Apreciação Perpétua
15 Capítulo 15
Notas iniciais
E, certamente, eles não conversaram.
Lentamente a semana foi morrendo e o clima entre eles estava bem mais que estranho e muito mais que “péssimo”. Durante o dia ficavam na Cabana do Mistério. Stan com os turistas, Fiddleford com o caixa. Sem trocar comentários, sem quaisquer diálogos. O silencio entre eles sendo, atipicamente, pesado demais. Não faziam as refeições juntos e, quando estavam no porão trocavam somente comentários sobre o que era estritamente necessário. Porque parece que Stan vinha preferindo levantar para pegar a caneta a pedir para Fiddleford passá-la para ele. E, para dormir, Stan sempre virava para o outro lado. Nem insinuações, nem provocações, nem beijos de boa noite nem “Eu te amo” trocados. Eles pareciam dois estranhos, mais do que já foram algum dia, por isso era tão difícil de lidar. Nunca haviam sido estranhos desse jeito, quase não havia passado pela fase de desconhecidos. Por isso era tão... Por isso doía tanto.
Foi numa daquelas terças-feiras típicas que Fiddleford resolveu tomar a iniciativa. Aquele silencio peculiar já estava o sufocando. Gostava tanto de ficar em silencio com Stan, como quando sentavam no final de um dia cansativo e, além de dividir um chocolate quente, assistiam as estrelas. Os momentos de silencio eram sempre maravilhosos quando compartilhados com ele. Mas não assim. Desse jeito o machucava. E tinha certeza que machucava Stan também. Demais para deixar as coisas assim. Queria voltar a ver Stanley sorrindo. Queria seus beijos pela manhã, pela tarde, pela noite. Queria abraçá-lo, confortá-lo, tê-lo. Fazê-lo feliz. Porque, esse simples ato de fazê-lo feliz gerava a sua própria felicidade.
A Cabana do Mistério continuava a não funcionar de terças. Mesmo Stan já tendo um punhado de cabelos brancos e estar com a ideia de mudar o uniforme. Mesmo Fiddleford já tendo os seus próprios fios brancos também e estivesse começando a deixar a barba. Finalmente o entendia sobre isso. O tempo parecia mesmo estar passando. Rápido demais. Por estarem com o dia “livre”, o que nunca vinha a ser “livre” de fato, haviam finalmente conseguido sentar juntos para um café da manhã demorado e preguiçoso. Eles costumavam fazer isso, as vezes, conversando banalidades, trocando olhares, sem querer sair da mesa. Mas obviamente não havia sido assim desde aquela noite.
— As panquecas estão deliciosas, Stan! Como sempre. – Arriscou. – Você cozinha tão bem... –Acrescentou e o outro levantou os olhos do jornal, os olhares se cruzando, Fidds se enchendo de esperança. Ele o encarou sem nenhuma expressão e bebeu um gole do café, sem responder, voltando às paginas. Fiddleford suspirou e enfiou mais uma garfada na boca, sentindo agora um gosto um pouco amargo. A culpa já não era pesada o suficiente? – Ah... Temos alguma atração nova essa semana? – O outro negou com a cabeça. – Olha, Stan... Olha, eu sei que você deve estar irritado comigo e eu não estou dizendo que você não tenha motivos. – Pousou os talheres sobre o prato e o empurrou na mesa, cruzando os braços, sem jeito. – Mas você podia pelo menos... Sabe, podíamos conversar e... – Engoliu e seco e praticamente murmurou as próximas palavras. – Tentar consertar as coisas, eu não sei... – Stan suspirou e fechou o jornal, passando a fitar o namorado diretamente. Notando que havia conseguido a atenção que precisava, simplesmente não soube como prosseguir. – Stan, eu... Desculpa, eu não sei por que eu... De verdade, não foi intencional...
— É claro que não foi. – Ele disse, sarcástico.
— Stan...
— Fiddleford. – Fidds parou de falar, ainda arrependido, encolheu-se um pouco. – Ia chegar um momento que eu ia acabar te perguntando isso, mas eu nunca imaginei que seria nesse contexto. – Ele entrelaçou os dedos de uma mão na outra, apoiando-as na mesa. – Você e o Stanford... Tinham alguma coisa, não é? – Fiddleford engoliu em seco e encolheu-se um pouco mais, assumindo aquilo como uma culpa ao escutar a pergunta do namorado. Stan teve suas suposições tragicamente confirmadas. – Eu imaginei...
— Stanley, por favor me escute! Eu e Stanford chegamos a... Nos relacionar, é verdade, eu não mentiria para você! Mas isso terminou. Pra mim, pra ele, muito antes de eu e você nos conhecermos. Escuta, eu jamais...
— O que? Está me dizendo que eu não sou um substituto do Stanford?
— O que?! Não! Claro que não! Stanley, eu nunca...! Você acha mesmo que, pra mim, Stan, você é só um substituto?
