No dia seguinte, acordei sem Steve ao meu lado. Sentei-me, ainda no chão. Olhei ao redor. Estava tudo quieto. Minha coxa estava quente e ardia. Tentei levantar apoiando na cadeira de madeira e no sofá. Consegui sentar-me nele. Eu estava aflita porque não sabia onde Steve estava. Então, ouvi algo bater na janela da casa. Peguei a barra de ferro que ele me entregou no dia anterior e me apoiando nos móveis cheguei até a segunda janela do lado direito da porta que entramos. Havia um pano tampando a visão, levantei-o bem devagar e vi que haviam dois zumbis rondando a casa. Eles não me viram. Abaixei rapidamente as cortinas e voltei pro sofá. "Droga Steve cadê você!".

Mais alguns minutos se passaram e nada dele.

Eu estava impaciente e faminta. Levantei e fui pulando em um pé só até a cozinha pra procurar alguma coisa para comer. Abri os armários superiores e nada. Nos inferiores encontrei uma lata de atum, mais três de ervilha, duas de milho e um vidro de palmito.

Peguei o palmito e tentei abrir mas eu estava fraca e não consegui. Procurei uma faca pra tentar romper o lacre. Fracasso. Cortei meu dedo e o vidro não abriu. Naquele momento eu me vi como um passarinho que machucou suas asas e não pode voar. Não consegue buscar alimento e não pode voltar pro seu ninho. E quando ele melhorar, quem garante que seu lar ainda estará lá ou pior, quem garante que ele não morrerá de fome por estar só e ferido? Meu olhos se encheram de lágrimas. Lembrei da minha família e de como eu estava incapaz de me salvar e de salvá-los. Não me contive, as lágrimas começaram a transbordar dos meus olhos, sentei me no chão e chorei durante minutos até ouvir a porta se mexer. Steve voltou.

– Amy? Cadê você?

A porta se fechou.

Eu não queria que ele me visse daquele jeito então não respondi. Continuei quieta ali atrás da bancada. Ele continuava a me procurar. Eu fui tentar me esconder até conseguir parar de chorar mas sem querer esbarrei numa pilha de panelas jogadas no chão e fez barulho. Ele correu pra cozinha e me encontrou.

– Amy... O que aconteceu? Você caiu?

Eu olhava para o chão. Meus cabelos estavam soltos e cobriam meu rosto.

Ele agachou perto de mim e colocou minha franja atrás da orelha e viu meu rosto vermelho e molhado.

– Você... — Sua voz falhou — Você está chorando?

Trêmula e com a voz rouca respondi:

– Não... Eu... Deve ter entrado alguma coisa nos meus olhos quando eu cai e... — Eu o olhei. Aqueles olhos verdes preocupados me encarando a espera de uma resposta certa. Não resisti. — Sim... Eu estou chorando.

Ao dizer isso mais lágrimas surgiram nos meus olhos como uma cachoeira. Steve ajoelhou e me puxou contra seu peito, me abraçando forte. Eu o abracei também e continuei a chorar. Ficamos assim por um longo tempo até que me acalmei e o choro cessou.

Nos levantamos. Steve me ajudou.

– Está com fome?

– Sim, eu tentei abrir esse vidro mas acabei me cortando e não consegui. — Respondi.

– Meu Deus Amy! Você está muito desastrada! Deixa eu ver esse corte.

Ele pegou minha mão e olhou o corte.

– Não é nada demais, foi um corte bobo feito por uma faca boba manuseada por uma bobona.

Steve riu. Eu também.

– Vou passar um pouco de álcool aqui, só pra garantir.

Não retruquei.

– Vem ver o que eu trouxe pra gente. — Steve me conduziu até o sofá e depois voltou na cozinha e trouxe o vidro de palmito e uma lata de milho.

Ele havia encontrado água limpa.

– Nossa! Que ótimo! — Surpreendi-me.

– Quer um pouco?

– Claro. Eu estou morrendo de sede!

Steve colocou um pouco em um copo e eu bebi. Porém lembrei me dos zumbis que estavam fora da casa, e reparei que Steve estava com a roupa suja de sangue.

