Apreciação Perpétua
12 Capítulo 12
Notas iniciais
O dia havia amanhecido chuvoso. A mesma chuva forte, intensa e constante que havia caído durante toda a noite.
Não por nada, mas não tinha como um dia assim ser produtivo.
O dia do lado de fora da janela fechada do quarto escuro estava cinza. As gotas grossas respingavam na janela e caiam pelo telhado, fazendo aquele barulho tão típico e inconfundível. Estavam no meio das férias e Stan só conseguia pensar no quanto aquilo era injusto. Poderiam estar na praia agora, trabalhando no Stan de Guerra, mas, ao invés disso, tinham que ficar trancados em casa por dias consecutivos. Não se lembrava de já ter visto uma chuva assim. E tudo que podia fazer era lamentar-se por isso.
E foi o que fez nas primeiras horas do dia, sentado perto da janela, admirando as gotas caindo pesadas, sem cessar, lamentando-se por mais um dia perdido. E, para melhorar a situação, estavam no meio de uma queda de energia. O quarto havia ficado escuro e nem ele nem Ford haviam se preocupado em descer para pegar velas. Para que, afinal? Iam continuar ali, morrendo de tédio, sem nada melhor para fazer.
Ao menos Ford parecia estar se divertindo, entretido profundamente em um dos seus livros dessas coisas todas que Stan não entendia e não queria tentar entender. Aquelas coisas de nerd. Na cama de cima, a que era obviamente dele, apoiava o livro nas pernas dobradas, segurando a lanterna com uma das mãos, virando as páginas que havia lido com a outra, completamente submerso no seu próprio mundo.
Quando decidiu que já havia sido suficiente o tempo de lamentação na janela para as gotas que não lhe davam a mínima, deitou no chão, apoiando as pernas no beliche, buscou sua raquete de baixo dele e começou a contar quantas vezes conseguia fazer a bolinha quicar. Relaxado, a mão apoiada na barriga, encarando o teto, sem se preocupar com qualquer coisa que fosse, enquanto o som da bolinha batendo na madeira era o único a ser ouvido. E os trovões e a chuva. Nunca imaginou que um dia chuvoso podia ser tão ruim assim. Depois de algum tempo Ford notou o incomodo do irmão, baixando os olhos do livro, sorrindo para ele.
— Stan.
— Uh? – Ele se espreguiçou na cama.
— Se divertindo?
— Ah, muito! – Respondeu prontamente, carregado de sarcasmo. Ford riu e voltou a correr os olhos pela página aberta. Acabou fascinado de novo e retomou a leitura, esquecendo-se do irmão, que fez uma careta, completamente emburrado. – Podíamos estar fazendo outras milhares de coisas agora.
— É, podíamos. – Concordou, sem dar-lhe muita atenção.
— Por que não fazemos? – Sugeriu com aquele tom de voz que Stanford sabia muito bem o que significava. Beijos e abraços e amassos longos e demorados que não terminariam só nisso. Possivelmente acabaria com ambos gemendo alto, quentes e desesperados um pelo outro. Corou com a ideia, tratando de não deixar aquilo ir adiante.
— Nossos pais estão lá embaixo Stan. Não podemos arriscar que eles nos escutem.
— Você é sempre assim... – Resmungou e voltou a prestar atenção na sua raquete. Ford se sentiu um pouco culpado e suspirou fundo. Percorreu os olhos pelo livro mais uma vez, agora não conseguindo mais prestar atenção nas palavras.
— Stan, você sabia que “O cérebro humano costuma gerar um sentimento específico para cada fato por causa das ligações que existem entre as células cerebrais.”? – Arriscou. Stan parou de bater a bolinha, fazendo uma expressão de completo desentendimento. – “Esse sentimento gera a liberação de peptídeos que provocam as sensações no corpo humano. Nosso corpo vicia-se nessas sensações, sejam boas ou más”. – O irmão continuou sem entender silaba que fosse.
— Fordsy, eu realmente queria fazer alguma ideia do que você está falando, mas eu não falo a sua língua nerd.
— Eu estou te explicando sobre o vicio. Que esse vício influencia para que nossa reação seja sempre parecida e que nosso corpo seja bombardeado com as substâncias que nosso vício pede.
— ... É o que?
— Eu estou dizendo que estou viciado em você, Stanley!
