Approach
1 Capítulo Único
Tudo começou algumas semanas depois que ele saiu de Binan.
Mudar-se para uma cidade diferente, distante de tudo o que ele conhecia, podia ser assustador. Mesmo tendo Arima morando próximo a ele e frequentando a mesma universidade – e sempre disposto a ajudar –, era difícil se sentir relaxado. Ele tentava se distrair lendo alguns dos livros de que mais gostava, trocando mensagens com At-chan e organizando suas coisas, mas nada parecia funcionar por mais que algumas horas.
Dois dias antes de suas aulas começarem, seu celular vibrou no seu bolso e ele estendeu a mão automaticamente em sua direção, esperando que fosse uma mensagem de At-chan ou Ibushi.
Ele gostaria de dizer que era de um número desconhecido. Mas era só um remetente inesperado.
“como vai pres”
Kusatsu tentou não se irritar muito com a ausência de um ponto de interrogação e com a forma como ele havia abreviado seu antigo título.
“O esforço de digitar propriamente mataria você, Yufuin?”
“n”
“o q não significa q eu vá”
Ele respirou fundo, tentando – e não conseguindo – convencer a si mesmo de que aquela forma de escrita não o incomodava tanto assim. Ao menos, parecia ter melhorado um pouco.
“Por que você decidiu me importunar do nada?”
“queria conversar”
“já faz um tempo afinal”
“como vc está, pres?”
Não, não tinha melhorado. Kinshiro bloqueou a tela de seu celular e o colocou de volta no bolso, voltando sua atenção para o livro que estivera lendo antes.
Não demorou muito até que seu celular vibrasse novamente.
“dsclp… eu estou realmente incomodando vc?”
Por algum motivo, apesar das abreviações no começo e no final do texto, aquelas palavras fizeram com que ele se sentisse meio culpado. Não fazia sentido que ele se sentisse assim, mas ele decidiu ir em frente com isso e tentar agir de forma um pouco mais gentil.
“Pessoas não deviam mandar mensagens umas para as outras a menos que tenham um assunto sobre o qual falar, isso é tudo.”
Assim que ele apertou o botão de enviar, ele já estava esperando por uma resposta. E não demorou muito para que ela chegasse.
“certo”
“qual sua opinião sobre chikuwabu?”
***
Uma coisa Kusatsu Kinshiro tinha que admitir: Yufuin era muito bom em discutir tópicos aparentemente aleatórios.
Ele não sabia exatamente como as coisas tinham terminado daquele jeito, mas trocar mensagens com Yufuin se tornou parte de seu dia a dia. No começo, ele simplesmente respondia as mensagens que apareciam aleatoriamente em sua caixa de entrada, por mais trivial que fosse o assunto. Ele disse a si mesmo que não seria educado da parte dele não responder. Ele também disse a si mesmo que, se parasse de responder, Yufuin simplesmente continuaria a enviar mensagens até que ele respondesse.
Então ele continuou respondendo.
Até o dia em que ele viu um anúncio que o lembrou de uma de suas conversas com Yufuin. Antes que percebesse o que estava fazendo, ele já tinha pego o celular e começado a digitar.
Em algum ponto no meio da mensagem, ele percebeu que essa seria a primeira vez em que seria ele quem começaria a conversa, e isso fez com que ele hesitasse um pouco. Ele leu suas próprias palavras, refletindo se elas seriam eficientes e passariam a mensagem que ele queria. Havia algum erro de digitação? Não que ele achasse que o outro se importaria, mas mesmo assim Kinshiro se sentiria mortificado diante de algo do tipo. A informação nova era realmente relevante para o assunto que eles haviam discutido previamente? Ele achava que sim, mas e se Yufuin não pensasse o mesmo?
No final, ele precisou de doze minutos inteiros para terminar de escrever – e editar – a mensagem, antes de finalmente apertar o botão de enviar com um dedo ainda hesitante.
Ele fez seu melhor para ignorar seu celular depois disso, mas apesar de seus esforços ele continuou checando o aparelho praticamente a cada minuto. Porém, após uma hora ter passado, ele parou de checar com tanta frequência. E isso o irritou. Ele não conseguia dizer por que estava se sentindo tão agitado por causa de algo tão ridículo, mas ele estava. E ele odiava isso.
