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1 I'm hearing what you say but I just can't make a sound, you tell me that you need me then you go and cut me down, but wait...
Notas iniciais
I’m holding on your rope, got me ten feet off the ground
And I’m hearing what you say, but I just can’t make a sound
Não. Ele não deveria estar ali, não deveria se preocupar tanto com ela. E ela? Ela também estava errada, não estava? Ela não deveria procurá-lo; não deveria balançá-lo novamente e trazer todas aquelas lembranças à tona.
Mas o tinha feito.
E, agora, ele estava ali. Atrás dela. “Estou indo”, ela lhe dissera mais cedo, como se fosse dar uma volta no quarteirão e já voltasse, e ele sabia... sabia que não era bem assim, mas continuou com seu semblante impassível. Sabia que no momento em que a deixasse ir, seria para sempre. Ela franziu os lábios, colocando novamente sua máscara de indiferença, e saiu... saiu pela mesma porta por onde saíra muitas vezes antes.
Irene Adler não era uma mulher previsível, disso ele sabia, mas a conhecia bem o suficiente para saber que, se ela tinha ido ao seu encontro, estava metida em encrenca; não que isso fosse um problema, afinal, ela sabia se livrar bem até demais dos problemas, mas, para todos os efeitos, era Adler.
E tinha sido por esse, e por outros motivos, que Holmes a tinha seguido por toda Londres. Porque sabia que ela estava em perigo. De novo. E seu cérebro trabalhava a mil enquanto se escondia quando ela parecia tê-lo notado. Por que ele se preocupava tanto? Desde que a conhecera, por mais admirável que fosse, aquela mulher era sinônimo de problema em sua vida, então, por que ainda se importava?
You tell me that you need me
Then you go and cut me down, but wait…
You tell me that you’re sorry
Didn’t think I’d turn around and say…
Mesmo seu instinto lhe dizendo que não deveria fazê-lo, ele continuou trilhando seu caminho, provavelmente para uma nova confusão. E, então, seu sangue gelou.
Foi algo instantâneo. Estava tão mergulhado em seus pensamentos que nem reparou para onde seus pés o estavam levando. Mas, quando deu por si, ele estava lá. E ela também.
Holmes nunca imaginaria que algum dia veria Irene Adler daquele jeito. Quanto tempo levara para chegar? Aquele estrago não poderia ter sido feito em poucos minutos, poderia? Tanto fazia. O importante é que tinha acontecido. E que não era nada bom.
Seus passos, provavelmente o único barulho naquele lugar, fizeram-na abrir os olhos. Não houve reação. Era como se ela já esperasse por aquele momento. Por tudo aquilo.
Suas pálpebras estavam arroxeadas e havia um corte fundo em sua bochecha esquerda. Seus lábios estavam ressecados e entreabertos. O vestido rasgara-se em vários lugares e seu cabelo havia se desprendido e agora caía em cachos por seus ombros.
Holmes olhou ao seu redor procurando algum ponto enevoado, como se desejasse estar sonhando. Ou tendo um de seus piores pesadelos. A única coisa que encontrou foram paredes cinzentas de um pub abandonado e quase em ruínas.
— Não há saída. – disse ela, num fio de voz. – Você não pode fugir disso. Não dessa vez.
That it’s too late to apologize, it’s too late…
I said it’s too late to apologize, it’s too late…
Ele se aproximou. E desejou com ainda mais vontade estar delirando. Adler engoliu em seco. Suas pálpebras pareciam pesar. Holmes se ajoelhou, perdendo as forças. Aquilo era mais do que ele podia suportar. Uma mulher que merecia sua admiração, que sempre passava a ideia de superioridade e resistência. Uma mulher que parecia indestrutível aos seus olhos.
E agora, lá estava ela. Sem forças, coberta pelo próprio sangue, agarrada ao único fio de vida que ainda lhe restava. Era como se ele tivesse levado um soco. Holmes não sentia absolutamente nada. Não tinha o que sentir. Apenas o choque o dominava naquele momento.
Era uma situação ao mesmo tempo impossível e muito real. Algo em que ele pensaria com escárnio estava agora à frente de seus olhos, bem ali. E Sherlock Holmes estava desmoronando.
Adler sorriu diante de sua incredulidade. O brilho que ela emitia mesmo estando debilitada o deixava desconcertado. Com certeza, nunca conheceria mulher parecida.
— Ninguém é de ferro, Holmes. – disse ela, fracamente. – Não importa o quanto se batalhe na vida, todos terão o mesmo fim...
Ele sentiu seus olhos ficarem úmidos; baixou a cabeça e depois encarou um ponto tão longe quanto o horizonte. Na sua cabeça, cenas de toda sua vida passaram como num filme. Mas por que aquilo estava lhe acontecendo?
