Apocalipse de 3 dias

1 Na rua, na chuva, na fazenda


Aquela era a última situação que Diana teria optado em caso de fim do mundo.

- Não é o fim do mundo. — Helena pontuou, esparramando-se no sofá enquanto ajustava o óculos na ponte do nariz.

- Eu não disse nada. — Diana reagiu na defensiva, ainda em pé, como se estivesse de saída. Ela não gostava de como soava passivo-agressiva na frente da outra, mas detestava ainda mais a habilidade que Helena tinha para capturar seus pensamentos hiperbólicos.

- A sua cara disse. — Helena abriu um sorriso pequeno e jocoso. Ela tinha lábios finos que eram compensados por dentes grandes e bonitos, arquitetados por alguns anos de aparelho ortodôntico.

Diana sabia disso porque havia acompanhado pelo menos dois feriados em anos variados em que Helena havia utilizado o popularmente conhecido freio-de-burro. A única época em que sentiu por ela quase uma espécie de compaixão.

Guardava essas lembranças de conforto para situações particularmente alarmantes como a de agora: as duas sozinhas no sítio de Marisa, sinal de celular instável, mais uma onda de alta de covid a vista e o deslizamento de terra por conta da forte chuva da véspera que impediria a ida ou vinda de qualquer viva alma por pelo menos uns três dias.

Aquele lugar, perdido no meio do verde, havia sido escolhido a dedo justamente pela dificuldade de acesso. Era o espaço de refúgio de Marisa, a professora aposentada que era madrinha das duas garotas que se encontravam presas no local. Todo ano, em um ou dois feriados de menor importância, Marisa fazia questão de estreitar os laços e checar como Diana e Helena estavam, fazendo pequenas viagens com as meninas. Quando elas eram pequenas, esse era o modo que Marisa encontrava para dar um pouco de descanso para as mães de cada uma delas, ambas ex-alunas queridas.

Com o tempo e a gradual independência das meninas a partir da adolescência, o ritual apenas se consolidou como uma tradição. Até onde Diana podia ver, a principal e talvez única coisa que tinha em comum com Helena era o fato de que nunca havia aprendido a dizer não para Marisa.

Ela a respeitava e a amava como a uma avó. Talvez mais ainda por, na desobrigação de sangue, Marisa ainda assim fazer tanta questão de ser uma parte da família para ela. Diferente de Helena, que tinha um irmão, mãe, pai, padrasto, cachorro e sabe-se lá quantos tios e primos, Diana só tinha a mãe e Marisa.

Era desse sentimento de dissimetria entre as realidades que havia nascido, ainda na metade dos anos 90, a rivalidade silenciosa. Nas micro viagens com a madrinha, era bom ter uma companhia da sua própria idade, é claro.

Elas faziam toda sorte de meninices juntas: apostavam corrida, catavam concha na praia, faziam tirolesa em hotéis-fazenda, tiravam as cabeças das bonecas para inspecionar o que havia dentro e inventavam histórias de terror mirabolantes inspiradas no que achavam que se passava no filme do boneco assassino (nenhuma das duas tinha permissão para assistir, mas Helena havia escutado o suficiente de um primo mais velho para passar informações para frente).

Mas elas também disputavam atenção de Marisa — a única adulta na vida de ambas disposta a realizar alguns quereres que no dia-a-dia ninguém dava muita bola. E de algum modo, apesar de terem a mesma idade, Helena sempre parecia saber mais, ser mais.

Ela tinha histórias de outras férias, enquanto Diana só tinha aquelas compartilhadas. Ela sabia trocadilhos de cor que faziam Marisa rir genuinamente. E ela tinha o cabelo liso como o da Sandy e olhos claros como as protagonistas da Sessão da Tarde ou das fitas da Disney e era frequentemente elogiada nos passeios públicos por isso, enquanto Diana tinha olhos castanhos comuns e o cabelo crespo que lhe fazia chorar de raiva as vezes com os muitos nós que faziam.

