Apodrecer
1 Capítulo Único
Notas iniciais
18 dias até a invasão.
Ainda que os aquecedores estivessem ligados o frio se fazia presente naquela sala de aula. Os olhos escuros da garota seguiam os ponteiros do relógio, observando a menor movimentação possível, na tentativa de se distrair com qualquer coisa ao redor. Havia desistido de prestar na atenção na aula e as palavras do professor não tinham mais significado algum. Kin decidiu simplesmente aguardar até o sinal tocar. E assim o fez.
- Finalmente. — Ouvia o barulho irritante invadir o local e a maioria dos alunos saírem apressados da sala. A morena apenas juntou suas coisas e caminhou para fora na esperança de poder encontrar algo interessante. Pessoas que ela ao menos lembrava o nome se aglomeraram a sua volta, como um enxame de abelhas que se reúnem ao redor de sua rainha.
Rainha.
A morena esticou os lábios ao se lembrar daqueleoutronome. Adultos, crianças, adolescentes, idosos, pessoas que ela desconhecia totalmente se aproximavam. Kin apenas se acostumou com tudo isso. Era quase cômico. Os rostos incômodos passaram a se tornar comuns e agora não passavam de entretenimento barato. Porque todos eram atraídos por algo e por mais que isso soe ridículo.
Ela sabia exatamente o que era.
As palavras mais uma vez saiam automáticas e sem significado em resposta àquele amontoado de gente. Por fim, se viu livre da maioria e caminhou até a saída principal em busca de seus sapatos. Tudo corria como a rotina monótona que sempre seguia, porém dessa vez algo saiu de seu controle. Nem que por alguns pequenos centímetros de papel.
Acima de seus sapatos havia uma carta. A morena hesitou ao tocá-la, não porque havia afeto ou qualquer outro sentimento idiota, mas por simplesmente achá-la delicada. Tão delicada e tão frágil. A garota sorriu.
Aquilo poderia ser um tanto divertido.
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17 dias até a invasão
- Eu... Eu gosto de você!
Kin sequer tentou conter o riso quando as doces palavras foram despejadas trêmulas e envergonhadas. O garoto asiático a sua frente era simplesmente adorável.
Os lábios da morena continuaram curvados diante daquela cena tão típica. As bochechas estavam coradas, o suor escorria vagarosamente e o nervosismo era exalado por cada poro do rapaz. Viu-o apertar a manga do uniforme que ele mesmo usava e enfim direcionou os olhos puxados em direção à garota.
A diversão estava apenas começando.
- Corajoso. — A morena disse enfim, vendo o rosto do garoto tornar-se mais avermelhado. — Faz algum tempo que ninguém tenta alguma coisa, entende? — Kin soltou um falso suspiro e direcionou o olhar ao asiático.
- Mas... — Os passos dados foram o suficiente para quebrar a mínima distância que existia entre eles. — Você é diferente, não é? — A aproximação repentina fez com que caminhasse para trás e se se encostasse à parede a suas costas.
- K-Kai... — Kin o encarou com uma careta, sem entender. Qual era o problema dele?
- O meu nome... É Kai. — O asiático a olhava nos olhos, ou ao menos tentava.
A morena soltou outro suspiro — Então... Kai, o que você quer? — Era vez do garoto a olhar confuso, ele havia se confessado e tinha certeza de não ser o único daquela escola. A garota era provavelmentebemfamiliarizada com a situação e o asiático sabia disso.
Bem, na verdade. Todos sabiam.
- Eu só... Só quero saber se você tam-
- Se eu também gosto de você? — As últimas palavras foram ditas repletas de sarcasmo, o peito do garoto começava a apertar.
- E... Eu não estava realmente esperando algo. — Ele forçava um sorriso enquanto encarava o chão. Não queria parecer tão patético.
- Então pra que você veio até aqui?
Ele sentia que temperatura daquela sala começava a cair.
- Nã... Eu não... Pretendia...
Mais baixo.
- Esperava que eu abaixasse a cabeça para um idiota como você?
Mais baixo.
- Odeio pirralhos que me fazem perder tempo.
Mais baixo.
Kai prendeu a própria respiração. O hálito da morena contra a própria pele fazia arrepios correrem pelo seu corpo.