Três horas após ter enviado a mensagem, seu celular vibrou.
***
Segundo Atsushi, a história toda era bem divertida.
Quando ele descobriu – depois que Kinshiro mencionou Yufuin em uma de suas mensagens, sem ter consciência das consequências que aquela ação imprudente traria –, isso se tornou um dos assuntos que ele mais gostava de comentar. Tem certeza que é En-chan quem está falando com você? Diga, quantas mensagens ele te enviou ontem mesmo? Isso é um pouco… incomum, você não acha? Para En-chan estar agindo assim… ele deve realmente gostar de falar com você! Isso é fofo.
Kinshiro concordou em discordar. Sobre a parte de isso ser fofo, pelo menos.
Sobre a parte em que “En-chan” supostamente “realmente gostava de falar com ele”…
Bem, já que as mensagens continuavam a ser trocadas, era lógico assumir que havia algo de positivo naquela interação. Que os dois lados apreciavam isso em algum nível. Mas havia algo na forma que At-chan colocava suas palavras que fazia isso soar… inquietante. Como se houvesse algo a mais se espreitando sob a ideia de alguém “realmente gostar de falar com ele”.
Kinshiro não sabia se gostava desse algo.
“Não entendo o que você quer dizer com 'fofo'. Que parte disso é fofa?”
“A parte em que En-chan dedica algum esforço para falar com você (^-^)”
“Você provavelmente já reparou, não é? O jeito que ele digita é meio… bem, não é esforçado”
“Isso também se aplica ao número de mensagens que ele geralmente manda”
“Entãaao é, ele deve ter um motivo muito forte para falar com você tão frequentemente”
“… Ainda não consigo ver a suposta fofura”
“Ok. Vamos mudar de assunto.”
“Por enquanto (u.u)”
***
Aquilo estava saindo do controle.
Kinshiro suspirou, tentando não pegar seu celular. Ele tinha mais o que fazer da sua vida do que trocar mensagens com Yufuin o dia todo. Não que o que ele estivesse fazendo no momento fosse muito importante, mas…
Era uma questão de orgulho.
Ele não tinha muitos amigos na universidade, mas seu círculo social era grande o suficiente para que houvesse uma pessoa que reparasse na rapidez com que ele conferia toda mensagem que chegava. Uma pessoa que tinha perguntado 'É a sua namorada ou algo do tipo?'.
Não era como se ele precisasse ler as mensagens no exato momento em que elas chegavam, afinal. Agir dessa forma só traria mais comentários do tipo. Seria irritante.
Porém…
Ele queria.
Ele queria ler cada mensagem o mais cedo possível.
Metaforicamente jogando de lado seu orgulho autoimposto, ele estendeu a mão na direção do celular.
“está chovendo aqui”
Naquele momento, Kinshiro questionou as escolhas de vida que o levaram a se sentir animado por receber mensagens assim.
“Quão relevante”
“é sarcasmo isso q eu vejo nas suas palavras, pres? Não sabia q tinha isso em vc”
“Devem ser as más influências”
“deve ser. Com q tipo de pessoa você tem andado ultimamente?”
“Eu estava falando de você, idiota.”
“Eu sei~ ♥”
Kinshiro suspirou.
“Era mesmo necessário colocar um coração?”
“claro. Vc não acha q nosso relacionamento é profundo o suficiente pra isso? ;)”
“Agora um emoticon? Não estamos indo um pouco rápido demais aqui, Yufuin?”
“vc decide. Estamos indo rápido demais, Kinshiro?”
Kusatsu franziu a testa. A última mensagem soava um pouco… estranha. Além disso, essa era a primeira vez que Yufuin o chamava pelo primeiro nome.
“Pra começar, nós ao menos estamos em um relacionamento? Honestamente, eu n tinha pensado sobre isso até… bem, agora.”
“vc vai magoar meus sentimentos se continuar falando sobre isso assim, pres”
“… na vdd, não, não estamos”
“vc gostaria q estivéssemos?”
“Bom, não é como se fosse algo no qual eu pensasse, então…”
'Acho que não'
Ele quase digitou isso.
