Aposta Indecente

1 Capítulo Único - Doce Armadilha


Em uma manhã de verão como outra qualquer, Shidou Mariya havia voltado até sua casa para tomar o café da manhã. Ele estava farto de aturar as costumeiras fantasias matinais de sua companheira de quarto, Miyamae Kanako, todo santo dia, e resolvera tomar o café em sua própria casa hoje, afinal, as vantagens de se morar bem ao lado da escola devem ser exploradas de vez em quando.


Sim, é isso mesmo, você leu corretamente. Eu me referi à Mariya como "ele". Shidou Mariya é um garoto, um travesti, para ser mais exato. A propósito, Miyamae Kanako é uma yuri pervertida, caso você não saiba.


Após o café, ele foi até seu quarto, seguido por sua empregada pessoal Matsurika, para recolocar seu disfarce de menina, vestir o uniforme feminino e preparar-se para mais um dia de aula no qual enganaria novamente todos ao seu redor, alunas, professores, enfermeiras, funcionários da limpeza, ninguém escapava da sua perfeita atuação, na qual fingia ser uma doce e inocente donzela.


— É raro você querer tomar o café da manhã em casa, Mariya-sama — comentava Matsurika, enquanto ajudava seu Mestre a recolocar os seios falsos que ele era obrigado a usar
— É que não aguento mais ouvir os malditos delírios e sonhos depravados daquela yuri nojenta toda santa manhã, é cansativo! — resmungou o rapaz, com uma voz bem masculina para alguém que possuia uma aparência tão delicadamente feminina — Isso não te irrita também, Matsurika??
— Acho que já me acostumei... pra alguém que é obrigada a servir um travesti todo santo dia, conviver com uma porca yuri como a Kanako-sama é algo normal — respondeu a empregada indiferente enquanto fechava a blusa do uniforme de Mariya
— Você está ficando mais atrevida a cada dia que passa, mulher.... e mais conformada também — resmungou Mariya com certa irritação na voz
— Se isso lhe incomoda tanto, por que não dá um jeito nela de uma vez por todas, Mariya-sama? Alguém tão poderoso quanto você deve ser capaz de acabar com a Kanako-sama definitivamente, não? — sugeriu Matsurika enquanto terminava de ajeitar a saia de seu Mestre
— É claro que sou capaz de dar um jeito nela, posso fazer qualquer coisa que eu quiser, ora bolas — rebateu ele convencido — Mas aquela maldita garota... acabar com ela vai dar trabalho.... ah, já sei! Matsurika, vamos fazer uma aposta
— Que tipo de aposta?
— Uma aposta que decidirá que rumo vai tomar... a vida de Miyamae Kanako — respondeu o travesti com um sorriso maligno em seus lábios.


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Após mais um dia de aulas, as alunas da Escola Feminina Ame no Kisaki retornaram para seus dormitórios, incluindo, é claro, o nosso travesti e a nossa yuri preferidos.


— Ahhh hoje foi um dia estressante... os professores não deviam dos dar testes surpresas, é tão injusto! Como vamos nos preparar para os testes se eles nem sequer nos avisam?! — reclamava Kanako, se jogando em sua cama cansada
— É por isso que se chama teste surpresa. E você não tiraria notas tão ruins se estudasse devidamente ao invés de ficar fantasiando com todas as garotas à sua volta, sua maldita planária — disse Mariya, que estava sentado em sua cama lendo um livro, sem nem ao menos se dignar a olhar para Kanako enquanto falava com ela
— Cala a boca seu traveco, eu não posso evitar! Não posso fazer nada, minha mente viaja sozinha, não é culpa minha! — tentou defender-se Kanako — Eu não fantasiaria tanto se as garotas ao meu redor não fossem tão lindas e deslumbrantes... e tivessem seios tão fartos, nem tivessem coxas tão bem torneadas, e...


Kanako não pôde completar a frase, ela acabou tendo outra hemorragia nasal, a oitava naquele dia, de tanto fantasiar sandices com suas companheiras de classe.