De noite, Diana rezava baixinho para que as pontas douradas de sol subissem como mágica por todo o comprimento dos fios. Se ela ao menos fosse loira, se ao menos pudesse se comparar também com alguém da TV, sentiria como se tivesse alguma vantagem, mesmo que continuasse a passar raiva na hora de desembaraçar o cabelo.

Fazia a sua parte — solicitava com veemência o shampoo de camomila desde que escutara uma conversa entre adolescentes desconhecidas falando sobre a possibilidade de clareamento, mas nem as rezas e nem o shampoo ajudaram muito.

O que de fato ajudou foi perceber ainda muito cedo como os olhos de Marisa brilhavam de aprovação quando ela se entretia com algum livro de sua biblioteca pessoal. Quando conversavam sobre a coleção vaga lume da editora ática, por exemplo, aqueles eram momentos apenas das duas. Helena podia até se interessar por histórias, mas rapidamente o seu interesse era desviado para outra coisa, então Diana brilhava.

Não foi difícil notar que a regra podia se aplicar a outros adultos — sua mãe e a professora da escola também aprovaram, em silêncio e em palavras, sua crescente inclinação para a leitura. O elogio “como você é inteligente!”, passou a ter o mesmo gosto doce de balinha de hortelã.

Assim, se elas podiam se considerar em algum nível amigas durante a infância, à medida que o tempo e os gostos pessoais foram sendo definidos, Diana e Helena se tornaram apenas conhecidas com compromissos anuais em comum. O que, ainda assim, não impedia Helena de a chamar pelo apelido bobo de infância:

- Você deveria tentar relaxar, Didi. — aconselhou, sem nenhum sinal de preocupação no rosto, enquanto ligava o videogame que havia instalado assim que chegara. — Uma vez na vida, não ia te matar, juro.

- Eu prefiro Ana, você sabe. — Diana murmurou, lançando um último olhar pela janela de madeira, como se conservasse um fio de esperança de ver a caminhonete velha e vermelha de Marisa subindo a estradinha de chão batido.

Agora elas raramente faziam o trajeto até ali juntas. As três chegavam em horários alternados, conforme as possibilidades e os compromissos pessoais. Desde que comprara o sítio há quatro anos, Marisa havia feito uma cópia das chaves para cada uma delas e havia dado permissão para que elas usufruissem do espaço quando quisessem também, mas Diana só vinha quando era chamada e costumava chegar antes, porque fazia o percurso de ônibus e combinava uma carona paga com o vizinho mais próximo do sítio para buscá-la na rodoviária.

- Ah, é. — Helena comentou, sem dar muita importância. Já estava concentrada na tela à frente. Diana, derrotada, sentou-se no sofá ao lado. Sim, era uma infelicidade que Marisa tivesse tido um contratempo e tivesse adiado a viagem por um dia. Ela não tinha como prever que ficaria impossibilitada de vir. Apesar disso, havia enchido a dispensa com antecedência e, na semana anterior tinha anunciado de maneira animada, através de áudio whatsapp, que agora teriam internet com boa conexão no sítio.

Diana queria matar a saudade da madrinha, mostrar para ela o novo capítulo da dissertação de mestrado, dividir as angústias com a perspectiva dos cortes de bolsa, da pandemia mundial, mas Helena estava certa — embora parecesse muito, não era o fim do mundo. Ou melhor, era, mas não em definitivo. Para bem e para mal, ele se refazia a cada dia. Ela poderia tirar alguma coisa boa do contratempo: realizar as leituras pendentes, fazer fichamentos, desinstalar o aplicativo do twitter. A previsão era de que ficassem isoladas por 3 dias.

Dava para sobreviver.

- Ai, merda! — Helena chiou quando a personagem do jogo, estranhamente parecida com ela, foi atacada por um humano em decomposição. Diana fez uma careta e tamborilou os dedos no braço do sofá, levantando-se em seguida. Não viu o olhar de esguelha que a seguiu enquanto atravessava a sala em direção à estante que ficava no corredor.