Stan respirou fundo mais uma vez, ponderando. Lembrando detalhadamente de todas as vezes que Fiddleford estivera ali para ele. Todas as vezes, desde o começo. Quantas não haviam sido, até agora? Que havia o confortado, que lhe cedera o ombro, que estendera a mão para ele. Sempre para ele, não para Stanford. Como Fidds o amparara quando se abrira para ele, como o aceitara desde o começo, como o ajudara e vinha o ajudando desde então. De como o dera uma família. Não podia continuar fazendo isso com ele. O ignorando, o culpando. Não podia ignorar tudo que havia acontecido entre eles, tudo que existia entre eles pelo maldito fantasma do irmão. Mas mesmo assim machucava. Mesmo assim era difícil de acreditar... Ele compreenderia melhor se fosse com qualquer pessoa, não com Stanford. Porque Stanford era prioridade. E ele o que sobrava, de certa forma. Não queria ser visto como a sombra do irmão, simplesmente por terem todas as semelhanças físicas possíveis. E... Por mais incrível que isso pudesse parecer, quando estava com Fiddleford, não era. Não se sentia assim. Era só ele. Só... O Stanley.
— Desculpa, Fidds... Eu não... Não foi minha intenção. Eu sei que, pra você, especialmente pra você, eu não sou um substituto do Ford. Mas, se é assim... Por que você o chamou? Por que você... Justo naquele momento... Se não sente a falta dele, se ele não significa mais nada pra você, por que você...
— Estamos trabalhando demais, Stan. – Foi o mais sincero que pode, tentando sair um pouco da defensiva. Se queria que as coisas ficassem bem tinha que esclarecer tudo. – Essa tem sido a nossa prioridade e eu sei que trazer Stanford de volta é a nossa prioridade, mas andamos focados tanto nisso... Eu estava tenso, preocupado demais, pensando demais no portal e em tudo... Eu devia ter te avisado, desculpe. – Finalmente se soltou do próprio abraço e buscou a mão do namorado com a sua. – Eu notei que você também o chamou. – Comentou com casualidade, o corpo de Stan já se preparando para “levantar e afastar”, instintivamente, na defensiva, embora estivesse meio petrificado com aquilo. Mas viu que a atitude de Fiddleford não parecia ser agressiva ou de repulsa e ele não estava se afastando. Ele parecia... Compreensivo? – Eu tenho notado quanto você está tenso ultimamente, Stan. Eu sei que as coisas estão difíceis e que tudo isso é por ele e eu não quero parecer egoísta, mas não podemos viver por ele. Estamos nos sobrecarregando, Stan. Você está se sobrecarregando, está exigindo demais de si mesmo. E isso não tem como te fazer bem. – Explicou com carinho. E, de certa forma, Fiddleford estava certo. Stan sentiu a mão dele apertar um pouco mais a sua. — E... Com o Stanford ou sem ele... Eu só quero poder te fazer feliz e ser feliz ao seu lado, Stanley. Nada além disso, nada mais complicado.
— Fidds...
— Eu realmente espero que você possa me perdoar, querido. – Stan respirou fundo e permitiu-se pensar mais um pouco. Fidds não o apressou, fitando-o com aquele olhar doce, ainda um pouco arrependido pelo transtorno todo. Fidds não havia mentido. É claro que ter Stan tão parecido com Ford não havia ajudado e havia contribuído para aquilo, certamente. Mas já não sentia nada por Stanford. Se ele ainda tentava todos os dias trazê-lo de volta, era por Stan. As vezes, quando via o namorado assim tão abalado pelo irmão sentia que podia simplesmente socar a cara de Stanford sem problemas, por fazê-lo sofrer tanto assim. Se tinha alguém por quem estava se dedicando e não se importava de gastar uma vida era Stanley. Sentiu o aperto na sua mão ser correspondido.
— Não sou mesmo um substituto do Ford...?
— Não, Stan! Jamais...
— Então case comigo. – Fidds piscou algumas vezes, perguntando-se se havia escutado certo.
— Isso foi... Um pedido? – O outro assentiu minimamente, sem encará-lo.
— Eu ia fazer do jeito certo, sabe, com um anel e a coisa toda. Mas eu... Eu preciso ter certeza, Fidds. Eu não quero achar que é um erro, que você acha um erro. – Isso magoava um pouco Fiddleford. Mesmo com tudo que haviam vivido, mesmo depois de todos esses anos Stan ainda “não tinha certeza” sobre os sentimentos do namorado? Mas não podia culpá-lo. Stanford certamente deixara alguns traumas no irmão que não desapareceriam da noite para o dia. Mas eles iam continuar tentando. Com tudo que podiam. Era o que eles sabiam fazer. Fidds sorriu ao se levantar, aproximando-se do amado.
