Apostas de Fevereiro

17 Preocupações


ROMANCES MENSAIS

LIVRO II – APOSTAS DE FEVEREIRO

CAPÍTULO XVI — PREOCUPAÇÕES

Duas semanas se passaram e tudo estava indo muito bem. Mesmo com nossos dias corridos, Kara e eu sempre dávamos um jeito de manter contato. Fosse por mensagens, ligações ou caronas, nós tentávamos estar presente na vida um do outro. Eu não sei ao certo se estávamos ou não nos apaixonando, mas estamos aproveitando nossa companhia e curtindo o momento.

Hoje era dia de nosso encontro organizado por Kara. Eu estava um pouco ansioso, afinal, fazia alguns dias desde que saímos pela última vez por causa das minhas novas responsabilidades como gerente e por causa da estadia da prima de Kara na cidade. Eu não sabia muito sobre Mal, mas do pouco que Kara havia me contado, a garota tem a personalidade forte, mas um grande coração. As duas se dão muito bem, ainda que sejam tão diferentes.

— Então você é o Mon-El Mike Matthews? — Pergunta uma garota de cabelos curtos roxos, roupas que me lembravam aqueles adolescentes góticos e olhos tão intensos quanto os de Kara, abrindo a porta. A primeira vista ela tinha o rosto inocente, quase o de uma boneca, mas a forma como ela me encarava me dava a certeza de que aquela garota podia ser perigosa. Sorrio ao entender o que Kara havia dito com "estilo único" ao falar sobre a prima.

— E você deve ser Mal B. Faery. — Respondo e ela me encara curiosa.

— Mal B.? — Questiona e vejo seus olhos azuis brilharem com intensidade.

— Bom, sua prima me disse que você não gosta que te chamem pelo seu nome do meio e nem que falem seu nome completo. Como você falou o meu nome completo e eu não quero que fique com raiva de mim, pensei em abreviar. — Conto e ela abre um sorriso mais amigável, abrindo mais a porta.

— Muito bem, Sr. Matthews. Você passou no teste. Agora vou permitir que veja a minha linda e preciosa prima. — Responde a garota, encarando-me em desafio.

— Muito obrigada, Srta. Faery. — Agradeço, divertindo-me com aquela garota estranha. Entro no apartamento de cara e vejo que Kara não está na sala. — Onde ela está?

— No quarto, terminando de se arrumar. Senta aí. Ela não deve demorar a aparecer. — Garante, pegando uma maçã na fruteira. Mal se senta no sofá de frente para o meu e me observa com um curiosidade. — Soube que você tem uma moto.

— Sim. É uma uma Ducati 1098. O nome dela é Scarlett. — Respondo e ela assovia, impressionada.

— 1099 cilindradas, 157 cavalos de potência às 9500 rpm e uma velocidade máxima de 290 km/h. Essa moto é uma máquina. Faltou pouco para ela voar. — Comenta Mal, sorrindo convencida. — Você tem bom gosto.

— E você entende bem das coisas. É a primeira vez que encontro alguém que entende bem o porquê de amar tanto a Scarlett. — Finjo estar emocionado e Mal ri.

— É a primeira vez que mostro que entendo de motos para um cara e ele não me encara como se eu tivesse descoberto vida em Marte. — Resmunga, bufando irritada, mas logo abre um bonito sorriso. — Você é estranho, mas gostei de você. Agora entendo a minha prima. Já vou avisando logo que a minha torcida é para ela.

— É claro. Que grande surpresa. Mais uma que está no time Kara. Eu me pergunto se alguém torce por mim. — Reclamo e Mal ri ainda mais. Ela então olha para os lados e se aproxima de mim.

— Eu vou te contar um segredo. — Sussurra Mal e eu a encaro curioso, esperando alguma dica para ganhar a aposta. — O que mais as pessoas esperam ver é um bad boy completamente apaixonado por uma nerd certinha. Ninguém nunca vai torcer por você nessa aposta.

— Ha, ha, ha. Muito engraçadinha você. — Bufo, mal-humorado e Mal começa a rir ainda mais. — Isso! Continue a rir. Você conhece aquele ditado: quem rir por último, rir melhor. Todos vocês vão quebrar a cara e sou que vou rir de vocês.