Ela sabia a ordem da maioria dos livros que estava ali e a familiaridade a acalmava. Gostava de deslizar o dedo pelos exemplares conhecidos, mesmo sabendo que no fim das contas acabaria utilizando o leitor digital para as leituras acadêmicas e não as leituras por hobby.

Os resmungos de Helena foram ficando mais distantes enquanto Diana divagava sobre os títulos. Lá fora, a chuva que vinha ameaçando desde cedo começou a cair, mas isso ela sequer percebeu. Notou alguns livros novos e não resistiu a tentação de ler as sinopses, conferir as folhas de rosto, dar uma espiada em prefácios. Havia uma edição de um clássico de ficção científica novinho em folha que não parecia muito do feitio de Marisa. Diana passou as folhas de guarda até encontrar o verso da folha de rosto. Em “Ilustração de capa”, um nome conhecido: Helena Garcia.

Diana franziu o cenho, intrigada. Sabia que Helena havia feito design gráfico na faculdade, mas não tinha ideia que trabalhava para editoras. O estrondo de um trovão e o pique de luz a fizeram esquecer por um momento da curiosidade vaga.

- Tudo bem aí? — Ela gritou para Helena, perdida no breu por um instante antes da luz retornar.

- Tudo. Desliguei o videogame assim que vi o primeiro raio. — suspirou. — Não acho que vamos ficar sem energia, mas talvez seja melhor tirar as coisas da tomada por enquanto. Você se importa? — ela disse apontando o modem.

Diana negou com a cabeça. Ela se importava, sim, mas não o suficiente para arriscar os aparelhos eletrônicos de Marisa. Retornou para a sala, sentindo uma pontada de obrigação social. Helena a encarou em silêncio. Diana se lembrou da informação que havia visto no livro e de como era estranho conhecer uma pessoa sem conhecer ao mesmo tempo.

- O que você estava jogando?

- Uma distopia pós-apocalíptica onde um cara durão e uma adolescente acabam desenvolvendo uma relação de pai e filha enquanto tentam ser gente em um mundo em que é preciso lidar com humanos infectados por um fungo que faz com que eles virem uma espécie de zumbis. — Helena respondeu, capturando o ar de surpresa esboçado no rosto de Diana.

- Nossa!

- O que? Impressionada que eu saiba o significado de distopia? — Helena brincou.

- Não — Diana conteve a vontade de girar os olhos — Impressionada com o roteiro do jogo só.

- Sim, boas histórias podem ser encontradas em outros lugares além de clássicos da literatura. — Helena pontuou. Parecia uma provocação. Diana se perguntou se valeria a pena responder. Não teve tempo de decidir, porque Helena, arrependida do comentário, engatou em outro assunto: — Me desculpa, mesmo. Às vezes eu falo besteiras quando me sinto intimidada.

- Você está se sentindo intimidada? — a surpresa de Diana era genuína.

Helena notou o rosto quente por um instante, sentido a velha sensação de ser estúpida se apossando de sua mente. Ela tinha vinte e oito anos agora e se perguntava com uma frequência que considerava preocupante com que idade ela pararia de se sentir com cinco.

Havia alguma coisa na presença de Diana que acentuava o desconforto interno e tornava tudo mais doloroso. Helena não sabia dizer se era a mágoa surgida na infância com a percepção da distância crescente entre elas, a quedinha mal curada que havia desenvolvido por ela na adolescência ou se apenas se sentia intimidada pelo cérebro gigante da outra. Era possível que a resposta dançasse entre as três alternativas.

Se aprumou sentindo que toda a sua escassa inteligência emocional dependia do quanto ela conseguiria se concentrar em cada sílaba enquanto justificava a confissão de uma sensação que estava com ela há anos.

- É... Bom... — rodeou, incapaz de vislumbrar como deveria concluir a frase — você tem um grande cérebro, Ana. Isso é ótimo, claro, e também um pouco apavorante para outros mortais desfavorecidos.

Diana revirou os olhos e soltou um riso nasalado, uma manobra tática para disfarçar o constrangimento, a lisonja e também a alegria de Helena ter utilizado o apelido que ela preferia como uma espécie de cortesia.