— É claro que eu aceito, Stan. Nada poderia me fazer mais feliz do que casar com você. – O outro sorriu, completamente emocionado, respirando fundo. – Mas você sabe que não podemos oficializar nad... Woah! – Teve de deixar a frase suspensa quando se viu subitamente no colo de Stan.
— Shh, nerd! Pro resto damos um jeito, é só deixar comigo! O importante é...
Queria contar-lhe. Contar tudo que não contara. Aqueles pequenos detalhes importantes para si. Fiddleford sempre o ouvia e guardava seus segredos e sempre estava tudo bem e, da mesma forma que Fidds havia lhe contado sobre seu relacionamento amoroso com Stanford, eventualmente, algum dia, ele contaria do seu também. E de todos os seus pecados. Mas não sabia se essa era a hora. Olhou para ele, que tinha aquele brilho no olhar, ainda encantado com a ideia do casamento, sorrindo docemente e notou que o tempo também passara para ele. Os recém-adquiridos fios brancos começavam a misturar-se aos outros, as marcas da idade que vinham aos poucos, o semblante cansado. O tempo também passara. E um dia lhe contaria de todos os seus pecados.
Mas esse dia não era hoje.
Porque, naquele momento, tudo que queria era poder apreciá-lo mais um pouco. Aquele sorriso adorável, pedindo que, por uma vez, o tempo não passasse rápido demais. Porque agora ele finalmente entendia aquelas vezes que Fidds dissera “Eu não poderia viver sem você”. Era real. Era recíproco.
— Stan? – Foi tirado dos seus devaneios por aquela voz que doce, com aquele sotaque que tanto adorava.
— Uh?
— O que é importante?
— Ah! – Deu aquele sorriso largo. – O importante é que eu te amo! – Colocou-o no chão com cuidado. – Espere aqui.
— Aqui?
— É! Não se mova! – E saiu apressado da cozinha. Fidds riu, sem entender e se apoiou na mesa. Stan voltou depois de alguns minutos e muitos barulhos no andar de cima. – Você se mexeu! – O outro riu e o próprio Stan não conseguiu evitar sorrir. Aproximou-se do amado e o puxou para o meio da cozinha, segurando-lhe as mãos com carinho. – Eu estava guardando isso faz um tempo, esperando o “momento certo”. – Confessou. – Mas dizem que “Não há momento melhor que o agora”, não é? – E se ajoelhou em um dos joelhos.
— Ohh, Stan... – Pigarreou e, ainda de pijamas, ainda de joelhos, ainda segurando suas mãos, prosseguiu:
— Fiddleford Hadron McGucket. – Disse, com extremo carinho em cada uma das palavras, lembrando da primeira vez que ouvira Fiddleford pronunciar o nome. Ele guardara isso, é claro que sim. Como todas as pequenas coisas. Agora eles já tinham cabelos brancos, a vida estava passando e eles estavam se esforçando para continuar vivendo-a de um jeito simples, juntos. Talvez fosse hora de deixar a adolescência no lugar dela, junto de todos os fantasmas que ainda vinham o assombrar de vez em quando. Não queria desperdiçar mais nenhum momento. – Fiddleford Hadron McGucket, você poderia me dar a honra, — Do cós do pijama tirou uma pequena caixa aveludada.
— Céus, Stan... — Fiddleford levou ambas as mãos aos lábios, comovido demais, sem saber como reagir. Ele não esperava por isso. Mesmo com todas as vezes que Stan havia dito que um dia ainda o pediria em casamento (ele dizia muitas coisas, afinal), ele jamais havia imaginado que seria assim. Esperava algo como um comentário casual em um jantar comum de uma noite comum. Agora imaginar isso...?
— ... De se tornar meu marido? – Stan abriu a pequena caixinha aveludada, e, nela, descansavam as alianças. Céus, Stan havia mesmo...! Ele jamais imaginaria. Stanley Pines, de joelhos, com alianças, pedindo-o em casamento. Isso quase foi demais para o seu frágil e sensível coração. – Fiddleford Hadron McGucket, — Continuou, segurando a mão que Fidds instintivamente cedera a ele. – Pode me dar a honra de me fazer o homem mais feliz do mundo... Casando comigo? – E, enquanto colocava a aliança no seu anelar, ele fez aquilo. Deu aquele sorriso doce e esperançoso que sempre comovia Fiddleford, independente da situação. Porque era lindo e sincero e Stan. Fiddleford, um pouco mais que trêmulo, o coração tão disparado e comovido que não pode conter as lágrimas, assentiu, diversas vezes, proferindo, junto de todas elas “Sim”s tão puramente sinceros.
Stan levantou e abriu os braços, Fidds não esperou e correu para eles, abraçando-o forte. O coração transbordando de alegria, completando tudo que sempre lhes faltara. E o abraço demorou a ser rompido. Forte, acolhedor, cheio de sentimentos e promessas.
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