— Muita fala está me deixando entediada. — Provoca a garota, jogando o que restou de sua maçã na lixeira que estava sobre a pia da cozinha. Não consigo evitar a surpresa ao ver a precisão da garota. — Ao invés de ficar falando que vai fazer, deveria estar tomando uma atitude. Até agora, tudo o que eu soube é que você está sendo um perfeito cavalheiro, mas sendo sincera, isso é fofo, mas não vai sair muito do lugar.

— É mesmo? E o que você sugere? — Pergunto e Mal me encara com um sorriso presunçoso.

— É claro que eu não vou te ajudar sem um incentivo. — Mal faz sinal de que estava falando de dinheiro. Essa pirralha de cabelo de beterraba era muito malandra mesmo. — Não me leve a mal. Eu estou do lado da minha prima. Te ver perder vai ser realmente interessante. Então, por que eu te daria dicas para conquistar o coração de minha prima?

— E de quanto incentivo nós estamos falando? — Pergunto, curioso. Ela levanta a mão e faz o número três. — Três dólares?

— Eu por acaso tenho cara de otária? — Questiona com ironia.

— Trinta dólares? — Arrisco e Mal ri como se eu estivesse dizendo a maior besteira do mundo.

— Ah, vamos lá, Mon-El. Eu sei que você consegue fazer melhor do que isso. — Responde a garota, mexendo em seus cabelos roxos.

— Trezentos dólares? — Indago, surpreso. Ela sorri, satisfeita. — Ficou maluca? Com esse dinheiro eu consigo fazer uma viagem romântica com a Kara. Isso é um absurdo!

— Eu estarei te dando a chave do coração da minha prima. Não deveria ser tão pão duro. — Argumenta Mal, mantendo sua oferta. — Eu sou a prima dela. A pessoa que a conhece melhor do que ninguém. É um investimento com alta garantia de sucesso.

— Não, obrigado. Não vou dar trezentos dólares em umas dicas. Eu tenho confiança em meus métodos. — Respondo e ela suspira, insatisfeita.

— Tudo bem. Duzentos dólares. — Oferece Mal com determinação.

— Cinquenta dólares. — Contra-argumento, mostrando que eu não cederia tão fácil.

— Cento e cinquenta dólares. — Arrisca a garota.

— Setenta dólares. — Respondo e ela bufa.

— Última oferta. Cem dólares e eu ainda consigo uma reserva naquele restaurante chique que ela sempre quis ir e você não conseguiu levar por causa do trabalho dela. — Mal cruza os braços e me encara com seriedade.

— Feito. — Concordo, ainda sem acreditar que eu daria cem malditos dólares para uma pirralha só porque eu sou um verdadeiro idiota. Ela estende a mão e sorri como uma cobrinha. Selo o acordo com o aperto de mão, mas permaneço sério. — Mas eu quero que a reserva seja no próximo mês. Se passar do mês que vem, você vai ter que me devolver os cem dólares.

— Não se preocupe, bad boy. Eu sempre cumpro com os meus acordos. — Responde, sorrindo convencida. — Agora passe o dinheiro para cá e me fala o número do seu celular. Assim que eu tiver conseguido a reserva, eu te aviso.

— Eu sou muito idiota mesmo. — Resmungo, pegando a carteira no bolso da calça. Lá se vai o meu suado dinheiro pelo ralo. — Aqui está.

— Muito obrigada. Foi um prazer fazer negócios com você. — Afirma Mal, guardando o dinheiro no coturno que usava.

— Não está se esquecendo de nada não? — Pergunto, erguendo as sobrancelhas. Ela me encara por um tempo e depois rir.

— Ah, é mesmo. A dica. — Comenta, batendo na própria testa. — Bom, na verdade você já conquistou o coração da Kara, mas ela ainda não percebeu isso. Então, tudo o que você precisa fazer é uma viagem de fim de semana inesquecível, onde ela saia da zona de conforto e a faça se sentir nas nuvens.

— Isso vai ser impossível. Eu tenho duas crianças para cuidar e estou trabalhando em dois lugares. Os fins de semana sempre são complicados para mim. — Respondo, frustrado. — Não acredito que paguei cem dólares por isso.

— Deixa de ser bebê chorão, bad boy. — Repreende Mal, revirando os olhos. — Já que não vai ser possível, então talvez você tenha que partir para um jogo arriscado.

— Que seria? — Pergunto, esperançoso.