— Olha só, você sujou o tapete com seu maldito sangue de novo, sua tarada cretina!! Pra mim já chega, você vai limpar isso, ouviu bem, sua euglena?! — exclamou Mariya ao ver o sangramento nasal da garota
— Não trate as pessoas como se fossem protozoários! — reclamou Kanako enquanto limpava o nariz — Não é lá grande coisa, isso acontece sempre mesmo, apenas mande a Matsurila-san limpar, e... ué? Cadê a Matsurika-san?
— Por que a Matsurika deveria limpar o sangue que você derramou, sua tênia?! Limpe você mesma, yuri desgraçada! — ordenou Mariya com aquela voz inacreditavelmente masculina. Uma vez dentro de seu quarto e sem a presença de outras pessoas, ele podia deixar de lado sua farsa de "boa garota" e "aluna modelo" e agir como o vilão inescrupuloso que realmente era
— Ei, eu perguntei onde está a Matsurika-san! Pra onde ela foi?! — tornou a pergutnar Kanako, ignorando as ofensas do rapaz. Ela olhava para todos os lados, desesperada, mas não adiantava, nem sinal da serva de Mariya. Kanako estava no tipo de situação que temia mais do que tudo na vida: estava sozinha num quarto fechado com um homem
— Mandei a Matsurika fazer um servicinho especial hoje, ela volta daqui a algumas horas — respondeu Mariya indiferente, voltando ao seu livro
Queee?! Horas?! Q-Quantas horas?? P-Por quanto tempo terei que viver a tortura de ficar sozinha aqui com você??? — gritou Kanako assustada
— Ora... esse escândalo todo é só por causa disso? Está com medo de ficar sozinha comigo... Kanako-san? — perguntou Mariya, fechando seu livro e colocando-o de lado. Seu tom de voz mudara, estava doce e feminino, ele havia recomeçado seu tão famoso "teatro"
— P-Pare de falar com essa voz fina e delicada, você é um garoto, eu sei que é!! — exclamou Kanako recuando
— Oh céus, do que está falando, Kanako-san? Garotos são proibidos de entrar no Dormitório Feminino, você sabe... só estamos nós duas aqui, nesse quarto fechado, nesta bela noite de lua cheia — dizia Mariya com voz melosa — Sabia que a lua cheia sempre provoca um clima mais romântico, Kanako-san? — comentou ele, sua voz cada vez mais sedutora, enquanto aproximava-se da yuri
— Que... q-que negócio é esse de romance... p-pára com isso Mariya, você é um garoto! Afaste-se de mim, você não vai me enganar, eu sei que você não é uma menina, eu sei!! — exclamava Kanako, recuando ainda mais, tentando convencer a si mesma — Você pode ter essa voz linda e delicada, e... e-esse rosto angelical... e esses... esses cabelos loiros tão macios, e... essa pele tão cheirosa... m-m-mas é tudo uma farsa, você é um menino, eu sei que é!!!
— Eu, um menino? E eu tenho cara de menino, Kanako-san? — perguntou Mariya, fingindo inocência. Ele se aproximara tanto que Kanako já estava grudada contra a parede, ela não tinha mais pra onde fugir
— Não — admitiu Kanako — R-Realmente, você não parece um menino, mas... m-mas...
— Então, como uma criatura doce e angelical como eu poderia ser um menino? Não está claro pra você que não passo de uma donzela indefesa? — perguntou Mariya docemente, fazendo pose de "menina inocente"
— É... você realmente... parece uma menina agora... uma... linda e indefesa menina... — Kanako estava começando a ficar confusa, ela pareceu esquecer-se momentâneamente de que a pessoa à sua frente era apenas um rapaz disfarçado — M-Mas... você não é uma menina, não é! Não importa o quão seja perfeito seu disfarce, você não é uma garota de verdade! Por que você fica atuando como uma linda garotinha fraca e indefesa, só pra me seduzir e depois rir da minha cara?! Isso é muito cruel!! Mas eu não vou cair nessa sua atuação de quinta categoria dessa vez, você não pode mais me enganar, Mariya!!!


A mente de Kanako recobrara a lucidez bem a tempo, ela conseguiu lembrar-se de que a pessoa à sua frente não passava de um travesti cruel e dissimulado, e estava convicta de que nunca mais cairia nas encenações do garoto, por mais perfeitas que fossem.
Até que aconteceu o que ninguém jamais nem sonhou em ver: Mariya começou a chorar. Sim, isso mesmo, senhoras e senhores, Mariya estava chorando descontroladamente, sem se importar que sua companheira de quarto visse as lágrimas que escorriam livremente pelo seu belo rosto. Ele desistira de tentar encurralar Kanako contra a parede e se jogou em cima da cama dela, chorando descontroladamente.


"Querida mãe que estáis no céu"— pensou Kanako — "Eu não posso acrediatr no que os meus olhos estão vendo".


