Apprentice
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Domingo amanheceu com um sol radioso, nada normal na época do ano em que nos encontrávamos. Talvez fosse do local onde estava, do cheiro das árvores lá fora, de poder ouvir o barulho dos animais pertíssimo de mim mas eu tinha de admiti-lo: Tinha saudades daquele lugar. O mês de Janeiro já ia longo, estávamos a dia 26. Daí a dois meses e dois dias, comemoraria mais um aniversário. Não podia dizer que estaria muito entusiasmada por tal coisa mas já sentia os burburinhos no ar. O pai adorava fazer churrascadas com a família quando algum de nós fazia anos. Isso chegava para me deixar doente.
Eu nunca fora muito ligada ao resto da família. Os donos do sobrenome Haruno eram, de facto, vários. Éramos um clã imenso, muitos tios, muitos primos, em primeiro, segundo, terceiro graus, todas essas coisas das quais eu não costumava gostar muito por ser pouco dada a confusões. Sempre fora adepta do meu cantinho, gostava da minha paz, de estar sossegada a ler um bom livro em silêncio no velho escritório do meu pai – coisa que não acontecia quando os meus primos estavam por lá porque eles adoravam importunar-me e bater à porta só para me enfurecer – ou pôr mãos ao trabalho e fazer uns bolinhos de chá com a minha mãe – algo com o que ela simplesmente não perdia tempo quando tinha a casa cheia como aos fins-de-semana. Por isso, sim, era oficial... Eu odiava os almoços em família.
– Sakura, a tua prima já chegou! – Ouvi a voz da minha mãe enquanto ela subia as escadas, batendo à porta do meu quarto em seguida. Só me virei na cama abraçando mais a almofada para fugir ao barulho dos gritos dela. – Levanta essa carcaça da cama e vem ver o bebé, aproveita que ele ainda está a dormir.
Levantei a cabeça, olhando depreciativamente a porta. Sim, ele estava a dormir. Algo que me cheirava que não duraria muito se ela continuasse aos berros logo de manhã daquela maneira. Sentei-me, pegando no despertador para olhar para as horas. Não. Ela, seguramente, estava a gozar comigo.
– Céus, Sakura Haruno, tu lavaste bem essa cara? – Disse ela com um ar espantado, parando no corredor ao passar com o cesto da roupa lavada, quando me viu a sair da casa-de-banho, dez minutos mais tarde, com o ar mais azamboado deste mundo. – O que é que andaste a fazer durante a noite? Ficaste à espera que o galo acordasse?
– Tu é que és doida... – Praguejei enquanto acabava de me vestir, enfiando a primeira camisola que apanhei da mala pelo pescoço abaixo. Fechei a porta atrás de mim. – Eu avisei-te que precisava de descansar, tive uma semana de doidos, fartei-me de trabalhar e tu acordas-me às 7:15h da manhã de um Domingo para ver o bebé da minha prima? A sério?
Começava a ouvir a confusão instalar-se lá em baixo. Ok. Não. A sério que já cá estava assim tanta gente a esta hora? Credo... Já não estava habituada àquilo...
– Só vou ter a minha filha durante 4 dias cá em casa, é normal que queira passar com ela todo o tempo que puder, não achas? – Vi-a aproximar-se da minha cara e acariciar-me o rosto ao de leve. – Agora, vê se tiras essas olheiras e essa cara de que “toda a gente te deve e ninguém te paga” porque hoje é para o dia correr bem. Nada de amuos, nada de te pores a um canto sozinha, nada de desapareceres a meio da tarde sem dizer nada, nada disso. Estamos entendidas?
Olhei para o chão apenas, suspirando. Segui-a depois, ajudando-a com o cesto da roupa lavada para arrumar nos quartos, antes de descer.
– Ora ora quem ela é... Seja bem aparecida!
Parei à entrada da porta da cozinha, ficando só a olhar para ela.
– Tayuya...
– Então, como é que está a minha testinha de metro favorita?
Não respondi, limitando-me a forçar um sorriso que era tudo menos verdadeiro. Claro. Porque é que eu haveria de gostar de estar ali? Porque é que eu haveria de ansiar estar perto dos meus familiares quando tinha sempre a cabra da minha priminha Tayuya para fazer piadas sobre a minha pessoa? Pior... Porque é que eu haveria de ficar no mesmo sítio que ela quando todos lhe achavam graça a ela e me desprezavam a mim?
– Parece que não muito bem, ou o gato lhe comeu a língua ou ela ficou muda de vez. – Ouvi dizer outra das minhas primas, a Kin.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Aquelas duas eram a maior mancha negra na minha infância feliz. Nunca tínhamos convivido muito mas, sempre que elas estavam presentes, a minha vida tornava-se num completo inferno.