- Obrigada?

- É uma pergunta? — Helena quase sorriu, ainda desconcertada.

- Não, só fui pega de surpresa com o rumo da conversa, mas estou contente por saber que não sou a única rainha do drama por aqui. — Arriscou, sorrindo de maneira amigável. Era uma provocação também, mas o único intuito era fazer Helena rir e voltar à coloração normal.

Ela estava perigosamente rosa no conceito de Diana. O objetivo foi alcançado, mas Helena ainda estava toda rosácea quando meneou a cabeça e disse apenas: "Justo".

Como ela havia sido sincera e ciente de que isso exige certo nível de coragem e vulnerabilidade, Diana decidiu que seria a responsável por não deixar a conversa morrer em um silêncio desconfortável.

- Marisa disse que deixou a dispensa cheia. Você já deu uma olhada? — Helena abriu um sorriso torto que fez Diana entrever a resposta:

- Sim e parece que ela aceitou o fato de que agora somos maiores de idade.

Diana sabia que isso significava vinho rosé e...

- Cerveja? — não era uma pergunta, era um convite e Helena nem cogitou a possibilidade de se fazer de desentendida.

Concordando com a cabeça, acompanhou Diana em direção a cozinha. Outro raio riscou o céu, lançando um brilho arroxeado no cômodo branco. De acordo com a previsão do tempo, o clima estaria parcialmente nublado, mas a chance de chuva nem era tão alta.

Às vezes, as coisas apenas não saem da maneira esperada.

Ignorando o barulho da queda d’água sob o teto e vidro das janelas, as duas agiram em em uma sincronia silenciosa: Diana buscou os copos, Helena pegou a bebida e um pacote de amendoim; ambas se sentaram quase ao mesmo tempo nas banquetas de madeira. Outro estrondo de trovão lá fora e Helena lançou um breve olhar em direção ao som enquanto Diana concluía uma michelada.

- Eu fiquei surpresa com o que você disse ali na sala porque até onde sei dizer, passei a infância inteira tentando não me intimidar por você. — Diana começou, depois de tomar um longo primeiro gole.

- O que? — Helena quase engasgou.

- É verdade. — Diana garantiu mediante a careta de incredulidade da outra. — Quando você era pequena, eu achava que você era a criança mais legal do mundo.

- Você claramente não conviveu com muitas outras crianças, Di… Ana. — Helena riu. — Eu era um mini furacão sem medicação para hiperatividade.

- Você era divertida e sempre tinha umas piadas e trocadilhos na manga. E depois, bom, a medida que a gente cresceu, você ficou toda descolada usando roupas duas vezes maiores do que você e eu acho que uma parte minha sempre nutriu um pouquinho de inveja da sua autenticidade.

Helena meneou a cabeça, sem saber como poderia explicar que ela havia sido apontada como uma grande pentelha pelos primos e irmão mais velho desde sempre. Também não sabia como dizer que o que Diana tinha descrito como “descolada” e “autêntica” tinha recebido outras palavras na boca de seus colegas de turma — bem mais pejorativas e duras — durante o ensino médio.

Helena era quem era e estava confortável com o fato de que, apesar da pressão social no colégio, não performou naquela época — ou agora — muita feminilidade, mas também preferia esquecer aquele breve período de tempo em que usava a camisa do Charlie Brown Jr como um uniforme.

Saber que Diana havia apreciado aquele ato deliberado como um gesto genuinamente autêntico ou rebelde de um jeito positivo, era, a seu ver, um revisionismo e tanto de sua própria adolescência. Ela poderia beijá-la por isso (embora, a bem da verdade, essa não fosse uma ideia inédita).

Meneando a cabeça para tirar os pensamentos perigosos de lá, Helena desviou o olhar e disse:

- É, acho que preciso reavaliar os critérios mentais que usei para te eleger a pessoa mais inteligente que eu conheço. — brincou enquanto assimilava as informações.

- Se precisar de ajuda, posso te dar um monte de contra argumentos. — Diana abriu um sorriso triste.

