Apprentice
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Passava já das 7:15h da manhã quando entrei no Washoku, sentando-me na minha habitual mesinha ao pé da janela para poder passar os olhos pelo jornal enquanto saboreava o meu pequeno-almoço de sempre. Todas as manhãs cumpria o mesmo ritual, examinando algumas notícias diárias sobre a Bolsa de Valores, analisando mentalmente alguns progressos económicos do país e, enquanto ia ouvindo os compactos jornalísticos na rádio, amaldiçoando os que estavam no poder, pensando em inúmeros projectos vantajosos que poderiam ajudar o Japão a crescer caso alguém — por um milagre da natureza — resolvesse implantar algum juízo nas cabeças daqueles reles deputados que ocupavam o Parlamento.
Depois de beber o meu café e terminar de comer a minha dose exagerada de Shiratama Anmitsu com Ameboshi – o que, para mim, era apenas e só o melhor pequeno-almoço, senão a melhor refeição de todos os tempos – olhava para o relógio para controlar as horas, coisa que acontecia todos os dias sem excepção precisamente às 7:50h. A partir daí, era uma questão de segundos até a porta do café se abrir e uma cara bastante conhecida à minha pessoa entrar de rompante, roubando todos os olhares masculinos para cima da sua pessoa e passar pelo local cumprimentando quase meio mundo até chegar à minha mesa. Naquela manhã, no entanto, isso foi algo que não aconteceu.
Vi passar as 8:00h, as 8:10h, 8:15... Os meus olhos procuravam a figura dela a chegar àquela rua super movimentada logo desde cedo, a exibir o seu habitual gesto a tirar os óculos de sol e a clicar na chave do seu Lamborghini Huracán LP 610-4 preto antes de entrar porta adentro com o seu sorriso matinal super animado. Mas ela continuava sem aparecer. Acabei por desistir de esperar e, quando o relógio alcançou as 8:35h, levantei-me da minha cadeira e peguei na mala.
Fui até ao balcão para pagar a conta, tirando a carteira e esperando que a Tenten viesse atender-me depois de servir mais um cliente.
– Então? Hoje a tua companhia atrasou-se? – Perguntou ela depois de parar à minha frente, olhando para a mesa onde eu havia estado sentada há uns minutos atrás, procurando a Ino.
Sorri-lhe, encolhendo ligeiramente os ombros, tirando uma nota para pagar e dando-lha em mãos.
– É. – Concordei só, suspirando à espera do troco, enquanto ela ia até à caixa e registava a minha conta. – Parece que hoje ela deve ter ficado a dormir até mais tarde. Ela não me disse nada mas como eu hoje entro mais cedo, tenho de ir mesmo andando para o escritório.
– Ok, fica descansada, eu aviso-a se ela chegar entretanto.
Acenei, guardando o dinheiro quando ela mo deu.
– Certo. Arigatou, Tenten!
Despedi-me dela segurando melhor a mala ao ombro e, sem dizer mais nada, saí do café a passo apressado. Atravessei a rua em direcção à esquina que dava para o edifício enorme onde ficava o meu trabalho, a Uchiha’s Society & Cia, uma das mais conceituadas e famosas Firmas de Advocacia do País. Ao longo daquele dia, esperar-me-ia uma manhã de telefonemas chatos e marcações de reuniões todas elas igualmente chatas. Tudo para que o filho do Presidente Uchiha Fugaku se sentisse bem ali dentro. Urgh... Só de pensar naquele idiota de uma figa davam-me náuseas.
Pelo caminho, passei no quiosque ao lado do edifício para comprar umas revistas de Economia que tencionava deixar no gabinete do chefe – fizera-o durante anos para o pai e continuava a fazê-lo para o filho, uma vez que garantir que eles se mantinham bem informados fazia parte do meu trabalho naquela empresa – e encaminhei-me finalmente para o escritório.
– Bom dia, Sakura-San.
– Bons dias, Kakashi-Sama.