– Ainda estou para saber como é que alguém que não fala consegue trabalhar numa Firma de Advogados. – Comentou a Tayuya ainda de boca cheia, servindo-se de mais uma torrada com geleia de framboesa. Já devia ser pelo menos a décima que ela devorava, a julgar pelo seu histórico habitual. – Eles não têm de saber ter um bom discurso e tudo mais? Não têm de falar bem e dominar a oratória?
Riram as duas. Ignorei-as simplesmente, entrando na cozinha e indo directa ao frigorífico para tirar o pacote do leite e despejar algum para um copo, levando-o à boca. Houve uma pausa durante a qual as duas pararam de rir e se entreolharam, ao certo esperando que eu reagisse de alguma forma. Sem sucesso, meninas...
– Pelos vistos não. – Apoiou a Kin.
– Pessoalmente, já tenho pensado que só a deixaram entrar mesmo para lhe olharem para o rabo. – Parei, simplesmente a olhar para o copo de leite vazio que tinha na mão, a meio de o colocar no lava loiça. Ok, já bastava. Agora, aquelas duas vacas estavam a mexer com o meu orgulho. Isso eu não admitia a ninguém. Não mais, pelo menos. – Sabes que esses advogados todos metidos a importantes têm de ter sempre alguma coisa para os manter divertidos enquanto estão agarrados à papelada.
– Bem... – Disse apenas, virando-me para elas depois. – Acho que, segundo já percebi, naquela Firma eles dão mais atenção a pessoas que sabem comportar-se. Digo... Por exemplo à mesa e coisas assim. Pelo que me parece, não era o tipo de emprego que tu, Tayuya, a devorares essa quantidade exorbitante de geleia numa torrada só e a comeres com a boca cheia em frente às pessoas quase chegando ao ponto de lhes cuspir para cima, pudesses vir a ter.Acima de tudo, ali dá-se uma atenção especial à boa educação. A pessoas que saibam comportar-se civilizadamente e não como animais.
Vi-a ficar vermelha quando eu e a Kin a olhámos, sentindo o meu sorriso, de súbito, a abrir-se de satisfação. Olhei a Kin depois e ela soube que iria ser o próximo alvo. Mas isso já não lhe valeu de muito.
« E sim, eles gostam de mulheres. São homens, é natural. Mas como todos os homens educados, eles dão muito relevo a que se mantenham as boas aparências. Por exemplo... Vejamos o caso da Kin. Toda a gente sabe que ela andou mais de 3 anos a pôr os cornos ao marido com meia aldeia e que, no fim, ainda teve a coragem e a lata de lhe ir dizer que o filho de que estava à espera era dele quando todos sabiam que ele era estéril. Duvido muito que os homens daquela Firma de Advogados onde eu trabalho gostassem de ter uma secretária que tem como passatempo favorito dar o cú aos clientes. Aliás... – Pensei um bocado, bastante divertida com a cara com que elas começavam a ficar as duas. – Se precisares de dinheiro, existem várias Casas de Alterne lá em Tókio, podes sempre optar por fazer carreira. De certeza que subias depressa de categoria, com tamanhos dotes para o empreendedorismo...
Não disse mais nada, aguentando o riso e limitando-me a sair da cozinha. Saí porta de casa fora depois para o jardim, permitindo-me rir depois a bandeiras despregadas quando o fiz. Ri, ri e ri até às lágrimas. Fazia-o de cada vez que me lembrava, não do que havia dito, mas da cara com que elas as duas tinham ficado e da sua expressão indefesa quando eu pegara nos seus podres para lhes fazer o mesmo que elas costumavam fazer comigo. Eu já não era a mesma Sakura, pequena, calada, indefesa, a mesma caçula com quem elas tinham o hábito de gozar há uns anos atrás. Eu era uma adulta agora. Elas tinham de aprender que não podiam continuar a tratar-me abaixo de cão.
Voltei para dentro depois, já perto da hora do almoço. Ajudei a minha mãe a pôr as mesas cá fora – iríamos aproveitar o bom tempo que estava, já que o sol era algo raro naquela altura do ano – e a abastecê-las com travessas para a carne, pacotes de batatas fritas, sumos e utensílios de plástico para podermos comer à vontade sem sujar tanta loiça. O meu pai e os meus tios já estavam colhidos em frente à enorme churrasqueira, sendo encarregues de tudo quanto dizia respeito à confecção da nossa refeição naquele momento em família. Fui ter com ele durante um bocado e deixei-me lá ficar a observá-lo ao longo de vários minutos sem que ele conseguisse dar por mim.