— Ciúmes, é claro. — Mal sorri e me encara como se fosse a conhecedora de todo os mistérios da vida. — Não há nada melhor que ciúmes para fazer alguém entender os próprios sentimentos. No entanto, você precisa tomar cuidado. Dependendo da forma como faz isso, pode colocar a perder tudo o que você conquistou até aqui. Precisa ser algo leve, mas que ainda assim tenha algum impacto, entende?

— Eu...

— Desculpa a demora. Espero que minha prima não tenha dito nada de estranho. — Kara aparece na sala, interrompendo-me. Encaro a loira, completamente encantado com sua beleza. Sorrio e me aproximo dela. — Oi. Boa noite.

— Boa noite. — Cumprimento, dando um beijo na bochecha de Kara. Ela sorri timidamente. — Você está encantadora como sempre.

— Obrigada. — Agradece Kara, suspirando.

— Eca. Acho que vendo toda essa melosidade, eu vou acabar vomitando. — Resmunga Mal e Kara lança um olhar repreendedor. — Vocês não iam sair? O que estão esperando?

— Eu acho bom você se comportar, mocinha. Se você sair de casa ou aprontar qualquer gracinha, eu juro que vou contar para a tia Malévola sobre o que aconteceu com o carro novinho dela no ano passado. — Ameaça Kara e Mal arregala os olhos.

— Não precisamos chegar a tanto. Eu já disse que eu vou me comportar. Não vou sair de casa e nem trazer ninguém para cá. Também não vou aprontar. Eu juro. — Promete Mal e Kara suspira, dando-se por vencida.

— Tudo bem. Não fique acordada até tarde. — Orienta a mais velha, fazendo Mal revirar os olhos diante de tantas preocupações. — Meu celular está sempre ligado. Se acontecer alguma coisa, me ligue imediatamente.

— Sim, mamãe. — Ironiza Mal e dessa vez sou eu que tenho que rir.

— Vamos logo. Eu tenho certeza de que ela vai ficar bem. — Afirmo, pegando nos ombros de Kara para conduzi-la até a saída. — Tchau, cabelo de beterraba.

— Até mais, bad boy de araque. Divirtam-se! — Despede-se Mal, enquanto saíamos do apartamento de Kara.

Eu finalmente havia conhecido a prima de Kara e, apesar dela ter me extorquido e abusado da minha idiotice, ela parecia ser uma garota legal. Ela é quase a minha versão feminina adolescente mais bonita, engraçada e esperta. De certa forma, agora eu entendia a preocupação da família de Kara em deixar Mal sozinha. Com a mente arteira dessa garota, é capaz dela dar nó em pingo d'água.

Seguimos para o meu carro com o destino ao teatro onde iremos assistir ao musical da Bela e a Fera que Kara estava louca para assistir. Apesar disso, durante o caminho, a loira estava quieta e pensativa, totalmente distante da realidade. Ela demorava para responder e quando o fazia, era sempre de maneira objetiva. Eu estava começando a ficar preocupado. Nós não tínhamos brigado e ela havia me contado que o dia havia sido milagrosamente tranquilo em seu trabalho, então eu não entendia o que estava acontecendo.

— O que houve? — Pergunto, preocupado.

— Como assim? — Questiona Kara, confusa.

— Você está distante. Por acaso eu fiz alguma coisa de errado ou falei algo que te incomodou? — Indago e ela me encara surpresa.

— O quê? Não! De forma alguma. Você não fez nada de errado. Eu é que estou... estranha mesmo. Não ligue para isso. — Afirma a loira, forçando o sorriso.

— Eu sei que não é só isso, Kara. Eu te conheço. Você está escondendo algo. O que houve? — Insisto e ela suspira. — Lembre-se que em nosso acordo, mentiras são proibidas entre nós.

— É só que... eu recebi um convite hoje. — Responde, cautelosa. Kara começa a mexer nas próprias mãos, nervosamente.

— Que convite? — Eu estava curioso para saber que tipo de convite é esse que a deixa tão nervosa.

— O treinador Nicholson... ele... bem, ele me chamou para sair. — Conta a loira, finalmente revelando o seu incomodo. — Ele descobriu por Mike sobre a nossa aposta e disse que sabia que nas regras diziam que podemos sair com outras pessoas, por isso, ele me convidou para sair. Eu confesso que fiquei bastante surpresa com o convite. Eu ia rejeitar, mas ele disse para eu pensar antes de dar uma resposta.