- Não. — Helena a empurrou de leve pelo ombro, da maneira mais gentil que conseguiu. — Não faça isso.

- O que?

- Não concorde comigo quando estou implicando com você. É apenas a força do hábito.

Diana não teve escolha além de rir do ridículo da situação, o que encheu o coração de Helena de alívio.

-Você se lembra daquela vez que me tirou tanto do sério que eu atirei um copo de plástico em você?

Foi a vez de Helena rir.

-É claro. Quem apanha não esquece. Eu queria que fôssemos ao riacho ver qualquer coisa e você estava muito concentrada em assistir Estrela Guia, então te perturbei e disse que você jamais seria a Sandy. Eu só queria chamar a sua atenção. E consegui. Até demais.

- Eu não me recordava dos detalhes. — Diana sorriu, meneando a cabeça e bebendo mais um gole de cerveja. — Lembro apenas da raiva e de mirar a sua testa.

- Você tem boa pontaria.

Isso fez Diana rir mais. Helena gostava do som da risada. Gostava ainda mais do fato de ter parte nisso.

-Acho que você externalizou algo que eu já sabia internamente. E doeu. Ainda levaria uns três anos para Taís Araújo estrear Da Cor do Pecado e eu me sentir… Representada.

Helena sentiu o corpo gelar de vergonha póstuma.

- Eu era tão estúpida. Eu sinto muito, Diana. Eu não tinha nenhuma perspectiva racial, eu… — Gaguejou, em busca de um pedido de desculpas razoável.

- Tudo bem. Você só queria brincar. Além do mais, era uma péssima novela para crianças de todo modo. — riu. — O ponto é que eu fiquei morrendo de medo de você contar para a Marisa. Fez um galo feio. Não preguei o olho aquela noite. Achei que ela nunca mais me chamaria para viajar com vocês.

- Tá falando sério? Meu Deus, Di! — Helena colocou a mão sobre a dela em um impulso. — Eu sequer pensei nisso depois que sai enfurecida para ver os peixes sozinha. Quando ela me perguntou, eu disse apenas que tinha caído do pé de manga.

- Eu imaginei pela manhã quando não recebi nenhuma bronca. — Diana olhou para a mão de Helena sobre a sua, mas não se mexeu. A sensação era boa.

- Naquela época eu só estava chateada que a gente tava crescendo e gostando de coisas diferentes. Eu queria ficar perto de você. — Helena confessou, não sem dificuldade. — Peço desculpa por tentar chamar sua atenção da pior forma possível.

- E eu peço desculpa pela sua testa. — Diana se permitiu passar os dedos por onde a tinha acertado, muitos anos antes. Helena sentiu a pulsação ficar errática. Sabia que rememoraria a cena mil vezes quando estivesse sozinha.

- Tudo bem. Posso só reformular o que disse anos atrás? Fico feliz que você jamais será a Sandy. Que bom que você é você. E a propósito, o seu cabelo tá lindo.

Diana piscou, temporariamente confusa, e passou a mão pela nuca sentindo os fiozinhos recém cortados. Ela estava habituada a receber elogios quando usava tranças, mas eles se tornavam mais escassos quando estava com cabelo natural, e ainda mais agora, que havia decidido mantê-lo curto por um tempo.

De todas as surpresas promovidas pela conversa, talvez essa tenha sido a mais bem vinda.

- Brigada. — Murmurou, sabendo que não podia retribuir o elogio, porque não havia nada de novo a respeito do cabelo de Helena. Ela usava o mesmo corte há bastante tempo: reto, na linha dos ombros, partido um pouquinho para a esquerda, as mechas que insistiam em cair em seu rosto sempre levadas para trás da orelha.

Mesmo agora, depois de não só fazer as pazes, mas amar o próprio cabelo e todo o significado que ele trazia, Diana ainda sentia um tipo de encanto pelo de Helena. Não era mais — nem de longe — a vontade de ter, mas uma vontade miúda de passar a mão por ele e fazer cafuné, retribuir a ternura que sentia vir da parte dela através das palavras de gentileza que a surpreenderam e dos olhos que a fitavam.