Completamente atrapalhado Stan sentou no chão, olhando para cima. Ford havia enfiado o rosto no livro. Nem todas as coisas são para serem ditas em voz alta, o gêmeo mais velho lamentava-se consigo mesmo, pois ele havia dito aquilo em voz alta. A chuva ainda batia, insistentemente, no vidro fechado. Não seria a primeira vez. Não era o primeiro descompassar de corações. Não era necessariamente uma declaração, já haviam tido as suas, mas, ainda sim, era alguma coisa.
— Você... O que?! Serio, Poindexter, o que você...
— Eu estou viciado em você, Stan. – Repetiu com coragem, deixando o livro de lado, olhando para baixo, encarando fixamente o irmão. – Mas é claro que você já sabe disso. – Corou, cruzando os braços, levemente irritado. — Stan levantou do chão e segurou na escada do beliche, engoliu em seco antes de colocar o pé no primeiro degrau, respirando fundo com as mãos segurando firmemente um dos próximos. No segundo degrau o ar já estava faltando e no terceiro pensou seriamente em desistir. Ford notou a dificuldade do irmão e, sabendo do seu medo de alturas, prontificou-se a ajudá-lo. Segurando seu braço foi o amparando, incentivando-o na subida. Uma vez em cima Stan respirou fundo algumas vezes, o outro dando-lhe tapinhas carinhosos nas costas. – Você fica desconfortável aqui, não é? Podemos descer, se qui...
— Agora eu já estou aqui! – Reclamou. O gêmeo mais velho puxou-o para o seu peito e afagou-lhe os cabelos, fazendo com que o desconforto, fosse, aos poucos, diminuindo.
— Quando for assim, é só me chamar. Não vou me opor a descer pra ficar com você. – Stan assentiu e ficaram em silencio por alguns minutos. – Incomodado com a chuva?
— É. Mas não estpa mais tão ruim assim. – Ford continuou com o cafuné, o irmão ainda apoiado no seu peito. – Eu gosto de ficar assim, com você, Ford.
— Eu também gosto, Stan.
O silencio voltou por mais um tempo. O quarto escuro, Stan recebendo cafuné, deitado confortavelmente no peito do irmão, que ainda não havia aprendido que era bom tirar os sapatos antes de subir na cama. A chuva estava um pouco mais fraca, embora ainda insistente, molhando tudo lá fora, salpicando na janela. Stan ficou um pouco mais relaxado, o ruído da chuva sendo quase agradável e a mão de Ford no seu cabelo, afagando-o com delicadeza. Fechou os olhos, sequer pensando em como teria que dar um jeito e simplesmente pular dali caso os pais resolvessem aparecer no quarto. Não estava nem pensando que, mais cedo ou mais tarde, teria que descer dali. Permitiu-se simplesmente respirar fundo assim, estando nos braços do irmão, sem pensar em nada. Mas parece que para Ford a tranquilidade não era a mesma.
— Stan.
— Uh?
— Acha que eu sou uma aberração? – Sentiu os seis dedos passarem demoradamente por seu cabelo. “Não”, disse a si mesmo. Detestava quando Stanford pensava desse jeito. Ele não tinha noção, não é? Do quanto era lindo. E suas mãos também. Elas eram especiais e únicas e Stan as adorava. Não entendia como ele podia pensar assim. Saiu do conforto do seu peito para conseguir olhar para ele diretamente.
— Não, você não é, Fordsy. – Segurou-lhe uma das mãos e a beijou com carinho.
— Ohh, n-não isso, na verdade... – O outro corou, sem jeito, ajeitando os óculos com a mão livre, acariciando o rosto de Stan em seguida. – Já me acostumei com isso. Não tem problema, você gostando delas, sabe...
— Suas mãos são lindas, Fordsy! – Segurou-as brandamente, sorrindo para ele. – De verdade. Você sabe que eu não mentiria pra você. – O outro sorriu, assentindo, ainda sorrindo enternecido. – Então, sobre o que era esse negocio de você ser uma aberração?
— Eu estava dizendo... Por amar tanto o meu irmão. – Stan deu aquele sorriso e pousou a mão no rosto do irmão.