A notícia me pega de surpresa. Não que eu não soubesse que aquele treinadorzinho tinha interesse na minha Kara. Eu só não imaginei que ele seria tão golpe baixo de ir atrás de meu sobrinho para pegar informações sobre o nosso relacionamento e saber inclusive sobre as nossas regras. Como é que ele tem coragem de fazer algo assim? E o pior é que eu não posso falar nada sobre isso. O maldito tem razão. Nós estipulamos mesmo uma regra que nos permite sair com outras pessoas.

Ainda assim, eu não esperava por essa confusão de Kara. Quer dizer, eu achei que estivesse sendo o suficiente para fazer com que ela não sentisse a necessidade de sair com outras pessoas. Eu tenho me esforçado bastante para superar as expectativas em nossos encontros e até mesmo bloqueei todas as garotas com quem eu tive algum tipo de relacionamento no passado, com exceção de Imra e Lena.

No entanto, eu é que fui ingênuo demais. Olhando para Kara, eu só consigo ver uma mulher doce, gentil e companheira. Ela é determinada, responsável e organizada. A inteligência e a curiosidade dela são admiráveis. Kara também é muito talentosa e divertida. É muito confortável e relaxante estar com ela. É claro que outras pessoas fariam de tudo para ter alguma chance com ela. Kara é injustamente linda. É impossível não se encantar com a beleza e a personalidade magnética da loira.

— E você... sabe o que vai responder? — Pergunto no meu melhor tom de quem não está afetado com a nova informação.

— Bem, eu não sei. Quer dizer, o treinador Nicholson parece mesmo ser uma pessoa legal. Ele é gentil e sempre me ajuda quando eu mais preciso. Ele é bastante responsável e muito agradável de se conversar. Ao mesmo tempo, eu não sei se eu deveria ir. E é isso que está me deixando tão perdida. — Explica a professora, suspirado em seguida.

— Acho que você deveria ir. — Respondo e aquelas palavras são como facas cravadas em meu estômago. Eu não quero que ela saia com aquele idiota do Nicholson. Ele é um... mané. Como ela ainda pode cogitar sair com alguém tão sem graça quanto ele? Não faz o menor sentido ela pensar nisso quando ela já sai comigo.

— Você acha? — Questiona Kara, surpresa.

— É! Quer dizer, nós temos uma regra sobre a permissão de encontros com outras pessoas. E acho que pode ser interessante para você sair com outra pessoa além de mim depois de ter terminado o seu namoro com aquele babaca. — Eu estava odiado usar a razão naquele momento. Droga! Por que eu me sinto tão mal em fazer a coisa certa? Eu não deveria estar feliz por ela estar se recuperando daquele relacionamento horrível que ela viveu? Por que ao invés disso, eu estou me sentindo... solitário?

— É. Eu acho que você tem razão. — Comenta a loira, pensativa. — Mas tem certeza de que você não vai ficar chateado com isso?

— E por que eu ficaria? Está tudo bem. — Não está não, mas o que eu posso fazer contra isso? É a vida dela e eu não posso me intrometer. — Você merece ser feliz, Kara. Coloque-se em primeiro lugar. Se você quer sair com ele, então saia. Se você não quer, então recuse a oferta. A escolha é toda sua e eu vou estar aqui para te apoiar em qualquer uma que seja.

— Obrigada, Mon-El. — Agradece Kara, sorrindo aliviada. — Então eu vou aceitar o convite do treinador Nicholson e vou sair com ele. Eu não sei bem como vai ser, mas assim como tenho feito desde que te conheci, eu vou apenas aproveitar o momento.

— É isso aí! Eu estou orgulhoso de você! — Comemoro, mesmo sentindo meu coração se entristecer por um momento.

Kara não está fazendo nada de errado. Eu até mesmo estou a incentivando em ir fundo nesse encontro. Ainda assim, eu me sinto incomodado com isso. Eu não quero que ela saia com outras pessoas. Não quero que ela dê esse lindo sorriso que ela sempre me dá para outras pessoas. Eu não quero que ela beije alguém tão intensamente quanto nós nos beijamos. No entanto, eu não posso prendê-la. Não posso jogar meus desejos egoístas para cima dela. Não é justo com ela. E é por isso que resolvo guardar lá no fundo, bem no fundo mesmo do meu coração qualquer sentimento desnecessário e apoiar os desejos de Kara. Seja qual for esse desejo, eu apenas vou aceitar e permanecer ao seu lado dando o suporte necessário para realizá-lo.

Notas finais
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