Era desconcertante.

- Não por isso. — Helena fez o copo de cerveja tilintar contra o de Diana em camaradagem. Apesar do desconforto e da vergonha, decidiu que era bom estar tendo aquela conversa, mesmo com raios e trovões e o mundo caindo lá fora.

Contra todas as previsões, as falas se estenderam noite adentro, iluminando memórias coletivas, entremeando desabafos, risadas, sugestões de séries e playlists. Quando deram por si, já havia passado e muito do horário que ambas costumavam dormir e elas se despediram como as amigas de infância que outrora tinham sido.

Diana dormiu tão logo se deitou, inebriada pelo álcool e pela sensação de intimidade resgatada. Helena, tomada de uma euforia que há muito não sentia, não conseguiu pregar os olhos por um longo tempo, apesar do cansaço.

Ela estava viva.

Era estranho ficar feliz com uma constatação tão simples, ainda mais num momento tão complicado no Brasil e no mundo, mas talvez o contexto tornasse a sensação mais forte. Não ignorar, não esquecer, mas encontrar a alegria apesar de. Uma espécie de subversão. Ficou escutando o coração ribombar no peito como a chuva lá fora e cada batida era um lembrete do que ela já sabia. Quando o peito finalmente acalmou, ela também dormiu.

No outro dia, tanto uma quanto a outra constataram que a ressaca era um despertador potente. Elas se arrastaram para sala bem cedinho, embrulhadas em cobertores.

Murmuraram um “bom dia” jocoso e solidário e Helena não descansou até encontrar episódios completos e dublados de Cavalo de Fogo no Youtube. Elas assistiram tão concentradas quanto quando eram pequenas e só muito depois de marinar no sofá, Diana se levantou para colher as folhas do pé de boldo que ficavam no jardim da frente.

Ofereceu o chá à Helena alguns minutos depois e se forçou a beber da xícara que havia preparado para si também.

- E eu pensando que nós tínhamos feito as pazes. — Helena grunhiu, depois do primeiro gole.

- Não seja dramática. — Diana rolou os olhos, mas também não conseguiu evitar a careta ou o arrepio pelo amargo da folha. — Vai te fazer bem.

- É de se imaginar o que aconteceria se fizesse mal. — Helena rebateu, mas bebeu mais três outros goles corajosos, antes de agradecer: — Mas obrigada pelo veneno, Di.

- Disponha! — Diana piscou, aquecendo as mãos na xícara.

A intensidade da chuva era menor, mas ainda estava lá. Elas enviaram mensagens para Marisa e parentes avisando que estavam bem e que não se preocupassem. Diana sugeriu uma selfie que Helena não soube dizer não e gostou do jeito como Diana colocou o braço ao redor do seu ombro. Toparia outras fotos só para sentir a pele dela pesando sobre a sua. Quis atribuir à proximidade, e não ao boldo, o alívio do enjôo e da dor de cabeça.

Foi bom passar a manhã toda olhando ora para Diana, ora para a TV. Elas até jogaram um pouco de vídeo game juntas, apesar de Diana ser mesmo tão ruim quanto havia avisado que seria. Helena a assistiu e torceu por ela mesmo assim, como se estivesse vendo a melhor transmissão de gameplay do mundo. Se havia algum tipo de dúvida sobre a quedinha mal curada até o dia anterior, Helena sabia que agora não poderia mais conjurar essa proteção. Ela estava exposta e, mais do que isso, estava gostando daquele estado de vulnerabilidade, porque, apesar do medo de parecer boba e das conjecturas paranóicas que brotavam de cinco em cinco segundos, toda vez que Diana sorria, era como se mil luzes se acendessem.

No almoço, improvisaram um macarrão com salsicha aprimorado com o manjericão da hortinha. Nenhuma das duas estava muito disposta a cozinhar um prato mais elaborado. Ainda estavam na casa dos vinte e, portanto, sentiam que ainda não haviam gastado todos os passes livres para irresponsabilidade alimentar vez ou outra. Para compensar, fizeram suco natural. A cerveja ficaria para a noite, de novo, mas dessa vez em menor quantidade.