– Você se machucou? — Perguntei.

– Eu? Não sou disso não gatinha! Você quem adora se machucar. — Respondeu satirizando.

– Tinham dois zumbis rondando a casa e você está sujo de sangue.

– Ah tá. Bom, eu não vi esses dois por aqui não, mais tarde vou olhar lá fora pra ver se está tudo certo. E eu encontrei um errante no caminho de volta pra casa, precisei matá-lo se não viraria café da manhã.

– Você não daria nem um par de ovos mexidos!

– Aih! Isso não! Os ovos não!

Nós dois começamos a rir.

Um barulho veio de fora. Eram gemidos. Um zumbi.

– Vou matá-lo. Eu já volto Amy, vê se não some de novo. Ele se levantou, me deu um beijo na testa e saiu.

Eu fui até a janela ver o que acontecia do lado de fora.

Steve matara o errante. No entanto, parecia esperar um próximo adversário. De fato. Apareceu mais um. Enquanto Steve preparava-se para ataca-lo vi que do outro lado saindo da floresta viam mais dois errantes. Dois metros pro lado mais três. Do outro lado do Steve vinham mais dois. Não pensei duas vezes pulei correndo até a porta e tentei abri-la. Ela emperrara.

– Não sua maldita! Agora não!

Coloquei toda a força que eu tinha e até a que eu não tinha para puxar a porta. Num supetão ela abriu e cai de bunda no chão. Arrastei-me até a porta e gritei:

– Ste!!! Cuidado! Tem mais sete chegando!

Ele virou para me olhar enquanto o zumbi que acabara de matar cai sob seus pés.

– Amy volta pra dentro! Eu cuido disso! Anda!

– Eu não consigo andar seu idiota!

– Então se arrasta! Mas vai logo!

Nesse meio tempo os sete já haviam cercado ele.

Eu me desesperei. O pedaço de ferro estava um metro de mim. Me arrastei até ele. Quando voltei pra porta Steve havia matado dois mas os outros estavam perto demais dele, eu me apoiei na parede e levantei. Pulando numa perna só cheguei até onde estavam e assobiei. Os cinco viraram sua atenção para mim.

– Vocês estão com fome é bando de fedorentos podres! Venham aqui venham!

– Amy você está maluca! O que está fazendo?

– Vai Steve! Head shot!

Eles vinham caminhando rápido em minha direção. Segurei a barra de ferro com a duas mãos e esperei se aproximarem da mesma maneira que um rebatedor de beisebol espera a bola. Steve entendeu meu plano e correu atrás dele com o machado acertou dois por trás, enquanto eu arremessava a cabeça de dois com meu bastão de ferro. O último caiu sob o cadáver do cadáver dos demais e Steve terminou com o machado rasgando seus miolos.

Depois da adrenalina, ele veio perto de mim.

– Você ficou louca? Podia ter morrido!

– Eu sempre fui louca.

– Tá mas Amy, não faz mais isso!

– Eu faço o que eu quero e você não manda em mim! — Virei-me com tudo dando as costas pra ele que agarrou meu braço. Eu voltei a olhá-lo.

– Pelo visto sua perna já está bem melhor né marrenta?

– Me solta. — Puxei meu braço de sua mão.

– Ta bom. Vamos entrar.

Entramos. Eu me sentei no chão. Ele trancou a porta e sentou meio afastado na minha frente. Era começo de tarde.

– Sabe Amy, eu não entendo. De manhã você parecia precisar tanto de mim que eu até me senti mais responsável por você do que me sinto e disposto a te proteger. Mas agora voltou com essa marra toda, parece que está com raiva de mim.

Eu só o ouvi.

– Você chorou hoje, eu não te vejo chorar.

– Eu não quero falar sobre isso.

– Tudo bem. Só saiba que eu me importo muito com você e que... Eu ainda te amo.

Eu gelei. Meu peito apertou. Meu estômago revirou. Minha boca secou. Minhas mãos começaram a suar.

Não respondi. Apenas o

Olhei.

– Me fala alguma coisa por favor.

Eu não respondi.

– Mas que droga!

Ele levantou com tudo, pegou o machado e abriu a porta.