Ele parou no 'u' e então apagou. Afinal… ele realmente não tinha pensado sobre isso. Ele nunca tinha pensado em Yufuin como sendo seu amigo ou… qualquer outra coisa. Ele era só… Yufuin. O cara que mandava mensagens para ele. O amigo de At-chan. A pessoa por quem ele costumava ter sentimentos negativos por causa do incidente com o curry.
Ele não negaria – não para si mesmo, pelo menos – que atualmente seus sentimentos por Yufuin eram bem mais positivos do que negativos. Mas ele nunca havia tentado achar uma palavra que descrevesse aqueles sentimentos.
“então…?”
“… Você realmente está levando isso tudo a sério?”
“pq eu não levaria?”
“Não tenho certeza, eu só…”
“Podemos deixar isso de lado?”
“Eu não quero falar sobre isso agora”
“claro, pres. Como você desejar.”
A única coisa de que Kinshiro estava certo naquele momento, era de que ele não tinha entendido muito bem aquela conversa.
Talvez fosse melhor pedir por uma segunda opinião.
***
Teria sido melhor se ele não tivesse pedido por uma segunda opinião.
—At-chan, por favor pare de planejar meu casamento com aquele preguiçoso sem futuro.
—Tarde demais, eu shippo. Desculpa, Kin-chan.
Kusatsu suspirou, se arrependendo de suas escolhas de vida. Ele deveria saber que Atsushi não lhe daria a interpretação que ele desejava, mas ele nunca esperaria algo como aquilo.
Já era ruim o suficiente que At-chan insistia em sugerir que Yufuin sentia algum tipo de afeição por ele. Agora, insinuar que essa afeição não somente existia, mas também que era romântica…
—At-chan, eu tenho algumas coisas para fazer agora, posso te ligar amanhã?
Atsushi acreditou nele e se despediu. Kinshiro foi o primeiro a pressionar o botão de encerrar a chamada.
Ele tinha a esperança de que seu amigo de infância fosse trazer alguma luz para aquela situação, mas ele só piorou o caso. Ele tinha mais coisas sobre o que pensar agora.
Ele não achava que fosse o caso, mas se Atsushi estivesse certo… o que aquilo significaria para ele?
Ele não havia respondido a Yufuin o que pensava sobre o relacionamento deles, e não tinha planos de o fazer, mas ele deveria ao menos responder a si mesmo. Como é que ele se sentia em relação a Yufuin?
Ele gostava de falar com o outro. Durante o tempo que passaram juntos após toda aquela bagunça envolvendo o PDT, Kinshiro tinha aprendido a tolerar e até mesmo apreciar a personalidade do outro. Na época, ele não chegaria ao ponto de dizer que o que eles tinham era amizade, mas… era um começo. E então, quando ele tinha pensado que o único contato que manteriam seria através de seu amigo em comum, as mensagens começaram a chegar.
Algumas vezes, ele odiava a inconveniência, odiava a forma como ele ocasionalmente não conseguia pensar em uma forma de responder, odiava esperar por vários minutos ou até mesmo horas para receber uma resposta.
Mas ele gostava das mensagens.
Algo nelas era… diferente. Diferente de quando ele recebia mensagens de Atsushi, ou Arima. Elas faziam com que ele se sentisse… estranho. De uma boa forma.
Será que isso significava que…
***
Estar interessado em Yufuin não era algo ruim – não de verdade –, mas ele preferiria não se sentir assim.
Assim que a possibilidade surgiu em sua mente, ele começou a se preocupar por causa disso. Preocupando-se com o que o outro garoto pensava dele, preocupando-se com o que ele pensaria caso soubesse de tal interesse.
Tudo isso não significava que ele tivesse planos de agir quanto a isso, no entanto.
Porém, por algum motivo, parecia que a vida estava determinada a testar sua resolução.
“e quanto a sua vida romântica? Alguém chamou sua atenção ultimamente, pres?”
Kinshiro franziu a testa. De todas as pessoas, por que tinha de ser Yufuin a fazer uma pergunta dessas?
“Vou me abster de comentar esse assunto”
“pq?”
“porque não é da sua conta.”
“vamos lá, pres. Se você perguntasse, eu responderia.”
Isso era um desafio ou um convite?
“Então, alguém chamou sua atenção ultimamente, Yufuin?”