O que elas haviam recuperado no dia anterior permitia que avançassem com certo nível de sobriedade rumo a outro ponto de intimidade recém conquistada durante a passagem das horas. Diana tinha reparado o jeito como Helena a olhara. E tinha gostado como ela havia sustentado o olhar do momento que acordara até então — um misto de ternura e de admiração não mais velados por um verniz de indiferença bem construído.

- Pensei muito no que você disse ontem. — Helena comentou quando as duas estavam sentadas nas cadeiras de balanço da varanda, olhando o dia sem sol escurecer discretamente.

- Sobre novelas moralmente duvidosas? — Diana brincou, escolhendo o primeiro assunto que lhe ocorrera, sabendo que haviam falando sobre muitas outras coisas mais importantes. Enquanto aguardava a resposta, passou para Helena a lata de doce de leite, depois de se servir de uma colher generosa.

- Sobre a coisa da autenticidade. — riu. — Eu nunca encarei dessa forma. — franziu o cenho. — vivendo a primeira infância nos anos 90, parecia tudo mais simples, não? Tenho a impressão de que as roupas em geral eram menos… Personalizadas por gênero?

-Mais coloridas e unissex. — Diana concordou. — Penso isso também.

- Tudo que eu precisava para me sentir confortável era um boné para proteger minha cara do sol. — Diana riu e foi como se a visse correr aos 5 anos de novo.

-Você se vestia bem como a Ana Chlumsky em Meu Primeiro Amor.

- É, então… — Helena encolheu os ombros. — E aí vieram os tenebrosos anos 2000.

- Chapinhas e magreza infinita... — Diana pontuou.

- Calça de cós baixo e aquelas regatas justas desconfortáveis… — Helena acrescentou.

- As pessoas tinham razão em temer o novo milênio. — Diana brincou, arrancando uma risada sincera da outra.

- Pois é. Uma fase complicada pra ser pré adolescente e adolescente. Não que eu tenha acertado muito em estilo com as camisas do chorão e os tênis bullterrier, mas eu não entendia porque algumas outras garotas da minha sala me olhavam com quase… Repulsa? Como se eu estivesse traindo a natureza, um movimento secreto ou como se o que quer que houvesse de errado comigo fosse contagioso.

- Eu sinto muito, Lena.

- Nah, tudo bem. Melhorou com o tempo. O meu senso estético e o nível de importância que eu dei.

- Sim, eventualmente você descobriu toda a sua passabilidade andrógina branca de se parecer com criaturas élficas. — Diana implicou, fazendo-a gargalhar.

Foi um som bonito. Elas acabaram rindo juntas e o momento virou uma pequena sinfonia.

-Algo assim. De todo modo, foi bom saber que você não me achava repulsiva.

- Ah, não. Chata, sim, implicante, muito, mas repulsiva, jamais.

- Obrigada. Estou comovida. — Helena abriu um sorriso torto, mas não estava mentindo.

- Por nada.

- E pra você? — Helena inquiriu, curiosa. — Como foi?

- A adolescência? — e vendo-a assentir, fez uma careta — O mesmo show de horrores. Como você bem lembra, diferente de você, segui a cartilha, me permiti todas as armadilhas: cós baixo, regata, aquele gloss horroroso da época e muita química no cabelo. Apesar disso, nunca estive adequada o suficiente. — ela piscou de um jeito sarcástico que doeu em Helena.

- Eu sei que não consigo nem imaginar os muitos subníveis que o racismo atinge suas vivências, Di, mas também sinto muito.

Diana concordou em silêncio, pensando que alguns desconfortos seriam sempre familiares, mas que a vantagem de envelhecer, e ainda mais munida de tantos livros, como ela havia feito questão, lhe dava um senso de valor, propósito e amplitude de mundo que não titubeavam diante de violências simbólicas. Ela ainda tinha uma lista longa de inseguranças, mas sua bússola interna estava mais afinada do que na infância e na adolescência juntas.

