Apprentice
15 Capítulo 14
Notas iniciais
– Vá bebé, não fiques triste. A mamã vai ficar umas horinhas fora mas ela garante que te traz uma prendinha muito fofa quando voltar, sim?
Ri-me, parada à espera dela à entrada do elevador, vendo-a trazer a mala no antebraço enquanto punha os óculos de sol na cara apesar de ali não haver nenhuma luz senão a dos candeeiros espalhados pela zona.
– A sério que te estás a despedir do carro?
– Ora, ele ainda é pequenino! – Exclamou ela como se estivesse muito ofendida, virando-me a cara em seguida. Entrámos no elevador, que rapidamente fechou as portas. – Além disso, eu considero-me uma boa mãe. Uma mãe ocupada e às vezes ausente... Mas uma boa mãe. Atenciosa, prendada e dedicada.
Não consegui conter outra gargalhada.
– Estás a achar-me graça? – Ela olhou-me com um ar que parecia bastante sério. Limitei-me a abanar a cabeça, parando de rir. Afastou os óculos um pouco dos olhos e encarou-me, parecendo ligeiramente confusa. – Bem, para quem dizia que precisava desanuviar porque estava de rastos... Vens muito bem disposta, testa larga.
– É, pois venho, porca. – Respondi apenas com um suspiro. Saí, esperando por ela, quando a porta do elevador se abriu, deixando adivinhar mais um magote de pessoas para entrar por lá a dentro. – A propósito... Explicas-me porque é que estás de óculos de sol aqui dentro? É que além de não estar clima para isso... – Baixei a voz depois, inclinando-me para ela e segredando: – Está toda a gente a olhar para nós.
– Mulher que é mulher a sério... Nunca deixa para trás os seus óculos de sol. – Declarou ela, virando-se para mim, mas acabando por engolir em seco quando a encarei com cara de poucos amigos. Limitou-se a pô-los em cima da cabeça. – Pronto, ok... Não era para te ofender, vá.
Sorri-lhe depois, olhando em volta.
– Eu sei... – Disse apenas, encolhendo os ombros com um sorriso. Ainda senti os olhos dela presos em mim, antes de ela parar no meio do caminho e pôr-se à minha frente.
– Ok, chega. – As duas mãos repousaram nos meus ombros e ela olhou-me seriamente. Olhei-a só, sem perceber a ideia. – Tu és uma sósia, não és? – Desatei a rir. – É isso. És uma sósia da Sakura e vieste para tomar o lugar dela depois de ela ter ido lá para a terrinha dos pais dela. É isso, não é? Onde é que ela ficou? Está doente, está de cama? Apanhou alguma gripe por lá e tu aproveitaste-te da situação?
Não consegui parar de rir.
– Não te rias, estou a falar muito a sério!
– Ino, sua palerma! – Parei de rir depois, olhando-a só. – Sou eu. Sou mesmo eu. Está bem?
– A sério? – Ela olhou-me, como se ainda não estivesse nem um pouco convencida, analisando-me com atenção, como que em busca de algum factor que pudesse corroborar a sua teoria maluca. – Quando é que ficaste tão bem humorada? Tu sempre foste tão... Séria.
E fez uma careta ao dizer a última palavra. Eu limitei-me a encolher os ombros, de novo.
– Sim, sim. Séria, bruta, fria, má, seca... Múmia até, se preferires, sou isso tudo. – Suspirei, sorrindo-lhe. – Eu continuo igual. Só... Optei por ser mais... Como direi? Mais... Descontraída. Por relaxar um bocado.
A Ino olhou-me ainda meio desconfiada, antes de os seus lábios se transformarem num pleno sorriso. Mas não aquele sorriso contagiante que eu adorava nela. Não aquele sorriso que costumava encher uma sala à sua entrada. Não. Agora, a Ino parecia mais... Mais... Maldosa?
– Hummm... Vamos aproveitar esse súbito relaxamento todo e fazer uma visitinha ao Sasori no O’Nara no Place, que me dizes? – Tentou ela, fazendo-me logo perceber onde aquela cabecinha loira tencionava chegar com aquele sorriso todo. – Está a apetecer-me um gelado, a tarde está quente, não achas?
