Apprentice
18 Capítulo 17
Notas iniciais
Nessa noite não consegui pegar no sono. De cada vez que os olhos se fechavam eu só conseguia imaginar de novo os meus lábios nos dela. As minhas mãos nas dela… Ou na cintura dela. As mãos dela no meu peito… Ou no meu pescoço. Foram várias as vezes que me levantei da cama e cilindrei pela casa recebendo olhares esquisitos dos empregados, que se levantavam sobressaltados por pensarem que eu precisava de alguma coisa deles. A governanta da casa, que tinha também sido praticamente minha ama, fez-me um sorriso enigmático, dizendo que estava contente por me ver assim de novo.
O que significava aquele “assim de novo”? Que tipo de emoção teria eu espelhada na face? Todas as voltas que tinha dado em frente ao espelho não me tinham dado qualquer resposta para aquela pergunta. Por mais incrível que pareça, a minha maior vontade naquele momento – além de poder estar com a Sakura, como penso que é óbvio –, era poder falar com o Naruto… Ou melhor, com a Hinata, dado que todos os concelhos que ele me dava partiam sempre dela. E, pela primeira vez em anos, eu sentia que não fazia a mínima ideia de como me dar, falar ou conquistar uma mulher. Não queria confusões. Não queria aventuras. Não queria erros. Queria que fosse perfeito, desta vez.
Porque ela o merecia.
Foi uma bênção para mim o raiar do sol, que resolveu espreitar no horizonte exactamente ao mesmo tempo que o meu despertador tocava. Noutro dia qualquer, eu ter-me-ia deixado ficar na cama por mais uns minutos, correndo depois para o banho ao ver que o tinha feito durante demasiado tempo, comendo depois também algo à pressa, antes de me meter no carro e conduzir, sempre a resmungar, até ao trabalho.
Naquele dia foi diferente. Tomei o banho a correr sim, mas a necessidade de velocidade era devido a algo completamente diferente. Sorri aos empregados quando entrei na cozinha, coisa que muito os espantou, dado que eu comia sempre na sala de refeições mais pequena. Ainda me meti na brincadeira com a filha de uma das empregadas, que não devia ter mais de seis anos, deixando a rapariga completamente deliciada, ficando corada agarrada à saia da mãe. Conduzi para o trabalho o mais rápido que pude… Não evitando resmungar porque, bem, era impossível não resmungar com pessoas que faziam de tudo para empatar o trânsito. Reservei também alguns resmungos para o elevador, lento como sempre.
Mas tal acabou assim que parei no meu andar e a abertura da porta da caixa metálica trouxe o som da voz dela até mim. Dado que outra voz a acompanhava deixei-me estar ligeiramente escondido atrás da parede de acesso ao corredor, ouvindo somente a conversa.
– Tu não me enganas, testuda.
– Paras de me chamar isso, porca? Eu estou no meu local de trabalho. Se o meu chefe te ouve…
– Vai considerar uma ofensa tratares uma possível cliente por “porca”. Que tal?
– Tu gostas mesmo de ter sempre a última palavra, não gostas?
– Nem imaginas o quanto.
– Para além disso, tu nem sequer és uma possível cliente daqui.
– Posso muito bem ser, se for o gato do teu chefe a tratar bem de mim, sabes?
– Tu és tão porca.
– Já que pelos vistos não aproveitas os avanços dele…
– Quais avanços? Foi só um…
– Um quê? Vá, vá, vá, agora tens de dizer!
– Foi só um beijo.
– Ahh!!!
Por debaixo dos guinchos que a outra pessoa soltava, batendo palmas de contente, conseguia distinguir a respiração envergonhada da Sakura, adivinhando a postura curvada, com as mãos a tapar o rosto, com que ela estava quando espreitei ligeiramente na direcção delas. A loura pegou-lhe nesse momento na mão, fazendo-a levantar-se da cadeira.
– Deste fim-de-semana não escapas, desculpa-me, mas tens de ir às compras comigo de novo. Tu já tens mais que roupas para trabalhar. Agora tens de arranjar roupas que agradem a um homem.
– Ele não liga a isso…
– Qualquer homem liga a isso, Sakura. Todo o homem gosta que uma mulher esteja bonita e apresentável.
– E ela não está? – Perguntei, caminhando na direcção delas, como se tivesse acabado de chegar. A loura mandou um pulo no lugar mas rapidamente se compôs e passou os enormes olhos azuis por toda a minha figura, de cima a baixo, sem parecer deixar de lado um centímetro sequer. Já a Sakura voltou a corar fortemente, desviando os olhos dos meus e fazendo várias tentativas abortivas para tentar falar.
– É claro que ela está, mas somente para o trabalho.
– Eu já gosto dela de qualquer maneira, independentemente da roupa que ela tenha. – Disse baixinho, levantando a testa à Sakura devagar para lhe poder depositar um beijo suave. Ela pareceu-me corar ainda mais, ao ponto de eu já não distinguir o tom de pele dela da blusa avermelhada que ela trazia naquele dia. – Bom dia.