- Obrigada. A verdade é que pensar com calma que sobrevivi aos anos 90 e as duas primeiras décadas dos anos 2000 me fazem notar que eu sou uma grande gostosa com um grande cérebro. — Diana ponderou, surfando no pico de confiança que só sentia quando estava extremamente relaxada e alegre. Fazia um bom tempo que não se sentia assim e a sensação era mais do que bem vinda.

- Que bom que você sabe, com todo respeito. — Helena assentiu, desviando o olhar para as gotas de chuva riscando a paisagem de maneira rítmica.

Diana sentiu o gosto do elogio enquanto saboreava outra colher de doce de leite. Antes que as duas ficassem sem graça, acrescentou, de súbito:

- Sendo advogada do diabo agora, os anos 2000 também nos trouxe o Orkut, as melhores do MC Marcinho e Destiny’s Child.

Helena riu alto de novo e Diana se sentiu envaidecida pelo feito conquistado pela segunda vez.

- Você tem razão. A balança do universo sempre encontra seus caminhos.

- Espero que ela encontre um agora. — Diana suspirou, pensando nas perspectivas sombrias, mesmo após os primeiros ciclos de vacinação.

- Sei o que quer dizer. Imaginar outubro me assusta. — Helena disse baixinho, pensando nas eleições presidenciais. — Mas acho que a única alternativa é ter esperança.

Diana respirou fundo, concordando com a cabeça enquanto se aninhava melhor na cabeça. Sentiu uma súbita vontade de estender a mão para Helena, mas se conteve.

- A parte boa é que independente do que acontecer sempre dá pra se esconder aqui no sítio. — Murmurou, mais para si do que para Helena.

- Eu estava pensando nisso mais cedo. Não que a gente vá se aposentar algum dia, mas eu adoraria ser uma velhinha lésbica de sítio.

- Jura? Mas você é tão São Paulo… — Provocou, fazendo-a girar os olhos.

- É onde eu tenho trabalho. — Helena justificou, encolhendo os ombros. — mas eu realmente passaria outros cem dias aqui com meu videogame e com você. — saiu antes que ela pudesse calcular os efeitos. As bochechas ficaram instantaneamente quentes de uma forma que ela considerava patética, mas que para Diana era adorável.

- Acho que eu também gosto da perspectiva. Eu seria uma ótima velhinha bissexual de sítio. Uma hortinha, meus livros, uma vaca. Só que ao contrário de Marisa, eu definitivamente não teria duas afilhadas teimosas com uma clara tensão sexual mal resolvida para ocupar a minha casa em feriados. — Diana pontuou, encarando-a.

- A gente pode resolver, se você quiser. — Helena gaguejou, mal acreditando no que tinha ouvido.

Dessa vez, Diana não conteve o impulso de estender a mão em um convite. E nem Helena se deteve em aceitar. No instante seguinte, elas estavam dividindo a mesma cadeira; o calor compartilhado era gostoso, os primeiros beijos tímidos também.

Não demorou para que as mãos se familiarizassem com os corpos ou para que elas entendessem que o destino final daquela liturgia de dias não podia ser outro se não a cama.

Na manhãzinha do terceiro dia, a chuva tinha cedido, mas lá fora havia um nevoeiro sem fim. A grama brilhava, ainda molhada. Passarinhos que elas não ousariam adivinhar o nome cantavam. As amoreiras, no fundo da casa estavam carregadas e convidativas. O futuro era tão turvo quanto a paisagem, mas entre elas, e aqui e ali saltavam pequenas maravilhas aos olhos.

Diana pensou que apesar de tudo, com tudo e por tudo, devia ser assim, não o fim, mas o início do mundo.

*


Notas finais
Me tirando da aposentadoria momentaneamente porque ontem li um punhado de fics antigas e fiquei nostálgica. Essa é a primeira história original que posto aqui, imagino que a maioria dos meus leitores nem acessem mais a plataforma, mas se você chegou até essa nota, me dê um olá, me diga o que achou, vou adorar saber :) Um abraço!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!