Apostando Alto
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Mais uma short para vocês.
Espero que apreciem :)
Boa leitura!
Fazia uma noite amena em Vegas.
Gilbert Grissom vestia um smoking bem alinhado, e tentava arrumar sua gravata borboleta na frente do espelho; mas nem com um diagrama detalhado obtinha sucesso. Ele resmungou alguma coisa quando sentiu dois braços envolverem seu pescoço por trás, afastando sua mão do tecido e finalizando o laço.
--Obrigado, querida. –Ele murmurou envergonhado.
--Está bonito. –Sara sussurrou ao pé do ouvido. –Precisarei ficar de olho em você essa noite.
--Não vai precisar. Não sairei do seu lado. –Ele a fez girar no lugar, segurando sua mão. –Está linda.
Ela sorriu de lado para ele. Grissom, por sua vez, deu um suspiro involuntário.
--Nervoso?
Ele concordou com a cabeça, fazendo com que Sara o envolvesse num abraço carinhoso.
--Você já recebeu diversos prêmios antes, Gil. Deveria estar acostumado com tudo isso.
Eles se separaram do abraço e ele esclareceu:
--Não é com isso que estou nervoso. Você sabe...
--Oh. –Ela murmurou em entendimento.
Os dois se encararam por alguns momentos. Era visível o desconforto dele, e ela entendia perfeitamente. Quando fora sequestrada, Gilbert fora forçado a contar aos demais sobre o relacionamento proibido que mantinham e apesar de aceitarem sem problemas, esta era a primeira vez que os dois saíam juntos como um casal com os seus amigos... E o laboratório inteiro.
--Se você quiser eu posso ficar... –Ela tentou.
--De maneira nenhuma! Quero você ao meu lado. –O casal trocou um sorriso. –Só não me sinto à vontade com cochichos e olhares demais... Não gosto de ter a minha vida escancarada assim.
Ela pegou sua mão e apertou com carinho, lhe passando confiança.
--Estaremos entre amigos. Vai ficar tudo bem.
Grissom sorriu mais confiante e pegou a chave do carro.
--Acho melhor nós irmos.
Sara assentiu com a cabeça e ajeitou seu longo vestido roxo. Ele era justo e ressaltava seu corpo, contrastando a cor escura com sua pele branca. Suas mechas enroladas estavam presas em um coque bem feito, e um colar de borboleta – presente do namorado – completava o visual.
Um quarteirão antes de chegar ao Eclipse, o casal já percebia a movimentação no cassino. Mais carros que o normal estavam estacionando nos arredores; e muitas pessoas conhecidas, todas com vestes de gala, seguiam para o salão de festas no interior do grande e luminoso prédio.
O entomologista guiou o carro até a entrada e abriu a porta para a namorada, entregando as chaves para um manobrista em seguida. Sara sorriu para o gesto, mas sua felicidade quase explodiu no peito no momento em que seu namorado encaixou o braço em torno de sua cintura, a envolvendo com carinho.
Eles entraram em silêncio, e um homem bem vestido os guiou para tirar uma fotografia. Na primeira Grissom parecia deslocado, mas nas demais Sara tomou o controle da situação e entrelaçou seu braço no dele.
--Seu nome, por favor. –O homem perguntou depois dos flashes.
--Gil Grissom e Sara Sidle.
O homem conferiu uma extensa lista e anotou algo.
--Mesa sete, senhor. Tenham uma boa noite.
Gil agradeceu e seguiu com a namorada até a mesa indicada. No caminho, reconhecia muitos rostos, mas alguns estavam realmente estranhos sem os jalecos e luvas de látex. Como imaginara, os olhares para eles eram exagerados e foi com um alívio imenso que conseguiu desviar do campo de visão de Conrad – que aparentemente o procurava – e seguir para sua equipe que estava acenando.
--Pensei que não poderia ficar na mesa do noturno. –Sara comentou.
--Achou mesmo que eu fosse te deixar longe de mim? --Ele arqueou uma sobrancelha e fez um bico de lado.
Ela fez um característico bico de lado, e com mais alguns passos chegaram em uma das melhores mesas, onde todos os seus amigos já se encontravam.
--O casal preferido do laboratório chegou! –Catherine brincou.
--Acho que não somos os preferidos do Ecklie. –Gil respondeu numa careta, abraçando-a.