“Sim”
Por algum motivo, aquela resposta fez com que ele se sentisse estranho, uma sensação esquisita se espalhando por seu peito.
“… Quem?”
“vc n acreditaria se eu contasse”
“vai responder minha pergunta?”
Bem, ele não estava esperando uma resposta clara, mas ainda assim ele se sentiu um pouco desapontado.
“… certo. Tem alguém que é… interessante.”
“Mas é só isso.”
“Eu nem sei se isso conta como 'vida romântica'”
“claro q conta.”
“então… tem alguém, huh?”
“É realmente necessário falar sobre isso?”
“Não. Mas é legal, não é?”
“Se é legal, então deixe que eu faça as perguntas!”
“td bem. Vá em frente.”
“Eu conheço a pessoa?”
“Sim”
Ele hesitou antes de digitar a próxima mensagem, já que soava um pouco estúpido, mas…
“… ela é bonita?”
“Eu nunca disse q era uma garota”
Por algum motivo, ele se sentiu aliviado. Antes que pudesse achar uma forma de responder, outra mensagem chegou.
“Isso incomoda você?”
“Não, eu só… é algo que eu não sabia”
“Se você n se incomodar q eu pergunte, e quanto a vc, pres?”
“Garotas? Garotos? Os dois?”
“Bom, não é algo no qual eu tenha pensado”
“Mas acho que não importa muito”
“certo… mas e esse 'alguém'? Cara? Garota?”
“… é um cara.”
“Eu conheço ele?”
“Mais importante, por que você está subitamente tão interessado na minha não-existente vida romântica?”
Kinshiro esperou, mas não recebeu uma resposta.
***
“Você vai vir pra Binan no próximo feriado?”
“Sim. Meus pais querem que eu vá visitar”
“Nós poderíamos sair então. Pessoalmente, pra variar”
“Tem um novo restaurante perto da casa de Atsu”
“Nada de curry, eu prometo.”
“Ok”
“Quando?”
“Quando for melhor pra vc”
“Parece bom”
Kusatsu leu novamente a conversa. Bom. Não parecia que ele estava surtando ao pensar sobre encontrar Yufuin pessoalmente após tudo o que tinha acontecido.
Ele respirou fundo. Ele não deveria estar tão ansioso quanto a isso. Era só Yufuin. Eles iriam a um restaurante e conversariam. Os dois. Sozinhos.
…
Por que sua mente insistia que aquilo soava como um encontro?
***
—Eu não vou.
Arima desviou o olhar da xícara a sua frente ao ouvir as palavras vindo do outro.
—Tem certeza?
Kinshiro suspirou, posicionando sua própria xícara na mesa e cruzando os braços.
—Bom, não é como se fosse algo realmente importante, então não tem problema se eu disser que estarei ocupado na hora. — ele disse, tentando justificar sua escolha.
—Mas então ele não iria simplesmente sugerir que vocês se encontrassem outro dia?
Kusatsu franziu a testa. Ele não tinha pensado nessa possibilidade.
—… Talvez. — ele admitiu, hesitando um pouco antes de continuar – O que você acha que eu deveria fazer?
Arima foi, no mínimo, surpreendido por essas palavras. Já era incomum que Kinshiro dividisse seus pensamentos sobre tais assuntos, e ele nunca esperou que sua opinião fosse requisitada. Ele tinha de prestar atenção ao que diria em seguida.
—… Acho que você deveria ir. Mesmo que Kinugawa esteja certo e as intenções de Yufuin sejam realmente românticas, é você quem vai escolher entre aceitar ou recusar, não é? Além disso, seria a decisão mais educada. Inventar desculpas para evitar um compromisso não é muito refinado, não é?
Kinshiro tomou um gole de seu chá. Ah, se fosse fácil assim…
Ele fizera questão de não contar a ninguém como ele realmente se sentia diante daquela situação. Suas expectativas e dúvidas foram todas mantidas para si mesmo. Mesmo que soubesse que elas eram importantes para tomar sua decisão final. Ele suspirou.
—Tudo bem. Eu vou.
***
Não tinha como fugir disso agora.
… bem, ele poderia dizer que não estava se sentindo bem. Não seria uma mentira.
Respirando fundo, ele abriu a porta.
