Apotheek

3 Capítulo 3


Andressa terminava de fazer as dispensações de receitas daquele dia, quando percebeu que Alexandre a chamava. Ela entrou em sua sala e se aproximou de sua mesa.

— Pois não?

— Eu gostaria que você anotasse todos os compromissos desta semana na agenda, incluindo os de hoje pois teremos muita coisa para fazer.

Ela segurava a agenda que havia organizado no dia anterior e a colocou sobre a mesa. Alexandre olhou surpreso e ao mesmo tempo curioso. Ao abrir a agenda, viu que todos os compromisso estavam organizados por data e horário, incluindo o dia atual, como ele havia pedido. Ele a colocou de volta na mesa e levou seus dedos ao queixo, refletindo sobre o que acabara de ver. Andressa apenas observava, silenciosa.

— Muito bem, você tem se mostrado muito eficiente.

— Obrigada.

Ele se levantou de sua cadeira segurando a agenda.

— Aqui diz que temos uma reunião daqui meia hora com os gerentes da nova filial.

— Quer que eu prepare as apresentações para levar?

— Qual a parte de 'temos' você não entendeu?

— Desculpa, eu não havia entend...

Ela abaixou a cabeça mas no mesmo instante Alexandre a levantou com uma das mãos.

— Apenas vamos, Andressa.

Ele falou olhando dentro de seus olhos.
Logo após sair da sala, Andressa surgiu seguindo-o, ela tentava imaginar o que se passava na mente de seu patrão depois de tudo que havia acontecido. Tudo estava tão normal que até parecia que a história havia caído no esquecimento, ao menos ela preferiu agir como se realmente nada tivesse acontecido.

Ao chegar no estacionamento, Andressa ficou boba ao ver qual carro havia respondido ao chaveiro-alarme de Alexandre, para ele era apenas mais um carro comum mas Andressa nem sabia dizer que aquilo era um Range Rover Evoque, ela só sabia que era um carro lindo e preto.
Alexandre abriu a porta do lado do carona e olhou para Andressa que permanecia parada. Ele sorriu.

— Você não vem?

Falou sinalizando para a porta. Ela, ainda calada, apenas entrou lentamente no carro, que parecia ainda maior por dentro.

— Você parece gostar de carros.

— Gosto sim. Sou apaixonada pelas BMW, mas este aqui também é lindo.

Alexandre sorriu de canto ao perceber o quanto ela ficou surpresa.
Ele dirigia e, em minutos, estavam na nova filial onde aconteceria a reunião.
Andressa entrou ao lado de Alexandre que pegou a maleta com as pautas da mão dela, em um gesto cavalheiresco. Ela, apenas concordou agindo naturalmente.

Ao entrar na sala de reuniões, ela se sentou à ponta da mesa e percebeu que era a única mulher em uma roda que haviam um pouco mais de dez homens, todos novos gerentes.
Eles a cumprimentaram discretamente e ela apenas consentiu com a cabeça para todos, se arrependendo bastante de ter ido àquele lugar.

Ele iniciou a reunião relembrando sobre as missões da empresa enquanto ela observava e arremedava tudo em sua mente, pois sabia tudo aquilo de cor e salteado. Ela não havia percebido, mas tinha se envolvido muito com a Apotheek desde o momento que começou a trabalhar. Andressa sabia tanto quanto Alexandre, ou até mais que ele, sobre a empresa. Muitas coisas era ela quem resolvia, não chegava até ele sem antes passar por ela.
Ao final da apresentação, ele falou a frase que sempre dizia quando finalizava suas reuniões.

— E lembrem-se disso: Pequenas atitudes geram grandes resultados.

Andressa repetiu essa frase junto com ele, sem perceber que havia dito em um tom audível. Todos a olharam e ela fingiu uma tosse enquanto olhou para seu tablet que estava aberto nas planilhas de ações do último ano. Alexandre sorriu disfarçadamente, ao perceber que ela havia decorado sua fala. Para ele, foi interessante ver aquilo.
Ao falar das ações e do faturamento da empresa no último ano, todos se surpreenderam em como os números subiram, até mesmo Andressa, que olhava surpresa para a tela. Ela admirava a satisfação e dúvida daqueles homens ao ver quanto a empresa havia crescido em apenas um ano. Alexandre pediu silêncio para que pudesse explicar.