--Eu disse que você precisava de uma mulher. –A loira murmurou para ele, apontando a gravata borboleta.
Ele rolou os olhos para a amiga, quando ouviu Greg comentar:
--Com todo o respeito, Grissom, fique de olho na sua namorada essa noite. Ela está deslumbrante.
Sara corou de leve, enquanto Gil estreitou os olhos para o perito.
Grissom puxou a cadeira para a companheira, arrancando brincadeiras dos colegas. Quando foi se sentar, porém, uma mão em seu ombro o deteve.
--Gil! Achei que não viesse mais. Venha, o prefeito que falar com vocês, tirar fotos...
O entomologista gemeu interiormente e fez menção de seguir o sub-xerife, mas Ecklie ainda estava parado.
--O que foi? --Gil indagou.
--Sara vem também. –Ele disse como se fosse óbvio. –Os dois estão sendo muito comentados por aqui. Você não está mais sozinho Gil, agora é o “casal Grissom”.
Sara engasgou com a própria saliva enquanto se levantava. Catherine estava vermelha tentando engolir a risada a todo custo, enquanto Warrick e Nick atormentavam a morena pelas costas de Conrad.
--Parece até que eles estão indo ao dentista. –Nick comentou quando os amigos se afastaram.
--Gil odeia ser o centro das atenções. –Cath disse. –Essa noite vai ser divertida.
Os amigos se entreolharam e riram.
--Aposto cinquenta pratas que o Grissom vai fingir que não tem nada de estranho acontecendo. –Nick jogou uma nota na mesa.
Catherine sorriu para o texano e fez a sua:
--Ela está linda essa noite! Eu tenho certeza de que vai ser o contrário: ele não vai sair do lado dela... Vai chamá-la para dançar!
--Eu poderia dizer que está exagerando, Catherine. –Jim tomou a palavra. –Mas olhem o modo que ele está segurando a cintura dela...
Os peritos giraram suas cabeças e viram o que Brass indicava. Grissom tinha sua mão pousada na cintura da namorada num gesto de possessão, e não parecia estar feliz com o xerife lançando tantos olhares cobiçosos à morena.
--Isso não quer dizer nada! –Nick defendeu sua aposta. –Ele é o Grissom, gente...
--Grissom é homem. –Greg falou, colocando duas notas na mesa. –Estou com a Catherine.
A loira bateu sua mão na de Greg e começou a organizar as apostas, mas parou quando viu que faltava uma:
--Não vai fazer a sua, Warrick?
O moreno de olhos verdes olhou novamente para o casal, que estava voltando à mesa, e desafiou:
--Aposto cinquenta dólares que eles se beijarão na nossa frente.
--Wou! –Os peritos exclamaram.
--Acho que está exagerando... –Brass falou.
--Tá certo. Só que se eu ganhar, eu levo toda a grana.
--Tá. –Nick concordou.
--Fechado. –Cath disse por fim. –Deixem-me guardar isso, eles estão voltando.
O casal voltava com um contraste de humor: Grissom tinha um bico grande e estava vermelho, enquanto Sara tentava conter uma gargalhada.
--O que aconteceu? --Brass indagou quando eles chegaram.
--Nada. –Gil disse carrancudo.
--Sara? --Cath insistiu.
A morena abriu a boca para responder, mas o entomologista disparou:
--O xerife foi indelicado e abusado.
--Isso é uma crise de ciúmes? --Warrick perguntou rindo.
Sara assentiu com a cabeça, mas Grissom disse:
--Eu estou apenas... –Gil procurava pelas palavras.
--Cuidando daquilo que é seu? --Cath completou.
Grissom ficou sem graça e Sara corou. Os dois se sentaram lado a lado, sob os olhares curiosos dos amigos, bem a tempo do prefeito começar seu discurso. Depois do prefeito, o xerife e Ecklie tomaram a palavra no palco, até que o ultimo finalizou seu discurso:
--E é com grande prazer que chamo o supervisor da então premiada como a melhor equipe de perícia do país, meu amigo e colega de trabalho: Doutor Gilbert Grissom!
Os presentes aplaudiram, e a mesa sete foi a mais barulhenta. Grissom agradeceu com um aceno de cabeça e seguiu até o palco. Tateou seus bolsos no caminho à procura de seu discurso, mas não o achou.
--Droga, o papel está na minha bolsa. –Sara murmurou para os amigos. –Ele vai ter que improvisar.
