Apollos Love
1 Cuidado com o que deseja
– Mais rápido, Cloé, mais rápido! – mamãe gritava para mim da areia. Eram sete horas da noite e ainda estávamos na praia. Alguma coisa me dizia que o jantar sairia atrasado hoje.
Usando todo o meu controle sobre a água, forcei-a a me impulsionar ainda mais, aumentando minha velocidade. O fato de eu não precisar subir para respirar facilitava um pouco as coisas. Logo eu nadava tão rápido como um golfinho. Antes que eu saísse de St. George’s Island e voltasse ao continente, dei meia volta e continuei a nadar, dessa vez em direção à minha mãe.
– Ótimo tempo! – disse ela, orgulhosa – Nadou dois quilômetros em vinte segundos, sem respirar uma única vez! Para comemorar vou fazer aquela torta de maçã para sobremesa que você adora!
Ela me entregou a toalha enquanto eu saía da água e fui me enxugando enquanto andávamos até nossa casa, que ficava em frente á praia, subindo um pouco a rua.
Isso mesmo, você não entendeu errado: eu não preciso respirar debaixo d’água. E sim, eu posso controlar a água. E sim, eu moro em uma ilha, na parte mais isolada do estado da Florida. Não, eu não sou uma extraterreste, nem a próxima integrante do grupo dos X-Men. Na verdade, eu sou uma garota bem normal, só que... Bem, tenho o sangue de um deus correndo nas veias.
Tá certo, eu admito que isso não é nada comum. Podem até existir outros semi-deuses por aí, mas não é algo com o qual você se acostume rápido. Eu, por exemplo, tenho 16 anos e ainda não me conformei com o fato de que minha mãe namorou Poseidon. E ela me contou isso quando eu ainda tinha apenas nove aninhos, quando meus poderes começaram a se manifestar.
Você pode imaginar como é, para uma garotinha de nove anos, descobrir que tem superpoderes. Eu me achava a própria Mulher Maravilha. Mamãe deixou bem claro que não era para eu contar a ninguém, mas sem querer querendo deixei escapar para a minha amiguinha que eu podia fazer a água se mover. Ela duvidou, fizemos uma aposta e eu transformei o suco dos meus colegas de turma em várias bolinhas flutuantes com cheirinho de laranja. Ao contrário do que eu desejava, mais pessoas notaram os meus superpoderes. Incluindo os monstros. E então eu e mamãe tivemos que nos mudar correndo de Boston e vir para cá, um lugar isolado e cheio de água perfeito para semi-deusas filhas de Podeidon. Nunca recebi o dinheiro daquela aposta...
O objetivo de vir para St. George Island era eu ter um lugar mais sossegado onde pudesse treinar meus poderes. Depois do incidente na escola em que fui atacada por monstros horríveis, Mamãe me explicou que nós, semi-deuses, somos pessoas muito especiais. Ao mesmo tempo em que nascemos com um grande dom, também nascemos com a terrível sina de sermos perseguidos por monstros que querem nos destruir. Para não sermos um alvo fácil, devemos nos manter em segredo e treinar todos os dias para ficarmos cada vez mais fortes.
Desde então, minha mãe me colocou em todo curso de arco-e-flecha, esgrima e artes marciais que ela conseguiu arranjar. Eu sempre quis fazer natação, pois sempre fui apaixonada por água, mas Mamãe me convenceu de que isso seria uma péssima ideia – minhas habilidades aquáticas superiores certamente chamariam uma atenção desnecessária. Mas ela me treinava todos os dias em casa, movimentando a água da banheira, aprendendo a respirar debaixo d’água, entre outras coisas.
Quando completei doze anos, passei a pesquisar mais coisas sobre o meu pai e descobri várias outras habilidades que filhos de Poseidon poderiam ter, como hipnotizar as pessoas, falar com cavalos e transformar partes de seu corpo em água. Passei a pesquisar também sobre outros seres da mitologia. Sempre quis conhecer um deus ou ninfa ou sátiro pessoalmente, mas nunca tive essa sorte.
Uma vez, depois de tanto perguntar à Mamãe a respeito de outros semi-deuses, ela me disse que havia um acampamento onde viviam a maioria dos filhos de outros deuses. Quando eu era pequena e os monstros me atacaram, alguns caras do acampamento é que me salvaram. Graças a eles ninguém saiu ferido – a não ser os monstros – e a memória de todos da escola foi alterada para que ninguém se lembrasse do ocorrido.
O centauro que treinava os heróis conversou com minha mãe sobre a necessidade de eu estudar naquele acampamento para poder sobreviver, mas Mamãe teve medo de me deixar sozinha com eles – eu só tinha 9 anos! – e assegurou que continuaria meu treinamento em um local seguro. E então nos mudamos para St. George’s lsland. Sorte que meu padrasto é escritor, a mudança não afetaria seu emprego, e Mamãe poderia apenas fingir que estava cansada da cidade grande e queria passar a morar em um local mais pacato (ela nunca contou a ele sobre o fato de eu ser metade deusa).
Quando cheguei ao meu quarto e fui tomar banho, fiquei pensando em todas essas coisas. Mesmo não me arrependendo de ter passado todos esses anos com a minha família, teria sido legal morar nesse acampamento, conhecer outros semi-deuses e seres mágicos da mitologia e enfrentar monstros em missões.
Mal sabia eu que meu desejo estava prestes a se tornar realidade, de uma forma que mudaria minha vida para sempre.
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