— Se você é, Fordsy, então eu também sou. – E, aproximando seus rostos lentamente, colou seus lábios aos dele, mal permitindo o contato inicial, logo começando um beijo apaixonado e intenso. As línguas foram se envolvendo e se tocando, ansiando por mais e mais. Ford fechou os olhos e deixou-se apenas sentir a boca do irmão na sua, a troca de salivas, as mãos dele que percorriam seu corpo, desesperadas, por cima das roupas. Seu cheiro, seu calor, seu gosto. Tudo era Stanley. Que, sem interromper o beijo ardente, foi empurrando-o, deitando-o no colchão, ficando por cima dele, uma perna entre as dele, uma das mãos subindo pela outra, deslizando por baixo da sua camisa.
— S-Stan...! – Ford interrompeu o beijo, corando forte, a razão ainda (como sempre) falando mais alto. Podia, abrir aquela porta a qualquer momento e eles serem pegos. E como ficariam as coisas depois disso? Os gêmeos Pines entre amassos. O que os pais diriam?! Stan, emburrado, não pareceu dar a mínima para a sua paranoia. – Nós podemos ser pegos, nós podemos acabar c...
— Eu te amo, Fordsy. – Parou de falar e não conseguiu não sorrir, comovido. Acariciou o rosto do irmão delicadamente, concordando com a cabeça.
— Eu também te amo, Lee.
Recomeçaram o beijo, agora mais desesperados. As peças foram sendo atiradas e espalhadas pelo quarto. O resto não tinha importância. Os corpos foram ficando quentes. O vidro embaçado. Os lençóis desarrumados. E os gemidos, compostos por todas as variações de “Stanley” e “Stanford’, quase altos demais.
{...}
Stan acordou.
O coração acelerado, a respiração irregular, atordoado com os sentidos da realidade voltando, todos de uma vez. Sentou na cama, a regata molhada, um pouco de suar ainda gotejando sua testa. Ofegante, sentado na cama, as mãos agarradas aos lençóis, olhou para os lados. Estava chovendo lá fora.
— Stan! Pelo amor de Deus, Stanley! – Seu olhar finalmente encontrou o de Fiddleford, que dividia a cama com ele, também sentado, parecendo aflito. Completamente preocupado. Notando agora que ele estava o chamando há um bom tempo.
— Fiddle... Ford? – O menor acariciou-lhe o rosto gentilmente, fitando-o preocupado.
— Está tudo bem, Stan, querido. – Ele se ajoelhou na cama e envolveu Stan em um abraço protetor, enquanto ele ainda tentava se acalmar. A respiração, o coração, a pulsação, tudo ainda acelerado demais. Foi quando deu-se conta daquele incomodo no baixo ventre: Estava excitado. Por Deus, estava excitado. – Foi só um pesadelo, Stan... – Fidds sussurrou, tentando acalmá-lo. Não seria a primeira vez, não era o primeiro pesadelo.
— Onde ele... – ainda tentava assimilar as coisas, a cabeça parecendo pesar. Não era um adolescente, embora estivesse chovendo muito lá fora. Não era um adolescente, não estava em Nova Jersey, esse não era o quarto que costumava dividir com o irmão. E ele não estava ali. Stanford. Não estava. Sentiu o abraço mais apertado e engoliu em seco. Stanford não estava ali. Mas Fiddleford estava. Ali, só para ele, tentando, com tudo que podia, acalmá-lo, consolá-lo do que ele achava ser mais um pesadelo. Ele estava ali. – Desculpa, Fidds... Eu te acordei com o escândalo, não é?
— Tudo bem. – Disse, plenamente compreensivo, beijando-lhe a testa e se afastou um pouco do abraço, para poder fitar Stan melhor. Arrumou uma mexa do cabelo longo do namorado atrás da orelha. – Você estava murmurando “Ford”. – O sangue parou, o resto do corpo petrificando. – Quer falar sobre isso, querido? – Negou minimamente com a cabeça, ainda suficientemente perturbado demais para conseguir dizer aquelas coisas em voz alta. – Ele está bem, Stan. Nós vamos encontrá-lo. – Prometeu, voltando a abraçá-lo, afagando-lhe os cabelos. – Está tudo bem agora, meu bem. Foi só um pesadelo.
Antes fosse, pensou consigo. Antes tivesse sido só mais um pesadelo, como todos os outros, onde sua mente acabava criando os universos mais pavorosos, e Ford passando por alguma situação terrível e mortificante, apenas para lhe pregar uma boa peça. Porque, quando ele acordava, sabia que não era real. Que em momento algum havia sido real e ele podia iludir-se. “Foi só um sonho ruim”, ele e Fidds podiam dizer. Não é real. “Não é real”. Antes tivesse sido só um sonhos.