--Boa noite a todos. –Ele desejou, tentando se lembrar do que havia escrito. –Estou recebendo este prêmio em nome da minha equipe. Mas eu tenho que esclarecer isso... Não somos uma equipe, realmente. Somos amigos, somos uma família.
--Literalmente. –Hodges “tossiu” perto do palco.
Grissom olhou feio para o rato de laboratório. Aquele não era seu discurso original, mas seu coração o mandava dizer aquelas palavras:
--Muitos não têm tempo para ter uma família, marido e filhos. E os que possuem, merecem todo o respeito por se desdobrarem para cumprir todas as tarefas. Nosso trabalho não tem uma rotina, os crimes não marcam um horário para acontecer, e por isso passamos muito tempo uns com os outros... E criamos laços. –Ele encarou Ecklie e pigarreou. –E como numa família, cada um tem sua função, e sabe bem a hora de agir. Mas o mais importante, o que destaca essa equipe, é o profissionalismo e a capacidade de deixar os problemas pessoais do lado de fora do laboratório. Por isso eu estou aqui apenas representando a equipe, pois esse prêmio não é meu: é de Catherine, Greg, Nick, Warrick e Sara também.
Os aplausos foram muito altos. Catherine e Nick tinham os olhos marejados pelas palavras do supervisor, e Sara sorria bobamente para o namorado. Desde quando ele ficara tão sensível? Ecklie e o Xerife trocavam algumas palavras no meio dos aplausos, mas Grissom nem notou; desceu do palco e seguiu para sua mesa com um sorriso largo no rosto. Postou-se novamente ao lado de sua morena e colocou o prêmio sobre a mesa, para que todos pudessem ver melhor.
--Isso foi ótimo, cara! –Warrick disse quando Gil se acomodou.
--Não sabia que você tinha tantos sentimentos assim, Gil... –Brass brincou.
--Eu não menti. –Ele deu de ombros e encarou a namorada.
Sara, por sua vez, nada disse. Apenas acariciou o rosto dele num carinho íntimo, e ele entendera tudo o que ela sentia.
O jantar foi banhado de conversas amenas. Vira e mexe um dos colegas vinha à mesa para parabenizar a equipe pelo prêmio merecidamente recebido. E quando a sobremesa estava sendo servida, a pista de dança foi aberta, com direito a uma banda famosa de Vegas – que tocava múltiplos estilos musicais.
Catherine e Warrick foram os primeiros a saírem da mesa para dançar. Logo Nick foi até a mesa ao lado, para seguir em frente com Sofia entrelaçada em seu braço. A música era lenta, um aquecimento, portanto Greg ficou na mesa tamborilando os dedos na superfície e revezando o olhar entre a pista e o casal à sua frente – estavam sozinhos, pois até Jim arrumara um par.
--Você não vai chamar ninguém? --Gil perguntou.
--Não. Sempre que saíamos, eu dançava com a Sara. Perdi o jeito de convidar outras garotas pra dançar. –Ele respondeu naturalmente. –Mas eu nunca encostei indevidamente nela, juro! –Se apressou em dizer.
--Você gosta de dançar? --Grissom perguntou surpreso à namorada.
Ela assentiu com a cabeça, e Greg completou:
--Se gosta? Ela adora! Me levava para a pista de dança e só saía de lá arrastada!
Grissom não esperou mais nada e se levantou, puxando Sara pela mão.
--Eu achei que você detestasse isso! O que estamos esperando?
Greg riu para a cara assustada da amiga, e os observou irem até o centro da pista, se abraçar com carinho e se mexer no ritmo da música.
O casal mais inusitado do laboratório atraía olhares pela intimidade ao dançar. Foram longas cinco ou seis músicas e eles permaneceram juntos, curtindo um ao outro. Eram raros os momentos em que podiam descontrair, e revelar o romance para os colegas permitia um aumento desse tempo livre.
Quando as músicas lentas pararam, Grissom retornou à sua mesa e se acomodou ao lado de Brass e Doutor Robbins. Greg não estava mais lá, pois mesmo tendo “perdido o jeito” chamara Mandy para lhe acompanhar; e agora dançava agitadamente entre Sara e Catherine.
--Não tem ciúmes daqueles dois? --Albert perguntou a Gil.
--Não, eu confio na Sara. E o Greg se mostrou de confiança nos últimos tempos.