— E-Ei... Mariya?! Você está chorando??? Sério?! — indagou Kanako incrédula — Mas o que... o que foi que houve?? O que raios deu em você agora??! — perguntou ela preocupada. Não podia ser mais uma mera atuação, ninguém conseguiria fingir estar sentindo um desespero tão gande a ponto de romper em lágrimas... nem mesmo Mariya
— Não tem jeito... você... não entende mesmo, não é...? — murmurou o travesti em meio aos soluços provocados pelo choro — Quer saber... por que eu me finjo de menina e tento seduzir você, Kanako...?
— Q-Quero, mas... o que isso tem a ver com esse seu choro repentino?!
— Tem... t-tudo a ver — murmurou o rapaz, encarando-a. Sua face estava lavada de lágrimas, ele ainda não parara de chorar — É porque... todos os dias e todas as noites que passamos juntos nesse quarto... eu tenho que ouvir você falando das suas fantasias sem noção com as garotas da escola... os seus sonhos indecentes com suas colegas de classe... você já fantasiou com cada menina que estuda nesse colégio, com absolutamente todas elas... mas você... jamais conseguiu olhar... para a sua companheira de quarto
— O que?! Mas você é meu companhei... M-Mariya... o que você...
— Exatamente — interrompeu o travesti — Mesmo vivendo juntos, morando juntos aqui, e nos vendo todo santo dia... você não é capaz de olhar pra mim. E o mais triste é porque... porque sou um garoto. Por isso que eu... atuo como uma menina e tento te seduzir desse jeito tão covarde... pra ver se assim, você me nota. Por isso eu... sempre te xingava e te maltratava... pra ver se... se assim você reparava em mim. Por que você não presta atenção em mim?! É tão injusto que você... prefira essas outras meninas sem graça... por que você não pode escolher a mim?! Eu sempre... sempre estive ao seu lado... por que você não me escolhe?! Que droga Kanako, por que você teve que nascer lésbica, sua maldita yuri???!!


E antes que Kanako pudesse dizer alguma coisa, Mariya selou seus lábios nos dela e a beijou. Kanako teve seu primeiro beijo roubado pela criatura que ela mais desprezava e temia, um garoto. Ela estava paralizada de choque e medo, não conseguia mover nem um músculo diante daquela situação. Vendo que Kanako não apresentara resistência, Mariya aproveitou para aprofundar o beijo. Kanako sentiu cada parte de sua boca sendo explorada pela língua de Mariya. Ela finalmente começara a se dar conta do que estava acontecendo, e tentou resistir, tentou se soltar dele, mas era tarde demais, o rapaz a tinha dominado por completo. Ele a segurou pela nuca com uma das mãos e, puxando-a pelos cabelos com certa violência, derrubou-a na cama, jogando-se em cima dela e prendendo-a ali. Kanako podia sentir as mãos velozes e inexplicavelmente experientes do garoto subindo e descendo por todo o seu corpo, tocando em sua pele, enquanto ele aprofundava cada vez mais o beijo.
Ele começara a desabotoar lentamente a blusa do uniforme de Kanako, até que, finalmente começou a sentir falta de ar e a soltou por alguns instantes para poder respirar. Olhando melhor para o rosto da garota, para ver sua reação, Mariya percebeu que ela havia perdido a consciência, pelo visto já tinha algum tempo. Pelo jeito, o choque de ter sido beijada e tocada por um rapaz assim tão inesperadamente fez Kanako desmaiar. Mariya sorriu satisfeito e saiu de cima da garota, deixando-a dormir ali.


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Na manhã seguinte...


— Humm... eu preciso levantar... vou ter outro teste hoje, mas... sinto que algo terrível vai acontecer se eu acordar... não quero levantar, quero ficar aqui pra sempre... — murmurava Kanako sonolenta em sua cama, como se fosse uma sonâmbula
— Você não pode fazer isso Kanako-san. Você precisa levantar.


Kanako abriu os olhos lentamente e viu que Mariya estava em cima dela, trajando um belo e curtíssimo vestido de lolita todo rosa, com mangas curtas e fofas, muitos babados na barra da saia, e um laço amarrado em sua cintura. Ele usava uma meia-calça branca, que desaparecia por baixo da saia, e isso não era tudo, também haviam fofíssimas orelhinhas de gato brancas sob seus cabelos loiros. Até cauda de gato ele estava usando.


— Bom diaaaa! — exclamou Mariya sorridente, com uma voz melosa e sedutora ao mesmo tempo.


Não deu outra, Kanako teve sua primeira hemorragia nasal daquele dia. Mariya sorriu satisfeito e saiu de cima da cama da garota.


