Apoteose

1 Uma questão de sangue


Notas iniciais
Essa é uma história antiga minha que venho tentando escrever até ficar satisfeito, não prometo um fim tão cedo, mas prometo tentar manter uma postagem regular. Muitas das informações dos primeiros capítulos serão explicadas ao longo da história, mas mandem suas dúvidas mesmo assim.

Por Samuel Occisor

— Diga, meu companheiro, o que você vê em nosso futuro? — Porém o Relâmpago Negro nada respondeu, apenas bateu cada um de seus quatro cascos no chão num breve solavanco para trás e para frente, como quem alonga as pernas para relaxar os músculos.

Do alto do meu cavalo, observei o belo pôr-do-sol, o astro flamejante se punha por detrás da cordilheira acinzentada e trazia consigo as sombras de seus picos, escurecendo todo o acampamento e, à medida que avançavam, poucos focos de luz cintilante se acendiam, iluminando apenas pontos necessitados do acampamento provisório do exército sagrado, revelando, a um olhar atento como o meu, as expressões sérias da maioria dos soldados, como as de quem não liga para a vida ou para a morte.

— Você acha que os deuses perderiam tempo escrevendo o destino de cada um deles? — Dessa vez a resposta foi apenas um relinchado potente e breve, não que eu soubesse o que isso significava — Eles não devem ter escrito nem o meu ainda… —, assim como os soldados, voltei minha atenção à fortaleza sitiada à nossa frente, observando sua movimentação antes do ataque.

Era o quinto dia de cerco, as provisões estavam se esgotando como planejara e a animosidade dos meus subalternos diretos já não era das melhores, não que fosse melhorar com mais suprimentos, o problema era outro, por assim dizer.

Cinco dias foi o prazo dado ao inimigo para se renderem, era a escolha óbvia a se fazer, a única possível de fato, bem… eles podiam se matar também, mas não acho que fariam isso de toda forma, eram selvagens demais para avançar em um inimigo mais forte, por isso se mantinham em sua fortaleza, onde se sentiam seguros a despeito de nossa ameaça.

Tolos.

Não era meu tipo preferido de missão, nem de longe, apesar de ser minha primeira campanha à frente de tropas, sabia que aquele não era o meu lugar, principalmente pelo motivo que se aproximava de mim à passos largos e furiosos, quase espumando pela boca, outras quatro razões o seguiam de perto, mas eram mais amenos.

— Vai esperar as tropas morrerem de fome, ou vai dar logo o comando?

— Podemos também requisitar mais suprimentos ao quartel general, temos um portal armado para isso, não?

A primeira voz era do meu coronel menos bem-quisto, Gafh Jekenm, era grossa e trazia consigo o peso de seus mais de sessenta anos de carreira militar, a segunda era do tenente coronel Goyuh Jibikon, quarenta e poucos anos, uma figura que até tinha minha simpatia, mas que de vez em quando também sabia ser um porre, e eu não gosto de beber.

— Nem precisaríamos montar guarnição, com nosso poder conseguiríamos conquistar essa fortaleza apenas marchando, passaríamos por cima e mataríamos todos esses párias cretinos!

Só conseguia pensar no quanto Gafh era simplório.

— Cinco chances devem ser dadas ao infiel que não demonstrar agressividade.

— Eles têm balistas e catapultas apontadas diretamente para nossa vanguarda!

— E quantos projéteis foram disparados até agora?

— Zero.

— Um redondo zero.

— Na verdade o zero é mais elíptico do que…

— Vai ficar defendendo o impuro agora, Goyuh?

Como dizia, a animosidade estava mais relacionada a mim do que a qualquer outro motivo, mesmo tendo aprendido há muito a não me importar, e realmente não me importava em ser um impuro, precisava manter a ordem como comandante.

— Eu não ligo para seus preconceitos, mas os guarde para momentos menos públicos, coronel, ajude-me a te ajudar, por mais que eu não vá denunciá-lo, não por afeto, apenas por falta de interesse mesmo, recuso-me a inventar mentiras caso qualquer um aqui o faça e, por mais que seja uma pessoa influente, sei que deve possuir pelo menos um desafeto no meio de tantos soldados.

Como sempre, minha voz era irritantemente apática, algo que imaginava não ter solução, nem procuraria, provavelmente algo herdado do meu pai. Então, após uma breve tomada de fôlego, voltei-me para o tenente coronel ignorando completamente a figura emburrada ao seu lado.

— Não será necessário buscar ou pedir suprimentos, iremos dar início ao ataque ao fim do quinto dia, assim como está escrito.

— Só pode estar louco, irei me retirar para minha tenda, preciso reportar esse episódio o mais rapidamente possível.

— Mas já? Agora que falta apenas uma hora…

Minha última frase acabou não sendo escutada, suponho, eles já estavam virando a esquina da tenda principal e se embrenhando pelas linhas de soldados à exceção de um, que voltava meio desconfiado.

— O que foi agora Jibikon?

— O senhor disse uma hora? Para o quê, afinal?

Interessante como aquela pergunta me pegou desprevenido.