– Bo… Bom dia, Doutor.
Suspirei e virei-me para a amiga dela.
– Mas se conseguires que ela pare de me chamar isto, eu ficar-te-ei agradecido.
– Por favor…
– Não te preocupes que eu trato disso para ti, fofo.
– Ino…?!?
– Ahh, pois é, peço desculpa, nem me apresentei. – Vi ela tirar um cartão de dentro da mala antes de mo endereçar. – Yamanaka Ino, sou filha de Yamanaka Inoichi, certamente já ouviste falar.
– Já ouvi sim, maior parte dos fatos de negócio que tenho são de lá e tenho o prazer de conhecer o teu pai pessoalmente. Prazer em conhecer-te também. – Dei-lhe o meu cartão de igual modo. – Se algum dia precisares de algum serviço por parte deste escritório, fica à vontade.
– Eu precisar até precisava, mas parece que a rosadinha já chegou primeiro. – Rimo-nos os dois quando ambos percebemos o que ela queria dizer. Não sei se a Sakura percebera ou se não achou grande piada, o facto é que ela me bateu suavemente no braço para eu lhe largar a cintura, levando depois os arquivos daquele dia para a minha sala. A Ino virou-se para mim de novo e piscou-me o olho, ajeitando-me a gravata ao mesmo tempo que dizia num sussurro. – Confia em mim, ela está apanhadinha. Apenas não o sabe demonstrar. Trata bem da minha amiga, sim?
– Podes ficar descansada, eu estou a planear tratá-la como ela bem merece.
– Doutor, daqui a nada o seu primeiro cliente chega…
– Sim, sim, eu sei.
– Esta é a deixa dela para me despachar. Enfim… – Senti a mão da Ino bater-me no ombro antes de ela pegar na mala que tinha pousado na mesa da Sakura, que olhava para nós ligeiramente desconfiada. – Eu vou andando, que daqui a nada também começa o meu curso. A gente vai falando testuda, vê lá se desta vez não me ignoras as mensagens nem as chamadas, sim? Se bem que, se estiveres aqui com o borracho, eu compreendo.
– Ino…
– Já sei, já sei. Fui!
– Ela deve amar envergonhar-me… – Ri-me um pouco quando a Sakura deixou aquele suspiro escapar, quando as portas de metal nos escudaram da visão de todos. Aproximei-me de novo, observando a cautela a crescer nos olhos dela e as mãos a erguerem-se lentamente para me pararem pelo peito, no momento em que enlacei de novo a cintura dela. – Estiveram a conspirar contra mim, enquanto eu fui à sala, não foi?
– Ela só me esteve a dar algumas… Informações e conselhos.
– Como o quê?
– Como que estás apanhada por mim. E para eu te tratar bem, dado que és amiga dela. E sim, estou a citar.
– Ela é tão… Tão… De empurrar alguém para os braços de outra pessoa, é tão…
– Puxa fodas?
– Sim! – Ela riu-se com a expressão, batendo-me de novo no braço somente pela linguagem que eu utilizara.
– Mas isso é assim tão mau?
– Porque é que me beijaste em frente a ela?
– Estás a mudar de assunto?
– Tu estás?
– Estou a ir na tua onda.
– E a aproveitar para me tocares pelos vistos. Tira a mão daí.
– Porquê?
– Alguém pode entrar e ver-nos…
– Isso quer dizer que fora daqui eu posso fazê-lo? – Perguntei encostando os lábios aos dela para não a deixar retaliar. Ainda senti os lábios dela mexerem-se debilmente, procurando dar uma resposta, antes de serem capturados pelos meus. Ainda senti a mão pela tremer contra o meu peito, antes de ela a elevar aos poucos e a repousar no meu rosto, numa carícia constante.
– Não ponhas palavras na minha boca… – Pediu-me, somente e suavemente, deixando a boca dela roçar pela minha, até que o irritante “tlink” do elevador a fez afastar-se de mim. – Todos os processos de hoje já estão na mesa, Doutor, e parece que o seu primeiro cliente chegou.
***
– Tem a certeza que não me quer dizer mais nada, Danzou?
– Porque haveria de ter mais algo a dizer?
– Bem… Acontece que o advogado de acusação do seu caso esteve a falar comigo ontem e deu-me a entender que eu não estava a jogar com o baralho todo, neste caso. – Recostei-me para trás na cadeira, unindo os dedos de ambas as mãos. – E como eu gosto pouco de me meter em algo sem saber de todos os pormenores, achei por bem dar-lhe mais uma oportunidade de me contar tudo, tal e qual como as coisas se passaram.
– Já te disse, miúdo. Quando o Mü morreu eu não estava sequer no Japão. O meu passaporte não é a prova disso?