Mesmo que nunca fosse dizer aquilo em voz alta, Kinshiro nunca tinha pensado em Yufuin como não sendo atraente. Descuidado? Sim. Desleixado? Definitivamente. Mas ainda assim atraente.
No entanto, tem uma diferença entre achar que algo – ou alguém – é belo e ser afetado por essa beleza.
Encontrar Yufuin pessoalmente pela primeira vez depois de todas as mensagens e seus efeitos fez com que ele entendesse a diferença.
—Está bonito, presidente. — elogiou o outro, um brilho de apreciação em seus olhos e um discreto sorriso em seus lábios.
Kinshiro pensou em como Yufuin também estava bonito, mas manteve isso para si.
—Você disse que ficava perto da casa de At-chan. — ele disse, fechando a porta às suas costas – Quão perto?
***
Levando em consideração todos os diferentes tópicos que eles discutiam enquanto trocavam mensagens, era um pouco irônico que um dos primeiros assuntos sobre os quais falaram pessoalmente fosse mensagens de texto.
—É bem prático e tal, mas não tem como deixar de lado as limitações.
Kinshiro olhou para cima na direção do outro, uma expressão de questionamento em sua face.
—Por “limitações”, você está se referindo ao esforço físico exigido para digitar cada mensagem?
—Exatamente.
Kinshiro não deveria se sentir surpreso por algo assim ser um fator importante para o outro garoto. Ele não estava esperando que Yufuin continuasse falando, no entanto.
—Além disso, tem certas coisas que não podem ser faladas por mensagens. Tipo… coisas sérias.
Não muito tempo atrás, Kinshiro acharia estranho a noção de concordar com Yufuin. Ele lidava melhor com isso agora, mas alguma coisa o instigou a prosseguir naquele tópico em vez de simplesmente declarar sua concordância.
—Embora eu admita que isso seja verdade, que tipo de “coisas sérias” você tem em mente? Dê um exemplo.
Pode ter sido só uma impressão, mas Yufuin pareceu responder aquilo um pouco rápido demais.
—Confissões de amor. — vendo o olhar mais que surpreendido no rosto de Kusatsu, ele elaborou mais sua frase – Quero dizer, para alguém tímido pode soar como a solução perfeita, mas realmente valeria a pena? Fazer uma confissão assim não reduziria suas chances de ter seus sentimentos aceitados?
Kinshiro pigarreou, sentindo-se desconfortável com a súbita mudança na atmosfera.
—Bem, certamente não tem muita classe… – ele comentou – No entanto, não seria uma questão de opinião pessoal? Algumas pessoas podem aceitar uma confissão dessas, especialmente se vier de alguém de quem tenham uma opinião favorável.
Yufuin acenou.
—Verdade. Ainda assim, é mais fácil mentir por uma mensagem do que pessoalmente. Então a credibilidade tanto da confissão quanto da resposta não seriam afetadas?
'Credibilidade' era a última coisa na mente de Kinshiro naquele momento, mas ele deixou essa passar.
—O fato de que é mais fácil não elimina a possibilidade de que uma mentira seja contada pessoalmente. — ele contestou.
—Boa observação. — o outro admitiu, inclinando-se de forma a descansar a cabeça em seus braços – E quanto a você, presidente? Como você reagiria se alguém confessasse seu amor por você através de uma mensagem de texto?
Seu primeiro pensamento foi dizer que ele recusaria imediatamente, mas então ele lembrou-se de suas próprias palavras. E se a confissão viesse de alguém de quem ele tivesse uma opinião favorável? E se viesse de…
Ele se impediu de continuar por aquela linha de pensamento.
—… Acho que eu não saberia o que dizer. Mas o que importa aqui é o fato de que eu não aprovaria. — disse ele com convicção. Sim, mesmo que fosse de alguém de quem ele gostasse, ele ainda desaprovaria. Dependendo da pessoa, talvez ele tentasse não demonstrar isso, mas seus sentimentos negativos quanto ao assunto continuariam.
Yufuin sorriu.
—Heh. Eu tomei a decisão certa, então.
Kinshiro arregalou um pouco os olhos ao ouvir aquilo.
—O-o qu… — ele tossiu, tentando esconder sua exclamação de surpresa — … então… você pensou em se confessar para alguém por mensagem?
