Apprentice
17 Capítulo 16
Notas iniciais
– É, mas... Se me permites, tu... Antes andavas mesmo com a cabeça em outros assuntos. – Deixei escapar, simplesmente, olhando de um modo bastante fixo a meia sandes que tinha à frente. Notei os olhos dele pregados em mim, tentando não o encarar, muito resumidamente por nem sequer saber como reagir a essa nova mania mais recente dele.
– Realmente...
– O teu pai costumava dizer que estavas “absorvido num mundo de nova burguesia". – Tentei enveredar por um tópico mais antigo, de modo a poder dominar um pouco mais a situação. A expressão dele alterou-se, de súbito, vagueando entre o desconfiado e o confuso. – Em resumo, que tinhas o hábito de ligar mais aos prazeres mundanos do homem e não ao que poderias conquistar se lutasses por ti mesmo. Pela tua vida e pelo teu futuro. Apesar de eu poder, em parte, compreender que era a falta da tua mãe que te mantinha dentro desse ideal de vida menos feliz.
– Digamos que o meu pai pode ter-se esquecido de te mencionar ao longo desses desabafos todos que tinha contigo, que ele próprio não ajudava muito à causa que defendia aos olhos de toda a gente. – Disse-me. Olhei-o atentamente, tentando perceber, pelo menos, o seu raciocínio. O sorriso que ele mostrou, de canto, fez-me entender que ele se daria por bastante grato por tal. – Ele nunca foi propriamente o exemplo do chefe de família perfeito. Passava dias inteiros sem ver a minha mãe e sem procurar saber como ela estava. Às vezes até acho que se ela tivesse morrido dois dias mais cedo – visto que ele estava em viagem nessa altura – ele nem se teria dado ao trabalho de vir ao funeral dela, só para poder divertir-se mais um bocadinho com aquela prostituta que levava para todo o lado, durante as idas ao estrangeiro em negócios.
Olhei-o, agora eu igualmente confusa. De facto, era normal ter de marcar passagens para duas pessoas em cada viagem do Sr Uchiha, no entanto, ele ia com uma das accionistas e nunca me parecera que os dois tivessem um caso. Eu já a vira antes, era aquela ruiva mal-encarada que tinha passado o tempo a ignorar-me quando os 5 accionistas se reuniram durante aqueles dias em que o Sasuke-San tinha estado fora do escritório. Era costume eu vê-la por lá mas nunca me parecera que ela e o pai dele estivessem envolvidos. Aliás, eles discutiam várias vezes, até. Era certo que ela não o largava, que ligava bastantes vezes e vinha ao escritório por vezes resolver assuntos que poderia bem resolver por email ou falando comigo ao telefone, mas isso era algo que ela ser recusava terminantemente a fazer. Ela era daquelas senhoras de nariz empinado que nunca falava com a secretária, preferindo sempre fazê-lo directamente com o patrão. Na verdade, eu tinha estranhado isso ao princípio, mas... Será mesmo que o Sr Uchiha e a Terumi Mei tinham algo um com o outro?
– Adiante, não viemos almoçar juntos para falar do meu pai, pois não?
Estremeci apenas, sentindo a mão dele aproximar-se da minha, tocando-lhe aos poucos. A pele dos seus dedos estava demasiado fria mas, ao encontrar o contacto com a dos meus, parecia tão quente. Fechei os olhos, levemente, com um suspiro antes de as afastar. Não iria conseguir aguentar muito tempo aquele almoço se ele continuasse simplesmente a tentar criar proximidade daquele modo entre nós dois. Ele ainda era o meu chefe, certo? Isso não abonava nada a meu favor. Ele continuava a ser o chefe e eu a subordinada. Apenas e só isso mesmo.
– T-Também não me parece que tenhamos vindo... Almoçar juntos para... Para tentares... Algo do género de... Cortejar-me ou assim. – Disse só, baixinho. Os meus olhos ainda não tinham parado de voltar a fixar a meia sandes quase intacta à minha frente.
– Porquê? – Ouvi a voz calma dele perguntar, exclusivamente. – É assim tão errado que eu me preste a fazer isso? A cortejar-te?
– P-Penso que sim.
– E porquê?
– Não sei...
– Tem de haver uma razão para que o aches, Sakura.
Levantei os olhos novamente, encarando os dele por uns segundos antes de soltar mais um suspiro. Sentia a cara ferver, a cada instante mais abruptamente. Raios, ele... Ele ia mesmo tentar fazer-me aquilo? Será que ele não tinha noção de como a situação poderia tornar-se desconfortável?
– Talvez eu... Eu ache que seria errado um patrão andar envolvido com a própria secretária. Porque as pessoas iriam falar e...
Senti a mão dele no meu queixo quando ele se debruçou na mesa para a fazer chegar a mim, levantando-o para me fazer olhar directamente nos seus olhos. O meu coração disparou de imediato no meu peito, como que exigindo explodi-lo por se sentir em derradeiro sufoco. Quando raio é que eu tinha percebido pela primeira vez que aquele ónix dos olhos dele era, de facto, tão lindo assim?
– Lê nos meus lábios, Sakura: Eu não me importo minimamente com o que as pessoas falem. Se tiver de escolher-te para estar ao meu lado, escolherei. E tu és a minha escolha. Serias a minha primeira opção, mesmo que eu olhasse mil e quinhentas vezes para trás.