– Não tem outro passaporte?
– Estás a acusar-me de alguma coisa, rapaz? – Nem pestanejei quando o punho dele desceu violentamente sobre a minha mesa e ele se levantou, inclinando-se na minha direcção numa ameaça simplesmente corporal.
– Apenas quero saber o barco em que me estou a meter.
– Tens medo que ele afunde? Só se fores tão incompetente como me pareces ser!
Mastiguei palavras de retaliação, engolindo mais aquele sapo com bastante dificuldade. Tudo bem que ele não me estava a contar tudo, via-se bem pela reacção violenta dele a uma pergunta tão simples como a que tinha feito. Mas ele era meu cliente, e antes disso havia sido cliente do meu pai. Tinha mais que meios para, no caso de o barco afundar, nos fazer ir ao fundo com ele. Eu tinha de pensar muito bem na maneira como iria expor aquele caso, para não ser pego de surpresa. Até porque, pela presunção do Gaara, eu estava em muito maus lençóis.
– Apenas me quero inteirar de tudo o que se passa. Não quero ser apanhado desprevenido, com algum trunfo que a acusação possa ter na manga. Certamente compreende isso.
– Quem é o advogado de acusação?
– Peço desculpa, mas não posso divulgar nomes. – Além de que eu já conheço muito bem o teu historial de subornos, no que toca a safarem o teu rabo no tribunal, Danzou. Ao que parece, não sou assim tão incompetente como me pintas. – Mas garanto-lhe que eles sabem algo que eu não sei, ou mesmo que o Danzou não sabe.
– E não consegues fazê-lo cuspir isso?
– Receio que não.
– Nem com recurso a outros meios?
Aos poucos, estás a chegar onde eu quero.
– E que meios seriam esses?
– Qualquer homem tem um preço. Aliás, qualquer pessoa o tem. Tu, mais do que ninguém deves saber disso, pelo que o teu pai me falava de ti. Negociavas noites e dias praticamente como um passatempo.
– Receio que um advogado seja ligeiramente diferente.
– Como eu disse, qualquer pessoa tem um preço. – Ele sentou-se de novo puxando de um livro de cheques de dentro do casaco. – Até te passo um cheque em branco, para lhe entregares a próxima vez que estiveres com ele. Diz-lhe até que me pode ligar, para acertar um valor que lhe seja mais confortável financeiramente. Eu gostava de falar com ele, antes do julgamento. Achas que me podes fazer isso?
Acenei simplesmente, sem me comprometer com mais nada.
– Óptimo então. Assim que souberes de algo, liga-me também. Quero saber exactamente que tipo de trunfos são esses que eles têm, sabes, para a gente poder preparar uma melhor defesa. Certamente compreendes isso, estou correto?
Cerrei os dentes, por ver as minhas palavras voltadas contra mim próprio, mas acompanhei a mão para encontrar a dele, num gesto de despedida.
– Compreendo sim, fique descansado que saberei de tudo. – Ele somente acenou antes de sair do meu gabinete, passando pela mesa lá de fora sem uma palavra ou aceno, limitando-se a entrar calado no elevador.
Assim que as portas deste fecharam, rasguei o cheque em mil pedaços, amaldiçoando o papel por não ser do comprimento da minha raiva para a poder mitigar. Só aquelas últimas palavras e acções me tinham dado tudo a entender. Havia de facto algo muito errado naquela história, e eu sentia que estava do lado desse erro. Mas não havia mais nada que eu pudesse fazer, naquela altura. A audiência já estava marcada, mesmo que eu resignasse o caso, ele nunca conseguiria achar um advogado para o representar a tempo. Disso só resultaria o adiamento do julgamento, e isso era algo que eu não queria. Se realmente estava do lado errado, pelo menos ia fazer com que as coisas se cumprissem nos tempos certos. Se ele era o culpado, eu não o iria safar. Se ele era o culpado, seria eu a ajudar a rodar a chave da cela.
Tentei ligar para o escritório do Gaara, mas aquele idiota não me atendeu. Atirei o telefone com toda a força contra o seu suporte, escondendo a cabeça entre as mãos de novo.
– Dou…tor?
– Diz?
– É só para o avisar que… Bem, o telefone é novo. Ainda se lembra do destino que deu ao outro?
Suspirei, espelhando uma amostra de sorriso ao me lembrar efectivamente da cena.
– Eu sei, eu sei. Mas este caso está a dar-me cabo dos nervos.
– Quer que eu traga mais um café? – Perguntou ela, enquanto me recolhia os papéis daquele caso e me começava a preparar os do cliente seguinte.
– Nesta altura só há uma coisa que me vai fazer acalmar e eu não sei se me podes facultar isso.
– Mas posso tentar, certo?
Não esperei por mais nada, porque já antecipara aquela resposta dela. Simplesmente a peguei pela cintura, puxando-a para o meu colo e beijei-a.
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