– Não, não está, e eu já te disse que não estou interessada no rapaz portanto tira daí as ideias.
– Aff! – Virei-me para ela quando a vi parar e cruzar os braços, amuada. – Continuas, de facto, um bocado secante em algumas coisas. Não podias mudar essa parte também? Relaxá-la um bocadinho? Não custa nada, vá lá, faz um esforço!
– Ino, eu não vou andar atrás do Sasori, percebes? – Enverguei a mesma pose de amuo dela, fixando-a arduamente, sempre com um ar sério. – Ele tem namorada e eu não sou propriamente o género de rapariga que se ponha a estragar relações.
– Hum, está bem. Mas vamos lá na mesma, ao menos? Quero um gelado e também disseste que tinhas saudades daquilo.
Não consegui resistir ao ar abebezado dela, quando fez beiço para tentar convencer-me a alinhar na ideia. Acabei por puxá-la por um braço em direcção às escadas rolantes. O Shopping estava cheio mas nem isso fazia com que eu perdesse a vontade de ali estar. Talvez estivesse mesmo a precisar de uma tarde absolutamente feminina, passada a ver montras de roupa e sapatos. Não que tencionasse gastar algum dinheiro – apenas o suficiente – mas precisava de livrar a cabeça de algumas coisas, entre essas, a mensagem de texto que tinha recebido no dia anterior no telemóvel.
Não fazia a mínima ideia de como ele obtivera o meu número. Não me lembrava de lho ter dado e, com certeza, não esperava que ele tivesse coragem de ir pescá-lo à minha folha de colaborador da Firma. No entanto, a presença dessa hipótese assustava-me um bocado, tinha de confessar. Até que ponto ele se daria ao trabalho de fazer de stalker para conseguir aproximar-se de mim? Mesmo com o risco de poder levar outra nega da minha parte?
– Sah... Sah!
Acordei dos meus devaneios ao ouvi-la chamar-me ao que parecia ser pela, pelo menos, quinta-vez, a julgar pela sua impaciência toda. Tínhamos acabado de nos sentar numa das mesas e, ao contrário do que era costume, eu nem sequer tinha prestado a mínima atenção para onde tínhamos vindo. Estávamos sentadas mesmo em frente ao balcão, num lugar que dava vista directa para o posto de trabalho do empregado ruivo. Certo. Eu ía matá-la.
– Ino... O que é que eu já te disse sobre...?
– Não reclames. Se tu não vais aproveitar, minha amiga, então vou eu.
– Mas... Tu não tinhas estado com um amigo especial ontem à tarde, Ino? – Lembrei eu, olhando do Sasori para ela, confusa. Reparei que ele me notou, sorrindo-me em seguida, antes de se encaminhar para a nossa mesa com dois menus em mãos.
– Não tenho culpa se tenho um coração enorme e cheio de amor para dar. – Disse-me simplesmente.
– Olá meninas.
Os meus olhos encontraram os dele, ao que me limitei a acenar-lhe. Sorri-lhe levemente também quando ele o fez, antes de encaminhar a atenção para a Ino, a quem só faltava atirar-se para os braços dele tal era a sensualidade com que o fixava.
– Olá borracho!
– Então, onde é que andavam escondidas? Há muito tempo que não passam aqui. – Perguntou ele, mudando o pano de mão e colocando-o sobre o ombro quase num só movimento.
– Aproveitámos o gelo dos últimos dias para afundar mais uns navios, a Norte do País. – Ele olhou-a, confuso. – As sereias têm esse propósito. Ou vais que não sabias disso?
Ele riu-se.
– Claro. –Disse. – Bem, o que é que vão querer?
A Ino cortou-me a palavra sem me deixar responder, tal era a sua ânsia em virar as atenções do Sasori na sua direcção.
– Dois gelados de banana e morango. Daqueles grandes. Com muita nata, como só tu sabes servir.
Tive o impulso de me rir perante o comentário dela, mas contive-o. Limitei-me a não dizer nada, acenando simplesmente ao pedido que fizera. O Sasori acenou também e virou costas.