- Sabe... — A garota enrolou uma mecha do cabelo do outro entre os próprios dedos.
- Vermes deveriam apenas rastejar. — Sentia algo dentro de si quebrar.
Ele precisou se apoiar na parede para não cair. O corpo parecia tremer.
Mas estava tudo bem.
- Q..Qualquer... Coisa... — O garoto apertou as mãos por cima dos ombros de Kin. Seus olhos ainda estavam úmidos e arregalados, um brilho doentio surgia de dentro das íris escuras.
- Eu faço qualquer coisa! TUDO! QUALQUER COISA! ENTÃO... — Kai agora gritava, ele forçou o próprio corpo em cima de Kin. Porém, mal havia tentado avançar sobre a morena quando sentiu suas costas serem empurradas e seu rosto bater em algo gelado.
Percebeu que havia caído no chão, em frente a seus pés.
- Quer alguma coisa? — Kin chutou a região do estômago do asiático, ouvindo o outro gemer de dor. Ele havia tentado atacá-la. Isso era mais do que um bom motivo para brincar.
- Então fique mais forte.
E aquela poderia ser uma brincadeira muito engraçada.
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Dia da invasão
Kin, mais uma vez, estava entediada. Cada minuto dentro daquela sala estragava o seu humor. Fazia semanas desde que havia tido seu último entretenimento, ela queria algo para se distrair e de preferência, interessante.
Mas foi tudo muito rápido.
Em um momento via o professor engasgar com as próprias palavras, no outro, carteiras, cadeiras e alunos eram atirados contra parede. Seus ouvidos explodiram com aquele estrondo e antes que ela mesma se desse conta do que estava acontecendo, o próprio corpo foi arremessado junto a outros destroços. A morena sentiu como se fosse rasgada ao meio enquanto se chocava em algo duro para depois cair imóvel sobre o chão. A garganta parecia estar presa em um nó e sua voz se recusava a sair, aquela sensação crescia mais e mais dentro de seu peito sufocado e enfim Kin entendeu o que estava sentindo.
Ela estava com medo.
Aquele barulho de mais explosões seguidas de tiros ensurdecia seu ouvido. O corpo, agora preso entre os escombros parecia completamente quebrado, o lado direito de seu braço ardia como o inferno. Uma dor aguda atraveçou o ombro quando tentou sair debaixo das duas pedras enormes acompanhada de uma pontada no estômago, o enjoo a invadiu e a morena forçou os olhos marejados a fim de se manter acordada.
Seu corpo tremia.
O peito ardeu e lágrimas rolaram pelo seu rosto. Mais gritos ecoavam. Apagou.
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4 dias após a invasão
A morena não se lembrava de muita coisa.
Resquícios de memória algumas vezes se davam ao luxo de aparecer em sua mente.
Primeiramente, era uma fila, milhares de pessoas feridas e algemadas aguardavam para entrar em alguma coisa no qual ela não sabia o que era. Depois, um lugar escuro, úmido. Caixas estavam espalhadas junto ao mofo que cobria as paredes e o chão. O cheiro insuportável de sal parecia terrivelmente forte naquele lugar em especial, a fazia queimar por dentro. Agora, via-se em um campo, tão longo que mesmo ela não sabia onde terminaria.
Era o inferno.
O Sol batia em sua cabeça, suas mãos estavam começando a ficar dormentes e ela parou o que estava fazendo. A saliva parecia fazer questão de lembrá-la da falta de algo para enfiar garganta abaixo.
Comida.
Alguma coisa dentro de seu estômago revirava. A sensação de fome não sumia. Era como se estivesse sendo morta de dentro para fora.
Queimava.
Droga. Fazia quantos dias que estava sem comer? Aqueles idiotas pareciam esquecer que havia gente vivendo ali.
- Rápido! — Kin gemeu ao sentir o chicote mais uma vez sobre a pele, as feridas reabriam enquanto o sangue escorria pelas costas. Uma dor alucinante invadia o local. Apertou os olhos umedecidos antes que começasse a chorar novamente. Forçou-se a agilizar aquele trabalho para depois seguir em direção à próxima lavoura.