--Você está mais feliz. –Jim observou.
Grissom tomou um gole de seu uísque antes de responder:
--Ela me faz feliz.
O detetive e o legista trocaram um olhar significativo, mas Grissom nem viu, pois observava a namorada se divertindo com as músicas agitadas – e um tanto novas para ele. O trio entrou em diversos assuntos um tanto macabros para pessoas normais. Passaram quase meia hora debatendo casos estranhos, até que Grissom se calou.
--Aquele cara praticamente se entregou quando disse aquilo, não foi? --Jim ria. –Hey, Gil?
O entomologista não respondeu. Ele bebeu mais um pouco de seu uísque sem tirar os olhos da pista de dança. Onde antes Sara dançava com os amigos, agora estava mais afastada e com o Xerife lhe falando ao pé do ouvido. Brass seguiu seu olhar e viu a cena.
--Oh... –Murmurou e olhou para o amigo. –Tudo bem?
Grissom resmungou e se levantou. Sentiu-se tonto, mas não deixou transparecer que os drinques estavam fazendo efeito. Colocou o copo sobre a mesa com firmeza e seguiu com passos largos até a namorada.
--Ele bebeu. –Albert observou.
--Oh yeah. –Jim concordou.
Na pista, Grissom se esquivou dos conhecidos até alcançar a morena. Ela dançava animadamente, mas se via obrigada a mudar o ritmo quando o xerife lhe falava ao pé do ouvido, devido à música alta. O entomologista viu o incômodo da namorada e seu sangue ferveu de uma maneira que nunca antes havia acontecido. Talvez fosse a dose de álcool a mais no seu sangue, mas assim que se viu perto o suficiente, ele agarrou a namorada pela cintura e colou seus corpos.
--Gil! –Ela se surpreendeu aliviada.
--Grissom. –O Xerife resmungou.
--Algum problema? --O entomologista perguntou sério.
--Não... –o outro respondeu vagamente. –Eu estava dizendo à Sara que seu discurso foi muito bom e me fez pensar...
Grissom moveu a cabeça para que ele continuasse a falar, e não se afastou nenhum centímetro da namorada. Isso pareceu ter intimidado o xerife.
--Estava dizendo que devemos rever o caso de vocês... Já que são mais que uma equipe e muito profissionais, como você mesmo disse.
Grissom e Sara trocaram um olhar, e o entomologista finalizou a conversa:
--Podemos conversar melhor durante a semana, xerife. Mas por hora: com licença, vou dançar com a minha namorada.
O olhar sério no rosto de Gil foi o ponto final na conversa. O xerife se afastou rapidamente com um sorriso sem graça no rosto, e foi a deixa para o entomologista virar-se de frente para a namorada, ainda com as mãos na cintura dela.
--O que foi isso? --Grissom indagou.
--Eu é que te pergunto...! –Ela rebateu. –Acho que você se queimou com o xerife.
--Ele perdeu o juízo. –Resmungou.
--Você bebeu? --Ela perguntou divertida.
Grissom hesitou para responder, dizendo por fim:
--Alguns drinques, mas estou bem sóbrio.
Ela riu da preocupação dele em se mostrar bem.
--Você vai dançar comigo? É música rápida.
--Se importa de dançar fora do ritmo? --Ele fez um bico de lado.
Sara negou com a cabeça e entrelaçou seus braços no pescoço dele, juntando ainda mais seus corpos. Eles sequer percebiam alguns olhares curiosos dos colegas, de tão envolvidos que estavam.
--Eu te amo.
Aquelas palavras doces e ditas em público entraram como uma canção nos ouvidos de Sara. Ela fechou os olhos e sorriu com doçura para ele, e aquilo foi a gota d’água para aquele homem reservado e tímido que se controlara durante uma longa noite inteira. Grissom fechou os olhos automaticamente e devagar uniu seus lábios nos de Sara, encaixando-os perfeitamente. Moviam-se em sincronia, devagar, apenas sentindo o conhecido gosto um do outro; e sem se preocupar com nenhum olhar ou sorriso bobo vindo de outrem.
Nem imaginavam, também, que não muito longe dali, na mesa sete, os melhores peritos dos Estados Unidos esvaziavam as carteiras para Warrick Brown – que numa aposta muito atrevida, acabara por ganhar num lance de sorte... E uísque!
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