Holmes sabia que não deveria sentir essas coisas; um detetive tinha de ser frio, centrado. Ele não podia perder o foco. Não agora. Ele tinha de ser forte, e era. Mas sua inteligência precisa não falhara, e ele bem sabia o que estava havendo.
Queria negar com todas as suas forças, mas estaria sendo desonesto consigo mesmo. Ele sabia que estava sentindo na própria pele todo o sofrimento da mulher à sua frente, mas, ainda assim, ela continuava calma.
Era errado. Ele deveria sentir satisfação, deveria se sentir vingado por vê-la assim, mas não. Isso nunca.
I’d take another chance, take a fall, take a shot for you
And I need you like a heart needs a beat, but it’s nothing new…
— Ah, Sherlock…
Ela sorriu, alcançando sua mão.
— Irene... – seus olhos se voltaram para ela, cheios de preocupação. – O... – ele engoliu em seco. — O que...?
Ela respirou o mais fundo que pôde e o corte em sua bochecha se abriu ainda mais, fazendo-a soltar um gemido dolorido. Suas mãos, machucadas, estavam cheias de sangue.
O ponto fraco de Holmes estava se infeccionando. Irene Adler tinha apenas mais alguns minutos de vida, morreria em um pub abandonado – nada à altura de seu modo de vida – e não ligava para isso. Ele queria sair correndo, chamar um médico e salvá-la. Chamar Watson – era a isso que sua mente voltava constantemente. Mas, ao mesmo tempo, não poderia deixá-la sozinha novamente, não naquele momento. E se acontecesse algo enquanto estivesse fora?
Não daria tempo.
— O que aconteceu à mulher que eu conheci? – perguntou ele, mais para si mesmo do que à espera de uma resposta. – O que aconteceu à mulher de ferro que sempre foi admirada e invejada? Que sempre se livrou de todas as confusões em que se metia e se orgulhava disso? O que aconteceu a você, Irene? – Holmes falava com um fio de voz, com raiva. Raiva porque ele não acreditava que ela iria deixar aquilo acontecer, que não estava lutando. Ele estava em negação. Aquilo não podia estar acontecendo, devia ser algum pesadelo, precisava ser um pesadelo.
Adler apertou os lábios, lembrando-se de seus bons momentos. A fuga era a parte mais divertida do processo. A parte em que ela deixava todos impressionados e incrédulos. Ela também gostava de quando conseguia superar a inteligência de alguém com a própria, mas correr, fugir, viver como se nada tivesse acontecido e ser reconhecida por isso era, com certeza, a melhor parte.
— Essa mulher... – ela suspirou, desviando os olhos para o céu, visível pelas frestas no teto arruinado do lugar. – Ela se apaixonou, Holmes. E foi punida por isso. Pessoas como eu são obrigadas a ter um coração de pedra e uma frieza indomável para sobreviver por toda a sua vida. E eu falhei no meu dever, Holmes. E recebi em troca o que eu menos gostaria de ter... desatenção, distração e descuido.
— Isso não é crime. – Holmes balançou a cabeça. – O que você sente, quero dizer. – ele disse, como uma piada interna; ela sorriu. – Minha profissão também não admite essas coisas, mas de qualquer jeito...
— É a culpa, não é? – ele baixou os olhos. – Conheço você, Sherlock. Sei que compartilha dos mesmos sentimentos que eu.
— Temos as mesmas obrigações e as mesmas falhas. É por isso que somos tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, tão parecidos.
Ah, Holmes... onde estava com a cabeça? Falando sobre sentimentos, sobre culpa, com uma criminosa que lhe passara a perna diversas vezes... Mas do que isso importava agora?
Irene Adler estava morrendo nos braços de Sherlock Holmes em um pub destruído de Londres.
Um silêncio pesado caiu sobre eles, ambos imersos demais em seus próprios pensamentos para contestarem. Os minutos se seguiram, parecendo uma eternidade. E ela parecia estar mais fraca a cada respiração.
— Eu sinto muito.
I loved you with a fire red, now it’s turning blue, and you say…
“I’m sorry” like a angel, heaven let me think was you, but I’m afraid…
It’s too late to apologize, it’s too late…
I said it’s too late to apologize, it’s too late…
Não foi preciso mais palavras. Os dois sabiam bem o que aquilo significava. Além de ter pedido desculpas por tudo que já lhe causara, ela estava se despedindo, mas não tinha coragem o suficiente para dizê-lo.
— É muito tarde para isso. – disse ele, olhando-a cheio de mágoa.
Todos aqueles anos ele tivera de conviver com as encrencas nas quais aquela mulher o metia e não a deixaria sair livre. Nem naquelas condições.