Aquilo não iria terminar assim.
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33 dias após a invasão
A morena pressionou a barriga com uma das mãos. Suas pernas tentaram forçá-la a correr, mas tudo o que conseguiu foi tropeçar em uma das ferramentas que havia acabado de usar. A urgência foi crescente e ela simplesmente se arrastou para um canto qualquer. Seu estômago parecia não obedecer.
Rápido.
Curvou-se da melhor maneira possível. Teria de ser ali.
A garota botou tudo para fora.
Nojento.
A humilhação parecia querer-lhe pegar uma peça. Limpou a boca cortada e seca com as costas de sua mão. Fedia. Aquilo tudo fedia. Centenas de pessoas pareciam presas naquele mesmo lugar imundo. Sentiu o braço ser puxado dolorosamente por alguma daquelas outras pessoas. Talvez fosse punida por ter sujado a grama ou por ter simplesmente parado de trabalhar. Não era como se ela se importasse.
Não mais.
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57 dias após a invasão
- Algum retardado dê comida e água pra essa aqui! — Nuances de irritação eram visíveis no grito do homem. Sua raiva chegava a ser palpável. Os que estavam ali engoliram em seco.
- Não quero mais nenhuma porra de prejuízo, ouvíram? Mexam-se inúteis de merda! — O barulho característico do chicote ecoou pelo lugar, os queaindatinham coragem para permanecer estremeceram.
Os próximos sons que vieram pertenciam ao feno sendo arrastado entre os vários pés que começaram a se mover, desesperados. Em questão de segundos a tal comida e água chegava à garota. Kin sentiu os cabelos serem puxados e a rotineira dor disfarçada percorreu sua cabeça. Deixou-se ser puxada até aquele balde nojento.
Estava suja. Tanto por dentro como fora. Os lábios secos e quebrados não protestavam. Bolos de comida desceram forçados pela sua garganta. Não havia gosto. Abaixou-se para tomar o líquido não tão transparente. Seus olhos estavam mortos. Não.
Ela estava morta. Há muito tempo.
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71 dias após a invasão
Algo explodiu.
Gritos aumentavam, entrando cada vez mais no local. Não eram os mesmos que ela havia ouvido antes. Sentiu o próprio coração falhar ao pensar na ideia. Seus olhos se arregalaram. Não era possível.
Eram gritos de protesto.
Uma rebelião? Virou-se bruscamente para trás. Centenas deles. Um estranho alívio invadia seu peito de modo quase desesperador. A garganta queimou e lágrimas começavam a cair.
Ela poderia ser livre.
Kin olhava tudo. Eles corriam para abater os que ainda estavam conscientes, libertavam presos, espalhavam comida, gritavam porliberdade. Não havia morrido. Ela estava viva. Iria voltar. Voltar para sua vida. Família, amigos, colégio. As imagens apareciam na sua visão. Chegaria em casa e contaria a todos o que aconteceu, o que passou naquele lugar horrível. Um brilho esperançoso refletia entre as gotas salgadas que escorriam pelo rosto.
Estava sorrindo.
Depois de meses presa a garota conseguia finalmente esticar os lábios e mostrar os dentes, feliz. Ainda que as pernas doessem, tentou levantar-se. Os pés tremeram, mas a adrenalina que corria pelo seu sangue parecia dar-lhe uma força que pensou nunca possuir.
Até que algo a empurrou para baixo. Os ombros foram forçados e ela caiu no chão.
- Lembra de mim?
Kin gritou. Um sorriso desumano serpenteava os lábios, os olhos puxados não eram normais.
- Eu..
Conseguia sentir a voz do outro oscilar. Não podia acreditar.
- Eu fiquei mais forte, Kin.
O rapaz estendeu o braço. Uma risada doentia surgia em seu rosto. Carregava uma arma. Gritou mais. O desespero retornou mais forte do que nunca. Qualquer coisa. Ela faria qualquer coisa. A morena implorou. Sua garganta doía. Gritou mais. Medo invadia seu peito fraco.Pare. Pare. Ela iria sair viva dali.
Não iria?
O barulho do tiro ecoou, se perdendo entre os gritos da rebelião.
71 dias após a invasão.
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