Sorri ao homem grisalho e alto que se apresentava de pé, quase em pose de general, ao lado da recepção. Conhecia-o desde os meus tempos de estágio ali no escritório, ele era o chefe da segurança dali já no tempo do nosso patrão anterior. Kakashi era um homem nos seus quarenta e poucos, tinha um físico invejável para a idade, era solteiro, impunha imenso respeito e era habitualmente maníaco por usar óculos escuros em serviço. Rara era a alma que pudesse gabar-se de, alguma vez, ter visto os seus olhos que, segundo diziam, eram castanhos escuros quase num tom negro. Era bastante simpático – pelo menos para mim e mais umas pessoas – e um homem extremamente culto. Gostava de ler. Eu admirava isso, a maioria dos indivíduos do sexo masculino detestava ler, pelo que me lembrava desde pequena. Era quase regra para eles. Kakashi e o Sr. Uchiha deveriam ser, ao certo, as únicas excepções que eu alguma vez conhecera a este conceito.
Suspirei cansada apenas, entregando-lhe a minha mala para ser revistada – uma questão de política por ali. Ele pareceu averiguar o meu ar exausto durante um tempo antes de se inclinar um pouco na minha direcção.
– Vamos lá, que faz uma jovem assim bonita como tu dessa idade já a cair pelos cantos a uma hora destas?
Não tive coragem de levantar a cabeça, soltando apenas outro suspiro antes de murmurar algo do género “quero dormir...”. Ouvi-o gargalhar depois e olhei-o com o que eu achava ser o meu ar mais ensonado deste mundo.
– Não me digas que passaste a noite acompanhada. Não digas mais nada, já percebi tudo, sua malandreca! Andas a fazer das tuas! – Acrescentou apenas, em meio de uma sonora gargalhada.
Certo... Eu tinha-me tentado escapar a recordar que, além de ser tudo aquilo que já mencionei, o chefe da segurança dali tinha uma ligeira particularidade: Era um tarado de primeira relativamente a qualquer coisa na vida. Ao que se sabia dele, tinha tido apenas uma relação séria na vida e, quando esta terminou, optara por nunca mais atravessar o mesmo processo. Os seus casos mais duradouros – algo dito pela própria boca dele, palavras suas – “Só lhe tinham ocupado tantos meses porque a senhora em questão não o impedia de dar umas voltas com outras mulheres”. Não me espantaria nada que ele e o meu actual patrão, na verdade, fossem parceiros de engate nas horas vagas.
– Ando. Tive uma noite escaldante com o despertador. – Resmunguei baixinho meio mole, antes de suspirar de novo. – Mas ele foi um mauzão comigo e expulsou-me da cama a horas indecentes de se acordar um ser humano normal. Acho que vou fazer queixa dele à polícia por danos cerebrais à minha condição física.
Ouvi-o rir de novo a bandeiras despregadas, antes de apontar para mim devolvendo-me a mala.
– Muito boa essa! Muito boa mesmo!
Acenei apenas, antes de me encaminhar para o elevador. Olhei para o relógio pela última vez ao ver as portas fecharem-se à minha frente, após eu marcar o terceiro andar. 8:56h... Para meio da semana, estava a começar já a dar-me motivos de sobra para moer a cabeça. Tinha a sensação que aquele dia seria bastante longo...
***
Era a quarta vez que lhe ligava para o telemóvel. Bufava de impaciência, tilintando com a caneta no teclado do computador. Os accionistas haviam chegado para a reunião de última hora. Já passavam das 15:00h e ele sem atender. Suspirei, antes de desligar o telefone. Voltei a levantar o auscultador e marquei o número uma vez mais. Os meus dedos voltaram a martelar num dos cantos do teclado ao longo dos 3 minutos seguintes, durante os quais esperei que ele se dignasse a responder à minha chamada. Em vão.
Desliguei novamente. Olhei para as janelas da sala de reuniões. Os homens pareciam furiosos e eu não poderia, até, tirar-lhes a razão para se sentirem de tal modo. Engoli em seco sentindo o habitual nervoso miudinho transmitido pela habitual pressão a que costumava estar sujeita ali. Aquilo lembrava-me os meus tempos de estágio, num dia em que o Sr. Uchiha apanhara um acidente no meio da ponte que fazia ligação com a capital. Nessa altura, ainda o Sr. Namikaze exercia naquele escritório, antes de mudar-se para fora do país. Tinha sido ele a resolver o assunto. Só que, actualmente, era impossível recorrer à sua pessoa, visto que ele se encontrava a cerca de 10.900 quilómetros da cidade, em Nova Iorque. Só me restava, de facto, uma solução.
Levantei-me, de pernas a tremer, pegando na pasta sobre o último caso da firma. Caminhei devagar até à porta, respirando fundo antes de bater levemente. Se tudo corresse bem... Estávamos safos. Se as coisas corressem mal... Eu teria de dizer adeus ao meu emprego. Só esperava que o Sr. Uchiha percebesse a minha posição naquele momento.