Quando a olhou novamente, foi como se uma lâmina gelada penetrasse seu peito. Ela fazia uma careta de dor, seus olhos estavam marejados e os lábios se entreabriram novamente. Mas ele não voltaria atrás.
Holmes se levantou pela primeira vez e caminhou lentamente pelo lugar. Cadeiras quebradas, paredes destruídas, papéis espalhados e amarelados pelo tempo... Nada disso parecia ser capaz de chamar sua atenção.
Ele colocou as mãos nos bolsos e encarou as ruas movimentadas através de um buraco onde deveria ter uma janela. O vento bateu. Seus cabelos se bagunçaram. Um arrepio percorreu seus braços.
A mágoa que sentia não era somente pelas coisas as quais ela o fizera passar. Era também pelo fato de que Adler só seria capaz de dizer algo assim em um momento como aquele. No último momento que teriam. E aquilo o corroía por dentro, deixando-o impotente, com raiva... com vontade de pegá-la pelos braços e obriga-la a viver. Obriga-la a encará-lo, sem nada ameaçando sua vida, e dizer a verdade quanto teriam tempo paras as consequências que viriam.
Mas nada daquilo era possível.
— Não é tão fácil quanto parece. – sussurrou ele. Seus olhos ardiam. Ao longe, uma tempestade se aproximava. O céu estava acinzentado e escurecia rapidamente, atingindo uma tonalidade sombria.
O tempo parecia refletir tudo o que eles sentiam. Era algo confuso, mas também triste e deprimente.
— Eu não posso deixar que fique aqui. – disse ele, voltando para o lado dela. Trancando seu turbilhão de emoções no fundo de sua alma.
— Não há nada que você possa fazer. – disse Alder, fechando os olhos. – É tarde demais.
It’s too late to apologize, it’s too late…
I said it’s too late to apologize, it’s too late…
I said it’s too late to apologize…
I said it’s too late to apologize…
Ele se sentou, apoiando-a em seu ombro e segurando sua mão. “Eu ficarei com você”, era o que ele queria dizer. Mas algo o impedia. Talvez fosse medo. Talvez vergonha, ou até mesmo se sentia incapaz depois de tanto tempo.
E ainda havia mais coisas a serem ditas. Coisas que foram por muito tempo escondidas e encobertas, agora vinham como uma enxurrada, caindo como um peso a mais em seus ombros.
Holmes encostou o seu rosto no dela, sentindo seu perfume.
— Irene... – começou ele, baixo. Mas, antes mesmo de terminar, ela já sabia o que ele diria, e o interrompeu.
— É muito tarde para isso.
Ela repetiu suas palavras, entendendo o que ele sentia. Adler causara muito mal a ele, mesmo sem saber, e agora compreendia isso. Ela não sentia necessidade de seu perdão, pois sabia que, se conseguisse, ele teria lhe dado.
Em um impulso, ela uniu a última de suas forças e, apoiando-se no pescoço de Holmes, encaixou seus lábios nos dele. Ele a envolveu pela cintura e a puxou para mais perto delicadamente.
Tudo o que não disseram naqueles últimos minutos foi esclarecido ali, em apenas alguns segundos, com um único gesto.
Ele poderia não dizer em voz alta, mas, intimamente, ele a tinha perdoado. É claro. Afinal, ele a amava. Nunca tinha amado outra em sua vida, e nunca mais amaria.
Naquele instante de alegria interior, sentiu toda a vida se esvair dela. Seu corpo amoleceu e foi tombando de volta. Seus olhos estavam fechados. A pele continuava machucada e empoeirada. Mas sua expressão era serena.
Ao beijá-lo, ela o tinha livrado do fardo. Sabia que se não o fizesse, Holmes teria de conviver pelo resto da vida com um sentimento de culpa, pensando em todas as possibilidades que tivera para salvá-la e que perdera. Teria de viver achando que fora por isso, e apenas por causa dele, que ela tinha o deixado, solitário naquele mundo enorme.
No entanto, ali estava o corpo inerte de Irene Alder, a mulher mais admirável, fantástica e inteligente que já cruzara seu caminho. Era como se estivesse vivendo um sonho, um pesadelo, ou talvez algo entre as duas coisas. E ele sabia que nunca mais acordaria. Ele ficaria preso àquele momento por todos os dias de sua vida e nunca se livraria das memórias que possuía das vezes em que a encontrara.
Aquela seria a sua mais triste e, ao mesmo tempo, mais feliz lembrança.
Lá fora, a tempestade assolava as ruas de Londres, levando embora todo aquele aperto de seu peito.
I’m holding on your rope, got me ten feet off… the ground
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