—Não. Eu pensei que era uma péssima ideia que deveria ser evitada.
Tendo – parcialmente – recuperado sua compostura, Kusatsu endireitou as costas e acenou em aprovação.
—Ótimo. A pessoa vai se sentir agradecida.
Yufuin ficou em silêncio por um momento, suspirando em seguida.
—… Eu vou ter que dizer com todas as palavras, não é?
O tom de voz dele levantou as suspeitas do outro.
—Dizer o quê? — questionou Kinshiro.
Aqueles olhos cerúleos encontraram os seus, e alguma coisa neles fez com que ele tivesse certeza de que as próximas palavras que ele disse eram verdadeiras.
—Eu gosto de você, Kusatsu.
***
Afinal de contas, tinha sido um encontro.
Bem, de certa forma.
Agindo como se não fosse nada de mais, Yufuin pegou a mão de Kinshiro na sua, entrelaçando seus dedos. O garoto mais baixo podia sentir seu rosto esquentar, um sentimento estranho se espalhando por seu peito.
—Tudo bem se eu fizer isso?
Não deveria. Eles estavam no meio da rua onde qualquer um poderia ver, e Kinshiro estava muito consciente de que as suspeitas de Atsushi pareciam estar corretas, e ele não sabia como deveria se sentir quanto a isso, e ele sabia que provavelmente estava pensando demais, ou exagerando, ou ambos, mas…
Apesar de tudo isso, ele acenou.
Eles ficaram em silêncio por um tempo depois disso. Assim como eles haviam passado a maior parte do tempo desde que Yufuin dissera… aquilo. Kinshiro não conseguia parar de pensar nisso desde que ouvira aquelas palavras. Mesmo que ele não mais negasse para si mesmo o fato de que se sentia atraído pelo outro, ele nunca havia pensado em como proceder caso esses sentimentos fossem mútuos. A ação mais recomendável, se todos os livros que ele lera estivessem corretos, seria tentar começar um relacionamento, mas…
Pensar sobre o assunto era mais fácil do que realmente fazer algo sobre isso.
—Você ainda não disse nada sobre… sobre o que eu disse.
Não tinha a necessidade de explicar ao que Yufuin estava se referindo.
—Eu… eu não sei. O que falar, pelo menos. Quero dizer… — Kusatsu tentou achar algo para falar, mas era difícil colocar o que estava sentindo em palavras – É… confuso.
Mas ele tinha de dizer algo mais conclusivo que isso. Então ele continuou falando.
—Não que eu não goste de você – oh deus, o que ele estava dizendo – É só que me pegou de surpresa. Eu preciso de tempo para pensar sobre algo assim.
Yufuin parou de andar.
—… Você gosta de mim? — ele perguntou, e mesmo que seu tom de voz estivesse calmo, parecia ter… algo de estranho nele.
Percebendo que suas palavras podiam ser interpretadas daquela forma, Kusatsu enrubesceu, de repente ainda mais consciente da presença de Yufuin, de quão perto eles estavam.
Olhando na direção oposta, ele acenou em concordância.
Yufuin se moveu de uma forma que fez com que eles estivessem de frente um para o outro e posicionou sua mão direita no topo do ombro de Kinshiro, sua mão esquerda ainda segurando a do outro.
—Por ora, isso é tudo o que eu preciso saber.
Ele deu um passo a frente, se inclinando até que seus rostos estivessem a milímetros de distância. Kinshiro podia sentir aquela sensação estranha em seu peito novamente, ao mesmo tempo em que seu coração começou a bater mais rápido. Quão mais perto Yufuin chegava, mais difícil era para ele pensar em qualquer coisa além da forma como o outro lentamente se aproximava.
Ele poderia ter virado a cabeça. Ele teve mais do que tempo suficiente para fazer isso. Algo dentro dele gritou que ele deveria fazer isso. Eles estavam em público. Eles não tinham chegado a falar sobre qual era exatamente o relacionamento entre eles. Ele não tinha certeza se estava pronto para encarar as consequências desse ato. Mas…
Ele queria.
Então ele fechou os olhos.
Não demorou para que os lábios de Yufuin fossem pressionados contra os seus.
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