— Não esperava que tivesse escutado… — o primeiro comentário foi baixo, um pensamento alto, então lhe respondi adequadamente — Para o ataque. —. Quase ri da expressão em seu rosto, talvez eu tenha sido o primeiro em muito tempo que o deixou confuso, pelo visto precisava ser um pouco mais expositivo do que estava acostumado: — Escuta, o código não deixa muito claro, não especifica o que são as cinco chances, nem quem as determina, bem, interpreto que isso fique à escolha do comandante e, como quero voltar logo para casa, decidi dar cinco dias para o inimigo se render.

— Mas, então, ainda não se passaram nem um dia…

— Não nesse plano, mas — e retirei um cronômetro planar do bolso do colete — segundo isso aqui, já se passaram quase cento e dezenove horas nas Planícies desde que partimos, entreguei um desse para o comandante inimigo, deixei claro que deveria se render antes que atingisse o zero.

Depois de mais algumas breves explicações e uma despedida apressada, o tenente coronel saiu em disparada para informar aos demais oficiais, prevendo minha futura dor de cabeça, desci do cavalo e entrei na tenda, prostrando-me à frente de uma grande mesa onde repousava uma planta baixa da fortaleza, não foi algo fácil de conseguir dado o tamanho da estrutura, mas nada que alguns radares e batedores não resolvessem.

Não custou para que sentisse a presença dos cinco novamente se aproximando, dessa vez ainda mais irritados, dito isso, continuei de costas para eles, esperando que se pronunciassem, afinal:

— Não sou pago para isso.

— A gente mal saiu daqui e já fomos obrigados a voltar, qual o seu problema?

Pensei bastante, mas engoli todas as respostas, limitei-me a bater na mesa com a ponta dos dedos enquanto eles discutiam ou me xingavam, era um ambiente fechado, não iria me preocupar com algum soldado raso escutando essa situação, poderia até dizer que a cena era engraçada, Gafh apontava para mim em ira, esbravejava coisas como impuro ou assassino sem alma, major Liu Yoki, o mais novo, segurava-o para que não avançasse contra mim, major Marin Fanuls desfazia as palavras do mais velho, pensando apaziguar a situação enquanto major Xarde Cetofevy se abstinha de tudo com sua cara de paisagem e Goyuh vinha observar a planta comigo.

— É isso, vamos fazer assim, cansei de fingir o que eu não sou, vocês nunca vão me aceitar como comandante, nem mesmo como general.

— Exato.

— Não é bem assim…

— Tudo bem, Marin, não precisa tentar me bajular, eu consigo sentir o nojo estampando em seu olhar, todos aqui vieram de famílias com grande histórico militar, na verdade quase todos do exército assim o fizeram.

— Você é apenas o filho de um ferreiro, devia estar fazendo armas e não as usando.

— A despeito de eu saber usar qualquer arma melhor do que vocês jamais conseguirão, não vou me irritar com isso. — Após um ríspido pigarreio, respondi tão sereno quanto uma brisa da primavera — Se quiserem eu posso ir sozinho e vocês se viram para comandar as tropas.

— Muito bem! — E pela primeira vez vi Gafh boquiaberto, mesmo que apenas por alguns instantes, já que logo esbravejou diante da minha proposta — Pelo visto estava enganado a seu respeito em um ponto: não é um completo idiota!

— Coronel… — a voz apaziguadora de Marin interveio de imediato se pondo à frente do mais velho e voltando-se rapidamente para mim, que apenas observava a cena, sem qualquer reação — Ele não quis dizer isso… —, pude claramente ver um “Lógico que quis!” sufocado pela mão ágil do major Liu — Peço desculpas pela insolência do meu colega…

— Olha, eu cansei dessa falsidade de vocês, quem queremos enganar, cinco puristas sendo comandados por um impuro? Todos sabíamos que isso nunca daria certo… — Assim como havia sido até agora, não havia qualquer irritação em minha voz, mas todos ainda tremeram quando ouviram essas palavras, caminhei lentamente em direção à saída da tenda e olhei profundamente nos olhos do mais velho — Você, Gafh, não tolera que eu, em meus trinta e poucos, esteja num posto mais alto que o seu — e então para seu subcomandante — E você, Goyuh? Finge que respeita a hierarquia, que me respeita, mas não passa de um hipócrita que mal consegue esconder o asco que sente ao se dirigir a mim como ‘senhor’… — o mais jovem dos cinco procurou balbuciar alguma coisa, mas nada lhe saiu da garganta — Pois bem, faremos assim, vou fazer do meu jeito, vocês fazem como bem quiser, eu os desafio a chegar no comandante inimigo antes de mim.

E com o desafio lançado, já prestes a cruzar a cortina que isolava a tenda, deixei um último presente aos meus camaradas, em um movimento quase imperceptível, peguei uma pequena adaga na minha bota esquerda e a arremessei por entre as cabeças dos respectivos novo comandante e imediato, a lâmina chegou a aparar alguns fios de cabelos prateados pelo caminho e fincou-se na planta baixa, em um cômodo bem específico. Quando os cinco viraram-se para analisar a mesa de planejamento, neste mesmo breve instante, aproveitei para desaparecer, mas não sem antes deixar para trás uma ampulheta e um bilhete: “Obedeçam ao regulamento.”.

Notas finais
Bem, esse é o primeiro capítulo dessa história, espero que tenham gostado e mandem sugestões, comentários, erros etc.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.