– Aonde você vai? — Eu disse.

– Sair. Eu preciso ficar um pouco sozinho. — Saiu e fechou a porta.

Eu fiquei sozinha. De novo. Novidade. Eu me deitei no sofá e acabei pegando no sono e tendo um sonho estranho.

No sonho eu estava sentada em uma cadeira numa sala branca com uma porta apenas. Eu me levantei e abri a porta. Uma claridade veio em meus olhos. Eu estava em um corredor. Fui andando, andando e andando. De repente corpos surgiam no chão. Corpos podres cobertos de moscas e cheiro horrível. Eu desviava. Achei outra porta, pensei ser a saída mas ai abri-la deparei-me com uma sala cheia de mais corpos. Não apenas mortos, haviam zumbis em pé. "Vivos". Me viram e começaram a me seguir. Eu corri pelo corredor e eles atrás de mim. Mais de dez. Quando estava quase alcançando a saída tropecei em um dos corpos e cai no chão. Tempo suficiente para me alcançarem. Era tarde demais. Eles se aproximaram e...

Acordei. A porta se fechando. Já era noite. Steve voltara.

Ele colocou o machado ao lado da porta.

Eu continuei deitada fingindo dormir. Ele me olhou. Se aproximou e se ajoelhou ao lado do sofá. Passou a mão em meus cabelos, beijou minha testa e disse:

– Minha pequena...

Meus olhos se abriram. Ele sorriu. Eu retribui, meio sem jeito.

– Onde estava? Demorou...

– Eu andei um pouco por aí. Nada demais.

– Você me deixou sozinha de novo.

– Eu sei...me desculpa.

– Ta.

Steve levantou, foi até a cozinha e me trouxe água.

– Amy... Bebe. Eu preciso te contar uma coisa.

Sentei-me e peguei o copo de sua mão. Ele sentou-se ao meu lado.

– Bebe.

Bebi um gole da água.

– Certo. Nós não estamos seguros aqui. Eu andei pela área e encontrei um acampamento. Vigiei o pessoal por uma hora mais ou menos, são pessoas perigosas. Precisamos sair daqui. Mais cedo ou mais tarde irão nos encontrar.

– Mas Steve, eu não consigo andar com essa perna. Eu seria presa fácil e te colocaria em risco.

– Eu sei Amy, mas temos mais chance de sobreviver com os meio mortos do que com aqueles vivos. Acredita em mim, pelo menos uma vez.

Eu pensei um pouco.

– Tá mas...quando você pretende sair?

– Assim que amanhecer. Hoje arrumamos tudo o que podemos e precisamos e partimos, tudo bem?

Eu não sabia que decisão tomar. Eu não sabia nem se deveria tomar uma decisão naquele momento. Mas concordei. Se ele achava que era o certo, assim seria. Ele era a única família que eu tinha agora. A única pessoa que se importava e cuidava de mim.

– Tudo. Vou pegar as latas na cozinha então.

– Obrigado meu anjo.

Steve me beijou mais uma vez, desta vez na bochecha. Eu corei. Impulsivamente antes que ele se levantasse o abracei.

Ele assustou, mas retribuiu.

– Eu sei que eu pareço brava, mas eu só estou com medo. — Eu disse.

Ele me apertou mais no abraço.

– Eu sei Amy, eu te conheço.

Ele me afastou e pôs as duas mãos em meu rosto.

– Eu estou do seu lado sempre!

Eu o abracei mais uma vez. Depois de algum tempo eu disse:

– Ah... Melhor começarmos a arrumar as coisas.

Ele riu e foi arrumar algumas bolsas para colocarmos as cosias.

Tudo arrumado, depois de uma meia hora, dividimos uma lata de ervilhas e fomos dormir.

– Amanhã cedo então nós vamos.

– Uma pena perder essa casa. — Eu disse.

– Tem razão. Pelo menos estaremos juntos. — Respondeu.

– Você ainda vai ter que me aguentar por muito tempo. — Brinquei.

– Ah eu aguento. Cê me da trabalho mas eu não vivo sem você.

– Idiota.

– Linda.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.