Engoli em seco saboreando apenas cada gosto das palavras dele à medida que elas me adocicavam o coração. A minha respiração foi travando aos poucos, tal como as minhas pernas o fizeram ao senti-lo levantar-se da cadeira onde estava para caminhar até ao meu lado. A mão só largou a minha por segundos até voltar a encontrá-la, quando ele voltou a aproximar-se, acocorando-se para me fazer olhar para ele directamente um pouco mais, já que eu optara por virar a atenção para o chão, de tão corada que estava naquele momento. Nenhum de nós falou, até ele se limitar a estender a outra para me tocar nos cabelos, como que apreciando-lhes somente a textura.
– Por isso, se me perguntares por que razão estou a fazer algo assim, eu respondo “porque estou cansado de usar uma máscara e estar sozinho para não me magoar”. Apenas isso.
– Então... – Tentei, sem levantar minimamente a voz, murmurando ao invés disso, só. – Não quer dizer que sintas algo, apenas... Apenas queres deixar de te sentir imerso na solidão, é isso?
O sorriso de canto dele surgiu, uma vez mais.
– Já te disseram que consegues ser demasiado poética quando queres?
Suspirei, baixando de novo a cabeça.
– Acho que sim. – Preferi responder. Talvez uma mudança de assunto fosse, de facto, estritamente necessária naquele momento. – Algumas vezes.
– Sakura, eu não disse que não sentia qualquer coisa. Aliás, eu só não fui logo muito mais directo porque não estou disposto a que fujas de mim. E sei que o farás se eu te disser algo com o qual te sintas demasiado pressionada. – Senti a mão dele vaguear dos meus cabelos para o meu rosto, acariciando-o devagar, provocando em mim a vontade de encará-lo mais uma vez. – Só... Estou a dizer-te que quero tentar. Que vou tentar, diga-se de passagem. E deixo-te já o aviso de que não pondero desistir. Não mais. Não enquanto os teus olhos amarem os meus dessa forma.
Corei horrendamente, desviando apenas o olhar de novo, sem saber bem o que dizer ao ouvir aquilo. Esbocei apenas um sorriso que tentei que parecesse o mais franco possível, mas também divertido. Eu devia esforçar-me por deixar que ele visse que eu estava a levar as coisas na brincadeira. Apenas isso. Só isso.
– Para q-quem... Para quem dizia que eu era demasiado poética... Está a revelar-se um poeta não muito diferente... Doutor.
A expressão dele mudou ao ouvir a última palavra. Acabou por suspirar e levantar-se.
– Juro que, um dia, vou conseguir que retires completamente essa palavra do teu dicionário. Juro-te isso.
Sorri, ao perceber que a minha última frase havia tido o efeito que eu desejava. Levantei-me da cadeira e enfrentei-o apenas, frente-a-frente.
– É melhor eu devolver-lhe a sua cadeira então, Uchiha-Sama porque aconselho-o a esperar sentado.
– Estás a provocar-me de mais, Sakura. – Avisou ele, colocando-se automaticamente à minha frente. Há já uns minutos que o sorriso dele tinha desaparecido, ele não parecia, de todo, estar a gostar da brincadeira. Mas esse era o modo de eu lidar com o nervosismo, e, de caminho, de mantê-lo afastado. – Não respondo por mim se continuares a tentar arreliar-me.
– Devo ter medo, então? É que, na verdade, eu ainda estou só a começar... – Avivei somente, limitando-me a encará-lo agora com um ar também mais sério que o anterior. – Chefe.
Senti os braços presos no peito dele quando os seus me puxaram na sua direcção pela cintura, a boca cravando-se na minha de um modo mais sôfrego do que calmo. Deixei que os nossos corpos se aproximassem mais, as minhas mãos vagueando-lhe pelo colarinho da camisa azul, enquanto as dele subiam pelas minhas costas, obrigando o meu tronco a encostar-se ao seu. Ele beijava bem demais... Eu sentia-me no céu. Levitava, é verdade, mas ao mesmo tempo que o seu abraço amparava as minhas pernas trémulas, a queda tão certa parecia muito mais longínqua.
Nunca imaginara que um dia pudesse perder o controlo e deixar que ele me beijasse e abraçasse assim. Ele era o meu chefe ainda, e, apesar de eu tentar fazer de tudo para lutar contra isso, dia-após-dia ele já se tinha tornado demasiado importante. Ele fazia-me sorrir. Desafiava-me. Mas, ao mesmo tempo, era um completo mistério para mim apesar de eu parecer, no entanto, já conhecê-lo tão bem.
À medida que deixava que os nossos lábios se encontrassem mais e as nossas línguas passeassem uma na outra como que bailando juntas a um mesmo ritmo tão quente, só me sentia cada vez mais convicta de que o que ele havia dito seria mesmo verdade. Ele não tencionava, de facto, desistir. Mesmo que, no final de contas, ele não gostasse de mim o suficiente, mas ele tencionava de todo conquistar-me. No entanto, era de mim que dependia o sucesso – ou insucesso – dessa sua missão. E eu não iria deixar-me aliciar assim tão facilmente, apesar de estar a gostar demasiado daquele beijo. Porque ainda tinha o meu orgulho. E não iria depender, jamais, dele e nem do seu dinheiro.
Era em todas essas últimas coisas que teria de pensar para me manter fiel aos meus princípios.
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