– Entre.
– Com licença.
Entrei na sala, tentando parecer super à-vontade. Cinco caras viraram-se para mim, encarando-me como se estivessem a avaliar-me com os olhos. Uma das mulheres – a ruiva – e o velhote mais baixinho limitaram-se a trocar um olhar antes de voltarem a embrenhar-se na conversa que mantinham de início. O homem mais alto e entroncado, de cabelos loiros e aspecto sério e assustador – garanto que falo a sério quando o comparo a um daqueles lutadores do Wrestling que o meu pai costumava assistir aos domingos na TV – limitou-se a oferecer toda a sua atenção à janela, tal como fazia quando eu havia entrado. Os últimos, uma mulher loira e exuberante, de um rosto angelical e simultaneamente maduro, e um homem que não devia ter mais que os seus trinta anos, fixaram-me.
– Então? O Uchiha Júnior vai dignar-se a aparecer para conversar connosco ou decidiu tirar umas férias para escapar ao trabalho? – Perguntou a mulher loira, antes de tornar a encarar os papéis espalhados à sua frente, na mesa de reuniões.
– Tem calma, Tsunade. – Pediu o ruivo apenas olhando-a por breves instantes, antes de virar os olhos na minha direcção. – Diz lá o que se passa.
Não dei muita atenção ao facto de ele me ter tratado na segunda pessoa, até porque era algo normal nas chefias dali. No entanto, a grande maioria dos accionistas que trabalhavam fora da empresa preferia não dar muita confiança aos empregados. Talvez aquele homem fosse novo naquelas andanças, até porque eu nunca o tinha visto por ali, dizendo bem da verdade.
– O Sr. Uchiha pediu-me para que os avisasse que está fora numa Conferência. Ele foi chamado à última da hora e não teve hipótese de recusar, visto que requisitavam expressamente a sua presença para expor os projectos mais recentes da Firma. – Expliquei tudo o melhor que consegui, proferindo cada palavra à medida que as ia inventando. Era sempre bom passar uma boa imagem do patrão aos sócios da empresa, era algo que ajudava sempre a dignificar o seu bom nome. – Também me pediu que vos desse isto...
Notei os olhos da mulher ruiva e do homem baixo a encararem de novo a minha direcção, enquanto entregava a pasta do processo ao sujeito ruivo. O loiro virou-se para nós, novamente também, decorridos uns segundos.
– E isto é...? – Perguntou a loira, tirando os óculos e encarando-me.
– Isto – Comecei eu por explicar. – São os documentos que arquivamos sobre o último caso que tivemos em mãos. O Doutor fez questão que os examinassem, acha que podem perceber como ele trabalha e até mesmo dar-lhe alguns conselhos sobre como proceder com futuros casos como este. Há que convir que a vossa experiência é sabida aqui no nosso escritório, há muitos a admirar o trabalho de qualquer um dos senhores – e senhoras – e o Doutor está a tentar levar a Firma a bom porto de forma a continuar o excelente trabalho do seu pai. E que melhor forma de o fazer senão pedir algumas dicas a profissionais mais experientes e com tanta garra para vencer na sala de um tribunal como qualquer um dos presentes nesta sala?
Qualquer um dos cinco presentes continuou de olhos postos em mim. Rezava para que eles tivessem acreditado na história, para que tivessem engolido cada coisa acerca daquela sessão de graxa que eu lhes vendera tão barata como podia. Uma gota de suor corria-me pelas costas, à medida que eu via as expressões deles alterarem-se, enquanto se olhavam mutuamente nos seguintes minutos. A loira acabou por sorrir, antes de desfazer aquele silêncio macabro.
– “Umas dicas dos mais experientes”... – Repetiu ela, olhando com atenção os papéis que o ruivo lhe havia entregue, esboçando sempre o mesmo sorriso divertido enquanto descruzava a perna para cruzar a outra que lhe era oposta. Vi-a olhar-me de novo por cima dos óculos, em seguida. – Podes ir.
– Sim, senhora.
Saí da sala de reuniões ainda toda a tremer, encaminhando-me para a minha secretária tentando obrigar o coração a não me sair pela boca tal era a crise de nervos que já tinha em cima. Suspirei uma vez mais. De facto, eu tinha razão... Aquele dia estava a ser demasiado longo...
Fale com o autor