— Muitos de vocês sabem que as franquias trabalharam muito neste último ano e que cada vez mais se encontra a Apotheek em vários lugares do Brasil, mas todas as franquias depende da central e a central depende de mim. Neste último ano consegui resolver muitas coisas e pude trabalhar muito mais, pois agora tenho um braço direito que, muitas vezes faz além do que peço — Ele olhou para Andressa — Vocês devem saber que a contratação de bons funcionários implicam para o crescimento. Não podia terminar esta reunião sem creditá-la, pois tem me ajudado muito.

Ele caminhou até Andressa que olhava assustada para ele, ela não sabia o que estava acontecendo. Alexandre pega em sua mão e a levanta da cadeira, admira seus olhos assustados e diz com um sorriso no rosto.

— Eu quero apresentar à vocês, Andressa, a nova vice-presidente da Apotheek.

Ele soltou sua mão e iniciou uma sessão de aplausos seguida pelos outros homens que tomou conta daquela sala de reuniões. Ela agradecia sinalizando com a cabeça, envergonhada.
Depois disso, todos começaram a se retirar e ela se aproximou dele, sussurrando por cima de seu ombro.

— Porquê fez isso? Perdeu o juízo?

Ele apenas sorriu para ela enquanto fechava a maleta e seguiu para o carro. Ela o seguiu também.
Ao se sentarem ela cobrou a resposta para sua pergunta.

— Eu já estava pensando nisso há alguns dias, vi como você tem me ajudado e quis te ter mais próxima de mim... Quis dizer, da empresa, para que ela permaneça crescendo. — Alguns minutos de silêncio até a próxima frase — Mas se não quiser, por mim tudo bem, eu peço à Rayana que contrate alguém para o cargo e...

— Não! Não é isso! — Ela o interrompeu — é que nunca imaginei que você prestasse tanta atenção no meu trabalho. Eu só quero te agradecer por cada oportunidade que você me deu.

— Você merece muito mais que isso, Andressa. Você ainda vai chegar muito longe.

Ele disse, sorrindo enquanto dirigia. Andressa respirou fundo e se jogou contra o encosto do banco.

Alexandre recordava em sua mente, a primeira vez que havia visto Andressa ser apresentada à ele por Rayana na empresa. A menina de sorriso tímido e recatada que nunca imaginou que iria contribuir tanto, se tornou a vice-presidente.

Ao chegar na central, os dois foram para a sala dele.

— Quero te agradecer por tudo.

Alexandre disse em frente dela.

— Não tem porquê, Alex, apenas fiz meu trabalho.

— Se quiser, pode ir pra casa. Você já fez bastante.

Ele pegou a mão dela e olhou o pulso que ainda permanecia levemente roxo. Ela tentou puxar outra vez, mas ele segurou com firmeza porém carinhosamente.

— Eu me machuquei, foi só isso.

— Andressa, eu cuido de pessoas durante anos. Não tente me enganar — Ela engoliu a saliva na tentativa de dizer alguma desculpa — Preciso que você seja sincera comigo.

— Isso não foi nada. Não se preocupe.

Ela falou retirando o pulso da mão dele que, desta vez, permitiu.

— Se precisar de qualquer coisa, é só me ligar, tudo bem?

Andressa apenas conssentiu com a cabeça e saiu pela porta segurando o pulso marcado.
Ao pegar a bolsa, sentiu mãos apertarem sua cintura.

— Oi coração!

— Oi Ray...

Falou desanimada.

— Que tristeza é essa, amiga?

— Estou cansada, só isso.

— Entendo — Ela parecia eufórica — Recebi um encaminhamento do patrão pra te registrar como vice-presidente da empresa, amiga! É isso mesmo?

— Sim, pelo que parece é isso sim. A reunião de hoje se pareceu mais com um ritual de iniciação.

Rayana gargalhou mas parou ao perceber que a amiga permaneceu séria.

— Poxa, Apotheek nunca teve uma vice antes. Nem mesmo a oxigenada havia conseguido este cargo. — Ela encarou Andressa — Amiga, vocês não transaram não, né?

