Apprentice
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Voltei ao escritório depois do almoço. Tinha optado por passar no Yamaguchi, tirando a minha hora e meia para me deliciar com uma boa dose de Gomaae, uma salada tradicional japonesa. Em seguida, tinha passado no banco para fazer alguns depósitos e aproveitado para comprar uma pasta nova numa loja de acessórios nas redondezas. O resto do meu dia de trabalho decorreu sem grandes acontecimentos.
Saí do edifício por volta das 23:30h, indo directa para casa, desejosa de tomar um bom banho e poder relaxar na minha bela cama, a ver um daqueles chatos programas de TV que costumavam passar no canal 11, às terças-feiras. Pousei o comando, suspirando profundamente, sem qualquer vestígio de sono. Não me virei para ver que horas eram, simplesmente não tinha coragem de tal. Era demasiado mau olhar para o relógio da mesa-de-cabeceira e descobrir que não estava a conseguir dormir nada para acordar bem cedo no dia seguinte. Prendi os olhos de novo na TV, tentando prestar atenção à novela que estava a ser transmitida, mas sem sucesso. De facto, eu não nascera para seguir os passos de Mebuki, a minha querida mãe. Tendo em conta a minha filiação, era esperado que eu fosse mais adepta de romances ficcionais e menos agarrada aos factos mais palpáveis. No entanto, a minha personalidade era demasiado semelhante à do meu pai, Kizashi. Semelhante demais para eu desdenhar o nosso parentesco.
Acabei por apagar a TV, desistindo de tentar perceber toda a história por detrás da paixão entre Haru e Sachiko, o casal protagonista daquele triste drama, aclamado por ser baseado em factos que diziam ser reais. Virei-me na cama, voltando a suspirar. Tentei fechar os olhos enquanto pousava o comando, dando um salto na cama assim que o telemóvel tocou quase encostado aos meus ouvidos. O nome que vi no ecrã dele não me deixou margem para dúvidas, para que eu soubesse quem iria ser assassinado assim que eu passasse no café na manhã seguinte para tomar o pequeno-almoço.
– Ainda acho que pensas que não tenho mais nada para fazer do que estar acordada às lindas horas em que resolves ligar-me, Ino-Porca-Chan... – Queixei-me, atendendo a chamada, ficando ainda mais furiosa ao ouvi-la rir-se do outro lado da linha.
– Ah, não sejas tolinha, testa larga... – A sua voz, soando tão fofinha enquanto troçava das minhas queixas, era coisa para me pôr ainda mais fula. Será que ela não se apercebia do quanto eu precisava de descansar? – Estou apenas a ligar-te para saber como correu o dia. Hoje de manhã parecias tão deprimida que não resisti a tentar saber se foi desta que o borracho do teu novo chefe te convidou de vez para sair.
Levantei-me da cama num salto. Certo. De facto, quando queria, aquela loira intrometida e armada em minha melhor amiga conseguia exagerar um bocado. Desde quando eu parecia tão desesperada assim? Aliás... Eu nem nunca tinha demonstrado nenhum interesse naquele playboyzinho de meia tigela, então porque é que ela pensava que eu iria querer alguma coisa com ele?
– Escuta uma coisa, tu andaste a fumar, andaste a beber, andaste a fazer o quê? – Ouvi-a rir-se de novo, sentindo a raiva crescer e tendo de apertar o lençol à bruta para não desatar já aos gritos com ela. – Ouve-me bem, Ino: Se ligaste para fazer pirraça de mim, vou já avisar-te que não estou para levar com as tuas brincadeiras estúpidas. Não, ele não me convidou para sair. Não, eu não quero que ele o faça. E não, mesmo que ele o faça algum dia, eu nunca iria aceitar dar umas voltinhas com um miúdo mimado, armado em fino e que tem a mania que come tudo o que mexe como ele. Por isso, se tens interesses por trás dessa conversa toda, aviso-te que podes avançar à vontade!
– Não é nada disso, Sakura...
– Não me interessa minimamente o que possa ser. Simplesmente, é assim que as coisas funcionam. Ele tomou o lugar do pai no escritório, está a fazer-me a vida num Inferno, eu odeio ter de levar com ele e, assim que quiseres, ofereço-to de bandeja para o aturares o dia inteiro como eu já ando a fazer há umas boas duas semanas. – Disse, de enfiada, sem lhe dar a mínima hipótese de tentar remediar o que havia dito há uns instantes atrás.
– Mas... Sah...
– E agora, se não te importas, eu vou tentar dormir porque, ao contrário de algumas pessoas, amanhã o meu dia começa cedo e termina bastante tarde, visto que nem toda a gente é filha de um dono da marca de roupas mais cara do mercado e passa o dia em festas e recepções de Celebridades. Sayonara...
Desliguei a chamada, desligando o telemóvel também, em seguida. Sabia que ela tentaria voltar a ligar-me para resolvermos o assunto, mas desta vez iria fazê-la sofrer um bocadinho e conversaríamos depois. Ela merecia passar um mau bocado, eu odiava que fizessem troça de mim e ela sabia-o bem.
Voltei a deitar-me, pousando o telemóvel na mesa-de-cabeceira e fechei os olhos, tentando ignorar o barulho e as luzes dos carros que entravam directamente pelas persianas meio fechadas do meu quarto. Abracei a almofada por uns minutos. Estava bastante frio naquela noite.
Não passou nem meia hora até eu conseguir, finalmente, cair no sono.
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