– É para já. – Respondeu com um suspiro, indo directo ao balcão em seguida. Olhei da Ino para ele e depois para ela, novamente. Notei o ar babado dela e passei-lhe a mão à frente da cara, como que para acordá-la do transe. Não funcionou.
– Ino?
Ela olhou-me de volta.
– Hm?
– Acho que ele... Que ele não foi bem na tua onda. A piada das sereias não o fisgou, sabes? Pareceu-me a mim.
– Aff... Vocês merecem-se mesmo. – Disse ela, desanimada, pousando o queixo na mão antes de voltar a tirá-lo de lá para dar espaço ao tabuleiro que ele trouxera com os dois pedidos. Sorriu-lhe depois, parecendo recuperar toda a disposição para o fazer notá-la, novamente. – Obrigada, fofo.
– De nada. – Os olhos dele voltaram a cair em mim. – Espero que gostem. E voltem cá mais vezes, ok? Depois não se esqueçam, para pagar é com o Shikamaru-Sama ali na caixa.
– Hai. – Ouvi a Ino dizer, olhando dele para mim. Limitei-me a encarar o gelado, sem lhe dar troco algum. Ela limitou-se a segredar, inclinando-se para mim, quando o viu ir embora. – Ele está totalmente a babar-se por ti e tu nem lhe dás trela.
– Já te disse o que tinha a dizer. – Expliquei só. – Além disso... Eu não lido bem com situações destas. Não me sinto muito à vontade quando tenho homens a “babar-se” por mim, como tu dizes.
– Ah, vá lá... Que idade tens tu? 50 anos? – Perguntou ela, apesar de eu saber que uma resposta minha era algo que ela não pretendia. – Aproveita a vida, diverte-te! É para isso que ela nos é dada. Ou achas que se fosse para vivermos enfiados em casulos o dia inteiro e sair só para trabalhar, como fazes, ela teria alguma piada? Vá, diz-me lá... Qual foi a última vez que dormiste com alguém?
– INO!
– Estou a falar a sério! – Exclamou ela, baixando a voz depois, novamente. – Qual foi a última vez que acordaste ao lado de um homem, depois de uma noite louca de sexo durante horas? Qual foi a última vez que sequer saíste com um homem? Qual foi a última vez que te divertiste a sério?
Pesei bem as palavras dela. De facto... Qual tinha sido a última vez mesmo? Eu não era daquelas raparigas que nunca tinha dado um beijo na vida, já o tinha feito. Mas, talvez, os acontecimentos decorridos nos últimos anos entre mim e a pessoa responsável por eu ter essa primeira experiência fossem a chave para eu me ter trancado assim, atrás desta barreira que não criava espaço algum a deixar entrar um homem na minha vida. Talvez... O facto de as coisas entre mim e o Kiba se terem embrulhado assim tanto me tivesse tornado na pessoa solitária que eu era, actualmente. Não que tivesse existido mais do que isso. Um beijo, alguns carinhos, éramos apenas adolescentes, eu tinha 16 anos na altura. Mas nunca houve espaço para existir mais nada, especialmente depois de eu me ter vindo embora dali.
Portanto, em suma... Eu nunca tinha dormido com um homem. Não que eu achasse isso algo mau, eu queria esperar pela pessoa certa para isso mas... Seria assim tão mau e tão estranho chegar aos 24 anos e não ter tido sequer uma coisa que pudesse ser chamada de “relação” com alguém? Era isso?
– Ino... Eu nunca... – Tentei explicar. Não estava bem a acreditar que iria falar daquilo assim, que lhe iria confessar algo tão íntimo mas... Eu... Acho que precisava de ouvir a opinião dela, se isso me ajudasse a travar aquelas conversas mais sórdidas que ela tinha vindo a ter comigo, durante todo aquele tempo ao longo do qual já nos conhecíamos. – Nunca... Nunca... Bem...
Os olhos dela encararam os meus, tomados totalmente pela confusão.
– O que foi?
– Eu... Eu sou...
***
– Juro que se já me tivesses dito que eras virgem eu nunca iria forçar tanto a barra naqueles meus discursos todos. Sabes disso, não sabes?