— M-Mariya!! Por que raios está vestindo isso??? — indagou Kanako, levantando-se assustada, enquanto limpava o sangue de seu nariz
— Ora, não é bonitinho? Eu fiquei bem assim, Kanako-san? — indagou o travesti com sua voz feminina, dando uma voltinha
— Sim... m-muito bem... — murmurou a yuri, tendo sua segunda hemorragia nasal daquela manhã

— Bem, foi uma pergunta idiota. É lógico que eu, Shidou Mariya, a personificação da beleza, ficaria esplendorosamente magnífico vestindo qualquer coisa mesmo — concluiu Mariya com seu jeito convencido e arrogante de sempre

— Sim, claro... tanto faz... — murmurou Kanako sem prestar muita atenção ao que Mariya dizia. Ela procurava por outro lenço para limpar o sangue de seu nariz outra vez, quando viu Matsurika pela janela do quarto. A empregada parecia mais atarefada do que o normal, ela carregava pelo menos uns doze livros, e aparentemente se dirigia à biblioteca da escola.


— Né... o que a Matsurika-san está fazendo? — perguntou Kanako enquanto observava a garota pela janela
— Ah, ela perdeu uma aposta, e agora terá que fazer meus deveres escolares por uma semana — respondeu Mariya sorrindo
— Aposta? Que tipo de aposta?
— Fiz uma aposta com a Matsurika ontem. Se ela ganhasse, teria uma semana de folga pra fazer o que quiser, sem precisar seguir minhas ordens. Se eu ganhasse, ela teria que fazer minhas tarefas escolares por uma semana — explicou Mariya — Ainda acho que saí perdendo, eu devia ter apostado bem mais do que isso, mas enfim... pelo menos foi bem divertido. Além do mais, ontem eu ganhei muito mais do que apenas uma pessoa para fazer meu dever de casa — concluiu Mariya, sorrindo maliciosamente enquanto levava os dedos aos lábios
— O que você... q-quer dizer com isso...?
— A Matsurika achava que eu não conseguiria te fazer acreditar que eu não passava de uma linda garota apaixonada por você, e assim, te seduzir. Eu discordei. E provei a ela que estava certo. Eu estou sempre certo, não é... Kanako-san?
— "Apai... xonada?" — repetiu Kanako — "Me... seduzir"? V-Você... v-você quer dizer...
— Ora, você não achou que eu fiz todo aquele teatro ontem por nada, não é? — continuou Mariya sorridente — Ahh não... você estava acreditando naquela baboseira toda até agora?! Puxa, eu devo atuar melhor do que imaginava... eu devia ganhar um Óscar por isso
— "Teatro"? — repetiu Kanako, absorvendo lentamente a avalanche de informações que Mariya jogava sobre ela — Então... e-então quer dizer que...
— Você lembra o que aconteceu ontem à noite, não lembra? — indagou o travesti com a maior calma do mundo — Não foi um sonho, e nem uma alucinação dessa sua cabecinha tola cheia de pensamentos inúteis. Aconteceu de verdade, viu?
— V-Você... você quer dizer que... aquilo de ontem... aconteceu... você... v-você realmente me... me...
— A propósito, eu acho melhor você não ir à escola hoje — Mariya interrompeu os pensamentos confusos de Kanako, um sorriso maligno tomando conta de sua bela face — Não vai querer que as alunas vejam essas coisas horríveis na sua pele, vai? Estão aí desde ontem à noite.


Kanako virou-se lentamente e mirou-se no espelho: Várias feridinhas horríveis cobriam cada parte de seu corpo: mãos, pescoço, rosto, braços, pernas, orelhas, dedos, tudo estava encoberto por essas feridas vermelhas horrorosas.


URTICÁRIAAAAAAAS NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!!!!!!!!!!!!!!


"Querida mãe que estáis no céu... eu tinha razão no final das contas: Tudo não passou de uma ilusão. O demônio atacou de novo".


Kanako surtava descontroladamente ao perceber que tudo não passara de mais uma mas armadilhas de seu ardiloso companheiro de quarto, enquanto que Mariya gargalhava vitorioso e satisfeito, como um verdadeiro vilão de anime faria.
E se você acreditou naquele choro falso, e também caiu na trama de Mariya, então sinto informar-lhe, caro leitor, que você é tão ingênuo e inocente quanto a nossa pobre Kanako. E se você leu essa fic desde o começo até aqui, certamente percebeu que a mente corrompida de Kanako está muito longe de ser inocente, então sabe o que eu quero dizer, não é?


~*~*~*~ THE END ~*~*~*~

Notas finais
Olá pessoal! Essa foi a minha primeira oneshot de Maria+Holic, e também a primeira fic desse anime maravilhoso aqui no site! o/ Eu espero que ela abra portas para que novas fics desse anime maravilhoso sejam escritas, pois é um dos meus animes yuri favoritos ♥ Deixem reviews por favor e façam uma autora feliz! *-*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!