Mas não era.
A chuva ainda batia forte na sua janela, como as lembranças que vinham atormentar-lhe as memórias. Antes tivesse sido só um sonho, ao invés de uma lembrança dos dias perdidos da adolescência.
Fiddleford o abraçava com tanto carinho, tão preocupado... Sentia-se tão culpado agora, olhando para ele. Como seriam as coisas quando trouxessem Stanford de volta? Talvez o irmão já não o odiasse mais. Faziam tanto anos, afinal... Talvez Stanford pudesse aceitá-lo de volta na sua vida. No seu coração. “Não!”. Não queria ter que pensar nisso, não podia fazer isso com Fiddleford! Que o amava tanto e estivera com ele todo esse tempo, apoiando-o, amparando-o durante todos esses anos. Sendo seu. Amando-o. E também sendo amado. Porque Stanley o amava. Amava com tudo que podia. Mas também amava Ford. Não podia evitar. E isso doía. Doía tanto.
Afastou-se de Fiddleford, que o fitou com aquela expressão preocupada. O que ele pensaria se soubesse? Se descobrisse que ele e Stanford compartilharam esse tipo de relação? No Stan de Guerra, no quarto, sob os cobertores, juntos. Que ele e Stanford... O que Fiddleford pensaria dele? Tocou-lhe o rosto, muito delicadamente, envergonhado só de pensar na hipótese de uma rejeição se o amado descobrisse de todos os seus pecados. Porque eram pecados, afinal, não era? Embora os gêmeos não achassem na época e Stan, particularmente, ainda pensasse da mesma forma, o mundo veria com outros olhos. E se Fidds visse também? Aquela expressão ainda aflita presa em si, enquanto pousava a mão em seu rosto. Tentou seu melhor e deu o melhor sorriso que conseguiu, tentando tranquilizá-lo.
— Eu sei... Obrigado, Fiddleford. Eu... – Forçadamente lembrou-se da ereção, sentindo-a pulsar dolorosamente. No quarto escuro, com Fidds tão preocupado, ficou feliz por ele não tê-la notado. – Eu preciso... Vou jogar uma água no rosto, ‘tá?
— Quer que eu vá com...
— Não! – Respondeu prontamente, pigarreando, tentando não soar tão malditamente suspeito. – Não precisa. – Consertou, ainda meio atrapalhado nas palavras. – Eu só vou lavar o rosto, preciso respirar um pouco, não se preocupe. Eu não demoro.
Ao entrar no banheiro, sem sequer acender a luz, trancou a porta atrás de si. Sentou no chão, encostando as costas nela e desabou em lágrimas. Chorando por longos minutos. A lembrança de Stanford, a falta que ele fazia, a distancia, o medo que tinha por trazê-lo de volta. Como seriam as coisas? Ele estava tão aterrorizado, tão culpado por se sentir assim mesmo com Fiddleford logo ali, no quarto ao lado. Mais uma vez esqueceu da excitação e ela foi esfriando conforme mais e mais lágrimas vinham, a tristeza sendo bem mais forte que aquele desejo que sentira. Havia sido tão real. Como no passado. Quando tocara Ford, quando fora tocado de volta, quando sentia-se amado pelo irmão. Sentia tanto sua falta... Que Ford estivesse bem, era tudo que conseguia pensar. Que ele estivesse bem. Que o perdoasse.
Depois de longos minutos finalmente se levantou, achando que conseguiria encarar melhor as coisas agora e foi para frente da pia, lavar o rosto, deparando-se com o seu reflexo no espelho. De primeira se sobressaltou, dando dois passos para trás. Mas logo levou uma das mãos ao espelho, encarando fixamente o rosto ali refletido.
“Que você esteja bem”.
“Que você me perdoe”.
— Por favor, Fordsy... – “Esteja bem”.
{...}
“ – Para mudarmos essas nossas realidades, temos que forçar mudanças nas nossas reações, Stan, isso cria novas ligações nas células cerebrais. Só assim desfazemos as antigas. – Ford murmurou, deitado no peito do irmão, a pela suada contra a dele. Stan não prestava atenção, cochilava, babando um pouco, depois da intensa relação. Stanford sorriu. – Engraçado como quase tudo pode ser explicado cientificamente”.
Fale com o autor