– Sei. – Limitei-me a responder com um sorriso. De facto, eu tinha razão. Aquela minha pequena revelação tinha feito com que a Ino tomasse um pouco de consciência nos seus actos, havia-a feito repensar as conversas que tínhamos as duas sobre o assunto, as coisas que ela já havia partilhado comigo, tudo mais. Mas, ao contrário do que eu podia esperar, também tinha feito com que ela se tornasse uma melga. E isso era demasiado mau, no meu ponto de vista.
– Juro. É que, sei lá... Eu sei que tu és meio... Chata e isso tudo. Que pareces – ou parecias – ter a idade da tua avó e não a tua verdadeira mas... Sinceramente, nunca me ocorreu que pudesses mesmo ser virgem.
– Eh pá, importas-te de parar de repetir isso? – Pedi só, fazendo-a dar um salto e largar os cabides dos dois vestidos que estava a ver, naquela zona dos saldos. – É que é um bocado desconfortável e... Eu contei-te a ti, não era suposto ser para espalhares ao resto do mundo depois, sabes...
– Desculpa.
– Agora, ajuda-me a decidir – Peguei em dois vestidos e coloquei-os à minha frente para que ela pudesse analisá-los atentamente. Tive o cuidado de voltar a olhar as etiquetas antes de fazê-lo, de modo a fazer umas contas rápidas ao orçamento que poderia gastar naquela tarde. A princípio não tencionava gastar um centavo no que quer que fosse mas... Aquela conversa toda da Ino mexera um bocado com as minhas entranhas. Não me fazia mal nenhum, portanto, arranjar-me um bocadinho mais mesmo que fosse para estar no escritório o dia inteiro, certo? – Qual deles achas que leve?
– Hum... – Ela fez uma pausa, olhando de um para o outro, parecendo pensar bem no que dizer. – Nenhum dos dois. Gosto daquele ali. O rosa.
Olhei para o vestido que ela apontava e larguei aqueles. Estava em exposição num dos manequins da entrada, devia ser para cima de caríssimo. Aproximei-me, olhando-o com atenção, permitindo que o meu queixo caísse aos poucos, ao fazê-lo. O seu desenho perfeito caía bem com o corte muito bem elaborado. As mangas eram curtas, o decote bem marcado, o pano da saia estendia-se totalmente a direito até à zona que me deveria ficar ligeiramente mesmo acima do joelho. O toque feminino era finalizado com um casaquinho que atava na zona abaixo do peito, fazendo com que o decote ressaltasse à vista desarmada de quem ousasse fixá-lo.
Senti as bochechas quentes ao imaginar-me a vesti-lo no dia seguinte, durante aquele almoço. O meu coração só acelerou mais depressa quando o fiz.
– Já te tinha falado desse, lembraste? – Perguntou a Ino aparecendo atrás de mim e cortando-me por inteiro o raciocínio. – Na semana passada. Assim que o vi, lembrei-me logo de ti.
Olhei-a, como que percebendo finalmente, toda a insistência dela em entrar naquele lugar antes de irmos embora.
– Foi por isso que...?
– Que quis passar aqui na loja? – Olhou para o vestido depois, acariciando a zona da manga devagar, antes de encolher os ombros. – Sim. Acho que... Apesar de me achares uma palerma, às vezes, eu... Sei que gostas de mim como sou e... Bem... Quis tentar dar-te um miminho, para variar.
– Ohh, Ino...
Abracei-a, só. Ela correspondeu mas depois afastou-me, fazendo menção de pegar no vestido. Nos seus olhos, cintilavam dois pontos brilhantes que eu pude perceber que não eram obra apenas da luz daquele lugar bem iluminado.
– Então, basta de lamechice que eu não quero borrar a maquilhagem! – Disse ela, rindo depois, fungando um pouco ao perceber que eu já tinha dado conta das suas lágrimas. – Vamos lá pagar esta maravilha antes que chegue aqui alguma lambisgóia e to roube.
– Ino... A sério, eu... Eu não posso...
– Não aceito um não como resposta, vais levá-lo e pronto!
E encaminhou-se, sem me dar espaço para responder, para o balcão da loja.
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