animou um pouco. Sentiu o braço de Fidds passar sobre seus ombros, envolvendo-o. Instintivamente descansou a cabeça no ombro do marido, os olhos fechados.
— Como você está, querido? – Grunhiu baixo, acomodando-se melhor.
— Cansado, eu acho. – Em um finalmente, tirou as luvas. – Obrigado.
— Não precisa agradecer. Como foram as coisas com a sua mãe? – Tate arrumou o retrovisor e ligou o carro. –Desculpa, eu cometi alguns deslizes e...
— Ela sabe, Fidds. Não importa o quanto tentamos. Ela simplesmente sabe. Mas acho que consegui uma trégua. – Fidds assentiu, compreensivo. – E você, garoto? Conseguiu se divertir um pouco, mesmo com todo o tumulto? – Já havia passado, não? Sem focar nisso. Por um bom tempo. Precisava de uma folga. Tate assentiu sorrindo, pelo retrovisor. – E você, senhor Fiddleford Hadron Mcgucket Pines? Agredindo os convidados com taças de champanhe? – Fidds corou, mesmo tendo percebido o tom brincalhão de Stan, que veio acompanhado daquele sorriso cansado.
— Eu não deixaria ele te fazer mal! Guarde minhas palavras, Stan Pines! – Ele disse, tirando o braço dos ombros do marido, moldando seu rosto com ambas as mãos. – Eu não vou deixar ninguém te machucar! Nunca! E é claro que eu vou agredir qualquer um que tentar encostar um dedo em um fio de cabelo seu! – Stan sorriu comovido. Ele sabia. É claro que ele sabia. Desde aquela noite. Era especial, ele jamais esqueceria. Mas ele adorava quando Fiddleford sussurrava isso. As vezes acompanhado de um “Eu te amo” ou seguido de um “Você é meu”. Ou mesmo quando dizia isso dormindo. E Stan só podia sorrir, enquanto sentia o coração aquecido. Porque era recíproco e ele jamais esqueceria. E ele sempre, como agora, sussurrava de volta “Obrigado” e sabia que tudo estava bem.
Depois de alguns minutos de estrada Tate notou os pais ficarem quietos demais. Olhou pelo retrovisor e teve a teoria confirmada: Eles dormiam, tranquilamente. O pai com a cabeça encostada no banco, emio caída para o lado, apoiada na cabeça de Stan, que descansava no seu ombro, meio curvado sobre o seu peito, a boca aberta, babando um pouco. Tate sorriu para a cena. Shermie tinha razão, ele tinha sorte: Eram uma família adorável.
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