— Rayana! Claro que não!

Ela exclamou em um sussurro.

— Então ele está afim de você, amiga. Certeza.

Ela sorriu mais uma vez e Andressa a olhava assustada.

— Pare com isso Ray, ele disse que foi pelo meu trabalho e que quer me manter prómixa da empresa, apenas isso. Além do mais, eu sou casada e ele é comprometido. Pare de pensar caraminholas.

— Pense como quiser Andri, mas eu o conheço e te conheço também. Mas vocês é que sabem, e sobre seu marido, você sabe né?

— Sei o quê, Rayana?

Perguntou em tom tedioso.

— Ele não te merece, amiga! Esse cara não quer saber de nada e vive escorado em você.

— Ele está mudando, está trabalhando e me ajudando em várias coisas, tá?!

— Que coisas?

Andressa gaguejou.

— Depois te conto, agora vou embora.

Ela beijou o rosto da amiga que riu dela.
Ao chegar no estacionamento, viu Anderson esperando-a em posse de uma Ferrari, o que a fez ficar abismada.

— Gostou, gata?

— Aonde você conseguiu isso?

— Agora eu estou trabalhando, esqueceu? Pode entrar que hoje eu vou te levar pra casa.

Andressa entrou, mas ainda muito confusa.

— Mas nem fazem dois dias que você começou a trabalhar, me diz como conseguiu este carro.

— Estou de auxiliar do patrão e ele me deu esse presentinho de quebra. Mas fala aí, é bom ou não?

— É bom sim, muito estranho, mas é bom.

Andressa respirou fundo e se acomodou no banco até o caminho de casa.

Alexandre desligava seu computador quando viu Rebecca adentrar em sua sala. Ela foi direto à ele e sentou em seu colo. Ele coçava os olhos e passava a mão na testa em sinal de cansaço.

— O que foi que meu amorzinho está assim?

— Só estou cansado, Rebecca. Será que você pode se levantar?

Ela enlaçou os braços em volta do pescoço dele e permaneceu sentada como uma criança birrenta.

— Você está estranho comigo, o que foi que eu te fiz?

— Não fez nada, estou cansado e quero ir embora. Posso?

Rebecca o beijou e ele correspondia mas por alguns segundos ele a empurrou e se levantou, fazendo-a ficar sentada na cadeira. Beijar Rebecca foi uma péssima ideia, ainda mais depois de um beijo que havia mexido tanto com ele.

— Escuta aqui, Alex, preciso saber qual é a sua. Já faz dias que você está me negando, está frio comigo e nem sequer atende minhas ligações.

— Quando não atendo é porque estou trabalhando.

— Trabalhando mesmo? Ou será porque ligo nos momentos em que você está comendo aquela vadia da sua assistente?

— Meça suas palavras para falar da Andressa! Ao contrário de você, ela é funcionária desta empresa, e agora também vice-presidente então é melhor começar a respeitá-la.

Rebecca olhava para Alexandre inconformada e irritada.

— Porque aquela idiota é vice? Eu quem deveria ser, sou sua namorada esqueceu?

— Cargos são dados por capacidade pessoal e não por relacionamentos. Me faça um favor, Rebecca, parece até que estou conversando com uma criança.

Ele dizia irritado.

— Por acaso ela é mais gostosa que eu?

— Ah, me dá licença!

Alexandre saiu da sala e Rebecca saiu correndo atrás dele.

— Não vai me responder, é isso? — Ao ver que ele já chegava ao elevador e não poderia alcançá-lo, ela gritou — Tomara que você e sua vadia queimem no inferno!

Ele apenas acenou um adeus enquanto as portas do elevador se fechavam. Todos olhavam para Rebecca que, ao perceber, saiu dali rapidamente.

Alex entrou em seu carro e seguiu até sua casa. Durante o caminho pensava em como Andressa sabia sobre a empresa e sobre o que ele queria antes mesmo de dizer à ela. Sorriu ao lembrar ela repetindo a frase da empresa junto com ele na reunião. Aquele dia na Latin Party não havia sido por acaso.

Sem que percebesse, ele já estava pensando nela durante horas.