– Que andas aqui a fazer, princesa do pai? – Perguntou-me ao esmagar-me praticamente num abraço, beijando-me a testa, depois de eu lhe ter cutucado o ombro várias vezes e me ter escondido sempre, até ele se aperceber de que se tratava de uma judiação minha. Ri-me. – Estavas aí há muito tempo?
– Algum. – Respondi, simplesmente, sem dizer mais nada. Ouvi-o suspirar, sentindo só a sua respiração leve enquanto os meus tios conversavam entre si, perdidos numa paródia sobre carros e futebol.
– Hoje não tens cá a tua companhia.
Olhei-o depois, confusa. A minha companhia?
– Quem? – Perguntei. Ele sorriu como se já esperasse tal coisa.
– O Kiba. – Disse. Prestei atenção à minha volta depois. De facto, faltavam o riso idiota do Kiba e o ladrar do seu cão branco e reguila, o Akamaru, naquele jardim. – Tentei convencê-lo a passar por cá mas sabes como são as coisas. Ele tem estado muito abalado com a morte da irmã. As coisas andam difíceis lá em casa.
Acenei só. Talvez... Ele não tivesse mesmo vindo porque estava zangado comigo. Talvez... Ele ainda não me houvesse perdoado por ter faltado naquele dia nem por ter feito o mesmo que ela.
Tinham passado alguns meses desde que o meu pai me ligara a dar a notícia. Normalmente, era a minha mãe que falava comigo ao telefone, o meu pai não suportava “maquinetas” e novas tecnologias, nem sequer sabia utilizar um computador e telemóveis muito menos. Mas, naquele dia, ele mesmo se tinha encarregado de me avisar. Porque sabia que eu falaria melhor com ele do que com a minha mãe, naquelas circunstâncias.
Eu e a Hana éramos amigas desde que me lembrava. Ela era mais velha, mas nem por isso tinha o hábito de se cingir a amizades com pessoas da sua idade. Cresceramos juntas, formando um pequeno grupo com o irmão dela, Kiba, e o seu cão, Akamaru. Costumávamos explorar as terras dos vizinhos e ver filmes de comédia em casa deles e íamos muitas vezes passear juntos em dias de sol até ao rio.
Com o passar do tempo, ela foi crescendo e, quando foi para a Faculdade, saiu da aldeia com a promessa de que, um dia, viria buscar o irmão para morar com ela. O Kiba sempre tinha sonhado conhecer a cidade mas, devido a impossibilitações financeiras, nunca havia sido possível à Sra Tsume levar os seus filhos até lá. Por isso mesmo, quando a Hana partiu para Osaka para estudar e arranjou emprego, acabou por prometer que realizaria o sonho do irmão. Mas isso nunca chegou a acontecer.
A notícia do noivado da Hana tinha chegado um ano e meio depois. Na carta, ela dizia que tinha conhecido um rapaz lá na Faculdade e namoravam já há uns meses, tencionando casar-se no final desse mesmo ano. Descrevia o noivo como um rapaz sério, divertido, bondoso... Nada que fizesse prever o futuro que ele acabaria por dar-lhe ao assassiná-la brutalmente três meses depois. O caso tinha saído nos jornais da região e a família tinha ficado totalmente abalada. O tal rapaz tinha-se entregue às autoridades nem 24 horas depois. Não dera qualquer explicação que justificasse as suas acções – como se alguma coisa chegasse para o fazer – e limitou-se a deixar que o levassem sem sequer mencionar o desejo de recorrer a um advogado. Enforcou-se na sua cela nessa mesma noite.
Quando chegou o dia do funeral da Hana, eu não estava lá. Ao contrário do que, talvez, o Kiba pudesse pensar... Eu não tinha sido capaz de enfrentar a separação total que isso implicava. Apenas isso não me deixara comparecer para lhe dar um último adeus. Eu odiava funerais, nunca fizera questão de marcar presença em nenhum e não era dessa forma que quereria recordar a irmã dele, a minha melhor amiga de infância. Em parte, talvez não aceitasse bem o facto de a ter perdido, de ter perdido a única pessoa que um dia me compreendera e nunca troçara de mim. Mas compreendia perfeitamente que ele me odiasse agora, por o ter deixado sozinho naquele momento. Por nunca mais me ter dado ao trabalho de voltar para o visitar.
Suspirei apenas, antes de olhar nos olhos do meu pai sem sair do seu abraço. Há já vários minutos que o sorriso me tinha desaparecido dos lábios.
– Ele odeia-me agora. A nossa amizade foi-se com a Hana naquele caixão quando ela foi enterrada. É completamente compreensível que não queira ver-me de novo.
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